Roxy x Ogron
O Cálice de Luz e o Veneno do Destino
A noite em Gardenia estava estranhamente silenciosa, mas o sono de Roxy era tudo menos pacífico. Sob o edredom, sua respiração era curta e rápida, as pálpebras tremendo enquanto sua mente era arrastada para longe do presente, para um lugar onde o cheiro de maresia era substituído pelo perfume pesado de incenso e flores de lótus que não existiam mais na Terra moderna.
Em sua visão, Roxy não vestia seus jeans ou suas camisetas coloridas. Ela sentia o roçar de seda finíssima contra a pele, um vestido longo de cor marfim com bordados de fios de ouro que cintilavam sob a luz de tochas. O cenário era um palácio de pedra branca, cujas varandas se abriam para um reino verdejante e místico, um mundo onde a magia não era um segredo, mas a própria respiração da vida.
— Você sempre se perde observando o horizonte — disse uma voz profunda, carregada de uma ternura que Roxy nunca ouvira na vida real, mas que reconheceu instantaneamente em sua alma.
Ela se virou e seu coração deu um solavanco. Não era o Ogron caçador, o homem de couro e olhares cruéis. Era um homem mais jovem, embora com a mesma imponência madura, vestindo túnicas nobres de um vermelho profundo. Seus cabelos ruivos estavam presos por um aro de prata e seus olhos azul-cinzentos transbordavam um amor tão absoluto que Roxy sentiu vontade de chorar.
— O mundo é belo demais para não ser admirado, meu amor — respondeu ela, e a voz que saiu de seus lábios era a dela, mas carregada de uma sabedoria milenar.
O homem se aproximou, envolvendo-a em um abraço que exalava calor e proteção. Ele beijou o topo de sua cabeça, e Roxy sentiu uma paz que transcendia qualquer coisa que já experimentara. Aquilo não era um sonho comum. Era uma memória de sangue, um eco de uma vida anterior onde ela não era a "última fada da Terra", mas a companheira de um homem que daria o mundo a ela.
— Eu prometo — sussurrou ele contra seu ouvido — que nada, nem o tempo, nem os deuses, nos separará. Minha magia será o seu escudo, e a sua luz será a minha bússola.
A cena mudou bruscamente. O palácio estava em chamas. Roxy sentiu uma dor lancinante, não física, mas na alma, como se estivesse sendo arrancada da própria existência. Viu aquele mesmo homem, agora desesperado, ajoelhado sobre um corpo que ela sabia ser o seu. O grito de agonia dele rasgou o véu do tempo, e ela viu a luz nos olhos dele se apagar, sendo substituída por uma sombra densa, fria e devoradora.
— Se a luz não pôde salvá-la — rugiu ele para o céu escurecido —, então as sombras serão o meu reino até que eu a encontre novamente!
Roxy acordou em um solavanco, sentando-se na cama com o rosto banhado em suor e lágrimas. Arthur, seu cão fiel, soltou um ganido preocupado ao pé da cama.
— Foi real, Arthur... — sussurrou ela, abraçando os próprios joelhos. — Não foi uma invasão mental dele. Foi... eu. Eu estava lá.
Enquanto isso, em uma estrutura abandonada nos limites da cidade, Ogron estava desperto, sentado em uma poltrona de veludo gasto, observando a lua. Ele não precisava dormir tanto quanto os humanos, mas quando o fazia, o passado o caçava com a mesma ferocidade com que ele caçava as fadas.
Ele sentia o gosto amargo daquela memória. Lembrava-se do nome dela — um nome que a história apagara, mas que seu coração negro ainda pulsava. Lembrava-se de como o Círculo Negro não fora um plano de dominação mundial no início, mas um pacto desesperado de quatro homens que perderam tudo o que amavam para a negligência das fadas maiores e para a crueldade do destino. Ele se tornara um bruxo para desafiar a morte, para encontrar a alma que lhe fora roubada.
— Séculos... — murmurou Ogron, apertando os braços da poltrona até a madeira estalar. — Séculos drenando asas, acumulando poder, transformando-me em um monstro para que, quando você voltasse, eu fosse forte o suficiente para nunca mais perdê-la.
Ele fechou os olhos e viu o rosto de Roxy. A fada de cabelos marsala era a imagem cuspida da mulher que ele amara, mas com uma pureza que o irritava e o atraía simultaneamente. Ela renascera como uma fada da Terra, a própria espécie que ele jurara destruir em sua busca por poder e vingança. O destino era um mestre cruel e irônico.
— Por isso o Círculo Branco não me destruiu quando a toquei no beco — concluiu ele em um sussurro sombrio. — A magia dela me reconhece.
Na manhã seguinte, Roxy não conseguiu ficar em casa. A confusão em seu peito era sufocante. Ela precisava ver Ogron, mas não como uma fada enfrentando um vilão. Ela precisava saber se ele também sabia.
Ela caminhou até a praia, para o mesmo local isolado onde se encontraram na noite anterior. O sol estava alto, mas o vento era frio. Ela não precisou esperar muito. Ele apareceu, não das sombras, mas caminhando pela areia, como se estivesse esperando por ela.
— Você tem um olhar diferente hoje, fadinha — disse Ogron, parando a alguns metros. Sua voz era desprovida da ironia habitual.
— Eu vi — disse Roxy, a voz trêmula, mas firme. — Eu vi o palácio de pedra branca. Eu vi o homem que usava prata nos cabelos e que me amava.
Ogron estacou. O ar ao redor dele pareceu vibrar com uma energia negra e instável. Ele deu um passo à frente, a expressão oscilando entre a esperança dolorosa e a fúria defensiva.
— Você não deveria se lembrar — disse ele, a voz rouca. — Aquela vida acabou em cinzas.
— Por que você fez isso, Ogron? — Roxy deu um passo em direção a ele, as lágrimas começando a cair. — Por que transformou aquele amor em tanto ódio? Eu vi como você era. Você era nobre, você era luz!
— A luz não impediu que você morresse nos meus braços! — rugiu ele, e a areia ao redor deles explodiu com o impacto de sua magia. — As fadas daquela era olharam para a nossa dor e disseram que era o "ciclo natural". Elas não moveram um dedo para salvar a mulher que era a alma deste mundo!
Roxy parou diante dele, a centímetros de distância. Ela não sentia medo. Sentia uma tristeza profunda que parecia vir de camadas muito abaixo de sua consciência atual.
— Então você decidiu se tornar o que mais odiava? — perguntou ela, estendendo a mão. — Você passou séculos roubando a magia de outros para compensar a magia que perdeu comigo?
Ogron segurou o pulso dela, mas não para machucá-la. Ele a puxou para perto, seus olhos buscando nos dela a confirmação de que aquela alma ainda era a mesma.
— Eu me tornei um monstro para que pudesse governar o mundo onde você renasceria — confessou ele, a voz caindo para um sussurro quebrado. — Mas você renasceu como uma delas. Uma fada. A ironia é o veneno mais doce do destino, não acha?
— Eu sou Roxy — disse ela, com firmeza. — Eu tenho as memórias dela, eu sinto o amor que ela sentia por você, mas eu sou a fada que protege esta terra. Eu não posso aceitar o que você se tornou.
Ogron soltou um riso amargo, soltando o pulso dela e dando as costas para o mar.
— E o que você sugere, Roxy? Que eu peça perdão? Que eu devolva as milhares de asas que arranquei e que agora formam a essência da minha imortalidade? Eu sou o veneno, e você é o cálice de luz. Se nos misturarmos, um de nós deixará de existir.
— Você me salvou no parque porque sabia — afirmou ela, ignorando a pergunta dele.
— Eu salvei você porque a minha alma me traiu — retrucou ele, virando-se novamente, o rosto endurecido pela máscara de vilão. — Mas não se engane. O Círculo Negro ainda tem um propósito. Meus companheiros não compartilham do meu... sentimentalismo. Eles querem o seu poder, e se eu não o entregar, eles me derrubarão.
— Então lute contra eles! — exclamou Roxy. — Lute por quem você era!
Ogron aproximou-se dela novamente, mas desta vez, ele a envolveu em um abraço possessivo e desesperado. Roxy sentiu o cheiro de couro e magia antiga, e por um momento, o sótão do Frutti Music Bar e as Winx pareceram a milhões de quilômetros de distância. Ela retribuiu o abraço, enterrando o rosto no peito dele, sentindo o conflito violento que emanava do bruxo.
— Eu passei séculos esperando por você — murmurou Ogron, os lábios roçando a orelha dela. — E agora que você está aqui, você é a única coisa que pode me destruir.
— Ou a única coisa que pode te salvar — respondeu ela, olhando para ele.
Ogron segurou o rosto de Roxy com as duas mãos. Ele a beijou, mas não foi como o beijo da festa, que fora um desafio. Este beijo era um lamento. Era o reconhecimento de duas almas que se encontraram através do tempo, apenas para descobrir que o abismo entre elas fora cavado pelo próprio homem que prometera protegê-la.
— O destino nos deu um reencontro, Roxy — disse ele, afastando-se lentamente, seus olhos azul-cinzentos brilhando com uma determinação sombria. — Mas ele não nos deu um final feliz.
— Nós podemos criá-lo — disse ela, estendendo a mão novamente.
Ogron olhou para a mão dela, a mão de uma fada, pura e cheia de luz. Ele olhou para as suas próprias mãos, manchadas por séculos de atrocidades.
— Algumas coisas são quebradas demais para serem consertadas — disse ele. — Mas eu prometo uma coisa: enquanto eu respirar, ninguém além de mim tocará em você. Nem as Winx, nem o Círculo Negro. Você é a minha obsessão, a minha memória e a minha ruína.
Ele se dissolveu em sombras antes que ela pudesse dizer outra palavra. Roxy ficou sozinha na praia, o vento agitando seus cabelos marsala. Ela olhou para o mar e, pela primeira vez, a magia dentro dela não parecia apenas um dom animal, mas uma herança de um tempo onde o amor fora forte o suficiente para criar um monstro e, quem sabe, forte o suficiente para trazer um homem de volta das sombras.
— Eu vou te encontrar, Ogron — sussurrou ela para o horizonte. — Não o bruxo. O homem que me amava no palácio de pedra branca.
A guerra entre as fadas e os bruxos continuaria, mas agora, no centro do furacão, havia uma verdade que mudava tudo. O caçador não estava mais caçando uma presa; ele estava tentando desesperadamente não ser consumido pela luz da única alma que ele jurara nunca mais perder, mesmo que isso significasse a destruição de tudo o que ele se tornara.
O Cálice de Luz e o Veneno do Destino haviam se encontrado, e Gardenia, em toda a sua simplicidade humana, era agora o palco de um drama épico que começara muito antes do primeiro grito de uma fada da Terra. E Roxy sabia, no fundo de seu coração, que a batalha final não seria decidida por feitiços, mas pela força de uma memória que se recusava a morrer.