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Roxy x Ogron

O Sangue da Inocência e a Rendição do Caçador

A tarde em Gardenia havia se transformado em um cenário de guerra. O céu, antes azul e límpido, agora estava manchado por nuvens púrpuras e carregadas de eletricidade negativa, uma marca inconfundível da presença do Círculo Negro. O ar vibrava com o som de explosões mágicas e o grito de civis que corriam desesperados pelas ruas próximas ao parque central.

Roxy estava no centro do caos. Suas asas lilases batiam com uma força frenética, mas o cansaço pesava em seus ombros como chumbo. Ela não estava apenas lutando por si mesma; ela estava servindo de escudo para um grupo de crianças que haviam ficado presas atrás de um quiosque de sorvetes quando Gantlos e Anagan iniciaram o ataque.

— Fiquem calmos! — gritou Roxy, a voz falhando enquanto ela lançava uma rajada de energia verde para repelir uma onda de choque enviada por Gantlos. — Eu não vou deixar nada acontecer com vocês!

Uma das crianças, uma menina pequena que segurava um boneco de pelúcia, olhava para Roxy com olhos arregalados de admiração e terror. Para aquela criança, Roxy não era apenas uma garota de cabelos marsala; ela era a prova viva de que a magia existia e que o bem sempre venceria. Esse olhar era o combustível que mantinha Roxy de pé, mesmo quando seus músculos clamavam por descanso.

Do outro lado da praça, as Winx estavam engajadas em uma batalha feroz. Bloom e Stella tentavam conter Anagan, cuja velocidade tornava quase impossível um ataque direto, enquanto Flora e Tecna criavam barreiras para proteger as estruturas da cidade. Ogron, no entanto, permanecia afastado, observando a cena com uma frieza calculista. Seus olhos azul-cinzentos estavam fixos em Roxy.

— Ela é persistente, eu admito — comentou Ogron para si mesmo, um sorriso cínico brincando em seus lábios.

Subitamente, a batalha escalou. Gantlos, irritado com a resistência da fada iniciante, bateu os punhos no chão, criando uma fenda sísmica que se propagou em direção ao quiosque. Roxy agiu por instinto. Ela mergulhou, usando seu próprio corpo para envolver as crianças enquanto criava um escudo de energia animal de última hora.

O impacto foi devastador. A estrutura do quiosque cedeu, e um pedaço de metal retorcido voou em direção a Roxy. Ela sentiu uma pancada violenta na lateral da cabeça, mas a adrenalina era tão alta que a dor foi imediatamente mascarada. Ela apenas sentiu algo quente escorrendo por sua testa.

— Droga de suor... — murmurou ela, limpando o rosto com as costas da mão, deixando um rastro vermelho na pele pálida.

Ela se levantou, cambaleando. Sua visão começou a oscilar, as bordas do mundo ficando borradas e turvas. O som da batalha parecia vir de dentro de um túnel profundo. Ela viu Anagan e Gantlos se aproximarem de Ogron, que agora segurava o anel do Círculo Negro no alto.

— Agora! — rugiu Ogron. — O poder da Terra está enfraquecido pela dor dessas fadas! Abram o portão!

Os quatro bruxos uniram suas mãos, e uma espiral de trevas começou a se formar no centro da praça. Era o Portão do Círculo Negro, um vórtice que prometia sugar toda a magia restante das fadas terrestres e aprisioná-las para sempre.

Roxy tentou dar um passo à frente.

— Eu... eu não vou... deixar... — A voz dela era apenas um sussurro.

Ela ergueu as mãos, tentando invocar a essência do lobo para um ataque final, mas a magia falhou. O sangue continuava a escorrer, entrando em seu olho esquerdo e tingindo sua visão de escarlate. Ela não percebeu que estava gravemente ferida; em sua mente, ela ainda era a protetora, a última linha de defesa para aquelas crianças que choravam atrás dela.

Ogron, que mantinha o feitiço do portal, desviou o olhar por um segundo. Ele viu o estado de Roxy. Viu a mancha de sangue que cobria metade do rosto da garota e o modo como suas pernas tremiam, recusando-se a ceder ao colapso iminente. Algo estranho e desconfortável apertou seu peito — uma sensação que ele, como um bruxo secular e cruel, deveria ter esquecido há muito tempo.

— Ela vai morrer se continuar — pensou Ogron, e a ideia de perder aquela fada insignificante, de ver aquela luz específica se apagar, causou-lhe um sobressalto de pânico que ele não pôde esconder.

— Ogron! O portal está quase estável! — gritou Duman, que lutava para manter a forma física sob a pressão da magia negra.

Enquanto os bruxos se concentravam no portal, as Winx viram a oportunidade.

— Agora, Winx! Convergência Believix! — comandou Bloom.

As seis fadas se uniram em um círculo perfeito acima do vórtice. Uma explosão de luz pura, alimentada pela fé das pessoas de Gardenia que assistiam à batalha, colidiu com a escuridão do Círculo Negro. O choque de energias criou uma onda de vácuo que jogou todos para trás.

O portal implodiu, lançando faíscas de magia negra por toda parte. Os bruxos foram arremessados contra as árvores do parque. Roxy, já no limite de suas forças, foi jogada para longe das crianças, caindo pesadamente sobre a grama.

O silêncio caiu sobre o parque por alguns segundos, quebrado apenas pelos soluços das crianças e pelo som distante de sirenes.

Ogron foi o primeiro a se levantar. Ele limpou a poeira de seu sobretudo, os olhos varrendo o local até encontrar Roxy. Ela estava imóvel, a pequena fada de cabelos marsala parecia um pássaro ferido caído na terra.

— Vamos embora daqui! — exclamou Anagan, surgindo ao lado de Ogron. — As Winx estão se recuperando, e o portal foi selado. Não temos mais o que fazer hoje.

— Vão na frente — ordenou Ogron, a voz fria e inquestionável.

— O quê? Ogron, você enlouqueceu? — Gantlos se aproximou. — Pegue a fada agora! Ela está vulnerável, podemos drená-la no esconderijo!

Ogron caminhou até Roxy. Ele se ajoelhou ao lado dela, ignorando os gritos de protesto de seus companheiros. Suas mãos, que já haviam arrancado asas e vidas sem um pingo de remorso, tocaram o rosto de Roxy com uma hesitação que beirava a ternura. O sangue na testa dela ainda estava quente.

— Ela não sobreviveria ao transporte nas sombras — disse Ogron, sua voz baixa, quase inaudível para os outros bruxos. — O ferimento é profundo demais para a nossa magia negra estabilizar agora.

— E daí? Deixe que ela morra! — cuspiu Duman.

Ogron virou o rosto, e o brilho em seus olhos azul-cinzentos fez os outros três recuarem. Era o brilho de um predador que não aceitaria que ninguém tocasse em sua presa favorita.

— Eu disse para irem. Agora.

Relutantes, os outros três bruxos desapareceram em uma névoa escura.

Ogron voltou sua atenção para Roxy. Ele a pegou nos braços, sentindo como ela era leve e como seu corpo estava frio. A fada abriu os olhos por um breve segundo, a visão turva focando no rosto do homem que ela deveria odiar acima de tudo.

— Ogron... — sussurrou ela, tentando inutilmente erguer uma mão para afastá-lo. — As crianças... elas estão... seguras?

O bruxo sentiu um nó na garganta. Mesmo à beira da morte, ela se preocupava com os outros. Era uma bondade tão pura que o enojava e, ao mesmo tempo, o fascinava de uma maneira que ele não conseguia explicar.

— Elas estão bem, sua tola — respondeu ele, a voz rouca.

Ele ouviu o bater de asas acima deles. As Winx estavam descendo, com Bloom à frente, as mãos já brilhando com o fogo do dragão, prontas para atacar.

— Solte ela, Ogron! — gritou Bloom, a voz carregada de fúria.

Ogron levantou-se lentamente, mantendo Roxy protegida em seus braços. Ele encarou as seis fadas com sua arrogância habitual, mas não fez menção de lutar. Em vez disso, ele caminhou em direção a elas e, com um gesto calculado, entregou o corpo ferido de Roxy nos braços de Bloom e Flora, que correram para segurá-la.

— Ela está ferida na cabeça — disse Ogron, sua voz recuperando a frieza secular. — Seus ferimentos não foram causados por magia, mas por detritos físicos. Sua magia de luz terá mais facilidade em curá-la do que a minha.

As Winx ficaram paralisadas por um momento, chocadas com a atitude do líder do Círculo Negro.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou Stella, desconfiada, enquanto Flora já começava a aplicar um feitiço de cura nos ferimentos de Roxy. — Você poderia ter levado ela!

Ogron deu um passo para trás, a névoa negra começando a envolver suas pernas. Ele olhou para Roxy uma última vez, vendo o sangue parar de escorrer sob o toque de Flora.

— Eu quero o poder dela, fadas — disse ele, um sorriso cruel voltando aos lábios, embora seus olhos dissessem outra coisa. — E não há glória em roubar o poder de um cadáver. Digam à última fada da Terra para se recuperar rápido. A caçada ainda não terminou.

— Você é um monstro, Ogron! — Bloom disparou uma esfera de luz, mas o bruxo foi mais rápido, desaparecendo na escuridão antes que o ataque o atingisse.

No silêncio que se seguiu, Flora suspirou de alívio.

— Ela vai ficar bem, meninas. O corte foi feio e ela perdeu sangue, mas a consciência dela está estabilizando.

Roxy soltou um gemido baixo, a cor voltando lentamente às suas bochechas. Ela olhou para as amigas, a confusão ainda estampada em seu rosto.

— Ele... ele me entregou? — perguntou ela, a voz fraca.

— Sim — respondeu Bloom, trocando um olhar preocupado com Tecna. — Ele entregou você.

Roxy fechou os olhos novamente. Ela se lembrava do toque das mãos de Ogron. Não tinha sido o toque de um carrasco. Tinha sido firme e, de alguma forma bizarra, protetor. Enquanto as Winx a ajudavam a se levantar e a guiavam para longe dali, Roxy sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ferimento.

Ela odiava Ogron. Odiava o que ele representava e o que ele fazia. Mas, naquele momento, no fundo de sua mente turva, ela não conseguia parar de se perguntar por que o caçador mais cruel da história havia escolhido salvar a vida de sua presa mais valiosa.

Longe dali, no topo de um edifício abandonado, Ogron observava a ambulância e as fadas se afastarem. Ele tocou o próprio peito, onde o calor do corpo de Roxy ainda parecia persistir.

— O que você está fazendo comigo, fadinha? — murmurou ele para o vento frio da noite.

Ele sabia que seus companheiros iriam questioná-lo. Sabia que sua posição como líder poderia ser ameaçada por aquele momento de fraqueza. Mas, enquanto olhava para a palma de sua mão, ainda manchada com uma gota do sangue de Roxy, Ogron soube que a batalha pela Terra tinha se tornado algo muito mais pessoal.

Ele não queria apenas o poder dela. Ele queria a alma dela. E ele a queria viva para ver o momento em que ela finalmente entenderia que, no jogo entre a luz e a escuridão, às vezes o monstro é o único que realmente sabe como cuidar da beleza.

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