Rocinha
Herança de Sangue e Fogo
Kael desligou o motor da XJ6, mas o som ainda parecia vibrar no ar quente da tarde. Ele tirou o capacete, balançando a cabeça para ajeitar as tranças que caíam perfeitamente sobre os ombros largos. Aos 19 anos, o baiano já tinha o porte de um homem feito; os músculos do braço, marcados pelas tatuagens que dividia com o melhor amigo, saltavam sob a regata branca. Ele não precisou nem tocar a campainha. Tinha passe livre, era cria da casa, e os seguranças na entrada apenas acenaram com a cabeça, respeitando a hierarquia velada do morro.
— Coé, Kael! — Bernardo apareceu na porta da garagem, segurando uma chave de carro no dedo. O filho mais velho de Guilherme estava com aquele sorriso de lado que deixava qualquer garota da Rocinha de pernas bambas. O corte mullet com luzes estava impecável, e o olhar verde, herdado do pai, brilhava com a malícia de quem ia curtir o dia. — Demorou, porra. Achei que tinha ficado preso em algum desenrolo na Baixada.
— Tu sabe como é, Bê. Tive que passar na boca pra conferir a carga que chegou de madrugada. Teu pai é chato pra caralho com conferência, e eu não vou deixar brecha pra ele comer meu fígado — Kael respondeu, batendo na mão do amigo e finalizando com um abraço rápido, o cumprimento de quem era mais que irmão. — E a Lua? Tá pronta ou vai me fazer mofar aqui?
— Tu conhece a peça. Tá lá em cima se produzindo como se fosse pro Oscar, não pra praia — Bernardo riu, encostando no seu carro. — A Mell também já tá chegando. Vou buscar ela no portão da escola, papo reto, não aguento mais aquela diretora olhando torto pra minha cara só porque eu chego de fuzil no banco de trás.
— É o terror delas, né, moleque? — Kael deu um soco de leve no ombro de Bernardo. — Vou subir. Se o Tio Guilherme me ver parado aqui, ele me bota pra carregar caixa de munição.
Kael entrou na casa, sentindo o ar-condicionado gelado contrastar com o mormaço lá de fora. No topo da escada, ele deu de cara com Guilherme Allegretti. O dono do morro estava com uma mão na cintura e a outra segurando um copo de Whisky, mesmo sendo cedo. O olhar verde do mais velho perfurou Kael por um segundo, aquela avaliação de sogro e de chefe que nunca deixava de existir.
— Bença, Tio — Kael disse, mantendo a postura, mas com o respeito que o homem exigia.
— Deus te abençoe, moleque — Guilherme respondeu, a voz grave ecoando no corredor. — Vai levar minha filha pra praia, é? Juízo, Kaelton. Se eu souber que teve gracinha ou que tu tirou o olho dela por um segundo que fosse pra olhar pra outra, tu sabe que o buraco é mais embaixo.
— Sabe que com a Lua o bagulho é outro, Tio. Ela é minha vida. Ninguém nem encosta — Kael afirmou, sério.
Guilherme assentiu, satisfeito com a firmeza do rapaz. Ele gostava de Kael justamente por isso: o moleque era um espelho de sua própria lealdade. Logo atrás, Letícia apareceu, radiante em um vestido leve que marcava cada curva que Guilherme tanto amava.
— Deixa o menino em paz, meu rabugento! — Letícia brincou, dando um beijo no ombro do marido e sorrindo para Kael. — Oi, querido. Pode subir, a Lua tá terminando de passar o gloss. Se depender dela, vocês só chegam na praia no pôr do sol.
Kael agradeceu com um aceno e seguiu para o quarto da namorada. Quando abriu a porta, o mundo pareceu parar. Luanara estava de costas, terminando de amarrar a cordinha do biquíni de fita que usaria por baixo de um shortinho jeans curtíssimo. A pele branquinha, o corpo em formato de pera com o quadril largo e a cintura fina... Kael sentiu o sangue ferver.
— Caralho, docinho... — ele murmurou, fechando a porta atrás de si e já sentindo o isolamento acústico do quarto abafar qualquer som externo. — Tu quer me matar do coração ou quer que eu saia na mão com metade do Rio de Janeiro hoje?
Lua se virou, os olhos puxados brilhando e um sorriso travesso nos lábios. Ela correu e pulou no colo dele, entrelaçando as pernas na cintura do namorado.
— Oi, meu ursinho! — Ela o encheu de beijos estalados. — Gostou? Tô feia?
— Tu nunca tá feia, Lua. Tu tá um pecado. Se o Tio Guilherme te vê com esse biquíni, ele me mata e te tranca na torre — Kael apertou a bunda dela com força, sentindo a maciez da pele. — Mas eu cuido de tu. Sempre.
Enquanto isso, lá embaixo, Bernardo já tinha saído para buscar Merllya. O trânsito na subida da Rocinha estava aquela loucura de sempre: mototaxis passando a mil por hora, o som de algum funk vindo de uma laje próxima e o cheiro de churrasco de esquina. Bernardo dirigia com uma mão no volante, a outra segurando um baseado que ele fumava calmamente. Ao chegar na escola particular na Zona Sul, ele estacionou o carro em cima da calçada, sem se importar com as multas ou com os olhares dos pais de alunos "de bem".
Merllya saiu pelo portão, os cachos loiros balançando e os olhos azuis procurando pelo carro dele. Quando viu Bernardo, o rosto dela se iluminou. Ela entrou no carro e já foi logo puxando o pescoço dele para um beijo faminto.
— Que saudade, meu lindo! — Mell disse, recuperando o fôlego. — A aula hoje foi um saco, só pensava na gente na praia.
— Também tava doido pra te pegar, amor — Bernardo jogou a ponta do baseado fora e engatou a marcha. — Kael e Lua já devem estar descendo. Vamos encontrar a rapaziada no Posto 10. O morro desceu hoje, vai ser o fluxo.
O trajeto até a praia de Ipanema foi regado a música alta e mãos bobas. Bernardo não conseguia ficar longe de Mell; a conexão entre os dois era explosiva. Ao chegarem, o cenário era o puro suco do Rio: areia lotada, o sol tinindo e o grupo de amigos já dominando uma área com várias cadeiras e guarda-sois.
Kael e Lua já estavam lá, sentados sob a sombra. Kael estava de cara fechada, vigiando cada homem que ousava olhar na direção de Luanara, que agora exibia o corpo escultural enquanto passava bronzeador nas pernas.
— Coé, família! — Bernardo chegou cumprimentando os amigos, uma mistura de soldados do morro e conhecidos da escola de Mell e Lua.
— Demorou, Bê! — gritou Tico, um dos amigos de infância de Bernardo que trabalhava na contenção. — A cerveja já tá gelando e o Kael já quis bater em três aqui só porque olharam pra Lua.
— É foda, né, mano? — Kael resmungou, puxando Lua para sentar entre suas pernas. — Os cara não tem noção do perigo. Se vacilar, eu perco a linha.
— Relaxa, vida — Lua disse, fazendo carinho no braço tatuado dele. — Eu só tenho olhos pra você, meu ursinho.
O dia passou entre risadas, mergulhos no mar e a tensão constante que cercava os filhos do dono do morro. Mesmo ali, em território neutro, a aura de poder de Guilherme Allegretti os protegia. Ninguém era louco o suficiente para arrumar confusão com os herdeiros da Rocinha.
Ao final da tarde, o céu começou a ganhar tons de laranja e roxo. O grupo decidiu subir para o morro, pois hoje era dia de baile na quadra. A energia mudou. Se na praia eles eram apenas jovens bonitos, no morro eles eram a realeza.
De volta à mansão, o clima entre Guilherme e Letícia também estava esquentando. Guilherme tinha passado o dia resolvendo problemas da contabilidade do tráfico, mas agora, com a casa vazia antes do baile, ele só queria uma coisa.
Ele encontrou Letícia na cozinha, bebendo água. Ele chegou por trás, colando o corpo malhado ao dela, as mãos grandes apertando os seios dela por cima do tecido fino do vestido.
— Amor... agora não... as crianças podem chegar — Letícia ofegou, mas já se inclinando para trás, entregue ao toque dele.
— O quarto tem isolamento, coração. E eu tô com uma vontade de te foder que tá me deixando louco desde cedo — Guilherme sussurrou no ouvido dela, a voz rouca e carregada de desejo. — Tu sabe que eu sou viciado nessa tua pele branca, nesse teu jeito de me olhar...
Ele a virou de frente, sentando-a no balcão de mármore. Letícia abriu as pernas, envolvendo a cintura dele, e Guilherme não perdeu tempo. O beijo foi urgente, as línguas se entrelaçando com uma familiaridade voraz. Ele subiu o vestido dela, revelando que ela estava sem calcinha — um convite silencioso que ela sempre fazia quando sabia que ele estava