Segredo
O Brilho do Ouro e o Gosto do Perigo
A tarde em Storybrooke arrastava-se com uma monotonia que Emma Swan normalmente apreciaria, não fosse a inquietação que borbulhava sob sua pele. O encontro furtivo na delegacia havia deixado um rastro de eletricidade em seu corpo, e o trabalho burocrático parecia uma tortura medieval. Ela tentava se concentrar em uma queixa de Leroy sobre o sumiço de uma picareta, mas sua mente insistia em reprisar a imagem de Regina sentada em sua mesa, os olhos desafiadores e o sorriso que prometia mundos e fundos para quando o sol se pusesse.
O som do sino da porta da delegacia interrompeu seus devaneios. Não era Regina, nem Ruby, nem seus pais. Era o Sr. Gold. Ele entrou com sua bengala batendo ritmicamente contra o chão, o rosto exibindo aquela expressão de quem sabe segredos que o restante da humanidade ainda não ousou sonhar.
— Xerife Swan — Gold cumprimentou, a voz arrastada como seda sobre vidro quebrado. — Espero não estar interrompendo sua... profunda meditação sobre a segurança pública.
— O que você quer, Gold? — Emma levantou-se, apoiando as mãos nos quadris. Seu instinto de xerife — e de mentirosa profissional — disparou. — Se for sobre o contrato de aluguel do porto, já disse que a prefeitura está revisando os termos.
— Ah, eu sei o que a Prefeita Mills está revisando — Gold deu um sorriso enigmático, aproximando-se da mesa de Emma. Ele parou e farejou o ar de forma quase imperceptível, mas Emma notou. — Curioso. O ar aqui dentro está impregnado com um perfume familiar. Algo que remete a jardins de macieiras e... autoridade.
Emma sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas manteve o rosto impassível. Ela era filha de Branca de Neve, mas tinha passado anos sobrevivendo nas ruas. Sabia como esconder uma carta na manga.
— Regina esteve aqui para tratar de negócios oficiais. Você sabe, o que pessoas com empregos reais fazem — Emma retrucou, estreitando os olhos.
— Claro, negócios — Gold riu baixo, um som seco. — Eu vim apenas avisar que o Sr. Miller, o rapaz que você "gentilmente" orientou no Granny’s hoje cedo, é um dos meus novos inquilinos. Ele ficou bastante impressionado com a sua... dedicação. E com a hospitalidade da nossa Prefeita.
— Ele é um idiota que não sabe quando calar a boca — Emma disse, sem conseguir conter a irritação.
— Cuidado, xerife. O ciúme é uma emoção poderosa, mas extremamente descuidada. Ele deixa rastros. E em uma cidade como esta, rastros levam a perguntas. Perguntas que talvez a senhora Blanchard ou o Sr. Nolan não saibam responder.
— Você está me ameaçando, Gold? — Emma deu um passo à frente, a postura de combate ativada.
— Ameaçando? Jamais. Estou apenas oferecendo um conselho amigável — Gold inclinou a cabeça, os olhos brilhando com malícia. — Segredos são como magia, Swan. Eles têm um preço. E quanto mais valioso o segredo, mais caro é o tributo. Apenas certifique-se de que está disposta a pagar quando a conta chegar.
Sem esperar por uma resposta, ele se virou e saiu, deixando para trás um silêncio pesado e uma Emma Swan à beira de um colapso nervoso. Ela sabia que Gold suspeitava. Talvez ele soubesse desde o início. A magia dele era conectada ao coração da cidade, e nada acontecia em Storybrooke sem que o Senhor das Trevas sentisse a vibração.
Emma pegou as chaves do fusca e saiu da delegacia. Ela precisava respirar. Precisava ver Regina. Não como a xerife, mas como a mulher que estava perdidamente apaixonada pela pessoa que todos os outros ainda temiam.
Ela dirigiu até o limite da cidade, onde a floresta se tornava densa e o asfalto terminava. Era um lugar onde costumavam se encontrar quando a mansão parecia perigosa demais devido às visitas inesperadas de Henry ou de seus pais. Regina já estava lá, encostada em seu Mercedes preto, observando a linha das árvores.
— Você demorou — Regina disse, sem se virar.
— Gold esteve na delegacia — Emma soltou, caminhando até ela. A urgência em sua voz fez Regina se virar imediatamente, a expressão de tédio sendo substituída por uma preocupação genuína.
— O que aquele crocodilo queria desta vez? — Regina perguntou, cruzando os braços.
— Ele sabe, Regina. Ou pelo menos desconfia seriamente — Emma parou diante dela, a respiração curta. — Ele falou sobre o seu perfume na minha sala. Falou sobre o ciúme ser descuidado. Ele está jogando com a gente.
Regina soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento. Ela parecia cansada, algo que só mostrava a Emma.
— Gold sempre joga, Emma. Ele se alimenta de informações. Mas ele não vai falar nada. Não por enquanto. Ele prefere ter uma dívida pendente conosco do que causar um escândalo que não lhe traga lucro imediato.
— Mas e se ele contar para os meus pais? Regina, a Mary Margaret já está desconfiada. Ela me perguntou hoje por que eu estava olhando para você daquele jeito.
Regina deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre elas. Ela pegou as mãos de Emma, que estavam frias e trêmulas, e as envolveu com o calor das suas.
— Olhe para mim — Regina ordenou suavemente. Emma obedeceu, encontrando o conforto naqueles olhos escuros. — Nós sabíamos que isso aconteceria. Storybrooke é uma redoma de vidro. Mais cedo ou mais tarde, alguém veria o reflexo da verdade. Mas Gold não nos controla. E seus pais... eles te amam. Eles vão sofrer, vão questionar, mas não podem mudar o que sentimos.
— Eu só não quero te perder — Emma confessou, a voz falhando. — Não quero que a cidade se volte contra você de novo por minha causa.
Regina sorriu, um sorriso triste e doce ao mesmo tempo. Ela soltou uma das mãos de Emma e acariciou sua bochecha, o polegar limpando uma lágrima invisível.
— Emma Swan, a Salvadora, preocupada com a reputação da Rainha Má? — Regina brincou, tentando aliviar a tensão. — Eu já enfrentei exércitos, maldições e o próprio inferno. Você acha mesmo que um punhado de fofocas de cidade pequena vai me assustar?
— Eu falo sério, Regina.
— Eu também — Regina aproximou o rosto do de Emma, as pontas de seus narizes se tocando. — Se o mundo inteiro descobrir amanhã, que descubra. Eu não vou me esconder para sempre, e certamente não vou deixar você ir porque o Sr. Gold decidiu ser enigmático. Se ele quer um preço, que venha buscar. Ele vai descobrir que eu ainda tenho alguns truques que ele não me ensinou.
Emma sentiu um peso sair de seus ombros. A força de Regina era sua âncora. Ela envolveu o pescoço da outra mulher com os braços, puxando-a para um beijo que era, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas e um juramento de lealdade. O beijo tinha gosto de determinação e do brilho suave do sol que começava a se pôr atrás das montanhas.
— Senti sua falta o dia todo — Emma murmurou contra os lábios de Regina.
— Você me viu há três horas, Swan.
— Não conta. Tinha uma mesa entre nós e dois metros de burocracia. Além daquele tal de Miller.
Regina riu, aquele som rico que Emma tanto amava.
— Você e esse seu ciúme... É quase insuportável, sabia?
— Você adora — Emma provocou, mordiscando o lábio inferior de Regina.
— Eu adoro — Regina admitiu, a voz descendo uma oitava. — Agora, saia daqui antes que alguém veja seu fusca amarelo berrante estacionado ao lado do meu carro. Vá para casa, tome um banho e vá para a mansão às oito. Henry vai passar a noite na casa de um amigo.
— Uma noite inteira? — Os olhos de Emma brilharam.
— Sem interrupções — Regina confirmou, dando-lhe um último beijo casto. — E traga aquele vinho que você comprou no porto. O meu estoque está acabando e eu prevejo que vou precisar de uma taça bem cheia para lidar com a sua energia de "xerife possessiva" esta noite.
Emma sorriu, sentindo-se leve pela primeira vez no dia. Ela caminhou de volta para o fusca, mas parou antes de entrar.
— Regina?
A prefeita, já com a mão na porta do Mercedes, olhou por cima do ombro.
— Sim, querida?
— Eu te amo. E Gold que se dane.
Regina não respondeu com palavras. Ela apenas deu aquele sorriso de lado, o que fazia Emma sentir que era a pessoa mais poderosa do mundo, e entrou no carro.
Enquanto dirigia de volta para a cidade, Emma viu Gold parado na calçada em frente à sua loja de penhores. Ele não acenou, nem sorriu. Apenas observou o fusca passar. Emma apertou o volante com firmeza. Ela sabia que a batalha pela verdade estava apenas começando, e que Storybrooke dificilmente aceitaria a união entre a luz e a escuridão sem lutar.
Mas, ao olhar pelo retrovisor e ver o carro de Regina seguindo na direção oposta, Emma soube que não importava o preço que Gold cobrasse, ou a reação que Snow e David tivessem. Pela primeira vez em sua vida, ela tinha algo que valia cada mentira, cada segredo e cada risco.
Ela chegou ao seu pequeno apartamento acima da lavanderia e começou a se preparar. O uniforme foi deixado de lado, substituído por algo mais confortável, mas ela manteve a jaqueta de couro vermelha — sua armadura. Ao olhar-se no espelho, Emma viu uma mulher que não estava mais fugindo de si mesma.
O relógio da torre marcou as sete e meia. Emma pegou a garrafa de vinho e saiu.
Caminhando pelas ruas agora mais vazias, ela cruzou com Archie, que passeava com Pongo.
— Boa noite, Emma! Indo a algum lugar importante? — Archie perguntou com sua amabilidade habitual.
— Apenas resolver alguns assuntos pendentes com a prefeitura, Archie — Emma sorriu, sentindo a ironia da frase.
— Ah, a Prefeita Mills é uma mulher de horários rígidos. Boa sorte!
— Obrigada. Eu vou precisar.
Emma seguiu em frente, sentindo o ar esfriar. Ao chegar à Mifflin Street, ela não foi para a porta dos fundos desta vez. Ela caminhou até a entrada principal, olhou para os lados e, com o coração batendo na garganta, subiu os degraus de mármore.
Ela tocou a campainha. Segundos depois, a porta se abriu. Regina estava lá, não com o robe de seda ou o terno de prefeita, mas com uma calça de linho e uma blusa de cashmere que a deixava com um ar doméstico e incrivelmente atraente.
— Pela porta da frente, xerife? — Regina arqueou uma sobrancelha, mas abriu espaço para ela entrar. — Que audácia.
— Cansei de me esconder nas sombras, pelo menos por hoje — Emma entrou, entregando o vinho. — Além disso, se alguém perguntar, eu vim entregar documentos urgentes sobre...
— Sobre? — Regina fechou a porta, trancando o mundo lá fora.
— Sobre o fato de que eu não consigo passar mais cinco minutos sem beijar você.
Regina sorriu, colocando a garrafa sobre a mesa do hall e envolvendo o pescoço de Emma.
— Acho que esses são documentos que eu adoraria analisar com calma.
Ali, no hall da mansão que já fora palco de tantas batalhas e solidão, o silêncio era preenchido apenas pela respiração das duas. Storybrooke podia ter seus segredos, Gold podia ter seus planos e os pais de Emma podiam ter suas expectativas. Mas, naquele momento, a única autoridade que existia era o amor que as unia, um incêndio secreto que, embora escondido, brilhava mais forte que qualquer magia que aquela cidade já tivesse visto.
— Bem-vinda ao lar, Emma — Regina sussurrou.
E Emma, pela primeira vez, sentiu que realmente estava em casa.