Rocinha
O Baile, o Sangue e o Desejo
O balcão de mármore da cozinha estava frio, mas o corpo de Letícia ardia sob o toque das mãos calejadas de Guilherme. Ele não era um homem de meias palavras ou de rodeios; quando queria algo, ele tomava, e com a esposa, esse ímpeto era multiplicado por uma paixão que o tempo só fazia fermentar.
— Tu é muito safada, coração — Guilherme rosnou contra o pescoço dela, sentindo o cheiro de baunilha se misturar ao odor do Whisky que ele havia bebido. — Sabia que eu ia te buscar aqui, né?
— Eu conheço o meu marido — Letícia respondeu, a voz embargada enquanto as mãos dela se perdiam nos cabelos curtos e castanhos dele. — Sabia que você não ia aguentar me ver nesse vestido o dia todo sem querer tirar.
Guilherme não esperou mais. Ele a puxou do balcão, mantendo-a suspensa em seu colo com uma força impressionante, as pernas dela trançadas firmemente em sua cintura malhada. Ele caminhou a passos largos em direção ao quarto do casal, chutando a porta e trancando-a logo em seguida. Ali, dentro das quatro paredes com isolamento acústico, o dono da Rocinha deixava de ser o chefe temido para ser apenas o homem de Letícia.
Ele a jogou na cama imensa e se posicionou entre suas pernas, abrindo o cinto da calça com urgência.
— Olha pra mim — ele ordenou, a voz grave vibrando no ambiente silencioso. — Quero ver esses olhos puxados revirando enquanto eu te fodo, amor. Só eu faço assim, não faço?
— Só você, meu bem... — Letícia arqueou o corpo, sentindo a pressão dele contra sua intimidade. — Só você me deixa louca desse jeito. Fode sua mulher, Guilherme. Agora.
Enquanto o quarto principal da mansão se tornava o cenário de uma entrega absoluta, a poucos metros dali, no andar de baixo, o movimento começava a aumentar. A Rocinha não dormia, e em noite de baile, a pulsação do morro subia junto com o grave dos alto-falantes que já eram testados na quadra.
***
No quarto de Lua, o clima era de pré-festa. Merllya estava sentada na cama, retocando o batom azulado que realçava seus olhos claros, enquanto Luanara tentava decidir qual sandália combinava melhor com o conjunto de top e saia de crochê que mal cobria o necessário.
— Amiga, papo reto, o Bernardo vai surtar quando me vir com esse brilho todo — Mell comentou, rindo enquanto ajeitava os cachos loiros. — Ele é muito ciumento, parece que nasceu com o chip do Tio Guilherme instalado.
— Nem me fala, Mell — Lua suspirou, olhando-se no espelho e admirando as curvas que herdara da mãe. — O Kael então? Ele fica com aquela cara de poucos amigos, encarando todo mundo como se fosse dar um tiro. Às vezes eu tenho que dar uns beijos nele só pra ele desarmar a marra.
— Mas a gente gosta, né? — Mell deu uma piscadinha. — Homem marrento que só baixa a guarda pra gente é outro nível.
A porta do quarto se abriu sem cerimônias. Bernardo e Kael entraram, já vestidos para o baile. Bernardo usava uma bermuda de marca, camisa de time europeu caríssima e um cordão de ouro grosso com o pingente da família. Kael estava de conjunto preto, as tranças impecáveis e o olhar fixo em Lua.
— Já deu de se olhar no espelho, né, docinho? — Kael disse, aproximando-se de Lua e abraçando-a por trás, as mãos grandes descendo para o quadril largo da namorada. — O baile já tá estralando lá embaixo. Se a gente demorar mais, o Tico vai beber o combo todo sozinho.
— Calma, vida! — Lua riu, inclinando a cabeça para receber um beijo no pescoço. — A gente já tá indo. Cadê meu pai?
— Teu pai tá "ocupado" com a Tia Letícia — Bernardo respondeu com um sorriso malicioso, pegando a mão de Mell e a puxando para perto. — Tu conhece o velho. Quando ele resolve que quer a patroa, o morro pode cair que ele não sai de cima. Vamos logo, que eu quero ver o movimento da pista.
Os quatro desceram as escadarias da mansão e saíram para a rua. O ar da noite estava carregado com o cheiro de pólvora, perfume barato e comida de rua. Os seguranças da "escolta real" já estavam a postos. Conforme caminhavam em direção à quadra, as pessoas abriam caminho.
— Fala, Bê! — gritou um morador, acenando.
— Coé, família! — Bernardo respondeu, distribuindo apertos de mão. Ele era o príncipe do morro, respeitado não só pelo sangue, mas pela postura.
Ao chegarem no camarote principal, a visão era privilegiada. Milhares de pessoas dançavam lá embaixo sob as luzes coloridas e o som ensurdecedor do funk proibidão. Kael se encostou no parapeito, observando a multidão com olhos de águia, enquanto Lua se movia suavemente ao ritmo da música, provocando-o com cada movimento de quadril.
— Tu sabe que eu não tenho paciência pra esses cara olhando pra tu, né, Luanara? — Kael sussurrou perto do ouvido dela, a voz carregada de uma possessividade que a deixava arrepiada.
— Deixa eles olharem, amor — ela respondeu, virando-se de frente para ele e passando os braços pelo seu pescoço. — Eles olham, mas é você que leva pra casa. É você que manda em tudo aqui, esqueceu?
Kael sorriu, um sorriso raro e perigoso, antes de selar os lábios dela em um beijo que calou qualquer reclamação.
No outro canto do camarote, Bernardo e Mell estavam em seu próprio mundo. Ele bebia um copo de uísque com energético, enquanto ela rebolava encostada nele.
— Tá linda pra caralho hoje, gatinha — Bernardo disse, a mão apertando a coxa dela. — Mas depois do baile, tu é minha. Vou te levar pro meu quarto e tu não vai sair de lá tão cedo.
— É promessa ou ameaça, Lindo? — Mell provocou, os olhos azuis brilhando de desejo.
— É uma ordem — ele respondeu, sério, antes de ser interrompido por um de seus soldados.
— Bê, o bagulho tá doido lá na entrada da 15. Uns cara de fora tentaram passar, mas a gente já barrou. O que tu quer que faça?
Bernardo mudou a expressão instantaneamente. O "safado" deu lugar ao "marrento" filho do dono.
— Kael, vamo ali rapidinho — Bernardo chamou o amigo. — Problema na 15.
Kael deu um beijo rápido em Lua.
— Fica aqui com a Mell e não sai do camarote. Os seguranças tão de olho. Se alguém encostar, tu me grita no rádio.
As meninas assentiram, acostumadas com aquela rotina. Os dois rapazes desceram as escadas com passos firmes, a aura de autoridade emanando de cada poro. Na entrada da localidade conhecida como "15", três sujeitos estavam rendidos pelos soldados de Guilherme.
— Quem são esses comédias? — Bernardo perguntou, chegando com a mão na cintura, onde o cabo da pistola ficava visível.
— Dizem que vieram de uma comunidade vizinha pra "curtir" — o soldado explicou, rindo de deboche. — Mas tavam perguntando demais sobre a rotina da mansão.
Kael se aproximou de um deles, pegando-o pelo colarinho. A diferença de altura e porte era intimidadora.
— Escuta aqui, seu merda — Kael disse, a voz baixa e letal. — Aqui na Rocinha a gente não cria cobra. Se tu veio curtir, tu curte e fica de bico calado. Se tu veio olhar o que não deve, tu volta pra tua casa num saco preto. Entendeu ou quer que eu desenhe na tua cara?
O sujeito tremeu, balançando a cabeça em negação.
— Vaza daqui — Bernardo ordenou. — E avisa pros teus patrões que o morro tem dono e tem herdeiro. Se tentar de novo, a gente vai buscar na fonte.
Os intrusos saíram correndo, desaparecendo nos becos. Bernardo e Kael se olharam e bateram as mãos.
— Esses cara não aprendem, né, mano? — Bernardo comentou, limpando o suor da testa. — Acham que porque meu pai tá mais tranquilo agora, a guarda baixou.
— Eles esquecem que a gente tá aqui pra segurar o rojão — Kael respondeu. — Vamo voltar, que eu deixei meu docinho lá em cima e já tô sentindo falta do cheiro dela.
***
Enquanto isso, na mansão, o silêncio do pós-prazer imperava no quarto de Guilherme e Letícia. Ele estava deitado, com ela aninhada em seu peito, os dedos dele traçando padrões imaginários na pele branquíssima das costas dela.
— Você tá muito quieto, amor — Letícia murmurou, levantando a cabeça para olhá-lo. — Algum problema no morro?
— Problema sempre tem, coração — Guilherme suspirou, beijando a testa da esposa. — Mas eu tava aqui pensando... o Bernardo e o Kael tão crescendo rápido demais. Estão virando homens de verdade, segurando a onda lá fora.
— Você criou eles bem, meu bem. O Bernardo é sua cópia, e o Kael... bom, o Kael é o filho que a vida nos deu. Ele ama a Lua de um jeito que me lembra como você me olhava no começo.
Guilherme deu um sorriso de lado, ajeitando o cavanhaque.
— No começo? Eu ainda te olho assim, Letícia. Tu é a dona dessa porra toda. Sem você, eu era só mais um louco com uma arma na mão. Você me deu um motivo pra construir isso tudo.
— E você me deu a vida que eu sempre quis — ela respondeu, puxando o rosto dele para um beijo calmo e profundo. — Agora, levanta esse corpo gostoso daí, toma um banho e vamos descer pro baile. O povo precisa ver que o rei e a rainha ainda estão no comando.
Guilherme soltou uma gargalhada rouca.
— Tu não existe, coração. Tá bom, vamos lá. Mas ó... se eu ver a Lua dançando muito perto de qualquer marmanjo, eu não me responsabilizo.
— O Kael já cuida disso, amor. Relaxa.
Minutos depois, devidamente vestidos — Guilherme com uma camisa social preta entreaberta e Letícia com um vestido justo que parava o trânsito — eles saíram da mansão. A chegada do casal Allegretti à quadra foi como um evento sísmico. A música não parou, mas o respeito era palpável.
Guilheiro caminhava com a mão possessiva na cintura de Letícia, o olhar verde varrendo o local até encontrar os filhos e os agregados no camarote.
— Olha lá, o velho desceu — Bernardo comentou com um sorriso, apontando para o pai.
— E a Tia Letícia tá um espetáculo — Mell completou, admirada. — Quero chegar nos 35 assim.
Quando Guilherme e Letícia subiram ao camarote, o grupo se reuniu. Era uma imagem de poder: a família Allegretti completa, cercada por seus amores e amigos fiéis.
— Tudo tranquilo na 15, pai — Bernardo disse baixo, aproximando-se de Guilherme. — Uns curioso, mas já mandamos ralar.
— Bom trabalho, Bê — Guilherme assentiu, orgulhoso. — Kael, cuidou da minha pequena?
— Com a minha vida, Tio — Kael respondeu, mantendo Lua protegida sob seu braço.
Guilherme olhou para a esposa, depois para os filhos e, por fim, para a multidão que vibrava lá embaixo. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: poder, respeito e, acima de tudo, uma família que morreria e mataria por ele.
A noite na Rocinha estava apenas começando. O som do batidão ecoava pelas vielas, as luzes da cidade brilhavam ao longe, mas ali, no topo do morro, o mundo pertencia a eles. Entre beijos, olhares de desejo e a tensão constante da vida no crime, os Allegretti celebravam mais um dia de sobrevivência e domínio.
— Te amo, coração — Guilherme sussurrou para Letícia, enquanto a puxava para um brinde com todos.
— Te amo, meu rabugento — ela respondeu, sabendo que, enquanto estivessem juntos, aquele império nunca cairia.
O baile seguiu até o sol raiar, com a certeza de que, naquelas ladeiras, o amor e o ferro andavam de mãos dadas, forjando uma história que ninguém ousaria esquecer. E no final da noite, quando as luzes finalmente se apagassem, cada casal voltaria para o seu refúgio, buscando nos braços um do outro o conforto que só quem vive no limite sabe valorizar.