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Run

O Labirinto de Vidro e Areia

O som do vento uivando entre as frestas das janelas quebradas era o único consolo de Angel enquanto ela limpava o cano de seu fuzil. A adrenalina do confronto com os Crâncks ainda corria em suas veias, mas era a presença de Thomas que realmente a deixava em alerta. Ela sentia o peso do olhar dele sobre as suas costas, mesmo sem precisar se virar.

Jorge estava em um canto, conferindo os mapas digitais em um monitor antigo que piscava com uma luz azulada e doentia. Brenda, por sua vez, observava os recém-chegados com uma desconfiança pragmática. Mas Angel... Angel operava em outra frequência. Para ela, cada segundo que passavam parados era um segundo a menos antes de Janson cercar o perímetro.

— Você mexe nisso como se tivesse nascido com uma arma na mão — a voz de Thomas ecoou no recinto, fazendo Angel parar o movimento da flanela sobre o metal frio.

Ela se virou lentamente, encostando-se na mesa de metal. A luz fraca do entardecer realçava os traços de seu rosto — a mandíbula firme, os olhos castanhos que pareciam ler a alma de Thomas, e a postura de quem não daria um passo atrás nem para um tanque de guerra.

— No meu caso, Thomas, eu fui obrigada a aprender — ela respondeu, o sarcasmo habitual dando lugar a uma nota de amargura. — O "Homem-Rato" acredita em educação prática. Se você não sabe se defender, você é descartável. E ele detesta desperdiçar recursos.

Thomas deu alguns passos à frente, parando a uma distância segura, mas próxima o suficiente para notar a pequena cicatriz perto da têmpora da garota.

— Você disse que me conhecia. De antes. No complexo.

— Eu via você — Angel admitiu, voltando a montar a arma com uma velocidade impressionante. — Você e a Teresa. Vocês eram os garotos de ouro da CRUEL. Os prodígios que iam salvar o mundo enquanto o resto de nós limpava o sangue dos experimentos do chão.

— Eu não me lembro de ser especial — Thomas murmurou, franzindo o cenho. — Eu só me lembro de querer sair de lá.

Angel soltou um riso seco, jogando o fuzil sobre o ombro.

— É por isso que eu sempre achei você interessante. Enquanto todo mundo baixava a cabeça para as ordens do meu pai, você tinha esse olhar... como se estivesse sempre procurando a saída de emergência.

Ela se aproximou dele, ignorando o fato de que Newt e Minho os observavam de longe.

— Mas a Teresa... — Angel baixou o tom, seus olhos faiscando ao encontrar os de Teresa do outro lado da sala. — Ela não procurava a saída. Ela ajudava a construir as paredes.

— Ela mudou, Angel — Thomas defendeu, embora houvesse uma incerteza em sua voz que não passou despercebida pela garota. — Ela passou pelo Labirinto. Ela sofreu tanto quanto nós.

— O Labirinto não muda quem você é no fundo, Thomas. Ele só tira as camadas superficiais. E por baixo de tudo, Teresa ainda é a menina que faria qualquer coisa para agradar o Janson se achasse que isso salvaria a própria pele ou uma ideia abstrata de "cura".

Antes que Thomas pudesse retrucar, Jorge bateu com a mão na mesa, chamando a atenção de todos.

— Chega de reunião de família! — exclamou Jorge. — Temos movimento no radar. Três naves de transporte da CRUEL, vindo do norte. Eles estão seguindo o sinal do rastreador de vocês.

— Nós tiramos os rastreadores! — Minho protestou, dando um passo à frente.

— Talvez não todos — Angel interveio, seus olhos fixos em Teresa, que desviou o olhar imediatamente. — Ou talvez alguém tenha deixado um rastro de migalhas de pão.

— O que você está sugerindo? — Teresa perguntou, sua voz soando frágil e ofendida.

— Estou sugerindo que você é um perigo para este grupo — Angel caminhou até ela, a postura predatória. — E se eu encontrar um único transmissor escondido em você, Teresa, eu mesma te jogo do alto deste prédio antes que o Janson possa dizer "C.R.U.E.L. é boa".

— Angel! — Jorge advertiu. — Agora não. Brenda, pegue os suprimentos. Vamos para os túneis. Se ficarmos aqui, seremos encurralados.

A confusão se instalou rapidamente. O grupo de Clareanos começou a se movimentar sob as ordens de Brenda, mas Thomas permaneceu parado por um segundo, olhando para Angel. Ele estava dividido entre a memória nebulosa de Teresa e a força magnética e perigosa da garota à sua frente.

— Por que você fugiu? — Thomas perguntou de repente, no meio do caos. — Se você era filha dele, você tinha tudo. Comida, segurança, poder.

Angel parou na porta, olhando para trás sobre o ombro.

— Eu prefiro morrer de sede no Deserto do que viver de joelhos no paraíso de um psicopata. E eu fugi porque vi o que eles iam fazer com você, Thomas. Eu tentei te avisar, na época. Mas você só tinha olhos para ela.

Aquelas palavras atingiram Thomas como um soco físico. Ele não se lembrava do aviso, mas sentia a verdade nelas. Angel não esperou por uma resposta; ela saiu em direção às escadas, liderando o caminho com uma confiança que ele nunca vira em ninguém.

Eles desceram pelas entranhas do edifício, um labirinto de concreto e ferro retorcido. O som das hélices das naves da CRUEL já podia ser ouvido acima deles, um zumbido constante e ameaçador.

— Mantenham-se baixos e em silêncio! — Angel comandou, sinalizando para que o grupo parasse em uma bifurcação. — Jorge, leve os outros pelo duto de ventilação secundário. Eu e o Thomas vamos distraí-los pelo saguão principal.

— O quê? Nem pensar! — Thomas protestou. — Eu não vou deixar o grupo.

— Você é o que eles querem, gênio — Angel disse, revirando os olhos. — Se eles virem você correndo para o sul, vão concentrar as buscas lá. Jorge leva o resto para o esconderijo nas montanhas. É a nossa única chance de não sermos todos capturados de uma vez.

— Ela tem razão, Thomas — Newt disse, colocando a mão no ombro do amigo. — A gente se encontra no ponto de extração.

Thomas olhou para Angel. Ela estava verificando a carga de sua pistola, o rosto iluminado apenas por uma lanterna de emergência vermelha. Ela parecia uma fênix surgindo das cinzas do velho mundo.

— Se morrermos, eu vou te caçar no inferno por ter me convencido disso — Thomas murmurou.

— Se morrermos, eu te pago uma bebida lá — Angel retrucou com um sorriso de canto, aquele sarcasmo que, de alguma forma, era a única coisa que mantinha o medo de Thomas sob controle.

Eles se separaram. Angel e Thomas correram pelos corredores escuros, o som de botas batendo no chão ecoando como tiros. Atrás deles, as luzes das naves varriam as janelas, transformando as sombras em monstros gigantescos.

— Por aqui! — Angel puxou Thomas para dentro de uma sala de escritórios destruída. — Eles vão entrar pelo telhado e pelo térreo. Temos que chegar à tirolesa que o Jorge instalou no bloco B.

— Tirolesa? Você está brincando? — Thomas perguntou, ofegante.

— Alguma ideia melhor? — ela rebateu, parando bruscamente quando a porta à frente explodiu em estilhaços.

Soldados da CRUEL, vestindo armaduras brancas e pretas, invadiram o local. Angel não hesitou. Ela disparou com precisão cirúrgica, derrubando os dois primeiros antes que pudessem levantar suas armas de choque.

— Abaixa! — ela gritou, empurrando Thomas para trás de uma mesa de metal enquanto uma saraivada de tiros elétricos passava sobre suas cabeças.

— Você atira muito bem para uma "filha de papai"! — Thomas gritou de volta, pegando um pedaço de entulho e lançando-o para distrair um dos soldados enquanto ele avançava para desarmá-lo.

— Eu disse para não me chamar assim! — Angel disparou novamente, atingindo o ombro de um guarda que tentava flanquear Thomas.

Eles lutaram lado a lado, uma dança coreografada pelo instinto e pela necessidade de sobrevivência. Thomas ficou impressionado com a ferocidade de Angel. Ela não era apenas habilidosa; ela era implacável. Havia uma raiva contida em cada movimento seu, uma fúria direcionada não apenas aos soldados, mas ao sistema que eles representavam.

Finalmente, eles alcançaram a borda do bloco B. O abismo entre os edifícios era assustador, e um cabo de aço solitário se estendia até a estrutura vizinha, desaparecendo na escuridão.

— Você primeiro — Angel disse, entregando-lhe um gancho improvisado.

— E você?

— Eu vou logo atrás. Agora vai, antes que o Janson decida explodir o prédio inteiro!

Thomas prendeu o gancho e se lançou no vazio. O vento açoitava seu rosto e a adrenalina era quase paralisante. Segundos depois, ele sentiu o impacto ao chegar ao outro lado, rolando sobre o concreto áspero. Ele se levantou rapidamente, olhando para trás.

Angel estava prestes a pular quando a porta atrás dela se abriu. Janson entrou, acompanhado por quatro guardas. Ele não disparou. Ele apenas parou, observando a filha com um olhar de decepção gélida.

— Angel — a voz de Janson, amplificada pelo comunicador, era calma e aterrorizante. — Já chega dessa rebeldia. Volte para casa. Você sabe que não há cura lá fora. Só a morte.

Angel parou na beirada, o vento agitando seus cabelos. Ela olhou para o pai, e Thomas, do outro lado, prendeu a respiração.

— A morte é melhor do que ser parte do que você se tornou, "pai" — Angel disse, a voz firme como aço. — Você não está salvando o mundo. Você está apenas tentando ser o dono das cinzas.

— Eu fiz tudo por você — Janson mentiu, dando um passo à frente.

— Você fez tudo por si mesmo. E agora, você vai perder o seu maior troféu.

Angel olhou para Thomas do outro lado do abismo. Por um breve momento, a barreira de sarcasmo caiu, e ele viu a garota que, anos atrás, o observava com esperança.

— Pega! — ela gritou, lançando algo no ar enquanto se jogava no cabo.

Janson ordenou que os guardas não atirassem nela, mas o atraso foi o suficiente. Angel deslizou pelo cabo com uma graça perigosa, aterrissando pesadamente ao lado de Thomas. Ele a segurou pelos ombros, ajudando-a a se levantar.

— Você está bem? — ele perguntou, a preocupação genuína em seus olhos.

— Já estive melhor — ela resmungou, limpando o sangue de um corte no braço. — Mas ver a cara do meu pai quando eu pulei... valeu cada centímetro dessa queda.

Eles não perderam tempo. Correram para as escadas do novo edifício, descendo em direção ao nível da rua, onde o Deserto os esperava. As naves da CRUEL circulavam o prédio anterior, mas a poeira e o labirinto de prédios em ruínas lhes davam uma vantagem temporária.

— O que você jogou para ele? — Thomas perguntou enquanto corriam.

— Um rastreador — Angel sorriu, um brilho travesso nos olhos. — Mas não um dos deles. Um que o Jorge modificou. Vai mandar o sinal deles para uma colônia de Crâncks a cinco quilômetros daqui. Vai mantê-los ocupados por um tempo.

Thomas soltou uma risada curta, uma mistura de alívio e admiração.

— Você é incrível.

Angel parou por um segundo, olhando para ele. O elogio pareceu pegá-la de surpresa, algo que raramente acontecia.

— Não se acostume com isso, Thomas. Ainda temos que atravessar o Deserto e encontrar o resto do grupo. E eu ainda não confio na sua namoradinha.

— Ela não é minha namorada — Thomas esclareceu rapidamente.

— Ótimo — Angel disse, voltando a correr. — Porque eu odeio ter que dividir munição com gente que não sabe de que lado está.

Eles alcançaram o solo e se embrenharam nas dunas, as sombras da noite começando a cobrir o mundo. Thomas olhava para Angel e sentia que, pela primeira vez, tinha uma chance real. Ela conhecia o inimigo por dentro. Ela conhecia os segredos que estavam trancados em sua própria mente.

Mas, enquanto caminhavam sob o céu estrelado do Deserto, Angel não conseguia tirar o rosto de Teresa da cabeça. Ela sabia que a traição não era uma questão de "se", mas de "quando". E ela jurou a si mesma que, quando esse momento chegasse, ela estaria pronta para proteger Thomas, mesmo que precisasse enfrentar o mundo inteiro — e o próprio sangue — para isso.

— Thomas — ela chamou baixinho, sem parar de caminhar.

— Sim?

— Se algum dia eu parecer que estou hesitando... se algum dia o meu pai tentar me usar contra você... não hesite. Continue correndo.

Thomas parou e a segurou pelo braço, forçando-a a olhar para ele.

— Eu não vou deixar ninguém para trás, Angel. Nem você. Especialmente você.

Angel sustentou o olhar dele por um longo tempo. O sarcasmo morreu em seus lábios. Ela apenas assentiu, uma promessa silenciosa sendo selada entre os dois em meio à areia e ao silêncio.

A guerra estava apenas começando, e as cicatrizes do passado eram apenas o mapa para o campo de batalha que viria a seguir. Mas ali, no escuro do Deserto, Thomas e Angel eram mais do que peças em um tabuleiro da CRUEL. Eles eram o fogo que ameaçava queimar todo o sistema.

— Vamos — Angel disse enfim, recuperando sua postura. — Temos um mundo para derrubar. E eu odeio chegar atrasada para uma demolição.