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Saúde

O Lamento da Estrela de Prata e o Sangue do Destino

A atmosfera em Tempest, que outrora transbordava vida e festa, estava agora pesada, como se o próprio ar tivesse se transformado em chumbo. O sol parecia brilhar com menos intensidade sobre a capital da Federação Jura Tempest, e o silêncio que percorria as ruas era quebrado apenas pelos sussurros de preces desesperadas. Na ala médica do castelo, o cenário era de um terror silencioso que nenhum campo de batalha jamais conseguira instigar nos corações daqueles monstros.

Rimuru estava deitado, mas não parecia o líder vibrante que todos conheciam. Sua pele, geralmente radiante e cheia de vitalidade, estava de um tom pálido quase translúcido. Os cabelos azul-prateados pareciam ter perdido o brilho, espalhados pelo travesseiro como fios de seda sem vida. A gravidez, que deveria ser um motivo de celebração absoluta, havia se tornado uma provação de proporções divinas. O poder de Guy Crimson, o Lorde Demônio mais antigo, e a natureza única de Rimuru estavam em um conflito constante dentro de seu ventre, consumindo cada grama de sua energia vital.

A porta da enfermaria se abriu silenciosamente. Kenya, Chloe, Ryota, Gale e Alice entraram em fila, com os rostos banhados em preocupação. Eles não viam Rimuru como uma professora ou uma governante; para eles, Rimuru era a mãe que o destino lhes dera, a salvadora que os resgatara de um destino cruel.

— Professora... Rimuru-san? — Alice sussurrou, sua voz expressiva agora embargada pelo choro que ela tentava conter.

Rimuru, sentindo a presença das crianças, forçou os olhos a se abrirem. Um sorriso fraco, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. Ele não queria que eles o vissem assim. Ele queria ser o pilar de força, o porto seguro. Com um esforço que fez suas mãos tremerem violentamente sob os lençóis, Rimuru começou a se sentar.

— Olá, meus pequenos... — A voz de Rimuru era um fio de seda prestes a romper. — Não façam essas caras... eu estou bem, sério.

— Você não está bem! — Kenya exclamou, as chamas de sua afinidade elemental oscilando em resposta à sua angústia. — Você está branca como papel!

Rimuru ignorou os protestos de seu próprio corpo, que gritava em agonia a cada centímetro que ele se movia. Ele deslizou as pernas para fora da cama, os pés tocando o chão frio. Ele queria abraçá-los, queria dizer que tudo ficaria bem. Caminhou devagar, cada passo parecendo uma maratona, até chegar perto das crianças.

— Venham aqui... — disse Rimuru, tentando se abaixar para ficar na altura deles, com os braços estendidos para um abraço coletivo.

Mas, no momento em que seus joelhos começaram a dobrar, o mundo pareceu explodir em dor. Uma pontada lancinante, como se milhares de lâminas em brasa estivessem atravessando seu útero e sua espinha dorsal, paralisou seu corpo. O ar fugiu de seus pulmões em um espasmo violento.

— Ah... g-gah! — O grito de dor foi abafado, mas o impacto foi total.

Rimuru desabou para a frente, caindo pesadamente sobre as crianças. Chloe soltou um grito de horror ao sentir o peso inerte de Rimuru sobre ela.

— Rimuru-san! Acorde! Por favor! — Chloe chorava, suas mãos pequenas tentando segurar o rosto da "mãe".

O caos se instalou instantaneamente. Shuna, que estava na sala ao lado preparando infusões mágicas, entrou correndo, seguida por uma equipe de curandeiros. O desespero em seu rosto era evidente.

— Tirem as crianças daqui! Agora! — Shuna ordenou, sua voz geralmente doce agora carregada de uma autoridade frenética. — Tragam mais poções de grau total! A circulação mágica dele está colapsando!

Levou minutos que pareceram séculos para que Rimuru fosse colocado de volta na cama e estabilizado. Quando ele finalmente recuperou a consciência, a primeira coisa que viu foram os rostos devastados de seus subordinados e de Guy, que permanecia ao seu lado como uma estátua de fúria e dor.

Ao perceber o terror que causara, ao ver as lágrimas nos olhos de Shuna e o tremor nas mãos de seus amigos, um sentimento de culpa avassalador inundou a mente de Rimuru. Ele se sentia um fardo. Ele, o Deus de Tempest, estava destruindo a paz de seu povo por sua fraqueza.

As lágrimas começaram a escorrer, quentes e incontroláveis.

— Eu... eu sinto muito... — Rimuru começou a soluçar. — Me desculpem... por ser tão fraco... por fazer vocês sofrerem assim...

O choro de Rimuru não era um pranto comum. Era um lamento profundo, carregado de uma tristeza tão pura que ressoava através das correntes mágicas de todos os monstros nomeados por ele. Em toda a cidade de Tempest, os habitantes pararam o que estavam fazendo, sentindo o coração apertar com a dor de seu mestre.

Mas a forte emoção foi o gatilho para o desastre. O estresse emocional fez com que a energia do bebê reagisse violentamente. Rimuru arqueou as costas na cama, seus dedos cravando-se nos lençóis até rasgá-los.

— AAAAAAAHHHHHH! — Um grito de agonia absoluta rasgou a garganta de Rimuru, ecoando pelas paredes do castelo e se expandindo por toda a capital.

O som era excruciante. Era o som de um deus sendo despedaçado por dentro.

Veldora invadiu o quarto, derrubando a porta com sua mera presença. O Dragão da Tempestade, geralmente tão cheio de bravatas, estava pálido. Sua aura dourada crepitava de forma errática, ameaçando destruir o prédio apenas com o peso de sua preocupação.

— Rimuru! Meu irmão! O que está acontecendo?! — Veldora rugiu, mas sua voz falhou ao ver Rimuru se contorcendo em espasmos.

Rimuru não conseguia mais falar. Sua visão estava borrada por lágrimas e sangue. Ele sentiu o gosto ferroso subir pela garganta.

— Guy... — Rimuru sussurrou, olhando para o Lorde Demônio ruivo com uma súplica final. — Me... desculpe...

Antes que pudesse dizer mais nada, uma tosse violenta sacudiu seu corpo pequeno, e sangue carmesim manchou seus lábios e o peito de seu vestido. Com um último suspiro trêmulo, seu corpo teve um espasmo final e ele desmaiou completamente, caindo nos braços de Guy Crimson.

O silêncio que se seguiu foi pior que o grito.

Diablo, que estava num canto da sala, caiu de joelhos. Suas garras cavaram o chão de pedra, estilhaçando o mármore. O demônio primordial, o ser que não conhecia o medo, estava em completo estado de choque. Suas pupilas oscilavam freneticamente.

— Meu mestre... — a voz de Diablo era um sussurro quebrado. — Isso não pode... a vida dele... está se esvaindo...

Guy Crimson segurava Rimuru contra o peito, sua expressão era uma máscara de terror absoluto que poucos seres no universo haviam presenciado. Ele podia sentir a pulsação de Rimuru ficando cada vez mais lenta, um ritmo errático que ameaçava parar a qualquer momento.

— Shuna! Faça alguma coisa! — Guy rugiu, sua voz vibrando com um poder que fez as janelas do quarto explodirem em mil pedaços.

— Eu estou tentando! — Shuna gritava enquanto usava toda a sua magia, as lágrimas correndo livremente por seu rosto. — Mas a energia do bebê e a dele estão se anulando! Ele está se sacrificando inconscientemente para manter a criança viva!

Lá fora, a cidade de Tempest mergulhou no desespero total. Os subordinados de Rimuru — Benimaru, Shion, Souei, Geld, Gabiru — todos estavam do lado de fora da enfermaria, ou espalhados pela cidade, sentindo a conexão de suas almas vacilar. Para um monstro nomeado, a morte de seu mestre era pior que a própria morte; era o fim do propósito, o fim da luz.

Shion desabou contra a parede, sua espada caindo ao chão com um som metálico oco. Ela soluçava baixinho, as mãos cobrindo o rosto. Benimaru mantinha o olhar fixo no nada, seu corpo emanando um calor sufocante de pura angústia.

— Se ele se for... — sussurrou Benimaru, sua voz carregada de uma promessa sombria — ...não haverá nada neste mundo que valha a pena ser protegido.

Dentro do quarto, Veldora se aproximou da cama, sua presença esmagadora causando pequenas rachaduras no teto. Ele estendeu a mão grande e trêmula, tocando levemente o pé de Rimuru.

— Você é um Slime, droga! — Veldora exclamou, com a voz embargada. — Você é suposto ser resiliente! Levante-se! Eu ainda não terminei de ler todos os mangás com você! Você não pode me deixar aqui sozinho com esses monstros!

Guy Crimson não ouvia mais nada. Ele fechou os olhos, encostando o rosto no pescoço frio de Rimuru. Ele podia sentir a essência do "caos" que eles criaram juntos — a criança — lutando para sobreviver, enquanto o receptáculo, seu amado Rimuru, se desfazia.

— Ouça-me bem, Rimuru Tempest — Guy sussurrou diretamente na alma do Slime. — Se você morrer, eu não me importo com este filho. Eu não me importo com este mundo. Eu queimarei cada estrela no firmamento até que não reste nada além de cinzas e vácuo. Você é minha única âncora neste tédio eterno. Volte para mim.

O sangue continuava a escorrer levemente pelo canto da boca de Rimuru, e o brilho de sua alma, que geralmente iluminava toda a floresta de Jura, agora era apenas uma brasa moribunda, lutando contra o vento gelado da morte que soprava sobre Tempest.

O desespero não era apenas uma emoção naquele momento; era uma força física que ameaçava rasgar o tecido da realidade. O Deus de Tempest estava partindo, e com ele, a esperança de todos os monstros que ele um dia abraçou com seu carinho divino.