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Ritmo do coração

Corações de Plástico e Promessas de Algodão-Doce

— Então, deixe-me ver se eu entendi bem, Oficial Jack — a voz de Liz ecoava pelo corredor da delegacia com uma autoridade que, honestamente, começava a me preocupar. — Você é um herói, mas não tem um cavalo e nem usa uma capa brilhante?

Eu estava parado na porta da minha sala, ajustando o nó da gravata e tentando ignorar o fato de que uma miçanga em formato de estrela amarela estava espetando meu pulso por baixo da manga da camisa. Jack estava sentado em sua mesa, cercado por relatórios de furto de gado e infrações de trânsito, mas sua atenção estava totalmente voltada para a pequena figura de cachos loiros que o encarava com um julgamento implacável.

— Bem, Liz... — Jack coçou a nuca, lançando-me um olhar de socorro que eu fiz questão de ignorar solenemente. — Cavalos são meio difíceis de estacionar aqui no centro, sabe? E capas... bem, elas prendem nas portas das viaturas. É um perigo para a segurança.

— Hum. Entendi — ela disse, cruzando os braços e fazendo um biquinho pensativo. — Mas o papai disse que você é rápido. Você consegue pegar um bandido antes dele comer todo o pote de biscoitos?

— Eu sou o mais rápido desta delegacia, pequena. Pergunte ao seu pai.

— Jack — interrompi, segurando o riso enquanto pegava minha pasta de couro. — Menos conversa e mais supervisão. Tenho que estar na prefeitura em dez minutos. O conselho não gosta de esperar, e o prefeito tem uma fixação por pontualidade que quase supera a minha.

Jack levantou-se num salto, as mãos espalmadas na mesa como se estivesse diante de um esquadrão de elite, e não de uma menina de cinco anos que segurava um pote de glitter.

— Patrick, você não pode estar falando sério. Olhe para ela! Ela tem armas químicas! — Ele apontou para o pote de glitter que Liz começava a abrir. — Se isso cair no carpete, a perícia nunca mais vai conseguir limpar a cena do crime!

— Considere isso um treinamento de gerenciamento de crises, Jack — respondi, já caminhando em direção à saída. — Liz, comporte-se com o tio Jack. Se ele for um bom menino, você pode deixar ele escolher uma miçanga especial para a pulseira dele.

— Pode deixar, papai! — ela exclamou, já puxando a cadeira de rodinhas de Jack para perto da mesa de centro. — Vem, Oficial! A gente precisa fazer uma para o seu braço também. Eu acho que azul combina com o seu olho, mas rosa combina com a sua bochecha quando você fica com vergonha!

A última imagem que tive antes de fechar a porta principal foi a de Jack, um homem de um metro e oitenta e cinco, treinado em táticas de imobilização, sentando-se resignado enquanto Liz explicava a importância da simetria nas cores das miçangas.

Caminhei pela calçada de White Plains sentindo o peso do distintivo e, paradoxalmente, a leveza daquela pulseira colorida no meu pulso. A cidade estava começando a despertar para a rotina de segunda-feira. O cheiro de café fresco saía das padarias e o movimento em frente ao hospital, do outro lado da rua, já era intenso.

Inconscientemente, meus olhos procuraram por um vulto azul ou um jaleco branco. Vera Farmiga tinha se tornado uma constante nos meus pensamentos desde aquela noite no beco, e o encontro no hospital só piorou as coisas. Havia algo nela que me desarmava. Não era apenas a beleza, embora fosse difícil ignorar os olhos que pareciam ler minha alma, mas a calma que ela emanava. Ela lidava com a vida e a morte com uma delicidade que eu, acostumado a lidar com a escória e a violência, mal conseguia compreender.

A reunião na prefeitura foi exatamente o que eu esperava: burocrática, maçante e cheia de sorrisos políticos que eu não tinha paciência para retribuir. O prefeito queria estatísticas, o conselho queria garantias de segurança para o festival de outono, e eu só conseguia pensar se Jack tinha deixado Liz comer açúcar ou se ela já tinha convencido metade do departamento a usar acessórios de plástico.

— Delegado Wilson? — O prefeito bateu levemente com a caneta na mesa, trazendo-me de volta. — O senhor parece distraído. Algum problema urgente no distrito?

— Apenas questões de logística interna, senhor Prefeito — respondi, ajeitando a manga da camisa e sentindo a pulseira de Liz roçar na minha pele. — Garanto que a segurança do festival será nossa prioridade.

Quarenta minutos depois, eu estava praticamente correndo de volta para a delegacia. Ao entrar, o silêncio me atingiu primeiro. Não era o silêncio de trabalho, era um silêncio... suspeito.

Caminhei cautelosamente até a área das mesas e parei, paralisado pela cena.

Jack estava sentado no chão, encostado em um arquivo de aço. Ele tinha um chapéu de cowboy de plástico na cabeça e várias fitas adesivas coloridas coladas nos braços. Liz estava sentada à sua frente, usando o que parecia ser o quepe oficial de Jack — que ficava enorme nela, cobrindo metade dos seus olhos — e segurando um rádio comunicador desligado.

— Delta Um para Central, temos uma emergência de unicórnio no setor quatro — Liz dizia para o rádio, com uma seriedade absoluta.

— Aqui é a Central, Delta Um — Jack respondeu, com a voz cansada, mas entrando no jogo. — Prossiga com a descrição do suspeito. É um unicórnio de glitter ou de arco-íris?

— É de glitter, Central! E ele roubou todos os pirulitos da Dra. Bonita!

Eu limpei a garganta, encostando-me no batente da porta. Os dois pularam. Jack tentou se levantar rapidamente, derrubando algumas miçangas no processo, enquanto Liz correu para me abraçar, quase derrubando o quepe.

— Papai! O Oficial Jack é um ótimo ajudante, mas ele não sabe fazer nós de marinheiro nas pulseiras. Tive que ensinar tudo para ele.

Olhei para o pulso de Jack. Lá estava ela: uma pulseira verde limão e laranja, com as letras "J-A-C-K" visíveis entre dois corações de plástico.

— Vejo que a missão foi um sucesso, Oficial — eu disse, reprimindo um sorriso largo. — O relatório de ocorrência do "unicórnio de glitter" já está pronto?

Jack bufou, limpando o glitter da calça do uniforme, mas seus olhos brilhavam com uma diversão rara.

— Engraçadinho. Você me deve uma, Wilson. Uma bem grande. Eu tive que explicar por que as algemas não são para prender fadas e por que não podemos pintar a viatura de rosa choque.

— Ele disse que a viatura tem que ser preta para se esconder na noite, papai — Liz explicou, pegando sua mochila. — Mas eu disse que se fosse rosa, os bandidos iam ficar tão felizes que iam parar de ser maus.

— É uma teoria interessante, pequena — respondi, pegando-a no colo. — Mas agora o papai precisa terminar umas coisas e depois vamos levar a vovó para jantar, certo?

— Podemos convidar a Dra. Bonita? — ela perguntou, do nada, enquanto eu a colocava no chão para que ela guardasse seus brinquedos.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Jack congelou, olhando de mim para Liz com um interesse renovado.

— Que "Doutora Bonita", Liz? — perguntei, tentando manter a voz neutra.

— Aquela da foto! — Ela apontou novamente para o jornal que ainda estava sobre a mesa. — O Oficial Jack disse que ela trabalha ali do outro lado da rua e que ela cura os corações das pessoas. O seu coração está precisando de um curativo, papai? Você sempre fica com uma cara triste quando olha para a foto da mamãe.

Senti um nó apertar minha garganta. A percepção das crianças é como um bisturi; corta fundo e sem aviso prévio. Jack desviou o olhar, percebendo que a conversa tinha entrado em um território sensível.

— Meu coração está bem, Liz. Ele só está um pouco cansado — respondi, agachando-me para ficar na altura dela. — E a Dra. Farmiga é uma pessoa muito ocupada. Ela salva vidas, não tem tempo para jantares com delegados rabugentos e meninas que espalham glitter pela cidade.

— Eu acho que ela gostaria das minhas miçangas — Liz murmurou, fechando o zíper da mochila.

O restante da tarde passou em uma névoa de relatórios e chamadas de rádio. Liz acabou pegando no sono no sofá da minha sala, exausta de sua jornada como "policial mirim". Por volta das seis da tarde, o movimento na delegacia diminuiu. Jack passou pela minha porta, já sem o chapéu de plástico, mas notei que ele ainda não tinha tirado a pulseira de miçangas.

— Ela é uma figura, Patrick — ele disse, encostando-se na mesa. — Tem o seu olhar, mas o espírito... bem, acho que ela herdou o melhor de vocês dois.

— Ela é tudo o que eu tenho, Jack — confessei, largando a caneta. — Sair de Chicago foi por ela. Eu não queria que ela crescesse vendo o pai se tornar um homem amargo, cercado por crimes que nunca terminam. Achei que White Plains seria um recomeço.

— E está sendo. Olhe para o seu pulso. Você está usando rosa neon em uma segunda-feira. Se isso não é um recomeço, eu não sei o que é.

Rimos baixo para não acordar a pequena. Jack se despediu, e eu fiquei ali por mais alguns minutos, observando o peito de Liz subir e descer ritmadamente. Tomei uma decisão súbita. Peguei um post-it e escrevi uma nota rápida.

Acordei Liz com um beijo na testa.

— Vamos, princesa. Temos uma parada antes de ir para casa.

Atravessamos a rua de mãos dadas. O hospital tinha aquele cheiro característico de éter e limpeza. Liz olhava para tudo com reverência. Fomos até a recepção da cardiologia.

— Pois não? — A secretária nos olhou, surpresa ao ver o Delegado Wilson com uma criança e uma mochila de lantejoulas.

— A Dra. Farmiga ainda está? — perguntei.

— Ela está terminando um atendimento, mas deve sair em cinco minutos. Quer esperar?

— Na verdade, eu só queria deixar algo para ela.

Abri a mochila de Liz e peguei o pequeno saquinho de organza onde ela guardava suas "obras de arte" prontas. Liz escolheu uma pulseira com cuidado. Era uma combinação de pérolas brancas e contas azuis claras, muito mais discreta que a minha.

— Entrega para ela? — Liz pediu, estendendo a pulseira para a secretária. — Diz que é para o coração dela continuar batendo feliz.

Eu entreguei meu cartão de visitas junto com a pulseira, onde tinha escrito apenas: "Para quando o dia for longo demais. Obrigado pela rosa."

Saímos do hospital antes que ela pudesse aparecer. Eu não estava pronto para um confronto direto, não com Liz ali e com meus sentimentos ainda tão bagunçados. Mas, enquanto caminhávamos em direção ao carro, senti que o ar de White Plains estava um pouco mais leve.

No dia seguinte, cheguei à delegacia cedo. Jack já estava lá, com uma cara de quem não tinha dormido bem.

— Wilson! — ele me chamou assim que entrei. — Recebemos um chamado do hospital. Nada grave, apenas um problema com um paciente agressivo na ala de repouso, mas a diretoria pediu que o senhor pessoalmente desse uma passada lá para alinhar o protocolo de segurança.

— Por que eu? Você pode resolver isso, Jack.

— Eles pediram o Delegado — Jack deu de ombros, mas havia um brilho malicioso em seus olhos. — E a Dra. Farmiga fez questão de mencionar que o relatório de ontem precisava de um "ajuste".

Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar de uma forma que Vera certamente desaprovaria como médica.

Caminhei até o hospital, desta vez sozinho. Quando entrei na ala da cardiologia, a vi de longe. Ela estava conversando com uma enfermeira, segurando uma prancheta. Quando ela me viu, um sorriso lento e iluminado surgiu em seu rosto.

E lá estava, no pulso dela, entre o relógio de aço e a manga do jaleco: a pulseira de miçangas azuis e brancas.

— Delegado — ela disse, aproximando-se. — Recebi um presente muito especial ontem. Acho que tenho uma nova admiradora.

— Minha filha tem um gosto impecável para escolher pessoas — respondi, sentindo-me um adolescente diante dela. — Sinto muito se ela foi... invasiva.

— Foi a melhor parte do meu plantão de vinte e quatro horas, Patrick — ela disse, baixando a voz. — E obrigada pelo cartão. A rosa ainda está viva na minha mesa.

— Vera, eu... — comecei a dizer, mas fui interrompido pelo bipe do meu rádio.

— Delegado? Aqui é o Jack. Temos um problema técnico na sala de evidências. A pequena Liz acabou de ligar para a delegacia dizendo que esqueceu o "Unicórnio Delta" na gaveta da sua mesa e que a missão não pode continuar sem ele. O que eu faço?

Vera soltou uma risada cristalina, atraindo os olhares de vários pacientes no corredor.

— Parece que a sua vice-delegada é quem manda de verdade, Patrick.

— Você não tem ideia — respondi, sorrindo de volta. — Tenho que ir, Vera. O dever me chama... ou melhor, o unicórnio me chama.

— Vá lá, Delegado. Mas não suma. Acho que ainda precisamos discutir aquele "ajuste" no relatório. E talvez... um sorvete? Liz me disse na nota que você é um especialista.

— Sábado? — arrisquei.

— Sábado — ela confirmou.

Saí do hospital sentindo que, pela primeira vez em anos, eu não estava apenas sobrevivendo a mais um dia. Eu estava vivendo. E enquanto atravessava a rua, olhei para a pulseira no meu pulso e para a pulseira no dela, visível através do vidro da entrada.

Eram apenas miçangas de plástico, mas para mim, valiam muito mais do que o ouro do meu distintivo. Eram os primeiros pontos de uma sutura que, finalmente, estava começando a fechar as feridas do meu coração.