Run
O Sangue que Clama no Deserto
A areia fustigava o rosto de Angel enquanto ela recuava, disparando rajadas curtas para manter os batedores da CRUEL à distância. O som dos rotores das naves Berg era um trovão constante sobre suas cabeças, abafando os gritos de comando dos soldados de Janson. Ao seu lado, Brenda operava com uma eficiência fria, mas Angel sentia uma queimação diferente no peito. Não era apenas adrenalina; era o peso de saber exatamente quem estava do outro lado daquelas miras laser.
— Angel! Eles estão flanqueando pela esquerda! — gritou Brenda, recarregando sua arma atrás de uma placa de metal retorcida que outrora fora parte de uma asa de Boeing.
— Deixa comigo! — Angel retrucou, deslizando pela areia quente e se posicionando entre dois blocos de concreto.
Ela respirou fundo, estabilizando o fuzil. Através da mira telescópica, ela viu o emblema da CRUEL no ombro de um soldado. Por um segundo, a imagem de seu pai, Janson, sentado em seu escritório impecável enquanto examinava relatórios de "baixas aceitáveis", cruzou sua mente. Ela apertou o gatilho. O soldado caiu.
— Mais dois minutos e a gente corre para o desfiladeiro! — Angel comandou, limpando o suor que ardia em seus olhos. — O Jorge já deve estar com o Thomas e os outros em segurança nas cavernas.
— Você confia muito naquele garoto, sabia? — Brenda disparou, derrubando mais um guarda. — Para alguém que diz que o mundo acabou, você parece bem empenhada em manter o Thomas vivo.
— Eu não confio no mundo, Brenda. Eu confio no que eu vi nos olhos dele quando ele ainda era um prisioneiro — Angel deu um sorriso de canto, amargo e sarcástico. — E, sinceramente, irritar meu pai salvando o investimento favorito dele é o meu passatempo preferido.
As duas iniciaram uma retirada estratégica, correndo sob a cobertura da escuridão que ainda resistia ao amanhecer. O terreno era um labirinto de carcaças ferrosas e dunas traiçoeiras. Quando finalmente alcançaram a entrada estreita do desfiladeiro, Jorge as esperava com um sinalizador apagado na mão.
— Entrem logo! As naves estão usando sensores térmicos — Jorge disse, empurrando-as para dentro da fenda rochosa. — Thomas e os outros estão lá no fundo. Aquela garota, a Teresa... ela está agindo estranho.
Angel parou abruptamente, sentindo um calafrio que não vinha do vento do deserto.
— Estranho como, Jorge?
— Ela está quieta demais. Olhando para o rádio que pegamos na base. Eu a peguei mexendo nos fios mais cedo.
Angel não esperou. Ela avançou pela caverna úmida e escura, ignorando os protestos de cansaço de seu próprio corpo. Quando chegou ao salão central, viu o grupo de Clareanos amontoados em volta de uma pequena lanterna. Thomas estava de pé, observando um mapa rudimentar com Newt e Minho. Teresa estava sentada a alguns metros, isolada, com o olhar fixo na parede de pedra.
— Onde ele está? — Angel perguntou, sua voz ecoando com uma autoridade que fez todos se sobressaltarem.
— Angel! Você está bem — Thomas deu um passo à frente, o alívio visível em seu rosto sujo de fuligem. Ele se aproximou, e por um momento, pareceu que ia tocá-la, mas hesitou sob o olhar intenso da garota. — Ouvimos os tiros. Achamos que...
— Que o "Homem-Rato" tinha finalmente me pegado para o jantar de família? — Angel soltou um riso seco, mas seus olhos logo se desviaram para Teresa. — Ainda não. Mas parece que temos um problema interno.
Ela caminhou até Teresa, que nem sequer se moveu. Angel chutou levemente o pé da outra garota.
— O que você fez, Teresa?
— Eu não fiz nada, Angel — Teresa respondeu, a voz monótona, sem desviar o olhar da parede. — Eu só quero que isso acabe. Todos nós estamos cansados. Você não entende que eles podem nos ajudar? Eles têm os recursos. Eles têm a cura.
— A cura que eles extraem de crianças vivas? — Angel se inclinou, agarrando o queixo de Teresa e forçando-a a olhar para cima. — Eu vi os tanques, Teresa. Eu vi os tubos. Eu vi o que o meu pai faz com quem não "coopera". Se você der a nossa localização para ele, eu juro que o Labirinto vai parecer um jardim de infância perto do que eu vou fazer com você.
— Solta ela, Angel — Thomas pediu, aproximando-se. — Ela está confusa. Todos estamos.
Angel soltou Teresa com um empurrão de desprezo e se virou para Thomas. O sarcasmo habitual tinha sumido, substituído por uma urgência genuína.
— Thomas, você não entende. Você é o ponto cego dela. Ela acredita piamente que está fazendo o certo, e é isso que a torna perigosa. O meu pai treinou ela para ser assim. Ele deu a ela a ilusão de propósito para que ela nunca questionasse a moralidade.
— Eu confio nela — Thomas disse, embora suas palavras soassem mais como uma tentativa de convencer a si mesmo.
— Então você é mais burro do que eu pensava — Angel retrucou, sentindo uma pontada de ciúme que ela se recusava a admitir. — Mas tudo bem. Se você quer ser o mártir, seja. Mas eu não vou deixar que ela leve o resto de nós para o matadouro.
Ela se afastou, indo para um canto mais afastado da caverna para limpar sua arma. O silêncio que se seguiu foi tenso. Algumas horas se passaram, e o cansaço finalmente venceu a maioria dos garotos. Thomas, no entanto, não conseguia dormir. Ele caminhou até Angel, que estava sentada em uma saliência de pedra, observando a entrada da caverna.
— Você realmente me odeia por confiar nela, não é? — Thomas perguntou, sentando-se ao lado dela.
— Eu não te odeio, Thomas — Angel disse, sem olhar para ele. — Eu odeio o fato de que você é bom demais para este mundo. E pessoas boas são as primeiras a serem usadas como degraus por gente como o meu pai.
— Você fala dele como se ele fosse um monstro.
— Ele é um monstro — ela finalmente olhou para ele, e Thomas viu lágrimas contidas em seus olhos castanhos. — Sabe qual é a minha lembrança favorita de infância? Nenhuma. Porque todas envolvem ele me testando. Ele me trancava em salas escuras para ver quanto tempo eu levava para encontrar a saída. Ele me dava armas de brinquedo que davam choques reais se eu errasse o alvo. Ele não queria uma filha, Thomas. Ele queria um soldado perfeito.
Thomas sentiu um aperto no coração. Ele estendeu a mão e, desta vez, Angel não recuou. Ele tocou a mão dela, sentindo a pele áspera e as cicatrizes de batalha.
— Você não é o soldado dele — Thomas afirmou com firmeza. — Você é a pessoa que nos tirou daquela base. Você é a razão de estarmos vivos agora.
— Eu me lembro de você, Thomas — ela confessou, sua voz falhando levemente. — Naquelas noites em que eu não conseguia dormir porque o barulho das máquinas de extração era alto demais... eu ia até a galeria de observação. Eu via você lá embaixo, nos jardins artificiais. Você parecia tão calmo, mesmo sabendo que era um prisioneiro. Eu costumava fingir que você estava olhando para mim através daquele vidro fumê.
Thomas sorriu, uma expressão suave que iluminou seu rosto cansado.
— Talvez eu estivesse. Talvez, em algum lugar lá no fundo, eu soubesse que havia alguém cuidando de mim.
Angel sentiu o rosto esquentar. Ela desviou o olhar, tentando recuperar sua fachada sarcástica.
— Não comece com o sentimentalismo, Thomas. Isso não combina com o deserto.
— O que combina com o deserto, então? — ele perguntou, aproximando-se mais.
— Sobrevivência — ela sussurrou. — E saber em quem atirar primeiro.
Antes que Thomas pudesse responder, um bipe agudo ecoou pela caverna. Angel saltou da pedra, sua mão voando para a pistola em sua cintura. O som vinha da mochila de Teresa.
— O quê...? — Thomas começou, mas Angel já estava cruzando a caverna como um raio.
Ela arrancou a mochila das mãos de Teresa, que dormia (ou fingia dormir), e despejou o conteúdo no chão. Entre as rações e as ataduras, um pequeno dispositivo prateado piscava em um ritmo frenético. Um rastreador de longo alcance da CRUEL.
— Sua desgraçada! — Angel gritou, acordando todo o grupo.
Teresa sentou-se rapidamente, os olhos arregalados, mas não de surpresa. Havia uma aceitação nela que fez o sangue de Angel ferver.
— Eles estão chegando — Teresa disse, sua voz calma e desprovida de emoção. — É o único jeito, Thomas. Eles podem nos curar. Eles podem salvar a todos.
— Você nos traiu! — Minho gritou, pegando seu bastão elétrico. — Depois de tudo o que passamos no Labirinto, você nos entrega para eles?
— Eu fiz por vocês! — Teresa rebateu, levantando-se. — Angel, você sabe que o seu pai tem a tecnologia. Você sabe que o sangue do Thomas é a resposta!
— O sangue do Thomas é a vida dele, Teresa! — Angel avançou, parando a centímetros do rosto da garota. — E o meu pai vai drenar até a última gota e jogar a carcaça dele no deserto. É isso que você quer? É esse o seu plano de salvação?
— Angel, temos que sair daqui! — Jorge gritou da entrada da caverna. — Eu vejo as luzes! Elas estão no pé da montanha!
— Não temos tempo! — Brenda apareceu, carregando as mochilas de suprimentos. — Eles cercaram a saída principal!
O pânico começou a se espalhar entre os garotos. Newt olhou para Thomas, esperando uma ordem, mas Thomas estava estático, olhando para Teresa como se ela fosse uma estranha.
— Thomas, olhe para mim — Angel disse, segurando o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a focar. — Nós não vamos nos entregar. Você me ouviu? Eu conheço um caminho por trás das minas. É perigoso, cheio de fendas e possivelmente Crâncks, mas é a nossa única chance.
— E a Teresa? — Thomas perguntou, a voz rouca.
Angel olhou para a garota, que agora segurava o rastreador como se fosse um talismã.
— Se ela quiser ir com o "papai", que fique. Mas se ela vier conosco, ela vai amarrada. Eu não vou dar a chance dela soltar outro sinalizador.
— Eu vou com vocês — Teresa disse, embora seu olhar estivesse fixo no horizonte, onde o primeiro Berg começava a pairar sobre a montanha.
— Amarrem-na — Angel ordenou a Minho, que obedeceu com uma satisfação nada sutil.
O grupo começou a se mover freneticamente para as profundezas da montanha. Angel liderava o caminho, usando uma lanterna tática para iluminar as paredes úmidas de uma antiga mina de carvão. O ar era pesado e cheirava a enxofre e decadência.
— Mantenham o silêncio! — Angel sussurrou. — O som ecoa aqui dentro, e se houver Crâncks por perto, eles vão nos ouvir antes de os vermos.
Enquanto caminhavam, Thomas se aproximou de Angel.
— Por que você está fazendo isso, Angel? Você poderia ter ficado lá. Poderia ter se aliado ao seu pai e vivido no luxo.
— Luxo não compra liberdade, Thomas. E luxo certamente não apaga as imagens das crianças que eu vi morrerem naquelas macas — ela parou por um segundo, olhando para ele com uma intensidade que o fez estremecer. — Além disso, eu fiz uma promessa a mim mesma há muito tempo.
— Que promessa?
— Que se eu encontrasse você de novo, eu não deixaria que eles te quebrassem. Eu falhei em te proteger na CRUEL, mas não vou falhar no mundo real.
O momento foi interrompido por um grito lancinante vindo de algum lugar à frente. O som de garras arranhando a pedra ecoou pelas paredes da mina.
— Crâncks — Brenda disse, preparando sua arma. — E soam como muitos deles.
— Ótimo — Angel destravou seu fuzil, um sorriso sarcástico e perigoso surgindo em seus lábios. — Eu estava mesmo precisando descarregar um pouco de raiva. Thomas, fique atrás de mim. Newt, Minho, cubram os flancos.
— E eu? — perguntou Teresa, com as mãos amarradas.
— Você? — Angel olhou para ela com desprezo. — Você reza para que o seu "deus" da CRUEL venha te buscar antes que os Crâncks te achem. Porque eu não vou gastar uma bala para te salvar.
O grupo avançou, entrando em uma câmara ampla onde dezenas de figuras retorcidas e infectadas começaram a emergir das sombras. O combate foi imediato e brutal. Angel operava como uma força da natureza, disparando com uma precisão que beirava o sobre-humano, enquanto Thomas e os outros lutavam com o que tinham à mão.
Em meio ao caos, uma explosão abalou a entrada da mina. Janson e seus soldados haviam chegado. Eles não estavam apenas caçando; eles estavam derrubando a montanha para pegá-los.
— Eles estão implodindo a entrada! — Jorge gritou. — Se não sairmos agora, seremos enterrados vivos!
— Por aqui! — Angel avistou uma fenda de ventilação no teto da câmara. — Thomas, ajude os outros a subir! Eu cubro vocês!
— Angel, não! — Thomas gritou enquanto ajudava Newt a subir em uma plataforma de madeira podre.
— Vai, Thomas! — ela disparou contra um Crânck que saltava em direção a ele. — Eu conheço este lugar! Eu vou logo atrás!
Thomas hesitou, mas Brenda o puxou para cima. Um por um, os Clareanos subiram pela fenda. Teresa foi a última, lançando um olhar de puro ódio para Angel antes de desaparecer na escuridão superior.
Angel estava sozinha na câmara, cercada por Crâncks e com os soldados da CRUEL explodindo o caminho logo atrás. Ela sentiu o chão tremer. Uma pedra enorme caiu do teto, bloqueando parte da visão. Através da poeira, ela viu a silhueta de seu pai, Janson, parado na entrada da câmara, protegido por escudos balísticos.
— Angel! — a voz dele era amplificada e fria. — Pare com essa loucura. Entregue o rapaz e eu perdoarei sua traição. Você é meu sangue!
— Esse é o problema, Janson! — Angel gritou, trocando o pente da arma. — Eu tenho o seu sangue, mas não tenho a sua alma!
Ela disparou uma última rajada contra os tanques de combustível que os soldados carregavam, causando uma explosão que iluminou toda a caverna. Aproveitando a confusão e a cortina de fogo, ela correu para a plataforma de madeira e se impulsionou para cima, alcançando a fenda de ventilação no último segundo, enquanto a câmara abaixo colapsava em um mar de escombros e chamas.
Ela rolou para o solo frio do túnel superior, ofegante e coberta de cinzas. Thomas estava lá, esperando por ela. Ele a puxou para cima e, sem pensar, a envolveu em um abraço apertado.
— Eu achei que... — ele começou, a voz embargada.
— Eu já disse, Thomas — Angel respondeu, retribuindo o abraço por um breve momento antes de se afastar com seu habitual tom sarcástico. — Vasos ruins não quebram tão fácil. E eu sou o pior vaso que o meu pai já fabricou.
Eles se reuniram com o resto do grupo, que observava a destruição lá embaixo. Teresa estava afastada, o rosto pálido, percebendo que sua traição não fora suficiente para parar Angel.
— Para onde agora? — perguntou Minho, olhando para o horizonte onde o sol finalmente começava a nascer, revelando a vastidão desolada do Deserto.
Angel olhou para Thomas, e depois para o caminho à frente.
— Para o Braço Direito. E depois... depois nós vamos dar ao meu pai o que ele sempre quis.
— O quê? — perguntou Thomas.
— O fim da CRUEL — Angel disse, seus olhos brilhando com uma determinação feroz. — E desta vez, eu vou garantir que não sobrem nem as cinzas.
Enquanto caminhavam em direção ao sol nascente, Thomas sentiu que, apesar de tudo o que haviam perdido, ele finalmente encontrara algo real. Angel não era apenas uma guia; ela era a bússola que ele não sabia que precisava. E enquanto estivessem juntos, o Deserto não parecia mais um cemitério, mas um campo de batalha onde eles tinham, pela primeira vez, uma chance real de vencer.
Teresa seguia atrás, em silêncio, mas Angel sabia que a guerra estava apenas mudando de cenário. E ela estava pronta. Porque no final das contas, o sangue de Janson podia correr em suas veias, mas o fogo em seu coração pertencia apenas a ela — e ao garoto que ela jurara proteger.