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Roxy x Ogron

O Banquete das Sombras e o Brilho da Inocência

O espelho do camarim no Frutti Music Bar refletia uma versão de Roxy que ela mal reconhecia. As Winx haviam tomado conta do seu quarto e de sua aparência como se estivessem preparando uma princesa para um baile, embora a ocasião fosse apenas uma festa de música eletrônica na praia de Gardenia. Stella, com sua energia inesgotável, ajustava o vestido de cetim cor de esmeralda que contrastava perfeitamente com os cabelos marsala de Roxy.

— Você está deslumbrante, Roxy! — exclamou Stella, batendo as palmas das mãos. — Nada de asas hoje, apenas o brilho de uma garota que merece se divertir.

— Eu não sei, meninas... — Roxy mordeu o lábio inferior, olhando para o decote sutil e as alças finas do vestido. — Com tudo o que está acontecendo, com o Círculo Negro à espreita... parece errado tentar ser "normal".

Bloom aproximou-se, colocando as mãos nos ombros da fada mais jovem. O olhar da fada da chama dragão era compreensivo, mas firme.

— Roxy, ser a última fada da Terra não significa que você deixou de ser humana. Se você não tirar um tempo para si mesma, eles vencem antes mesmo da batalha começar. Eles querem que você viva com medo.

— A Bloom tem razão — concordou Tecna, sem desviar os olhos de seu dispositivo portátil. — Estatisticamente, níveis elevados de estresse reduzem a eficácia mágica em quarenta por cento. Dançar e socializar são formas eficientes de recarregar suas baterias emocionais.

Roxy respirou fundo, sentindo o perfume floral que Flora havia borrifado nela. Nas últimas noites, o rosto de Ogron e a sensação de suas mãos frias haviam assombrado cada fresta de sua mente. Ela sentia que estava perdendo o controle de sua própria identidade. Talvez fosse isso que ela precisava: provar a si mesma que seus desejos sombrios eram apenas uma fase, uma reação ao perigo, e que ela ainda era a dona de seu destino. O que ela sentia por aquele bruxo cruel e o que ela era por dentro podiam ser coisas diferentes. Um desejo não apagaria sua bondade.

— Tudo bem — disse Roxy, endireitando a postura. — Eu vou. Vou dançar, vou beber algo que não seja suco de laranja e vou esquecer bruxos ruivos por algumas horas.

— Essa é a minha garota! — Musa deu uma piscadinha, entregando-lhe uma pequena bolsa. — Só tome cuidado, ok? Estaremos por perto se precisar, mas hoje o palco é seu.

A festa na praia era uma explosão de luzes neon e batidas graves que faziam a areia vibrar sob os pés. Roxy sentia-se estranhamente leve. O álcool, em pequenas doses no coquetel de frutas que ela segurava, ajudava a dissipar a névoa de ansiedade que a seguia desde o encontro no beco. Ela começou a dançar, deixando que a música guiasse seus movimentos, sentindo a liberdade de ser apenas uma jovem de dezenove anos.

Aos poucos, ela percebeu que não estava passando despercebida. Vários rapazes a observavam, atraídos pela combinação exótica de seus cabelos vibrantes e a intensidade de seus olhos roxos. Um jovem alto e bronzeado se aproximou, sorrindo com uma confiança que, em qualquer outro dia, Roxy acharia charmosa.

— Você dança como se estivesse em outro mundo — disse o rapaz, aproximando-se para ser ouvido acima da música. — Sou o Rick.

— Roxy — respondeu ela, retribuindo o sorriso.

Ela permitiu que Rick se aproximasse, que ele colocasse a mão em sua cintura enquanto dançavam. Ela queria sentir algo. Queria que o toque de um humano comum, gentil e quente, apagasse a memória da eletricidade sombria de Ogron. Mas, enquanto Rick falava coisas banais sobre o verão em Gardenia, a mente de Roxy traía sua vontade. A mão de Rick parecia pesada e sem vida comparada à tensão vibrante que ela sentira com o bruxo.

O que ela não sabia era que, do alto de uma duna envolta em sombras, a poucos metros da luz da festa, um par de olhos azul-cinzentos observava cada movimento.

Ogron estava encostado em uma palmeira, os braços cruzados sobre o peito. Ele não deveria estar ali. Tinha planos a discutir com Gantlos e Anagan, magias a tecer, asas a caçar. Mas a conexão que ele havia estabelecido nos sonhos de Roxy funcionava como um fio invisível, puxando-o em direção a ela. Ver a fada naquele vestido, movendo o corpo com uma sensualidade que ela mal parecia consciente de possuir, despertava nele uma fúria possessiva que ele não conseguia racionalizar.

— Olhe para você — murmurou Ogron para a escuridão, sua voz uma nota baixa de desprezo e desejo. — Tentando se misturar ao gado.

Quando viu Rick deslizar a mão mais para baixo, nas costas de Roxy, algo dentro de Ogron estalou. Ele era um caçador. E nenhum outro predador tinha permissão para tocar sua presa.

Roxy sentiu a mudança no ar antes mesmo de vê-lo. A temperatura ao redor dela pareceu cair drasticamente, e o cheiro de ozônio cortou o aroma de maresia e protetor solar. Rick, subitamente, tropeçou para trás, como se tivesse sido empurrado por uma força invisível, embora ninguém o tivesse tocado.

— Ei! O que foi isso? — exclamou o rapaz, olhando em volta, confuso.

— Acho que você já teve atenção demais por uma noite, rapaz — disse uma voz profunda e autoritária que surgiu do nada.

Roxy girou sobre os calcanhares. Ogron estava ali, materializando-se das sombras com uma naturalidade aterradora. Ele não usava seu sobretudo de couro habitual, mas uma camisa preta de botões, entreaberta no colarinho, que o fazia parecer um homem maduro e perigosamente atraente, em vez de um bruxo de outra era. A maturidade de suas feições e a intensidade de seu olhar faziam todos ao redor parecerem crianças brincando de viver.

Rick, sentindo a ameaça instintiva que emanava do homem mais velho, balbuciou algo e se afastou rapidamente, perdendo-se na multidão.

— Você estragou a minha dança — disse Roxy, embora seu coração estivesse disparado e sua respiração estivesse ficando curta. — O que está fazendo aqui, Ogron? Você não pode me deixar em paz nem por uma noite?

Ogron deu um passo à frente, ignorando as pessoas que passavam por eles. O espaço entre eles tornou-se subitamente o único lugar que importava no mundo.

— Você realmente achou que poderia vir aqui e se entregar a um mortal qualquer? — perguntou ele, a voz carregada de uma arrogância territorial. — Depois de tudo o que aconteceu entre nós no beco?

— Não aconteceu nada entre nós! — retrucou Roxy, a voz subindo um tom. — Você é meu inimigo. Você é um monstro que eu odeio.

— O seu ódio é a coisa mais honesta nesta praia, Roxy — disse ele, estendendo a mão e pegando o copo que ela segurava. Ele tomou um gole da bebida alcoólica, fazendo uma careta de desdém antes de colocar o copo em uma mesa próxima. — Mas não minta para si mesma. Você veio aqui para tentar fugir de mim, e só conseguiu provar que ninguém mais pode te dar o que você realmente deseja.

— Você é um convencido... — Roxy tentou se afastar, mas Ogron segurou seu braço. O toque não foi violento, mas foi absoluto.

— Eu sou um homem que viveu o suficiente para reconhecer o fogo quando o vê — disse ele, inclinando-se para perto dela. — E você, fadinha, está queimando.

Ogron a puxou para a pista de dança, mas não para dançar o ritmo frenético da música eletrônica. Ele a envolveu em um abraço firme, forçando-a a se mover lentamente com ele. A proximidade era avassaladora. Roxy podia sentir o calor do corpo dele através da camisa fina, o cheiro de especiarias e poder antigo que emanava de sua pele.

— Me solta, Ogron. As Winx estão aqui... se elas te virem...

— Elas não vão ver nada que eu não queira que vejam — sussurrou ele, os lábios roçando o topo da cabeça dela. — Eu teci um véu de percepção ao nosso redor. Para o resto do mundo, somos apenas mais um casal na penumbra.

Roxy deveria lutar. Deveria convocar sua magia, transformar o som da música em um ataque sônico, ou chamar suas amigas. Mas a bebida, a música e a presença esmagadora de Ogron criaram uma paralisia deliciosa. Ela encostou a testa no peito dele, sentindo as batidas lentas e poderosas do coração do bruxo através do tecido.

— Por que você faz isso? — perguntou ela, a voz fraca, quase um murmúrio. — Você quer meu poder. Por que não o tira de uma vez e acaba com isso?

Ogron parou de se mover. Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. Seus olhos azul-cinzentos não tinham a frieza habitual; havia uma tempestade de conflito ali, uma confusão que ele detestava sentir.

— Porque o seu poder é apenas uma parte do que você é — confessou ele, a voz rouca, perdendo a habitual máscara de desprezo. — E, pela primeira vez em séculos, eu encontrei algo que não quero apenas consumir. Eu quero possuir. Quero que você venha para mim por vontade própria, Roxy. Quero que você perceba que a luz que você tanto defende é pálida comparada ao que podemos ter nas sombras.

— Isso nunca vai acontecer — disse ela, embora suas mãos estivessem subindo pelo peito dele, agarrando o tecido de sua camisa como se precisasse de apoio.

— Já está acontecendo — rebateu ele com um sorriso sombrio.

Ele se inclinou, e Roxy soube que deveria recuar. Mas ela fechou os olhos, esperando. Quando os lábios de Ogron finalmente encontraram os dela, não foi como no sonho. Foi real, intenso e carregado de uma fome secular. O beijo tinha o gosto do álcool que ambos haviam provado, do sal do mar e de uma promessa de perdição.

Ogron a beijava com uma possessividade que não deixava dúvidas: ela era dele. Suas mãos desceram pelas costas nuas de Roxy, sentindo a pele macia sob o cetim, enquanto ela soltava um suspiro que foi abafado pela boca dele. Por um momento, a última fada da Terra e o líder do Círculo Negro não eram inimigos. Eram apenas duas forças da natureza colidindo no escuro, atraídas por uma gravidade que nenhum dos dois compreendia.

Quando ele se afastou, ambos estavam ofegantes. Ogron a olhou com uma intensidade que parecia queimar a própria alma de Roxy. Ele estava abalado. Como uma fada tão insignificante podia fazê-lo esquecer sua missão por um momento?

— Lembre-se desta sensação, Roxy — disse ele, a voz recuperando a autoridade cortante. — Quando você estiver com suas amigas, fingindo ser a fada perfeita, lembre-se de que foi nos braços de um monstro que você se sentiu viva pela primeira vez.

Antes que ela pudesse responder, Ogron deu um passo para trás e o véu de percepção se dissolveu. Ele se misturou à multidão e desapareceu antes que Roxy pudesse sequer processar o que havia acontecido.

Ela ficou parada no meio da pista, o coração batendo tão forte que ela achou que todos poderiam ouvir. Seus lábios ainda formigavam, e o peso do olhar dele ainda parecia marcar sua pele. Ela olhou em volta, mas Rick não estava em lugar nenhum, e a música parecia subitamente barulhenta demais, vazia demais.

— Roxy! Aí está você! — A voz de Stella a trouxe de volta à realidade. As Winx se aproximavam, parecendo preocupadas. — O que aconteceu? Você parece que viu um fantasma.

— Eu... eu só fiquei um pouco tonta com a música — mentiu Roxy, a voz trêmula, limpando o canto da boca com o polegar. — Acho que o coquetel estava mais forte do que eu pensava.

— Vamos te levar para casa — disse Flora, passando o braço pela cintura de Roxy para apoiá-la. — A festa já deu o que tinha que dar. Você precisa de um descanso.

Enquanto as meninas a conduziam para longe da praia, Roxy olhou para trás, para as sombras além das luzes neon. Ela sabia que nada seria o mesmo. Ogron a havia marcado, não com magia, mas com algo muito mais difícil de combater: a dúvida.

Ela ainda era Roxy. Ainda era a fada dos animais, a protetora da Terra. Mas, agora, ela sabia que dentro de seu coração gentil, havia um espaço escuro que clamava pelo toque do caçador. E o mais assustador não era o fato de Ogron ser um monstro, mas o fato de que, em seus braços, ela não se importara nem um pouco com isso.

Longe dali, no alto da duna, Ogron observava as fadas se afastarem. Ele tocou os próprios lábios, um sorriso predatório brincando em seu rosto maduro. Ele estava confuso por estar tão abalado, mas a confusão fora substituída por uma determinação cruel.

— A caçada apenas começou, fadinha — sussurrou ele para o vento. — E você já se entregou, mesmo sem saber. O seu poder será meu, mas antes... eu quero ver você sucumbir a essa escuridão que você tenta esconder.

Ele virou as costas para a festa, desaparecendo na noite de Gardenia, deixando para trás apenas o eco de sua presença e uma fada cuja luz começava a ser tingida por sombras inevitáveis.

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