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Rocinha

Pé na Lama, Coração no Morro

O sol do meio-dia no Rio de Janeiro não pedia licença; ele entrava rasgando por entre os becos da Rocinha, refletindo nas caixas d’água azuladas e aquecendo o asfalto que Guilherme Allegretti conhecia como a palma da própria mão. Naquela manhã, a mansão estava agitada. Não era dia de operação, nem de reunião com a cúpula. Era dia de "viver o morro", um costume que Guilherme não abandonava, por mais que o dinheiro e o poder o tivessem colocado em uma casa de luxo.

— Bora, seus vagabundos! — Guilherme gritou do pé da escada, a voz potente ecoando pelo mármore. — Se a gente demorar mais, o pastel da Dona Zezé vai acabar e eu vou cobrar a conta de vocês!

Guilherme vestia uma bermuda de tactel da Cyclone e uma regata preta que deixava seus braços de 1,92m, completamente tatuados, à mostra. No pescoço, a corrente de ouro grosso brilhava, e na cintura, discretamente coberta, a fiel Glock. Letícia desceu logo atrás, ajeitando o biquíni por baixo de um shortinho jeans curtíssimo e uma blusa de alcinha. A pele branquíssima dela parecia brilhar.

— Deixa de ser apressado, meu bem — Letícia disse, aproximando-se e dando um tapinha na bunda do marido. — Eles já estão vindo.

Logo atrás, os gêmeos desceram em sintonia. Kael vinha com o braço em volta do pescoço de Lua, que parecia uma boneca com um vestido soltinho de flores. Bernardo Henrique vinha de mãos dadas com Mell, ostentando seu corte mullet impecável e o olhar de quem estava pronto para qualquer parada.

— O coroa tá pilhado hoje, hein? — Kael comentou, rindo. — Tá com fome ou quer mostrar pra favela que o bonde tá pesado?

— Os dois, Kaelton — Guilherme respondeu, saindo pela porta principal e sendo seguido por Ragnar, que latiu uma vez, mas recebeu o comando de ficar. — Hoje o dia é nosso. Sem carro blindado, sem escolta colada. Só a família.

Eles começaram a descer as vielas a pé. Para quem olhava de fora, era uma imagem de poder. Guilherme na frente, com Letícia ao seu lado, cumprimentando cada morador pelo nome. "Fala, seu Jorge!", "Tudo certo, Dona Maria?". O respeito era palpável. Os meninos vinham logo atrás, os "príncipes" da Rocinha, atraindo olhares de admiração e desejo, mas o braço possessivo de Kael em volta de Lua e o olhar sério de Bernardo ao lado de Mell deixavam claro que ali ninguém entrava.

— Caraca, vida, olha essa vista daqui — Lua sussurrou para Kael, parando em um dos mirantes naturais entre as casas. — O Rio parece tão pequeno debaixo do seu pé.

— O Rio é pequeno, docinho — Kael respondeu, puxando-a para um beijo rápido no topo da cabeça. — Grande é o que eu sinto por tu. E ó, fica esperta que o degrau aqui é alto.

Eles chegaram ao "Point do Pastel", uma barraca famosa na parte alta que tinha uma das melhores vistas da comunidade. Dona Zezé, uma senhora gorda e sorridente, quase caiu para trás ao ver a família Allegretti completa.

— Meu Deus, é o patrão! — Ela limpou as mãos no avental. — E a dona Letícia, cada dia mais linda! O que vão querer, meus amores?

— O de sempre, Zezé — Guilherme disse, encostando-se no balcão de madeira. — Dez pastéis de vento, cinco de carne com queijo e aquele caldo de cana gelado que só você sabe fazer. Por conta da casa não, que eu faço questão de pagar o dobro hoje.

Eles se acomodaram em umas mesas de plástico na calçada. O clima era de descontração total. Bernardo Henrique, que raramente sorria em público, estava rindo de alguma coisa que Mell cochichava no seu ouvido.

— Amor, olha ali — Mell apontou para uma lojinha de roupas de cria. — Aquela blusa ia ficar linda no Bernardo, não ia, tia Letícia?

— Ia sim, Mell — Letícia respondeu, pegando um pedaço de pastel. — Mas esse meu filho é enjoado, só quer saber de marca.

— Sou enjoado nada, mãe — Bernardo retrucou, limpando a boca. — Só gosto do que é bom. E o que é bom custa caro, né não, pai?

Guilherme olhou para o filho e assentiu, orgulhoso.

— Tá certo, Bernardo Henrique. O homem tem que ter postura. Mas nunca esquece de onde veio o dinheiro pra pagar a marca. Veio do suor e do sangue desse morro aqui.

O grupo continuou a caminhada depois do lanche. Passaram pela quadra de esportes, onde alguns moleques jogavam bola. Guilherme parou por cinco minutos, deu instruções de chute para um garoto e prometeu reformar as tabelas de basquete na semana seguinte. A cada passo, a conexão da família com o lugar se fortalecia.

— Tá cansada, coração? — Guilherme perguntou, percebendo que Letícia estava um pouco mais lenta.

— Um pouco, meu bem — ela admitiu, encostando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam. — O sol tá castigando hoje.

— Vem cá — Guilherme a levantou sem aviso prévio, colocando-a sentada em um murete alto de onde podiam ver a entrada da favela. — Vamos descansar aqui um pouco. Olha só como eles olham pra gente.

Letícia olhou para baixo. O fluxo de pessoas, as motos subindo e descendo, o som do rádio de algum vapor ao longe.

— Eles olham com esperança, Guilherme — ela disse, séria. — Eles sabem que, enquanto a gente estiver aqui, a paz se mantém.

— E vai se manter — Guilherme sentenciou, a mão grande e bronzeada repousando sobre a coxa de Letícia. — Porque eu tenho dois leões ali atrás pra cuidar disso quando eu não estiver mais aqui.

Ele apontou para os gêmeos. Kael estava comprando um picolé para Lua, fazendo questão de limpar o canto da boca da namorada com o polegar, um gesto de carinho bruto e genuíno. Bernardo estava encostado em um poste, observando o movimento com os braços cruzados, a postura de um verdadeiro soldado, enquanto Mell tirava selfies com o celular, fazendo-o aparecer no fundo das fotos.

— Eles cresceram rápido demais, né? — Letícia suspirou.

— Cresceram — Guilherme concordou, puxando-a para mais perto. — E são a nossa melhor obra.

A descida continuou até o "Buraco do Lume", um local onde o comércio era mais intenso. Ali, o cheiro de espetinho de carne se misturava ao perfume de alfazema das lojas de umbanda.

— Vida, quero aquele dindim de coco — Lua pediu, puxando a camisa de Kael.

— Tu quer tudo que vê pela frente, né, docinho? — Kael riu, mas já estava pegando a nota de cinquenta no bolso. — Me dá dois desse aí, tia. Um de coco e um de morango pra mim.

Bernardo e Mell se aproximaram do grupo com sacolas.

— O que vocês compraram aí? — Guilherme perguntou, curioso.

— Umas correntes novas pro Bernardo e um vestido pra mim, tio — Mell respondeu, radiante. — O Bernardo disse que eu fico linda de azul.

— E fica mesmo — Bernardo disse, a voz grave e curta, mas o olhar para a namorada era de adoração pura.

Eles chegaram à parte baixa do morro, onde o movimento de carros era maior. Guilherme parou em frente a uma barbearia famosa, a "Cria de Luxo".

— Vou só dar um tapa no cavanhaque, coisa rápida — Guilherme avisou. — Vocês querem ir na frente?

— Nada disso, meu rabugento — Letícia disse, cruzando os braços. — A gente espera. Sabe que eu gosto de ver você na cadeira, fica com cara de mais malvado ainda.

Enquanto Guilherme entrava na barbearia, os quatro jovens ficaram do lado de fora, sentados em uns bancos de ferro. O clima entre eles era de total harmonia. Kael e Bernardo dividiam um fone de ouvido, ouvindo um set de funk novo que ia tocar no baile de sábado.

— Esse beat tá foda, Kael — Bernardo comentou, balançando a cabeça. — Vai explodir no camarote.

— Vai sim — Kael concordou. — E a gente vai estar lá, né, docinho? No melhor lugar, com a melhor visão.

Lua encostou a cabeça no ombro de Kael, fechando os olhos.

— Contanto que você não brigue com ninguém por causa do meu biquíni, tá tudo certo.

— Aí tu já tá pedindo demais — Kael resmungou, fazendo os outros rirem.

Dez minutos depois, Guilherme saiu da barbearia. O cavanhaque estava milimetricamente aparado, e ele exalava um cheiro de loção pós-barba amadeirada que fez Letícia suspirar.

— Pronto. Agora vamos subir que a janta já deve estar sendo preparada — Guilherme comandou.

Desta vez, pegaram um mototáxi para subir, uma experiência que as meninas amavam e os meninos faziam para garantir que os pilotos não desrespeitassem suas namoradas. Guilherme foi na frente, com Letícia agarrada na sua cintura, o vento batendo no rosto e a sensação de liberdade preenchendo o peito.

Ao chegarem na mansão, o sol já estava começando a se pôr, pintando o céu de um laranja neon que só o Rio de Janeiro sabia produzir. Ragnar os recebeu com pulos de alegria no jardim.

— Que dia, hein? — Mell disse, jogando as sacolas no sofá da sala. — Eu amo esse morro.

— É a nossa casa, gatinha — Bernardo respondeu, dando um beijo no pescoço dela antes de subir para o banho.

Kael e Lua ficaram um pouco mais no jardim, observando as luzes da favela começarem a se acender lá embaixo.

— Você tá feliz, vida? — Kael perguntou, abraçando-a por trás.

— Muito, meu ursinho — Lua respondeu, virando-se para ele. — Obrigada por me levar pra caminhar hoje. Eu me sinto parte de tudo isso quando a gente sai assim.

— Tu é a rainha disso aqui, Lua. Só não sabe ainda — Kael disse, sério, antes de beijá-la com uma intensidade que fez as pernas da menina tremerem.

No andar de cima, no escritório, Guilherme observava a cena pela janela. Letícia apareceu por trás dele, abraçando sua cintura larga.

— Eles estão bem, né, meu bem? — ela perguntou.

— Estão ótimos, coração — Guilherme respondeu, virando-se para ela e prendendo-a entre seus braços e a mesa de carvalho. — Mas agora que a tropa tá alimentada e em casa... eu acho que a gente merece um tempo só nosso.

— Você não cansa nunca, Guilherme? — Letícia riu, mas já estava puxando a nuca dele para baixo.

— De você? Nunca — ele sussurrou, a voz carregada de uma safadeza que só ela conhecia. — Hoje eu vou te mostrar por que eu sou o dono desse morro e de você.

— Menos conversa e mais ação, meu rabugento — Letícia desafiou, e o escritório foi preenchido pelo som de um beijo que prometia uma noite tão quente quanto o sol que acabara de se pôr.

Lá fora, a Rocinha pulsava. O som do funk, o cheiro da comida, o grito dos moradores. Era o caos, era o crime, era o perigo. Mas para os Allegretti, era simplesmente o lar. E enquanto houvesse lealdade e aquele amor visceral que os unia, nada, nem ninguém, seria capaz de derrubar aquela dinastia construída sobre o asfalto quente e a alma do Rio de Janeiro.