Rocinha
A Dança das Sombras e do Desejo
O silêncio no quarto de Luanara era absoluto, uma bolha de tranquilidade que custava caro para manter no coração de uma das comunidades mais agitadas do mundo. O isolamento acústico, um capricho de Guilherme para garantir a privacidade e a segurança da família, transformava o ambiente em um santuário. Kaelton estava sentado na beira da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos, observando Lua terminar de tirar a maquiagem em frente ao espelho da penteadeira.
— Tu fica me encarando assim e eu perco até o jeito de me mexer, Kael — Lua disse, sorrindo pelo reflexo, os olhos puxados brilhando sob a luz quente do abajur.
— É que é difícil acreditar que tu é de verdade, docinho — Kael respondeu, a voz rouca de quem tinha passado a noite toda respirando o ar pesado do baile. — Às vezes parece que se eu piscar, tu some.
Lua se levantou, caminhando lentamente até ele. Ela ainda usava o top de crochê, mas já tinha trocado o short jeans por uma calça de moletom larga que, nela, parecia a peça mais elegante do mundo. Ela parou entre as pernas dele, passando as mãos pequenas pelos ombros largos e subindo até as tranças impecáveis.
— Eu não vou a lugar nenhum, meu ursinho. — Ela inclinou a cabeça, depositando um beijo casto na ponta do nariz dele. — Mas tu tá tenso. O que foi que aconteceu lá na 15 que te deixou com essa cara de quem quer morder alguém?
Kael fechou os olhos por um momento, aproveitando o toque suave das mãos dela. O contraste era brutal: lá fora, ele era o braço direito de Bernardo, o cara que não tremia diante de fuzil e que impunha respeito na base do medo; ali dentro, ele era apenas um jovem apaixonado, vulnerável ao carinho da filha do chefe.
— Nada que tu precise se preocupar, amor — Kael murmurou, envolvendo a cintura dela e a puxando para mais perto, enterrando o rosto na curvatura do seu pescoço. — Só uns otário achando que a Rocinha é parque de diversão. Mas o Bê e eu já demos o papo. Ninguém vai tirar o sossego da nossa família.
— Nossa família... — Lua repetiu, a palavra soando doce. — Gosto quando tu fala assim.
— E não é? — Kael se afastou um pouco para encará-la, os olhos escuros carregados de uma intensidade que sempre fazia o coração de Lua acelerar. — Teu pai me criou como filho desde os sete anos. O Bernardo é meu irmão de sangue, só que de outra mãe. E tu... tu é o meu mundo todo, Luanara.
Lua sentiu aquele calor familiar subir pelo peito. Ela sabia da lealdade de Kael, sabia que ele morreria por qualquer um deles, mas saber que ela era o centro da gravidade dele era o que a mantinha firme naquela vida de incertezas.
— Eu sei, vida. — Ela passou o polegar pelo lábio inferior dele, sentindo a aspereza do bigode aparado. — Mas às vezes eu queria que a gente pudesse só... sumir. Ir pra uma praia onde ninguém conhecesse o sobrenome Allegretti. Onde tu não precisasse andar armado e eu não precisasse de escolta pra comprar um picolé.
Kael deu um sorriso triste, um daqueles que raramente mostrava para o mundo.
— Tu sabe que o asfalto não perdoa quem é da nossa cor e do nosso lugar, docinho. Aqui em cima a gente é rei. Lá embaixo... lá embaixo a gente é alvo. Mas eu te prometo uma coisa: um dia eu te levo pra viajar pra bem longe. Onde a única coisa que tu vai ouvir de manhã é o barulho do mar, não o rádio da contenção.
— Promete mesmo? — Lua perguntou, os olhos negros brilhando com a esperança juvenil.
— Prometo pela minha vida. — Kael a pegou no colo com uma facilidade impressionante, levantando-se da cama. — Mas agora, a única viagem que a gente vai fazer é pro mundo dos sonhos, porque tu tá caindo de sono e eu não quero ver essas olheiras de manhã.
— Ah, não... — Lua riu, as pernas envolvendo a cintura dele. — Agora que eu despertei, tu quer dormir? Tu é muito rabugento, igualzinho meu pai.
Kael a deitou na cama com cuidado, mas não se afastou. Ele se posicionou sobre ela, sustentando o peso nos antebraços, os olhos fixos nos lábios dela que ainda guardavam um resto de gloss.
— Eu posso ser rabugento — ele sussurrou, a respiração quente batendo no rosto dela —, mas tu sabe que eu sou louco por cada centímetro desse teu corpo. Se eu começar agora, Lua, a gente não dorme nem se o sol estiver no meio do céu.
— E quem disse que eu quero dormir? — ela provocou, puxando-o para um beijo faminto.
O beijo começou lento, uma exploração de línguas que já se conheciam profundamente, mas logo escalou para algo mais urgente. Kael sentia o cheiro de Lua, aquela mistura de perfume caro e o aroma natural da pele dela, e isso o embriagava mais do que qualquer bebida do baile. As mãos dele desceram para o quadril largo de Lua, apertando a carne macia por cima do moletom.
— Caralho, Lua... — ele grunhiu entre os beijos. — Tu me deixa fora de órbita.
— Então fica aqui comigo — ela pediu, a voz falhando enquanto ele descia os beijos para o seu pescoço, encontrando o ponto exato que a fazia arquear as costas. — Esquece o morro, esquece a 15, esquece tudo. Só a gente.
Kael parou por um segundo, olhando para ela. A pele branquíssima de Lua contrastava com os lençóis escuros, e o cabelo preto ondulado estava espalhado pelo travesseiro como uma moldura. Ela era a personificação da pureza e do pecado, tudo em uma única mulher.
— Sempre foi só a gente, docinho — ele disse, começando a tirar a própria camisa, revelando o peito malhado e as tatuagens que contavam a história da sua irmandade com Bernardo. — Desde que a gente se escondia no sótão da mansão pra brincar, eu já sabia que tu era minha.
— Eu também sabia — ela confessou, ajudando-o a se livrar da roupa. — Eu olhava pra Merllya e dizia que um dia ia casar com o melhor amigo do meu irmão. Ela ria de mim, dizia que tu era muito marrento.
— E eu sou — Kael riu, a luz do abajur criando sombras dramáticas em seus músculos. — Mas pra ti, eu sou só o teu ursinho, não sou?
— O meu preferido — ela respondeu, puxando-o de volta para seus braços.
Enquanto o desejo os consumia naquele quarto silencioso, no corredor, passos pesados foram ouvidos. Kael congelou instantaneamente, o instinto de proteção falando mais alto que o prazer. Ele se posicionou de forma a cobrir o corpo de Lua, os olhos fixos na porta.
— Relaxa, deve ser o Bernardo indo pro quarto dele — Lua sussurrou, tentando acalmá-lo.
— Ou o Tio Guilherme indo conferir se tá tudo em ordem — Kael murmurou, um sorriso tenso surgindo. — Imagina se ele entra aqui agora? Eu não duro cinco minutos.
— Meu pai te ama como um filho, Kael. Ele não ia te matar.
— Não ia me matar, mas ia me dar um sermão de três horas e me mandar pra vigiar a fronteira com o Chapadão por um mês — Kael brincou, relaxando os ombros ao ouvir o som de uma porta batendo ao longe. — O perigo passou.
— Tu tem medo do meu pai, Kaelton? — Lua zombou, passando a mão pelo rosto dele. — O grande Kael, o terror da Zona Sul, tem medo de um coroa de 37 anos?
— Eu não tenho medo do "coroa", Lua. Eu tenho respeito pelo homem que me deu tudo. E eu sei o quanto ele é possessivo contigo. Se eu fosse ele, eu também estaria de olho em qualquer um que chegasse perto de uma joia dessas.
— Tu fala cada coisa... — Lua se aconchegou nele, o desejo dando lugar a uma preguiça gostosa. — Fica aqui. Dorme comigo hoje.
— Tu sabe que eu não posso, docinho. Se o Tio Guilherme acorda e me vê saindo daqui de manhã, o clima fica pesado no café. Eu vou pro quarto do Bê, a gente ainda tem que trocar uma ideia sobre o carregamento de amanhã.
Lua fez um biquinho de decepção, mas entendeu. A hierarquia e as regras da mansão eram o que mantinham a ordem.
— Tá bom. Mas me dá um beijo de boa noite que dure pelo menos um minuto.
Kael não precisou ser pedido duas vezes. Ele a envolveu em um abraço protetor e a beijou com uma ternura que contrastava com a agressividade da vida que levava. Era um beijo que prometia fidelidade, cuidado e um futuro que eles ainda estavam tentando construir.
— Boa noite, minha princesa — ele sussurrou ao se afastar, vestindo a camisa rapidamente. — Sonha com a nossa praia.
— Vou sonhar. Te amo, vida.
— Te amo mais que tudo, Lua.
Kael saiu do quarto em silêncio, movendo-se como uma sombra pelos corredores da mansão. Ele passou pela porta do quarto de Guilherme e Letícia, ouvindo apenas o silêncio mortal do isolamento, e sentiu uma pontada de gratidão. Ele tinha uma família, tinha um propósito e, acima de tudo, tinha o amor da mulher que era a alma daquele lugar.
Ao entrar no quarto de Bernardo, encontrou o amigo deitado, olhando para o teto, com um baseado apagado entre os dedos.
— Demorou, hein, baiano? — Bernardo disse, sem desviar o olhar do teto. — Achei que tinha sido pego na alfândega.
— Tu fala demais, Bê — Kael respondeu, jogando-se na outra cama. — Tua irmã é difícil de deixar, tu sabe disso melhor que ninguém.
— Sei. A Lua é o xodó do velho. Tu tá jogando com a sorte, moleque.
— Sorte não, Bernardo. Lealdade. — Kael cruzou os braços atrás da cabeça. — E aí, o que tu queria falar sobre amanhã?
— O esquema mudou. O pai quer que a gente faça a escolta por dentro da mata, nada de asfalto. Estão dizendo que a civil vai fazer operação na entrada da Gávea.
Kael assentiu, a mente mudando instantaneamente para o modo profissional.
— Melhor assim. Na mata a gente conhece cada palmo. Se eles tentarem entrar, vão cair na nossa armadilha.
— É isso. — Bernardo finalmente olhou para o amigo. — Tu tá bem, mano?
— Tô. Só pensando no que a Lua disse. Sobre sumir. Às vezes dá um cansaço, sabe?
Bernardo soltou um riso seco.
— Dá. Mas a gente nasceu pra isso, Kael. O sangue que corre na nossa veia é o sangue do morro. A gente não sobrevive no asfalto por muito tempo. O ar lá é muito limpo, falta o cheiro da pólvora pra gente respirar direito.
— Talvez tu tenha razão. Mas eu ainda vou levar ela pra ver o mar em outro lugar, Bê. Nem que seja por uma semana.
— Tu é um romântico incurável, Kaelton. Dorme logo, que amanhã o dia vai ser longo.
Os dois amigos ficaram em silêncio, cada um mergulhado em seus próprios pensamentos. Lá fora, o primeiro raio de sol cruzava o Cristo Redentor, iluminando a cidade que eles dominavam e que, ao mesmo tempo, os mantinha prisioneiros.
Na Rocinha, a vida continuava. O baile tinha acabado, mas a guerra e o amor nunca tiravam folga. E enquanto a família Allegretti estivesse unida, o império permaneceria inabalável, protegido por muros de concreto, fuzis de última geração e, principalmente, por laços que nem o tempo e nem a morte poderiam desfazer.
Kael fechou os olhos, a imagem de Lua sorrindo sendo a última coisa que viu antes de cair no sono pesado dos guerreiros. Ele sabia que, acontecesse o que acontecesse no dia seguinte, ele teria um motivo para voltar para casa. E esse motivo tinha olhos puxados e o sorriso mais doce de todo o Rio de Janeiro.
Você gostaria de ler o resumo do próximo capítulo?