Segredo
Sombras e Maçãs Doces
A manhã em Storybrooke sempre trazia consigo aquele cheiro de orvalho e café fresco vindo do Granny’s, mas para Emma Swan, o despertar na mansão da rua Mifflin tinha um perfume muito mais específico: cidra de maçã e o aroma caro do hidratante de Regina. Emma abriu os olhos lentamente, sentindo o peso reconfortante do corpo de Regina parcialmente sobre o seu. A luz do sol tentava invadir o quarto pelas frestas das cortinas de veludo pesado, mas o refúgio ali dentro parecia imune à passagem do tempo.
— Se você continuar me encarando assim, Swan, eu vou acabar perdendo a reunião do conselho — a voz de Regina surgiu rouca e abafada contra o travesseiro, embora seus olhos permanecessem fechados.
Emma sorriu, passando a mão pelos cabelos castanhos e curtos da prefeita, sentindo a maciez dos fios desalinhados.
— Eu não disse nada. Você que é vidente agora? — Emma brincou, depositando um beijo suave no ombro nu de Regina.
— Eu sinto o seu olhar. Ele é... barulhento — Regina finalmente abriu os olhos, revelando aquele castanho profundo que sempre fazia os joelhos de Emma fraquejarem. — E você precisa ir. Se o seu fusca for visto aqui depois das sete da manhã, Mary Margaret vai organizar um comitê de boas-vindas com cestas de muffins e perguntas inconvenientes.
Emma bufou, sentando-se na cama e sentindo o ar fresco da manhã atingir sua pele. O contraste entre a intimidade daquelas paredes e a fachada que precisavam manter lá fora era um lembrete constante da corda bamba em que caminhavam.
— Eu odeio isso — murmurou Emma, procurando sua camiseta pelo chão. — Odeio ter que sair pelos fundos como se eu estivesse cometendo um crime. Amar você não é um crime, Regina.
Regina sentou-se, puxando o lençol de seda para cobrir o busto, sua expressão suavizando-se instantaneamente. Ela estendeu a mão e tocou o braço de Emma, onde a tatuagem de flor aparecia sob a luz fraca.
— Eu sei, querida. Mas você conhece esta cidade. Eles não veriam apenas "amor". Eles veriam a Salvadora e a Rainha Má. Eles tentariam encontrar motivos, conspirações... e eu não quero que ninguém estrague o que temos aqui. Especialmente agora que finalmente encontramos um equilíbrio.
Emma suspirou, sabendo que Regina tinha razão, mas o peso do segredo às vezes parecia uma jaqueta de chumbo, muito mais pesada que sua icônica peça de couro vermelha.
— Tudo bem. Vejo você no Granny’s mais tarde?
— Como prefeita e xerife? Sempre — Regina deu um sorriso enigmático, aquele que guardava segredos que só as duas compartilhavam. — Tente não chegar com o uniforme amassado, Swan. Mantenhamos as aparências.
Uma hora depois, Emma estava sentada em um dos bancos de couro do Granny's Diner, girando uma xícara de café preto entre as mãos. O lugar estava cheio, como de costume. Ruby deslizava entre as mesas com uma agilidade impressionante, e Mary Margaret conversava animadamente com David em uma mesa de canto.
— Café extra forte hoje? — Ruby parou na frente de Emma, apoiando uma mão no quadril e sorrindo de forma cúmplice. — Você parece que não pregou o olho, Emma.
Emma sentiu o rosto esquentar e imediatamente levou a xícara aos lábios para esconder a reação.
— Noite longa. Muitos relatórios no departamento — mentiu, sentindo a pontada de culpa que sempre vinha com as mentiras para os amigos.
— Sei... relatórios — Ruby piscou, abaixando o tom de voz. — Sabe, se esses "relatórios" tivessem um nome e morassem em uma mansão branca, eu diria que você está fazendo um ótimo trabalho administrativo.
Emma quase engasgou com o café. Ela olhou em volta rapidamente para garantir que seus pais não tinham ouvido.
— Ruby! — sibilou Emma.
— Relaxa, loba. Eu tenho um olfato aguçado, lembra? — Ruby riu, limpando o balcão. — E você cheira a maçãs e a um perfume francês que custa mais do que o meu salário anual. Mas não se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Só tome cuidado. A cidade tem olhos.
Antes que Emma pudesse responder, o sino da porta tocou. Regina Mills entrou no recinto como se fosse a dona não apenas da prefeitura, mas de cada átomo de oxigênio de Storybrooke. Ela usava um terno cinza perfeitamente ajustado e saltos que ecoavam com autoridade no chão de madeira.
Emma sentiu o coração disparar. Era ridículo, pensou ela. Elas tinham acabado de passar a noite juntas, mas ver Regina naquele ambiente, tão poderosa e inalcançável, sempre despertava algo primitivo em Emma. Especialmente quando notou que não era a única a observar.
Um homem, um dos novos moradores que haviam chegado após a última pequena crise mágica, estava sentado no balcão e não escondia a admiração. Ele acompanhou o movimento de Regina com o olhar de uma forma que fez o sangue de Emma ferver instantaneamente.
Regina caminhou até o balcão, ignorando a todos com sua habitual elegância blasé.
— O de sempre, Ruby. E que seja rápido, tenho uma reunião com os arquitetos em dez minutos — Regina disse, sem olhar para o lado.
— Bom dia para você também, Regina — Ruby respondeu com um sorriso divertido.
O homem ao lado, aproveitando a proximidade, inclinou-se levemente em direção a Regina.
— Sabe, senhora Prefeita, eu estive na prefeitura ontem para tratar da licença do meu novo comércio e não pude deixar de notar... a senhora tem um gosto impecável para decoração. E para tudo o mais.
Regina virou o rosto lentamente, arqueando uma sobrancelha com um desdém que teria feito qualquer outro homem recuar três passos.
— Que fascinante — ela respondeu, a voz gotejando sarcasmo. — Espero que sua eficiência em gerir negócios seja tão grande quanto sua capacidade de observar o óbvio. Caso contrário, sua licença será uma leitura muito curta para mim.
Emma, observando a cena de sua mesa, apertou o cabo da caneca com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Ela odiava aquilo. Odiava o jeito que ele olhava para Regina, odiava que Regina tivesse que ser educada — ou pelo menos profissional — e, acima de tudo, odiava não poder simplesmente caminhar até lá, envolver a cintura de Regina e deixar claro para todo o restaurante a quem ela pertencia.
— Emma? — Mary Margaret apareceu ao lado da filha, tirando-a de seu transe de ciúmes. — Você está bem? Está olhando para a Regina como se quisesse prendê-la... ou algo pior.
— Eu estou bem, Mary Margaret. Só estou... garantindo que não haja problemas — Emma respondeu, forçando um tom casual.
— Ela é difícil, eu sei — David comentou, sentando-se ao lado de Emma. — Mas ela mudou muito. Tente não pegar tão pesado com ela hoje.
Emma soltou uma risada seca e sem humor. Se eles soubessem o quanto ela "pegava pesado" com Regina, David provavelmente teria um ataque cardíaco ali mesmo.
— Vou tentar me controlar — Emma murmurou, levantando-se. — Na verdade, tenho trabalho. Vejo vocês depois.
Ela caminhou em direção à saída, mas não sem antes passar por Regina. Por um breve segundo, seus ombros se roçaram. Foi um toque quase imperceptível para quem olhava de fora, mas para as duas, foi como uma descarga elétrica. Emma parou por um instante, olhando fixamente para o homem que ainda tentava puxar assunto com Regina.
— Algum problema aqui, xerife? — Regina perguntou, seus olhos brilhando com um desafio divertido que só Emma sabia ler.
— Nenhum, prefeita — Emma respondeu, sua voz soando mais rouca que o normal. Ela se virou para o homem, exibindo seu distintivo de forma ostensiva. — Só garantindo que os cidadãos não estejam obstruindo o fluxo de trabalho da prefeitura. Storybrooke é uma cidade pequena, senhor...
— Miller. Mark Miller — o homem respondeu, intimidado pela postura física de Emma.
— Pois bem, senhor Miller. Tenha um bom dia. E mantenha as mãos — e os comentários — onde eu possa ver.
Emma saiu do Granny's sem olhar para trás, mas podia sentir o sorriso vitorioso de Regina queimando em suas costas.
Cerca de duas horas depois, a porta da delegacia se abriu. Emma estava debruçada sobre um mapa da floresta, tentando fingir que estava trabalhando, quando o cheiro familiar de cidra preencheu a sala. Ela não precisou levantar a cabeça para saber quem era.
— Você foi um pouco dramática hoje de manhã, não acha? — Regina fechou a porta atrás de si e girou a placa para "Fechado".
Emma finalmente olhou para cima, cruzando os braços sobre a jaqueta de couro.
— Dramática? O cara estava praticamente babando no seu balcão, Regina.
Regina caminhou até a mesa de Emma, sentando-se na borda dela com uma graça provocadora.
— Ele estava sendo um idiota inconveniente, Swan. E eu sei lidar com idiotas. Faço isso desde que você estava em fraldas — Regina estendeu a mão e puxou Emma pela gola da jaqueta, trazendo-a para perto. — Mas devo admitir... a visão de você rosnando para proteger o que é seu tem um certo charme.
— Eu não estava rosnando — Emma resmungou, embora já estivesse relaxando sob o toque de Regina. — Eu só não gosto de como as pessoas acham que você está disponível.
— E eu não gosto de como a Ruby olha para você toda vez que você pede um donut — Regina rebateu, o ciúme brilhando em seus próprios olhos. — Então, acho que estamos quites no departamento de possessividade.
Emma sorriu, envolvendo a cintura de Regina e puxando-a para o espaço entre suas pernas.
— É diferente. Ruby é...
— Ruby é uma loba que adoraria ter a Salvadora em sua alcateia — Regina interrompeu, selando os lábios de Emma com um beijo rápido e possessivo. — Mas ela sabe, assim como aquele homenzinho no Granny's agora sabe, que existe uma linha que ninguém pode cruzar.
Emma suspirou contra os lábios de Regina, sentindo a tensão da manhã se dissipar.
— Às vezes eu só queria gritar para o mundo. Contar para o Henry, contar para os meus pais... parar de me esconder.
Regina recuou um pouco, acariciando o rosto de Emma com uma ternura que raramente mostrava.
— Eu sei, Emma. Eu também quero. Mas pense no que temos. Esse segredo... ele é nosso. É a única coisa em nossas vidas que não pertence ao destino, às profecias ou ao povo de Storybrooke. É a única coisa que é puramente nossa.
Emma olhou nos olhos de Regina e viu a verdade naquelas palavras. Em um mundo de magia, maldições e batalhas épicas, o que elas tinham era humano, real e privado.
— Você tem razão — Emma admitiu, encostando a testa na de Regina. — Mas se aquele cara tentar falar do seu "gosto impecável" de novo, eu vou multar o carro dele por estacionar em cima da calçada. Mesmo que ele não tenha um carro.
Regina soltou uma gargalhada genuína, o som preenchendo a delegacia vazia.
— Você é impossível, Swan.
— E você é minha — Emma retrucou, antes de silenciar qualquer protesto com um beijo profundo, um beijo que carregava toda a urgência do amor escondido e a promessa de que, por trás das portas fechadas e dos olhares trocados em público, elas eram a única verdade que importava em Storybrooke.
O relógio da torre bateu, lembrando-as de que o tempo de privacidade era curto. Regina se levantou, ajeitando o terno e recompondo a máscara de prefeita. Emma voltou para sua cadeira, assumindo o papel de xerife.
— Até o jantar? — perguntou Emma.
— Prepare a lasanha — Regina respondeu, já com a mão na maçaneta. — E Emma...
— Oi?
— Tente não prender ninguém por ciúmes até lá. Seria muito papelório para eu assinar.
Regina saiu com um piscar de olhos, deixando Emma com um sorriso bobo no rosto e o coração batendo forte. O segredo continuava, perigoso e excitante, uma dança entre a luz e a sombra que elas pretendiam dançar por muito, muito tempo.