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O Eco das Sombras no Deserto

A noite no Deserto não era apenas escura; era uma entidade viva, fria e impiedosa que parecia sugar o fôlego de qualquer um que ousasse desafiá-la. Angel caminhava na frente, seus passos leves e precisos sobre a areia instável, enquanto Thomas a seguia, tentando manter o ritmo. O silêncio entre eles era preenchido apenas pelo som da respiração ofegante e pelo tilintar metálico das armas de Angel.

— Você está muito silencioso, Thomas — Angel disse, sem olhar para trás. — O peso da realidade está finalmente esmagando sua esperança cristã de que tudo vai ficar bem?

— Eu só estou pensando — ele respondeu, limpando o suor frio da testa. — No que você disse sobre a Teresa. E sobre o seu pai. Como você conseguiu fugir dele? Janson não parece o tipo de homem que deixa as coisas escaparem.

Angel parou abruptamente e se virou. A luz da lua minguante batia em seu rosto, acentuando a dureza de sua expressão.

— Ele não deixa. Eu tive que morrer para ele primeiro. Queimei metade de um laboratório, deixei um rastro de sangue que não era meu e pulei de uma conduta de lixo para o vazio. Jorge me encontrou nos arredores da Zona de Queimadura, quase sem pele e com uma febre que deveria ter me matado.

— Ele te salvou — Thomas constatou, sentindo uma pontada de gratidão pelo homem rabugento que os liderava.

— Ele me deu um propósito — ela corrigiu, voltando a andar. — Ele e a Brenda. Eles me ensinaram que o mundo não acaba onde a CRUEL diz que acaba. Mas o Janson... ele nunca parou de me procurar. Para ele, eu sou uma falha na equação. E ele odeia erros.

Eles continuaram avançando até avistarem o brilho fraco de uma fogueira escondida entre as carcaças de aviões abandonados. Era o ponto de encontro. Ao se aproximarem, as silhuetas de Newt, Minho e os outros começaram a se definir. Brenda foi a primeira a se levantar, com a mão no coldre, relaxando apenas quando reconheceu a silhueta inconfundível de Angel.

— Demoraram — Brenda comentou, cruzando os braços. — Achei que tivessem virado jantar de Crânck ou, pior, decoração no escritório do seu pai.

— O "Homem-Rato" vai precisar de mais do que alguns guardas de choque para me levar de volta — Angel retrucou, sentando-se em uma caixa de metal e começando a conferir sua munição novamente.

Thomas se aproximou do grupo, mas seus olhos buscaram Teresa. Ela estava sentada um pouco afastada, envolta em um cobertor puído, olhando para as chamas com uma expressão vazia. Ele sentiu o impulso de ir até ela, mas as palavras de Angel ecoavam em sua mente como um aviso constante: "Ela se lembra de mais do que diz".

— Vocês estão bem? — Newt perguntou, sentando-se ao lado de Thomas. — A Angel... ela é meio assustadora, não é?

— Ela é necessária, Newt — Thomas repetiu a frase que dissera antes, mas desta vez com mais convicção. — Ela sabe coisas que nós nem imaginamos.

— Ela sabe como o inimigo pensa porque ela tem o sangue dele — Minho interveio, aproximando-se com um pedaço de ração seca. — Isso é uma faca de dois gumes, Thomas. Ela pode ser nossa maior aliada ou o nosso maior problema se o Janson decidir usar algum tipo de conexão familiar.

— Não existe conexão — a voz de Angel cortou a conversa, fria e cortante. Ela nem sequer tinha levantado os olhos da arma. — O único laço que tenho com aquele homem é o ódio. E o ódio é um combustível muito mais estável do que o amor, Minho.

O silêncio caiu sobre o grupo. Angel se levantou e caminhou em direção a Teresa. O ar parecia ficar mais denso a cada passo que ela dava. Thomas se levantou instintivamente, mas Brenda colocou a mão em seu peito, impedindo-o.

— Deixe-as — sussurrou Brenda. — Isso é algo que começou muito antes de você sair daquela Caixa.

Angel parou diante de Teresa, fazendo sombra sobre a garota.

— O fogo está bom, não está? — Angel perguntou, o sarcasmo pingando de suas palavras. — Quase faz você esquecer que estamos no meio do nada, fugindo de pessoas que você costumava chamar de colegas.

Teresa ergueu os olhos. Havia uma calma perturbadora em seu rosto.

— Você sempre foi amarga, Angel. Mesmo quando éramos crianças. Você via conspirações em cada corredor.

— E eu estava certa, não estava? — Angel se inclinou, ficando cara a cara com ela. — Enquanto você tomava chá com os pesquisadores e discutia a "salvação da espécie", eu via os corpos sendo descartados. Eu via as crianças que não sobreviviam aos testes. Eu vi o que vocês fizeram com o Thomas antes de mandarem ele para o Labirinto.

Teresa franziu o cenho, uma sombra de dúvida cruzando seus olhos.

— Eu não me lembro disso.

— Mentira — Angel sibilou. — Eu conheço esse olhar, Teresa. É o olhar de quem está calculando o próximo movimento. Você sabe que o Thomas é a chave. E você sabe que o meu pai não vai parar até tê-lo de volta. A pergunta é: quanto tempo vai levar até você nos vender para garantir o seu lugar ao lado dele de novo?

— Eu nunca faria isso! — Teresa exclamou, levantando-se. — Eu quero a cura tanto quanto qualquer um. O mundo está morrendo, Angel!

— O mundo já morreu! — Angel gritou de volta, sua voz ecoando pelas carcaças de metal. — O que sobrou são apenas abutres brigando pelos ossos. E você é um deles.

Thomas interveio, colocando-se entre as duas.

— Angel, chega! Não temos tempo para isso. Temos que nos mover ao amanhecer.

Angel olhou para Thomas, e por um segundo, a fúria em seus olhos vacilou, substituída por uma dor profunda que ela tentava esconder sob camadas de cinismo.

— Você é um tolo, Thomas — ela disse baixinho. — Um tolo corajoso, mas ainda um tolo. Ela vai quebrar seu coração, e eu vou ter que juntar os pedaços enquanto tento manter sua cabeça no lugar.

Ela deu as costas e caminhou para a extremidade do acampamento, desaparecendo na escuridão para fazer a primeira vigília.

As horas passaram devagar. O grupo acabou pegando no sono, exaustos pela fuga e pelo calor do dia anterior. Thomas, no entanto, não conseguia fechar os olhos. Ele se levantou e caminhou até onde Angel estava, sentada no topo de uma asa de avião destruída, observando o horizonte com um binóculo de visão noturna.

— Não consegue dormir? — ela perguntou, sem desviar o olhar.

— Difícil com tanta coisa na cabeça — ele respondeu, subindo e sentando-se ao lado dela. — Você realmente me via lá? Na CRUEL?

Angel baixou o binóculo e suspirou, deixando a guarda cair por um momento.

— Todos os dias. Você era diferente dos outros sujeitos de teste. Você não parecia quebrado. Mesmo quando eles te levavam para as sessões de extração, você voltava com aquele olhar de desafio. Eu costumava roubar arquivos sobre você. Sabia que você gostava de desenhar?

Thomas ficou surpreso.

— Desenhar? Eu não... eu não lembrava disso.

— Você desenhava labirintos — ela deu um sorriso triste. — Irônico, não? Eu costumava pensar que, se eu pudesse falar com você, nós poderíamos fugir juntos. Mas eu era apenas a filha do diretor, e você era o experimento A2.

— Por que não falou comigo?

— Teresa — Angel disse o nome como se fosse um veneno. — Ela estava sempre lá. Ela me disse que você a amava, que vocês tinham um plano. Ela me fez acreditar que eu era invisível para você. E, olhando para você agora, protegendo ela... eu vejo que ela não estava totalmente errada.

Thomas olhou para as próprias mãos, sentindo o peso daquela revelação.

— Eu não sei o que sentia por ela, Angel. Mas eu sei o que sinto agora. Sinto que estamos todos perdidos, e que você é a única pessoa que está sendo honesta comigo.

Angel olhou para ele, e a proximidade fez o coração de Thomas acelerar. Ela era linda, mesmo coberta de poeira e com o rosto marcado pelo cansaço. Havia uma força nela que o atraía, uma centelha de vida que ele não encontrava em mais ninguém.

— Honestidade dói, Thomas — ela disse, sua voz suavizando. — E no nosso mundo, ela costuma ser mortal.

De repente, Angel ficou tensa. Ela ergueu o binóculo novamente, focando em um ponto distante no horizonte escuro.

— O que foi? — Thomas perguntou, entrando em alerta.

— Luzes. Ao norte. Não são Crâncks — ela se levantou rapidamente, pegando o rádio. — Jorge! Brenda! Acordem todo mundo! O rastreador que eu plantei... eles o encontraram mais rápido do que eu esperava. Ou então...

Ela olhou para baixo, para onde Teresa estava dormindo.

— Ou então o quê? — Thomas perguntou, já descendo da asa.

— Ou então o Janson tem outro jeito de nos encontrar. Algum sinal que não vem de um aparelho, mas de uma pessoa.

O acampamento virou um caos instantâneo. Jorge começou a gritar ordens enquanto Brenda apagava a fogueira com areia. Os Clareanos pegavam suas mochilas, desorientados pelo despertar abrupto.

— Para onde vamos? — Newt perguntou, correndo até eles.

— Para as montanhas — Jorge respondeu, apontando para os picos distantes que se erguiam contra o céu estrelado. — O Braço Direito deve estar em algum lugar lá em cima. Se chegarmos lá, teremos uma chance.

— Se chegarmos lá — Angel murmurou, carregando seu fuzil. — Thomas, pegue a Teresa e o resto. Eu e a Brenda vamos cobrir a retaguarda.

— Eu vou com você — Thomas afirmou.

— Não, você não vai — Angel disse, empurrando-o levemente. — Você precisa liderar eles. Se você cair, o grupo desmorona. Vá! Agora!

Thomas hesitou, mas a determinação nos olhos de Angel não dava margem para discussão. Ele acenou com a cabeça e correu para ajudar Minho e Caçarola a organizar os outros.

Enquanto o grupo começava a travessia apressada pelas dunas, Angel e Brenda se posicionaram atrás de uma carcaça de turbina. As luzes das naves de transporte da CRUEL já eram visíveis, varrendo o deserto com seus holofotes brancos e frios.

— Você sabe que ele está vindo por você tanto quanto pelo Thomas, não sabe? — Brenda perguntou, verificando sua pistola.

— Ele pode vir — Angel destravou a arma, um brilho perigoso em seus olhos castanhos. — Mas ele vai descobrir que a filha dele não brinca mais de bonecas. Eu prefiro queimar este deserto inteiro do que deixar ele encostar o dedo no Thomas de novo.

— Você realmente gosta dele — Brenda comentou com um meio sorriso.

— Eu odeio o fato de que você está certa — Angel retrucou, disparando o primeiro tiro contra uma patrulha avançada que surgia entre as dunas. — Agora cala a boca e atira. Temos um mundo para salvar, ou pelo menos para impedir que meu pai o destrua primeiro.

O som dos tiros começou a ecoar, marcando o início de uma longa noite de perseguição. Angel lutava com uma ferocidade que assustava até os soldados mais treinados da CRUEL. Ela era um borrão de movimento e precisão, uma sombra vingativa que se recusava a ser capturada.

Lá na frente, Thomas olhou para trás uma última vez antes de desaparecer entre as rochas. Ele viu os clarões dos disparos e o rastro de destruição que Angel deixava para trás. Ele sentiu uma conexão estranha, um fio invisível que o ligava àquela garota sarcástica e determinada.

Ele não sabia o que o futuro reservava, ou se sobreviveriam àquela noite. Mas ele sabia de uma coisa: Angel era a sua verdade no meio de tantas mentiras. E ele faria qualquer coisa para garantir que ela não tivesse que lutar aquela guerra sozinha por muito mais tempo.

Enquanto isso, Teresa caminhava ao lado dele, em silêncio, seus olhos fixos no horizonte. Angel estava certa em não confiar nela. Mas o que Angel ainda não sabia era que o jogo da CRUEL era muito mais profundo do que uma simples perseguição. E a peça principal não era Thomas, nem a cura. Era a própria Angel.

O deserto guardava segredos que nem mesmo a filha de Janson conhecia. E conforme o sol começava a dar os primeiros sinais de vida no horizonte, a verdadeira batalha pela alma da humanidade — e pelo coração de Thomas — estava prestes a alcançar seu ponto de ebulição.