Rocinha
O Ciúme que Vem do Inconsciente
A luz do sol carioca já entrava pelas frestas da cortina de linho, pintando listras douradas sobre o tapete de pele de carneiro no quarto de Kael. O ar-condicionado ainda trabalhava no mínimo, mantendo o ambiente fresco enquanto o morro lá fora já começava a ferver com o movimento matinal. O som distante de uma moto subindo a ladeira e o canto de alguns pássaros eram os únicos ruídos que rompiam o silêncio da mansão.
Kael estava na mesma posição em que adormecera: protegendo Lua. O braço pesado continuava sobre a cintura dela, e seu rosto estava enterrado nos cabelos pretos da namorada. Ele dormia o sono dos justos, exausto pela noite interrompida e pela tensão constante de sua posição como herdeiro da Rocinha.
Mas, debaixo dos lençóis, o mundo de Lua estava desabando novamente.
Desta vez, não havia sangue, nem tiros, nem becos escuros. O pesadelo era muito mais cruel, porque feria onde a confiança morava. No sonho, ela caminhava pelo corredor da mansão e ouvia risadas vindo de um dos quartos de hóspedes. Ao abrir a porta, ela via Kael, com aquele mesmo sorriso safado que ele só dava para ela, mas ele estava com outra. Uma mulher alta, loira, que ria enquanto ele passava as mãos tatuadas pelo corpo dela, exatamente do jeito que fazia com Lua. No sonho, ele olhava para Lua com indiferença, como se ela fosse uma estranha, e dizia que ela era "apenas uma diversão de criança".
Lua acordou com o coração disparado, mas desta vez não foi o medo que a dominou, foi uma fúria cega misturada com uma mágoa profunda. Ela abriu os olhos e deu de cara com o rosto sereno de Kael, a poucos centímetros do seu. O platinado do cabelo dele estava bagunçado, e ele parecia tão inocente dormindo que, por um segundo, ela quase esqueceu o que tinha acabado de "ver".
Mas a imagem da traição estava vívida demais. O sentimento de ser trocada queimava em seu peito como brasa.
— Safado... — ela sussurrou, a voz embargada.
Ela empurrou o braço dele com força, saindo debaixo do edredom. O movimento brusco fez Kael despertar. Ele piscou os olhos verdes, confuso, tentando focar a visão na namorada que já estava sentada na beirada da cama, de costas para ele, com os ombros sacudindo.
— Docinho? — Kael murmurou, esticando a mão para tocar o ombro dela. — Já acordou, amor? Que horas são?
No momento em que os dedos dele tocaram a pele dela, Lua se esquivou como se tivesse levado um choque. Ela se virou para ele, e Kael ficou em choque ao ver que o rosto dela estava vermelho e banhado em lágrimas novamente.
— Não encosta em mim, Kaelton Matheus! — Ela disparou, usando o nome que ele mais odiava.
Kael sentou-se na cama num pulo, o sono desaparecendo instantaneamente. Ele franziu o cenho, a expressão marrenta começando a surgir pela confusão e pelo susto.
— Que porra é essa, Lua? O que eu fiz? — Ele perguntou, a voz subindo um tom. — Tu teve outro pesadelo com os cana? Alguém te machucou no sonho?
— Quem me machucou foi você! — Ela gritou, pegando um dos travesseiros e jogando com força no peito dele. — Você é um falso, um mentiroso! Eu te odeio!
Kael segurou o travesseiro com uma mão, completamente desnorteado. Ele olhou para Lua, que agora chorava compulsivamente, escondendo o rosto nas mãos. A raiva dele se dissipou na hora, dando lugar àquela preocupação protetora que ele só sentia por ela.
— Vida, calma... — Ele tentou se aproximar de novo, mas ela se afastou até quase cair da cama. — Me explica o que tá acontecendo. Eu tava dormindo, porra! Como é que eu te machuquei dormindo?
— Você tava com outra! — Ela soltou, a voz abafada pelo choro. — No sonho... você tava rindo dela, Kael. Você dizia que eu era uma criança, que não servia pra você. Você tava tocando nela do jeito que toca em mim...
Houve um silêncio de cinco segundos no quarto. Kael processou a informação, olhando para a namorada que parecia estar sofrendo um luto real por algo que só aconteceu na cabeça dela. Ele passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro longo, entre o alívio de não ser uma ameaça real e a vontade de rir da situação, embora soubesse que se risse, o morro ia cair para o lado dele.
— Lua... — Ele disse, tentando manter a voz calma. — Você tá brava comigo... por causa de um sonho?
— Não foi só um sonho, pareceu real! — Ela olhou para ele com os olhos negros faiscando. — Você tava com aquela cara de safado que você faz! Eu tenho certeza que se eu não tivesse lá, você faria isso de verdade!
Kael não aguentou. Um riso anasalado escapou por entre seus lábios, o que foi o estopim para Lua. Ela se levantou da cama, pronta para sair do quarto.
— Ah, tá rindo? Ótimo! Vai lá procurar a sua loira do sonho então, Kaelton! Eu vou pra minha casa! — Ela começou a catar suas coisas pelo chão, o biquíni de fita e o shortinho que tinha usado no dia anterior.
Kael foi mais rápido. Ele saltou da cama, a imponência de seus 1,85m bloqueando a porta antes que ela pudesse chegar perto. Ele estava apenas de short, o corpo de atleta e as tatuagens exibidas sob a luz da manhã, mas sua expressão agora era de quem ia resolver o problema.
— Sai da frente, Kael! — Ela tentou empurrá-lo, mas era como tentar mover uma montanha.
— Tu não vai a lugar nenhum desse jeito, Luanara — ele disse, usando o nome dela para mostrar que a conversa era séria. — Olha pra mim.
— Não quero olhar pra sua cara de traidor!
Kael segurou os pulsos dela com delicadeza, mas firmeza, forçando-a a parar de se debater. Ele a puxou para perto, colando o corpo pequeno dela ao seu peito nu. Lua ainda tentava se soltar, soluçando e xingando-o de todos os nomes possíveis, mas o calor dele começou a desarmá-la, como sempre acontecia.
— Docinho, presta atenção no que eu vou te falar — ele começou, baixando o tom de voz para aquele registro rouco que a fazia arrepiar. — Eu sou louco por você desde que você tinha quinze anos. Eu passo o dia inteiro pensando em como te proteger, em como te dar as coisas, em como te fazer feliz. Tu acha mesmo que eu ia jogar tudo isso pro alto por causa de uma loira qualquer? Seja no sonho ou na vida real?
— No sonho você parecia bem feliz... — ela murmurou, a resistência diminuindo.
— No sonho a minha cabeça deve ter dado um nó porque eu tô exausto, vida. Mas aqui, ó — ele pegou a mão dela e colocou sobre o seu coração, que batia forte. — Aqui só tem você. Eu não tenho olhos pra mais ninguém nessa porra desse morro. Se eu quisesse outra, eu não estaria aqui te mimando toda manhã, estaria?
Lua levantou os olhos, encontrando o verde intenso dos olhos de Kael. Ele não estava mentindo. Ele nunca mentia para ela. A raiva começou a dar lugar a uma vergonha bobinha, mas a mágoa do sonho ainda estava ali, residual.
— Você me chamou de criança no sonho... — ela disse, fazendo um biquinho que quase fez Kael perder a postura.
— Eu te chamo de docinho, de vida, de amor... mas nunca de criança — ele disse, puxando-a pela cintura para que ela ficasse na ponta dos pés. — Porque eu sei muito bem a mulher que eu tenho. E essa mulher me deixa maluco, me deixa com ciúme até do vento que bate nela.
Ele selou os lábios nos dela em um beijo calmo, profundo, que tinha gosto de perdão e de promessa. Lua relaxou nos braços dele, as mãos subindo para os ombros largos de Kael, agarrando-se a ele como se pedisse desculpas pela explosão.
— Eu sou muito boba, né? — ela sussurrou contra os lábios dele quando o beijo terminou.
— É a minha boba — Kael sorriu, encostando o nariz no dela. — Mas agora, pra compensar que você me acordou no susto e ainda me agrediu com um travesseiro, você vai ter que ficar aqui quietinha comigo mais um pouco.
— O seu pai não tá esperando a gente pro café? — ela perguntou, lembrando que a família Allegretti era rigorosa com os horários.
— O coroa entende. Ele e a dona Letícia devem estar na mesma pegada lá no quarto deles — Kael brincou, pegando-a no colo e levando-a de volta para a cama.
Ele se deitou e a trouxe para cima de si, deixando que ela se acomodasse em seu peito. Lua suspirou, sentindo-se finalmente em paz. O pesadelo tinha sido horrível, mas a realidade nos braços de Kael era o melhor lugar do mundo.
Enquanto isso, no corredor da mansão, o som de risadas vinha do quarto de Bernardo. Merllya tinha acabado de acordar o namorado com cócegas, e o segundo gêmeo, apesar de ranzinza pela manhã, já estava rendido aos carinhos da loira.
Na cozinha, Letícia e Guilherme já estavam à mesa. Guilherme usava uma camisa polo verde que realçava seus olhos, e Letícia estava radiante em um vestido leve de seda. Ragnar estava deitado aos pés de Guilherme, esperando pacientemente por qualquer pedaço de bacon que pudesse cair "acidentalmente".
— Os meninos estão atrasados — comentou Letícia, servindo o café para o marido. — Devem ter tido uma noite longa.
Guilherme deu um sorriso de lado, aparando o bigode com os dedos antes de tomar um gole do café forte.
— Deixa eles, coração. A juventude é pra isso mesmo — ele olhou para a esposa com aquele brilho safado que nunca desaparecia. — Mas se eles não descerem em dez minutos, eu mando o Ragnar ir buscar.
— Você não seria doido, Guilherme — Letícia riu, dando um tapa de leve na mão dele.
— Sou doido por você, amor. O resto eu só administro — ele respondeu, pegando a mão dela e beijando a palma com carinho.
Lá em cima, no quarto de Kael, a paz tinha sido restaurada. Lua já estava quase dormindo de novo, sentindo os dedos de Kael traçando desenhos imaginários em suas costas.
— Vida? — ela chamou baixinho.
— Fala, docinho.
— Se você um dia me trair de verdade... eu mato você.
Kael soltou uma risada alta, que ecoou pelo quarto. Ele a apertou mais forte, sentindo-se o homem mais sortudo da Rocinha.
— Tu não vai precisar, Lua. Porque se eu te perder, eu já vou estar morto por dentro mesmo. Agora dorme, minha marrentinha. O urso tá aqui cuidando de tudo.
A manhã avançava na favela, o sol subindo cada vez mais, mas dentro da mansão Allegretti, o tempo parecia parar para permitir que o amor, em todas as suas formas — apegado, ciumento, protetor e intenso —, continuasse a ser a lei maior que governava aquele morro.