Rosas em Chamas
Labirinto de Espelhos e Sombras do Passado
O sol da manhã seguinte nasceu com uma claridade ofuscante, refletindo-se nas águas calmas como se o oceano fosse feito de vidro polido. No Thousand Sunny, o clima era de uma paz enganosa. Luffy estava sentado em seu lugar favorito na proa, Nami estudava mapas com uma expressão franzida, e Sanji preparava um café da manhã que perfumava todo o navio.
Azumi, no entanto, sentia um formigamento inquietante sob a pele. Ela estava sentada no gramado do convés, com vários pergaminhos espalhados ao seu redor, tentando traçar a logística de suprimentos para a próxima rota. Mas seus olhos teimavam em desviar para o mastro principal, onde Zoro, para variar, cochilava com as mãos atrás da cabeça.
O beijo da noite anterior ainda ecoava nela como uma explosão silenciosa. Ele não era apenas o "Marimo" teimoso; era o homem que a segurara com uma firmeza que ela nunca permitira a ninguém.
— Você está encarando de novo — a voz de Robin a trouxe de volta, calma e carregada de um subtexto divertido.
Azumi pigarreou, ajeitando uma mecha de cabelo rosa atrás da orelha.
— Estou apenas analisando a postura dele. Ele dorme de um jeito que deixa a guarda aberta para um ataque lateral. É ineficiente.
Robin soltou uma risadinha baixa, fechando seu livro.
— Sei. E eu sou apenas a arqueóloga que gosta de ler sobre pedras velhas. Cuidado, Azumi. Algumas estratégias não sobrevivem ao contato com o coração.
— O meu coração é um território muito bem fortificado, Robin — retrucou Azumi com um sorriso de canto, embora sentisse as bochechas esquentarem.
— TERRA À VISTA! — o grito de Usopp interrompeu a conversa. — Mas... que ilha é aquela? Ela brilha!
Todos correram para a amurada. À frente, uma ilha singular emergia do mar. Ela não tinha selvas verdes ou montanhas rochosas; era composta por estruturas cristalinas que refletiam a luz solar em prismas multicoloridos. Mas o que fez o sangue de Azumi gelar não foi a beleza do lugar, e sim a bandeira que tremulava em um dos picos mais altos.
Uma bandeira branca com um símbolo que ela não via há anos: um sol negro estilizado, a marca de uma unidade de elite da Marinha que operava nas sombras, a mesma que dizimara sua vila natal.
— Luffy, não podemos atracar aí — disse Azumi, sua voz perdendo a leveza habitual e assumindo um tom gélido e cortante.
Luffy olhou para ela, percebendo a mudança imediata na postura da sua estrategista.
— Por que, Azumi? Tem carne brilhante lá?
— É uma base avançada da Unidade Eclipse — explicou ela, os dedos apertando o parapeito de madeira até os nós dos dedos ficarem brancos. — Eles não são marinheiros comuns. Eles são caçadores de usuários de Akuma no Mi. Se eles nos virem, não haverá negociação. Eles usam tecnologia de cancelamento de poderes.
Zoro, que já estava de pé, aproximou-se, sentindo a tensão emanando dela. Ele colocou a mão no cabo da Wado Ichimonji, os olhos fixos na ilha.
— Se eles são um problema, a gente corta o problema — disse ele de forma simples.
— Não é tão fácil, cabeça de grama! — Azumi virou-se para ele, a irritação mascarando o medo. — Eles têm canhões de luz que podem neutralizar minhas chamas antes mesmo de eu as lançar. E se eles pegarem você...
— Eles não vão me pegar — interrompeu Zoro, encarando-a com uma intensidade que a fez calar. — E não vão pegar você também.
— Eles estão nos chamando! — gritou Nami, apontando para um sinalizador que subia da ilha. — É um sinal de socorro civil?
— É uma armadilha — Azumi afirmou categoricamente. — Eu conheço o *modus operandi* deles. Eles atraem piratas com promessas de tesouros ou pedidos de ajuda e depois fecham o cerco. Luffy, por favor, me escute. Precisamos contornar pelo norte.
Luffy olhou para a ilha, depois para Azumi. Ele viu o tremor quase imperceptível nas mãos dela.
— Azumi... você está com medo deles?
A pergunta pairou no ar. Azumi odiava admitir fraqueza. Ela era a mulher sedutora, a estrategista infalível, a chama que nunca se apagava. Mas a visão daquele sol negro trazia de volta o cheiro de madeira queimada e o som dos gritos de seus pais.
— Eu não estou com medo — mentiu ela, a voz tremendo levemente. — Estou sendo racional.
— Se você está com medo, é razão suficiente para irmos lá e acabarmos com eles — decidiu Luffy, com aquele sorriso largo e imprudente que o definia. — Ninguém assusta os meus companheiros e sai impune! Ancorar!
— Luffy, seu idiota! — Azumi protestou, mas o bando já estava em movimento.
Enquanto o Sunny se aproximava da costa cristalina, Azumi sentiu uma mão pesada em seu ombro. Era Zoro.
— Fique atrás de mim se as coisas ficarem feias — disse ele, sem olhar para ela.
— Eu sei me cuidar, Roronoa.
— Eu sei que sabe. Mas hoje, deixe o plano de lado por um segundo e confie nos seus instintos. E nos meus.
Ao desembarcarem, a ilha parecia deserta, um labirinto de espelhos naturais que distorciam as imagens e criavam ilusões de ótica a cada passo. O calor era intenso, amplificado pelos reflexos.
— Mantenham a formação! — ordenou Azumi, tentando retomar o controle. — Sanji, Chopper, fiquem no centro. Zoro, você e Luffy na vanguarda. Eu vou subir naqueles cristais para ter uma visão aérea.
— Sozinha? Nem pensar — retrucou Zoro.
— Eu sou a única que pode voar com as chamas se o chão sumir, Marimo! Apenas faça o que eu digo!
Ela não esperou resposta. Impulsionou-se com uma explosão de fogo rosa, elevando-se acima das estruturas de cristal. Lá de cima, a visão era aterrorizante. O labirinto não era natural; era uma gigantesca lente de aumento projetada para concentrar calor em pontos específicos.
— É uma fornalha! — gritou ela para o bando lá embaixo. — Eles vão fritar a gente aqui dentro!
De repente, um feixe de luz azulada cruzou o céu, atingindo Azumi em pleno ar. Ela sentiu um choque paralisante. Suas chamas rosa vacilaram e desapareceram. Ela começou a cair, o pânico tomando conta enquanto sentia sua conexão com a *Bara Bara no Mi* ser temporariamente cortada.
— AZUMI! — o grito de Zoro ecoou pelas paredes de cristal.
Antes que ela atingisse o chão, um vulto verde saltou, pegando-a no ar e amortecendo a queda com o próprio corpo. Eles rolaram pelo chão de areia cristalina até pararem contra uma parede de prisma.
Azumi tossiu, sentindo o corpo pesado como chumbo. Zoro estava por cima dela, protegendo-a com seu manto, a respiração ofegante.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz carregada de uma urgência que ela nunca ouvira.
— Meus... meus poderes... — ela gaguejou, tentando invocar uma faísca, mas apenas uma fumaça cinzenta e fraca saiu de seus dedos. — Eles usaram o anulador de luz.
— Esqueça o fogo — disse Zoro, levantando-se e desembainhando as três espadas. — Eu disse que o aço não falha.
Do meio dos espelhos, surgiram figuras em armaduras brancas e prateadas, segurando lanças que brilhavam com a mesma luz azul que atingira Azumi. O líder do grupo deu um passo à frente, retirando o capacete. Era um homem de meia-idade, com uma cicatriz que cruzava o olho esquerdo.
Azumi arregalou os olhos.
— Comandante Kael... — sussurrou ela.
— Ora, ora... se não é a pequena fugitiva de Roseus — disse o homem, com um sorriso cruel. — A órfã que roubou nossa fruta experimental. Você nos deu muito trabalho todos esses anos, Azumi.
Zoro deu um passo à frente, bloqueando a visão de Kael sobre ela.
— Então você é o lixo que assombrou o passado dela? — o tom de Zoro era de um desprezo mortal.
— Eu sou a justiça que ela tentou escapar — respondeu Kael. — Entreguem a mulher e o resto de vocês poderá sair desta ilha vivo. Caso contrário, este labirinto se tornará o seu túmulo solar.
Luffy, que estava lutando contra outros soldados ao longe, gritou:
— AZUMI É NOSSA COMPANHEIRA! NINGUÉM VAI LEVAR ELA!
A batalha explodiu em um caos de reflexos. Os soldados da Marinha usavam os espelhos para atacar de ângulos impossíveis, enquanto a luz azulada buscava constantemente os usuários de Akuma no Mi do bando.
Azumi sentia-se inútil. Sem suas chamas, ela era apenas uma mulher com conhecimentos táticos em um campo de batalha que mudava a cada segundo. Ela viu Zoro ser atingido por um corte superficial no braço enquanto tentava protegê-la de dois lanceiros simultaneamente.
— Zoro, saia daqui! — gritou ela. — Eles querem a mim! Se você continuar me protegendo, eles vão te matar!
— Cala a boca, mulher! — rugiu Zoro, girando em um ataque que despedaçou os cristais ao redor. — Eu já te disse: não carregamos corpos. E eu não vou deixar ninguém encostar em você.
Ele se virou para ela por um breve segundo, o sangue escorrendo pela testa, mas os olhos brilhando com uma determinação feroz.
— Use essa sua cabeça de estrategista. Esqueça o fogo. Como a gente quebra esse lugar?
Azumi respirou fundo, forçando o pânico a recuar. Ela olhou ao redor, observando como a luz se comportava nos prismas. Ela viu o foco central de Kael, uma grande lente no topo da torre principal que distribuía a energia para os soldados.
— O ponto focal! — gritou ela. — Zoro, se você quebrar a base daquela torre de cristal ali, o ângulo da luz vai mudar e eles vão perder o sistema de mira!
— Entendido. Fique abaixada.
Zoro correu em direção à torre, enfrentando uma chuva de disparos de luz. Azumi, vendo que um soldado se aproximava por trás dele com uma adaga de kairouseki, não pensou duas vezes. Ela não tinha fogo, mas tinha sua agilidade e sua coragem.
Ela correu e saltou nas costas do soldado, cravando uma pequena faca de combate que guardava na bota na junta da armadura dele. O homem gritou e caiu, e ela rolou, pegando a lança de luz dele.
— Zoro, agora! — ela disparou a lança contra um espelho próximo, criando uma distração luminosa que cegou os defensores da torre por um instante.
Zoro aproveitou a brecha. Ele concentrou todo o seu Haki em suas lâminas, os músculos dos braços saltando com o esforço.
— *Santoryu: Ichigiti... Daigensen!*
O golpe de ar comprimido e aço cortou a base da torre de cristal como se fosse manteiga. A estrutura imensa começou a inclinar, e o efeito foi imediato. O feixe de luz principal desviou-se, atingindo os próprios navios da Marinha ancorados no porto.
Os soldados entraram em pânico quando o sistema de cancelamento de poderes falhou.
Azumi sentiu o calor familiar retornar ao seu peito. Uma pequena faísca rosa saltou de seus dedos, transformando-se rapidamente em uma labareda rugidora.
— Minha vez — disse ela, os olhos brilhando com uma fúria rosa.
Ela se lançou para o céu, mas desta vez não para fugir.
— *Rosé Annihilation!*
Ela disparou centenas de pétalas de fogo rosa que, ao tocarem os cristais, criavam explosões em cadeia. O labirinto começou a ruir. Kael tentou fugir, mas foi interceptado por um chute devastador de Sanji e um soco de Luffy que o mandou diretamente para os destroços da própria torre.
Com a ameaça neutralizada, o bando recuou rapidamente para o Sunny enquanto a ilha começava a superaquecer devido aos danos no sistema de espelhos.
Já a bordo, o Sunny se afastou a toda velocidade sob o comando de Nami. O silêncio caiu sobre o convés enquanto todos recuperavam o fôlego.
Azumi estava sentada perto da popa, observando a ilha de cristal diminuir no horizonte. Ela estava coberta de poeira e alguns arranhões, mas o peso que carregava no peito há anos parecia ter diminuído.
Zoro caminhou até ela, guardando suas espadas. Ele tinha um curativo grosseiro no braço, cortesia de Chopper.
— Você não foi uma completa inútil sem seus truques de mágica — disse ele, sentando-se ao lado dela de forma pesada.
Azumi soltou uma risada fraca, encostando a cabeça no ombro dele. Desta vez, ele não reclamou.
— Eu salvei suas costas, Marimo. Admita.
— Você fez o seu trabalho — ele retrucou, mas sua mão encontrou a dela e apertou os dedos com firmeza. — Mas não pense que isso te dá o direito de mandar em mim o tempo todo.
— Ah, eu vou continuar mandando. Alguém tem que garantir que você não se perca no caminho para a vitória.
Ela se virou, olhando para o perfil sério dele. A tensão erótica que sempre existira entre eles agora estava misturada com algo mais profundo: respeito e uma confiança forjada no fogo e no aço.
— Zoro... — ela sussurrou, aproximando-se do ouvido dele. — Obrigada. Por não me deixar para trás.
Ele virou o rosto, a centímetros do dela. O cheiro de pólvora e suor era forte, mas para Azumi, era o cheiro da segurança.
— Se você fizer isso de novo, eu mesmo te amarro no mastro — ele disse, mas o tom era suave.
Ele a puxou para um beijo curto, mas possessivo, que selou a promessa silenciosa de que, não importa quais fantasmas do passado surgissem, eles seriam enfrentados juntos.
— Senhorita Azumi! Zoro! O jantar está pronto! — o grito de Sanji veio da cozinha, seguido por um chute na porta. — E tire as mãos dela, seu espadachim de quinta categoria!
Azumi riu, afastando-se de Zoro e levantando-se. Ela estendeu a mão para ajudá-lo a levantar, um sorriso radiante e confiante de volta ao rosto.
— Vamos, Marimo. Preciso repor minhas energias. Tenho novos planos táticos para a próxima ilha... e alguns envolvem você treinar sem camisa por mais tempo.
Zoro bufou, mas aceitou a mão dela, permitindo que ela o puxasse para a cozinha. A jornada pela Grand Line ainda seria longa e cheia de perigos, mas Azumi sabia que, enquanto tivesse suas chamas rosa e o aço de Zoro ao seu lado, não havia labirinto no mundo que ela não pudesse mapear.
E, talvez, o amor fosse apenas a estratégia mais complexa de todas, uma que ela estava finalmente disposta a dominar.