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Saúde

O Crepúsculo da Paciência e o Cálice de Sangue

A luz da manhã em Tempest não trazia o conforto habitual. O ar estava carregado com o cheiro de ervas medicinais e o zumbido constante de feitiços de estabilização. No centro do quarto real, Rimuru Tempest abriu os olhos lentamente. A visão estava turva, mas ele sentiu a pressão familiar de mãos segurando as suas. De um lado, Guy Crimson, cujos olhos vermelhos estavam injetados de uma fúria que ele mal conseguia conter; do outro, Shuna, cujo rosto estava marcado por noites em claro.

— Rimuru... — Guy sussurrou, sua voz rouca. — Não se mexa.

— Eu preciso... — Rimuru tossiu, sentindo o gosto metálico de sangue ainda presente em sua garganta. — Eu preciso ver as crianças. E o povo. Eles estão com medo, Guy. Eu sinto o medo deles através do corredor da alma.

— Você quase morreu, Rimuru-sama! — Shuna exclamou, as lágrimas voltando a cair. — O seu corpo não está aguentando a carga mágica. Por favor, descanse.

— Se eu ficar trancado aqui, o desespero deles vai me enfraquecer mais do que a gravidez — Rimuru insistiu, tentando se sentar. — Souei... conte a eles. Conte o que aconteceu.

Nas sombras, Souei se materializou. Sua voz era fria, mas carregada de uma dor latente enquanto ele relatava aos líderes de Tempest os eventos em Ingrassia. A cada palavra sobre os insultos e as agressões físicas dos jovens nobres, a temperatura no quarto caía. A aura de Benimaru começou a queimar o tapete, e Shion apertou o cabo de sua odachi com tanta força que o couro rangeu.

— Eles ousaram... — Benimaru rosnou, as chamas em seus olhos brilhando com um ódio purpúreo.

— Eu vou para a praça — declarou Rimuru, ignorando os protestos. — Me ajudem a levantar.

Com muita relutância, e sob a vigilância cerrada de Guy, Diablo, Benimaru, Shuna e Shion, Rimuru foi levado até a praça central. Ele caminhava com passos incertos, apoiado no braço de Guy. Ao verem seu mestre, os monstros de Tempest pararam. O silêncio foi absoluto. Rimuru sentou-se em um banco de pedra, observando as crianças órfãs que ele resgatara. Ao verem que ele sorria, mesmo pálido, a tensão na cidade diminuiu minimamente.

No entanto, a paz durou pouco. Um mensageiro de Ingrassia, montado em um cavalo que tremia diante da pressão de Tempest, aproximou-se com uma carta selada. Diablo interceptou o papel, seus olhos brilhando com uma intenção assassina tão vasta que o mensageiro quase caiu do cavalo.

— Uma carta do conselho de Ingrassia — Diablo leu em voz alta, sua voz tremendo de ódio. — Eles exigem o retorno imediato da "professora". Dizem que as aulas não podem ser interrompidas por "indisposições menores" e que você deve assumir suas responsabilidades contratuais.

— Indisposições menores?! — Shion gritou, desembainhando sua espada. — Eu vou cortar a cabeça de quem escreveu isso!

— Acalmem-se — Rimuru pediu, embora sua própria mão tremesse. — Se eu não for, isso pode causar um incidente diplomático que prejudicará Tempest e as crianças que ainda estão lá. Eu vou. Vou tentar mais uma vez. Talvez... talvez eles entendam se eu explicar a situação.

— Você não vai sozinho — Guy sentenciou, sua voz não aceitando discussões. — Eu ficarei nas sombras. E se um único dedo for apontado para você novamente, Ingrassia deixará de existir no mapa antes do pôr do sol.

O retorno a Ingrassia foi um pesadelo. Rimuru, agora visivelmente grávida e com a saúde deplorável, entrou na sala de aula. Ele esperava um pouco de compaixão, um lampejo de humanidade naqueles jovens. O que encontrou foi o oposto.

— Olha só, a plebeia voltou — zombou um dos rapazes, vendo Rimuru se apoiar pesadamente na mesa. — E parece que engordou. Ou será que algum outro lacaio a engravidou enquanto ela estava fora "doente"?

Rimuru sentiu uma pontada no ventre, mas manteve a cabeça baixa, tentando focar no livro.

— Vamos começar a aula... — sua voz falhou, tornando-se um sussurro.

— Por que deveríamos? — uma garota riu, jogando um pedaço de fruta estragada que atingiu o vestido de Rimuru. — Você fede a remédios e a fraqueza. É patético. Como o reino permitiu que uma coisa grávida e moribunda nos ensinasse?

De repente, a porta da sala explodiu. Milim Nava entrou como um furacão, seus olhos cor-de-rosa arregalados de horror ao ver o estado de sua melhor amiga.

— Rimuru! — Milim correu, abraçando-o com cuidado, mas sentindo o quão frio o corpo dele estava. — O que é isso? Por que você está assim? Eu senti sua magia sumindo e vim correndo!

— Milim... está tudo bem — Rimuru tentou sorrir, mas uma gota de suor frio escorreu por sua têmpora. — Volte para Tempest, por favor. Eu só preciso terminar aqui.

Milim olhou para os alunos com um olhar que prometia o apocalipse. Os jovens, embora arrogantes, sentiram o instinto primitivo de sobrevivência gritar.

— Se algum de vocês tocar nela... — Milim começou, sua aura de "Lorde Demônio Destruidor" vazando.

— Milim, pare! — Rimuru implorou. — Por favor... vá com o Guy. Eu prometo que ficarei bem.

Relutante e em prantos, Milim saiu, mas o dano estava feito. Os alunos, sentindo-se humilhados pelo medo que sentiram, tornaram-se ainda mais cruéis.

— Então você tem amigos poderosos? — o líder dos alunos rosnou após Milim sair. — Deve ser porque você se vende para eles. Uma criatura como você só serve para diversão, não para ensinar.

No dia seguinte, Veldora apareceu. O Dragão da Tempestade, incapaz de ficar longe enquanto sentia a agonia de seu irmão de alma, manifestou-se na sala. Ao ver Rimuru tossindo num lenço já manchado de vermelho, o grande Veldora não rugiu. Ele chorou. Ajoelhou-se e abraçou Rimuru, soluçando como uma criança.

— Rimuru... por favor, vamos para casa — Veldora implorou. — O que esses humanos estão fazendo com você? Eu posso esmagá-los? Só um pouquinho?

— Não, Veldora... — Rimuru acariciou os cabelos loiros do dragão. — São apenas... eles não entendem.

— Olha só o grandalhão chorando! — um dos alunos riu, encorajado pela aparente passividade de Rimuru. — Que cena ridícula! Um bárbaro e uma doente.

Veldora rosnou, uma vibração que fez as fundações do prédio racharem, mas o olhar suplicante de Rimuru o impediu de agir. Ele partiu, deixando um rastro de destruição moral para trás.

A saúde de Rimuru deteriorava-se a cada hora. Ele mal conseguia manter a forma humana estável. No último dia daquela semana infernal, o destino cobrou seu preço.

Rimuru estava de costas, tentando escrever no quadro, quando um dos alunos, um prodígio em magia ofensiva que guardava um rancor especial, canalizou um feitiço de impacto concentrado em um artefato mágico pesado.

— Suma de uma vez, sua coisa imunda! — ele gritou, lançando o projétil.

Rimuru sentiu o perigo. Em tempos normais, ele teria desviado sem olhar. Mas agora, sua consciência estava em um nevoeiro. Ele tentou girar o corpo, mas suas pernas não responderam. O objeto mágico, carregado com uma energia destrutiva, atingiu Rimuru em cheio nas costas, jogando-o contra a lousa.

O som do impacto foi seguido por um silêncio mortal.

— Rimuru-sama! — o grito de Raphael ecoou apenas em sua mente, mas era um grito de alerta crítico. <<Aviso: Danos internos severos. Estabilidade do núcleo em 15%. Risco de perda gestacional iminente.>>

Rimuru caiu de joelhos. Uma dor excruciante, maior do que qualquer coisa que ele já sentira — maior do que ser devorado, maior do que a evolução — rasgou seu corpo. Ele sentiu algo se romper dentro de si.

— Guy... — ele sussurrou, sua voz mal audível.

Ele tentou levar a mão à boca, mas uma tosse violenta o sacudiu. Sangue, muito sangue, jorrou de seus lábios, manchando o chão de pedra clara. Não parava. O líquido carmesim começou a escorrer também de seu nariz, pintando seu rosto pálido com as cores da tragédia.

Os alunos recuaram, alguns finalmente percebendo a gravidade do que haviam feito. O agressor empalideceu, deixando o artefato cair.

— Eu... eu não queria... — ele gaguejou.

Rimuru tentou respirar, mas seus pulmões pareciam cheios de chumbo. Sua visão falhou completamente, tornando-se um borrão de sombras e luzes distantes. Ele sentiu o frio da morte abraçar suas extremidades.

— Guy... me ajude... — foi seu último pensamento antes de desabar para o lado, seu corpo pequeno e frágil estendido em meio a uma poça de seu próprio sangue divino.

O espaço-tempo na sala não apenas se rasgou; ele foi aniquilado.

Guy Crimson apareceu no centro da sala. Ele não gritou. Ele não rugiu. O silêncio que emanava dele era o silêncio do fim de todas as coisas. Ele caminhou até o corpo inerte de Rimuru, pegando-o nos braços. O sangue de Rimuru manchou as roupas luxuosas do Lorde Demônio.

Guy olhou para os alunos. Seus olhos não eram mais vermelhos; eram poços de escuridão absoluta.

— Vocês... — Guy disse, e sua voz fez com que os corações de todos os presentes parassem por um segundo. — Vocês acabaram de condenar este mundo ao esquecimento.

Nesse momento, Diablo e Souei surgiram atrás dele. Diablo estava tremendo, um riso histérico e maníaco escapando de seus lábios enquanto ele via o sangue de seu mestre no chão.

— Oh... oh, que maravilha — Diablo sussurrou, suas garras crescendo. — Eu vou levar séculos para terminar com cada um de vocês. Vou manter suas almas acesas em chamas negras para que possam sentir cada segundo da agonia que ele sentiu.

Guy ignorou os gritos que começaram a ecoar. Ele apertou Rimuru contra o peito, sentindo a centelha de vida dele piscar como uma vela no furacão.

— Fique comigo, Rimuru — Guy murmurou, uma lágrima de sangue escorrendo por seu próprio rosto. — Se você apagar... eu prometo que não sobrará nem o pó deste reino para contar a história.

Ele desapareceu em um clarão carmesim, deixando para trás um Diablo que não era mais um subordinado, mas a própria encarnação do castigo eterno. Em Tempest, o céu ficou negro, e o rugido de Veldora, que sentiu o colapso de Rimuru, sacudiu o planeta inteiro. A guerra não estava chegando; o fim dos tempos havia começado.