Roxy x Ogron
O Eco de Maryla e o Veredito do Gelo
A batalha final por Tir Nan Og havia terminado, mas o silêncio que se instalou sobre o reino das fadas da Terra era mais pesado do que o estrépito dos feitiços. O céu, outrora obscurecido pela magia negra do Círculo Negro, agora brilhava com uma alvorada dourada e purificadora. Morgana, a Rainha das Fadas, erguia sua tiara com uma solenidade triunfante, ladeada pelas Winx, cujas asas Believix ainda emanavam partículas de luz resplandecente.
Aos pés do trono de pedras antigas, os quatro Bruxos do Círculo Negro estavam subjugados. Correntes de pura energia mágica, tecidas pela convergência das fadas, prendiam seus pulsos e pernas. Gantlos rosnava, Anagan mantinha a cabeça baixa em uma fúria impotente, e Duman, enfraquecido, mal conseguia manter sua forma humana. No centro deles, Ogron permanecia ereto. Mesmo derrotado, seus olhos azul-cinzentos mantinham o brilho altivo e arrogante de um predador que se recusava a curvar a espinha.
Afastada do grupo principal, Roxy observava a cena. Ela não celebrava. Dentro de seu peito, um cataclismo silencioso transformava tudo o que ela julgava saber sobre si mesma. As barreiras de sua mente haviam ruído por completo após o choque da última convergência mágica. Ela não era apenas Roxy, a garota de dezenove anos de Gardenia que amava animais e trabalhava no Frutti Music Bar. Ela era, em cada fibra de sua alma imortal, Maryla.
As memórias de sua vida passada fluíam como um rio que transborda. Maryla fora uma ninfa, uma princesa de um reino esquecido pelo tempo, que existira eras antes de as fadas da Terra serem aprisionadas. Naquela época de crises e guerras antigas, ela possuíra uma aparência diferente: longos cabelos castanhos que cascateavam até a cintura e olhos de um lilás profundo, brilhantes como ametistas sob o sol. Mas a essência de seu coração permanecera intacta através dos séculos. Maryla amava a justiça, acreditava que estender a mão aos necessitados era o único dever real de quem detinha o poder.
E ela amara Ogron. Amara o homem que ele fora antes de se coroar com as trevas.
Roxy tocou a própria cabeça, sentindo o peso invisível de duas existências que agora dançavam em perfeita harmonia dentro dela. Ela amava sua vida em Gardenia, seu pai, seus novos poderes como fada dos animais; mas também reverenciava a sabedoria e o amor trágico de Maryla. No entanto, havia uma lacuna escura em suas lembranças. Ela não conseguia se recordar de como aquela vida antiga havia terminado. Quando tentava forçar a mente além do último abraço que dera em Ogron no palácio de pedra branca, só encontrava a sensação de um frio absoluto, uma névoa cinzenta e uma tristeza que parecia congelar sua alma. Uma memória perdida, guardada a sete chaves pelo tempo.
— Fadas da Terra, Winx, o dia da nossa justiça divina finalmente chegou! — anunciou Morgana, sua voz ecoando por todo o vale de Tir Nan Og. — Os caçadores tornaram-se os cativos. Pelo sofrimento de séculos, pelo roubo de nossas asas e pela corrupção de nosso mundo, o veredito é implacável. Eu abro o portal para a Dimensão Ômega!
Bloom deu um passo à frente, cruzando os braços, enquanto Tecna digitava comandos rápidos em seu dispositivo digital, sintonizando a frequência mágica necessária para rasgar o tecido da realidade. Um vento cortante e congelante começou a soprar do centro da clareira. A grama verde de Tir Nan Og começou a cobrir-se de geada instantaneamente quando uma fenda vertical de luz branca e azulada se abriu. Era o portal para a prisão de gelo eterno, o destino final dos piores criminosos do universo mágico.
— Não! — gritou Gantlos, tentando debater-se contra as correntes de luz que começavam a arrastá-lo em direção à fenda. — Ogron, faça alguma coisa!
O líder do Círculo Negro não respondeu ao chamado de seu aliado. Seus olhos estavam fixos em Roxy. Ele percebera a mudança nela. O modo como ela se posicionava, a inclinação de sua cabeça, a intensidade do olhar roxo que parecia, por breves momentos, refletir o lilás das noites do palácio de pedra branca. Ele sabia que ela se lembrara.
Roxy caminhou em direção aos prisioneiros. O vento de Ômega agitava seus cabelos marsala, mas ela não recuou.
— Roxy, afaste-se! — alertou Stella, dando um passo à frente. — É perigoso, o portal está instável!
— Deixem-na — interveio Bloom, segurando o braço de Stella. A fada da chama dragão olhou para Roxy com uma compreensão profunda e silenciosa. Ela sabia que aquela batalha não era apenas sobre o destino da Terra, mas sobre o desfecho de uma história que o tempo não conseguira apagar.
Roxy parou a poucos passos de Ogron. As correntes que o prendiam estalaram com a proximidade da magia animal dela, que agora ressoava com a antiga pulsação de uma ninfa.
— Maryla... — sussurrou Ogron, a arrogância de sua voz falhando por uma fração de segundo, substituída por uma rouquidão que carregava o peso de milênios de solidão.
— Eu me lembro de tudo, Ogron — disse ela, a voz firme, embora seus olhos estivessem marejados. — Lembro-me do palácio, da promessa que você me fez sob as tochas, de como o seu coração costumava ser quente antes de você se alimentar do medo das fadas. Eu sou Maryla e sou Roxy. E eu amo as duas vidas que o destino me deu.
Ogron soltou uma risada amarga, o peito arfando contra as amarras de energia.
— Então você vê o monstro que o seu precioso destino criou — disse ele, aproximando o rosto o máximo que as correntes permitiam. — Você vê o que eu tive que me tornar quando a sua luz se apagou.
— Há uma coisa que eu não lembro — continuou Roxy, dando mais um passo, ignorando o frio que emanava do portal às costas do bruxo. — Eu não lembro como morri. Só lembro do frio e de uma tristeza sem fim. O que aconteceu naquele dia, Ogron? Por que a minha mente escondeu o fim da nossa história?
O líder do Círculo Negro desviou o olhar pela primeira vez naquelas eras. Seus punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O portal de Ômega soltou um rugido, e Duman foi o primeiro a ser sugado pela fenda, desaparecendo no turbilhão de neve eterna, seguido rapidamente por Anagan e Gantlos, cujos gritos foram abafados pelo vento polar. Apenas Ogron permanecia, sua imensa força mágica resistindo por puro magnetismo à atração da prisão.
— Você quer saber? — perguntou Ogron, voltando a encará-la, e seus olhos azul-cinzentos estavam repletos da tempestade que ele guardara em segredo por séculos. — Você morreu congelada, Maryla. Naquela última crise, as fadas maiores de Tir Nan Og decidiram que o nosso reino era sacrificável para salvar o resto do mundo mágico. Elas invocaram uma barreira de gelo que extinguiu a vida de todas as ninfas. Eu implorei a elas. Eu me ajoelhei diante do trono de Morgana, implorando pela sua vida. E elas nos ignoraram. Disseram que era o "sacrifício necessário". Eu assisti o seu corpo de ninfa se transformar em uma estátua de cristal nos meus braços. O frio que você lembra... era o gelo delas. A tristeza... era a minha.
Roxy cobriu a boca com a mão, as lágrimas finalmente transbordando. A revelação caiu sobre ela como um golpe físico. O ódio de Ogron pelas fadas não nascera de uma ambição cega; nascera da dor de um homem que assistira à destruição de seu mundo pela negligência daqueles que se diziam seres de luz.
— Por isso eu jurei arrancar as asas de cada uma delas — continuou Ogron, a voz subindo de tom, competindo com o barulho do portal. — Eu criei o Círculo Negro para que nenhuma fada jamais tivesse o poder de decidir quem vive ou quem morre. Eu me tornei o caçador para vingar a ninfa que elas mataram!
— Mas você se tornou exatamente o que elas foram! — rebateu Roxy, a voz embargada pela emoção. — Você tirou vidas, destruiu famílias, espalhou o terror pela Terra! Ogron, olhe para mim! A vingança não me trouxe de volta. Eu demorei séculos para reencarnar porque a sua escuridão pesava sobre a minha alma, impedindo-me de achar o caminho de volta para a luz!
Ogron estacou. As palavras de Roxy pareceram atingi-lo com mais força do que qualquer feitiço de convergência das Winx.
— O meu ódio... prendeu você? — sussurrou ele, a expressão de horror genuíno quebrando sua máscara de vilão.
— Sim — disse ela, estendendo as mãos em direção a ele, as palmas brilhando com uma suave luz lilás e marsala. — Mas o destino nos deu uma segunda chance. Eu estou aqui. Eu sou a última fada da Terra, mas também sou a sua Maryla. Eu amo você, Ogron. Mas eu não posso seguir com o monstro de couro e magia negra. Eu não posso amar o líder do Círculo Negro.
O portal de Ômega deu um esturro violento, e as correntes que prendiam Ogron começaram a esticar-se ao limite. O poder de sucção da dimensão de gelo estava prestes a arrastá-lo.
— Você tem uma escolha agora — disse Roxy, as lágrimas correndo livres por seu rosto. — Você pode ir para Ômega com o seu orgulho, com o poder roubado que você acumulou por séculos e congelar na sua própria fortaleza de ódio. Ou você pode abandonar tudo o que conquistou. Renuncie à magia negra. Deixe que o Círculo Negro morra aqui hoje. Tente ser humano de novo. Um mago da justiça, o homem que eu amei no palácio de pedra branca. Se você escolher a redenção, eu prometo que esperarei por você. Eu lutarei pelo seu direito de viver entre nós.
Ogron olhou para as mãos de Roxy. Elas eram tão quentes, tão cheias daquela vida que ele passara séculos tentando replicar através do roubo e da crueldade. Ele olhou para trás, para a fenda branca de Ômega que prometia o fim de sua jornada de dor. Ele vira seus companheiros caírem. Ele sabia que, se entrasse ali como o líder do Círculo Negro, seria o fim de sua existência.
Séculos de poder. Séculos sendo o homem mais temido da Terra. Tudo o que ele construíra sobre as cinzas de seu passado parecia subitamente insignificante diante do par de olhos roxos que o encarava com uma esperança que ele não merecia.
— Se eu abandonar o que sou... — começou Ogron, a voz quase abafada pelo vento polar — ...eu serei apenas um homem fraco, Maryla. Um mortal sem passado e sem glória.
— Mas você terá a mim — respondeu ela, dando o último passo, permitindo que a ponta de seus dedos tocasse a pele fria do rosto dele. — E nós teremos um futuro.
As Winx e Morgana assistiam à cena em um silêncio absoluto. Até mesmo a Rainha das Fadas, tocada pela menção ao passado e pela dor legítima que testemunhava, não ousou intervir. O destino da última fada e do primeiro caçador estava sendo decidido não pela força, mas pelo livre arbítrio.
Ogron fechou os olhos. O calor do toque de Roxy penetrou através da névoa de magia negra que corria em suas veias como veneno. Ele lembrou-se do som da risada de Maryla no jardim de lótus, um som que ele trocara pelo grito de agonia das fadas que caçara. Ele sentiu o peso de seus crimes, a podridão de sua imortalidade artificial.
Ele não queria mais caçar. Ele estava cansado de odiar.
— Que o destino me perdoe pela minha fraqueza — murmurou Ogron.
Com um rugido de esforço mental, Ogron abriu os braços. De seu peito, uma explosão de energia purpúrea e escura foi expelida violentamente. Era a essência do Círculo Negro, os séculos de magia roubada, o poder que o mantivera vivo e terrível. A energia escura voou diretamente para o centro do portal de Ômega, sendo tragada instantaneamente pela dimensão de gelo.
O sobretudo de couro de Ogron desintegrou-se em cinzas, substituído por vestes simples e escuras. Seus cabelos vermelhos vivos pareceram perder o brilho sobrenatural, tornando-se de um tom mais fosco e humano. Suas feições maduras suavizaram-se, e o brilho cruel de seus olhos azul-cinzentos deu lugar a uma profundidade calma e cansada. As correntes de luz que o prendiam desapareceram, pois não havia mais magia negra para conter.
Ogron caiu de joelhos na grama de Tir Nan Og, ofegante, os braços apoiados no chão. Ele era, agora, apenas um mago sem o poder do Círculo, um homem que escolhera a mortalidade e a chance de redenção.
O portal de Ômega fechou-se com um estalo ensurdecedor, deixando para trás apenas o silêncio da manhã e o aroma de flores que começava a retornar ao vale.
Roxy ajoelhou-se imediatamente diante dele, envolvendo-o em um abraço apertado. Ogron hesitou por um segundo, suas mãos humanas e trêmulas subindo lentamente para retribuir o abraço, enterrando o rosto nos cabelos marsala da fada.
— Você conseguiu — sussurrou ela, chorando de alívio contra o peito dele, que agora batia com o ritmo compassado e quente de um coração mortal. — Você voltou para mim.
— Eu não sei como ser esse homem, Roxy... — confessou ele, a voz baixa, despida de toda a arrogância secular. — Eu esqueci como caminhar sob a luz sem querer queimá-la.
— Nós vamos aprender juntos — disse ela, afastando-se um pouco para olhar nos olhos dele, sorrindo através das lágrimas. — Maryla e Roxy... nós temos muito tempo para te ensinar.
Morgana aproximou-se lentamente, observando o ex-líder do Círculo Negro com uma expressão severa, mas justa.
— Ogron renunciou às suas trevas, mas o caminho para a sua absolvição perante o reino das fadas será longo — declarou a Rainha. — Ele permanecerá sob a custódia de Tir Nan Og, trabalhando para restaurar a magia que ajudou a destruir. Ele será um mago da justiça, ou enfrentará o julgamento da Terra.
— Eu aceito o veredito, Majestade — disse Ogron, levantando-se com a ajuda de Roxy, mantendo a mão dela firmemente entrelaçada na sua. Pela primeira vez em séculos, ele olhou para a Rainha das Fadas sem ódio.
Bloom e as outras Winx aproximaram-se, cercando o casal. A fada de Domino sorriu, colocando a mão no ombro de Roxy.
— A luz da Terra está completa agora, Roxy. Você salvou mais do que o reino. Você salvou o coração do seu inimigo.
Enquanto o grupo começava a caminhar de volta para o palácio de Tir Nan Og, Roxy olhou para o horizonte. O sol agora brilhava forte, dissipando qualquer vestígio do frio de Ômega. Ela sabia que os dias que viriam seriam difíceis, que o passado de Ogron não seria apagado facilmente e que o mundo humano em Gardenia ainda a esperava.
Mas, enquanto sentia o calor da mão de Ogron contra a sua, a última fada da Terra e a antiga ninfa souberam que, no grande jogo entre a luz e as sombras, o amor finalmente havia escrito o seu próprio final.