Rocinha
O Brilho da Alvorada e o Peso da Coroa
O sol começou a despontar no horizonte, tingindo o céu do Rio de Janeiro com tons de rosa e laranja, refletindo nas águas da Praia de São Conrado. Na Rocinha, o som do baile começava a diminuir gradualmente, dando lugar ao burburinho matinal dos trabalhadores que saíam para seus empregos no asfalto. No camarote, a família Allegretti ainda mantinha a pose, embora o cansaço começasse a dar sinais nos olhos de alguns.
Guilherme Allegretti observava o movimento final da pista com o braço possessivamente jogado sobre os ombros de Letícia. Ele não demonstrava um pingo de sono; a adrenalina de comandar o morro e a presença constante da esposa ao seu lado o mantinham alerta.
— Olha lá, coração — Guilherme murmurou, apontando discretamente para o canto do camarote onde Lua e Kael estavam. — O baiano tá quase carregando nossa filha no colo. Se ele apertar mais aquela cintura, a menina vira dois.
Letícia soltou um riso baixo, encostando a cabeça no ombro largo do marido. O perfume dele, uma mistura de colônia cara e o cheiro másculo da pele bronzeada, ainda era o seu favorito no mundo.
— Deixa de ser implicante, amor — Letícia disse, acariciando o peito malhado dele por cima da camisa. — Você fazia pior comigo nas festas do morro quando a gente tinha a idade deles. Lembra que uma vez você quase quebrou o nariz do primo da Jussara só porque ele pediu pra eu passar o gelo?
— Aquele ali nasceu de novo, isso sim — Guilherme sorriu de lado, os olhos verdes brilhando com a memória. — Ninguém encosta no que é meu, Letícia. Tu sabe que eu sou doente por tu desde que te vi a primeira vez.
Enquanto os pais trocavam carinhos, Bernardo e Merllya estavam em uma conversa animada com um grupo de amigos que incluía Tico e outros "crias" da confiança. Bernardo segurava um copo de gelo, gesticulando enquanto contava sobre a nova moto que pretendia comprar.
— Papo reto, Mell — Bernardo disse, voltando-se para a namorada —, a próxima vai ser uma Ducati. Quero ver quem vai me pegar naquelas curva ali da Gávea.
— Você toma cuidado, Bernardo Henrique — Mell respondeu, cruzando os braços e fazendo um biquinho que o deixava louco. — Se você cair e ralar esse rosto lindo, eu te mato antes de você chegar no hospital.
— Tá preocupada com a minha beleza, gatinha? — Bernardo a puxou pela cintura, colando seus corpos. — Relaxa, que pro teu namorado aqui, o asfalto é tapete.
Kaelton, que estava em silêncio observando a segurança, finalmente relaxou os ombros. Ele olhou para Lua, que parecia uma boneca de porcelana de tão delicada, apesar da força que demonstrava no olhar.
— Tá cansada, vida? — Kael perguntou, a voz grave e macia apenas para ela. — Quer que eu te leve pra casa agora?
— Um pouquinho, meu ursinho — Lua respondeu, bocejando de leve e se aninhando no peito dele. — Mas eu queria ver o nascer do sol daqui de cima. É a coisa mais linda do mundo.
— Então a gente fica — Kael sentenciou. — O que tu pede, eu faço. Tu sabe.
O grupo começou a se dispersar conforme a luz do dia ficava mais forte. Guilherme deu a ordem para os seguranças limparem a área e reforçarem a guarda nas entradas principais. O clima de pós-baile no morro era sempre sensível; era o momento em que a guarda não podia baixar.
— Vamos descendo, família — Guilherme anunciou, a voz autoritária ecoando no camarote. — Bernardo, Kael, passem na contenção da subida antes de irem dormir. Quero o relatório de quem entrou e saiu nas últimas duas horas.
— Deixa com a gente, Tio — Kael respondeu prontamente.
— Já é, pai — Bernardo completou, dando um beijo na testa de Merllya. — Vou deixar a Mell em casa e já encontro o Kael lá.
A descida pela comunidade era um desfile. Mesmo cansados, os jovens caminhavam com a marra de quem sabia que o chão que pisavam lhes pertencia. As meninas, Lua e Mell, conversavam sobre os planos para a tarde — provavelmente academia e depois um lanche na padaria mais famosa do morro, onde o açaí era lei.
Quando chegaram à mansão, o silêncio do isolamento acústico foi um alívio. Guilherme e Letícia subiram direto para o quarto. Letícia sentou-se na beira da cama, tirando as sandálias de salto e massageando os pés.
— Meus pés estão me matando, meu bem — ela reclamou com um sorriso cansado.
Guilherme se ajoelhou à frente dela, pegando um dos pés pequenos e brancos nas mãos grandes e morenas. Ele começou a massagear com uma delicadeza que poucos acreditariam que o dono da Rocinha possuía.
— Eu te carrego, coração — ele disse, olhando-a de baixo para cima. — Se tu quiser, eu te carrego pro resto da vida.
— Eu sei que carrega — Letícia suspirou, sentindo o carinho. — Mas agora eu só quero um banho com você e dormir um pouco antes das crianças inventarem de sair de novo.
— O banho eu garanto — Guilherme sorriu malicioso, os dentes brancos contrastando com o bigode aparado. — Mas dormir... aí já vai depender da tua disposição, porque eu acordei com uma fome de você que não acaba nunca.
— Você é um safado, Guilherme Allegretti.
— Sou — ele concordou, levantando-a e a levando em direção ao banheiro luxuoso —, mas sou o teu safado.
No andar de baixo, Lua entrou em seu quarto acompanhada de Kael. O quarto dela era o refúgio perfeito, decorado com tons claros, mas com a tecnologia de ponta que o dinheiro do pai providenciava. Kael fechou a porta e sentiu o "clique" do isolamento. Ele imediatamente puxou Lua para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela.
— Eu odeio quando os cara ficam te secando lá embaixo, Lua — ele confessou, a voz abafada. — Dá uma vontade de quebrar tudo.
— Eu sei, amor — Lua disse, acariciando as tranças dele. — Mas você sabe que eu sou sua. Completamente sua. Por que esse ciúme todo hoje?
Kael se afastou um pouco para olhar nos olhos negros e puxados dela.
— Porque tu tá cada dia mais linda, docinho. Parece que o tempo só te deixa mais perfeita. E eu... eu sou só um moleque que teve a sorte de crescer do teu lado.
— Você não é "só um moleque", Kaelton — ela disse o nome dele devagar, sabendo que ele odiava, mas que nela soava como música. — Você é o homem que eu escolhi. O meu protetor. Meu ursinho.
Kael sorriu, a marra derretendo diante da doçura dela. Ele a pegou pela cintura e a sentou na escrivaninha, ficando entre suas pernas.
— Me chama assim de novo — ele pediu, a voz ficando rouca.
— Meu ursinho... — ela sussurrou, antes de ser calada por um beijo urgente, carregado de toda a paixão que eles vinham acumulando durante as horas de baile.
As mãos de Kael, calejadas pelo trabalho no morro e pelos treinos na academia, exploravam o corpo curvilíneo de Lua com uma mistura de adoração e posse. Ele subiu a saia de crochê dela, sentindo a textura da pele branquinha.
— Kael... — ela ofegou, as unhas cravando-se nos ombros dele. — A gente tem que descansar...
— Descansar é o caralho, vida — ele murmurou contra os lábios dela. — Eu quero você. Agora.
Enquanto isso, na garagem da mansão, Bernardo acabava de estacionar o carro após deixar Merllya em casa. Ele encontrou Tico e outros amigos terminando de guardar algumas armas no depósito camuflado.
— E aí, Bê? O movimento na 15 tá calmo agora — Tico disse, limpando o suor da testa com a camisa. — Os moleque tão de olho em qualquer moto estranha.
— Bom — Bernardo respondeu, assumindo a postura séria que o pai exigia. — Não quero falha hoje. O coroa tá de bom humor, mas se alguém atravessar o caminho dele, sobra pra todo mundo.
— Pode crer. E a Mell? Ficou de boa?
— Ficou. Aquela loira é braba, Tico. Queria ficar no baile até o meio-dia — Bernardo riu, pegando um cigarro e acendendo. — Mas mulher de homem da vida tem que saber a hora de recolher.
Ele deu uma tragada longa, observando a fumaça se dissipar no ar da manhã. A vida no morro era um equilíbrio constante entre o prazer e a responsabilidade. Ele olhou para a casa grande, sabendo que lá dentro sua família estava segura, e sentiu uma pontada de orgulho. Ele era o próximo na linha de sucessão, o herdeiro de tudo aquilo, e faria qualquer coisa para manter o legado dos Allegretti intacto.
— Tico, vou subir pra dar uma conferida no rádio e depois vou apagar — Bernardo disse. — Qualquer coisa, me bipa.
— Tranquilo, Bê. Bom descanso aí.
Bernardo subiu as escadas, sentindo o peso do corpo após horas de festa e tensão. Ao passar pelo corredor, ouviu o silêncio profundo que os quartos isolados proporcionavam. Ele sabia que, atrás de cada uma daquelas portas, as pessoas que ele mais amava estavam vivendo suas próprias intensidades.
Ele entrou em seu quarto, tirou a camisa e jogou-se na cama. O cheiro de Merllya ainda estava em suas mãos. Ele sorriu, fechando os olhos verdes. A vida na Rocinha era dura, perigosa e muitas vezes sangrenta, mas para eles, era o único lugar no mundo onde se sentiam verdadeiramente vivos.
Lá fora, o Rio de Janeiro despertava completamente. O morro fervia com a vida cotidiana: o cheiro de café fresco vindo das janelas, o som dos radinhos de pilha, o grito dos feirantes. A paz reinava, pelo menos por enquanto, sob o olhar atento dos homens de Guilherme Allegretti.
Dentro da mansão, Guilherme e Letícia finalmente se entregavam ao sono após horas de uma entrega que só o amor maduro e seguro permite. Ele a abraçava por trás, a mão repousando sobre o ventre dela, protegendo-a mesmo enquanto dormia.
— Te amo, coração — ele sussurrou uma última vez, quase já perdendo a consciência para o sono.
— Também te amo, meu rabugento — ela respondeu em um fio de voz, sentindo-se a mulher mais protegida e amada de todo o Rio.
A alvorada trazia a promessa de um novo dia, com novos desafios e novas conquistas. Mas para os Allegretti, o que importava era que, não importa o que acontecesse no asfalto ou nos becos, dentro daquela fortaleza, o amor e a lealdade eram as únicas leis que nunca seriam quebradas.