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Segredo

Sombras no Espelho e o Peso da Verdade

O silêncio na cozinha da mansão era preenchido apenas pelo som rítmico da faca de Emma batendo contra a tábua de madeira enquanto ela picava as cebolas. O aroma de manjericão fresco e molho de tomate borbulhando no fogão criava uma atmosfera de normalidade que contrastava violentamente com a tempestade que haviam enfrentado no escritório da prefeitura horas antes. Regina estava ao seu lado, montando as camadas da lasanha com uma precisão quase cirúrgica, mas seus pensamentos pareciam estar a quilômetros de distância.

— Você está muito quieta, Mills — comentou Emma, parando o movimento da faca e observando o perfil tenso da outra mulher. — O Gold não vai fazer nada hoje. Ele gosta de saborear a antecipação.

Regina suspirou, colocando uma folha de massa sobre o queijo com delicadeza excessiva.

— Não é o Gold que me preocupa agora, Swan. É o depois. Você jogou as cartas na mesa com uma audácia que eu ainda estou tentando processar. Se ele decidir abrir a boca, não haverá volta. Storybrooke vai implodir.

— Deixe implodir — Emma deu de ombros, aproximando-se e envolvendo a cintura de Regina com um braço, ignorando o fato de que suas mãos cheiravam a cebola. — Eu cansei de viver nas sombras. Eu quero poder te beijar sem olhar por cima do ombro. Eu quero que o Henry veja que a família dele não é baseada em segredos.

Regina virou-se nos braços de Emma, seus olhos castanhos buscando a clareza nos verdes da Salvadora.

— Você diz isso agora, sob a luz quente da minha cozinha. Mas e quando vir o rosto da sua mãe? Quando vir o David tentando decidir se me prende ou se me agradece por não ter te matado ainda?

— Ele vai ter que aceitar — Emma afirmou com uma convicção que até ela se surpreendeu ao sentir. — Porque eu não vou a lugar nenhum. E você também não.

O som da porta da frente abrindo cortou o momento. Henry entrou na cozinha segundos depois, jogando a mochila em uma das cadeiras. Ele olhou para as duas — a proximidade, o clima doméstico, a falta de tensão defensiva — e um sorriso largo iluminou seu rosto.

— O cheiro está ótimo — disse Henry, aproximando-se da bancada. — E vocês duas não estão discutindo sobre o orçamento da cidade. Isso é um milagre de Storybrooke?

— Estamos apenas... colaborando, Henry — explicou Regina, afastando-se de Emma com uma elegância ensaiada, embora suas bochechas tivessem um leve rubor. — Vá lavar as mãos. O jantar estará pronto em breve.

O jantar transcorreu em uma harmonia rara. Henry falava sobre a escola e sobre os novos livros que Archie lhe recomendara, enquanto Emma e Regina trocavam olhares furtivos por cima dos pratos. Havia uma paz frágil no ar, uma bolha de felicidade que parecia protegida por um feitiço invisível. Mas, como tudo em Storybrooke, a paz raramente durava.

Após o jantar, quando Henry subiu para terminar um trabalho de história, Emma e Regina ficaram sozinhas na sala de estar, a luz da lareira projetando sombras longas nas paredes. Emma estava sentada no sofá, enquanto Regina permanecia de pé perto da janela, observando a rua escura.

— Sinto que estamos esperando o carrasco — murmurou Regina, os braços cruzados sobre o peito.

— O carrasco já foi embora, Regina. Gold sabe que perdeu essa rodada — Emma levantou-se e caminhou até ela, parando logo atrás. — Por que você ainda está tão armada?

Regina virou-se abruptamente, sua expressão carregada de uma dor antiga.

— Porque eu passei a vida inteira sendo o monstro na história de todo mundo, Emma! Para a sua mãe, para o seu pai, para metade desta cidade. O amor deles por você é puro, é baseado na ideia da "Salvadora". Quando eles descobrirem que você ama a mulher que arrancou corações e amaldiçoou reinos... o amor deles vai se transformar em piedade. Ou em nojo. E eu não sei se consigo suportar ver você passar por isso por minha causa.

— Não é por sua causa, é por nós! — Emma segurou os ombros de Regina, forçando-a a olhar para ela. — E pare de falar como se você ainda fosse aquela pessoa. Você mudou. Você se redimiu mil vezes. Se eles não conseguirem ver isso, o problema é deles, não nosso.

— Você é tão idealista que às vezes me assusta — Regina deu um sorriso triste, tocando o rosto de Emma. — Mas é por isso que eu te amo.

O beijo que se seguiu foi lento, profundo e carregado de uma melancolia doce. Era um selo de compromisso, uma promessa de que não importava o que o amanhecer trouxesse, elas enfrentariam juntas.

No dia seguinte, Storybrooke parecia a mesma de sempre, mas a tensão no departamento de polícia era palpável. Emma estava revisando alguns arquivos quando a porta se abriu e Mary Margaret entrou, trazendo uma cesta de maçãs colhidas de seu próprio jardim.

— Bom dia, Emma! — disse Mary Margaret, colocando a cesta sobre a mesa. — Eu notei que você tem estado muito ocupada ultimamente. Pensei em trazer um lanche.

— Obrigada, mãe — Emma forçou um sorriso, sentindo o estômago dar um nó. — As coisas estão... agitadas.

Mary Margaret sentou-se na cadeira à frente da mesa e observou a filha por um longo momento. Seu olhar era suave, mas perspicaz.

— Emma, eu te conheço. Você tem aquele olhar de quando está escondendo algo grande. Como quando você era pequena e tentava esconder um pássaro ferido no quarto.

Emma soltou o fôlego que nem sabia que estava prendendo. O ultimato de Gold ainda ecoava em sua cabeça. Ela olhou para a mãe e, por um segundo, quase contou tudo. Quase disse: "Eu amo a Regina e nós estamos juntas". Mas as palavras ficaram presas em sua garganta.

— É só o trabalho, Mary Margaret. O Gold tem sido... o Gold.

— Ele está te incomodando? — O tom de Mary Margaret mudou instantaneamente para protetor. — Se ele estiver tentando algo, você sabe que pode contar conosco. David e eu sempre estaremos ao seu lado.

— Eu sei — Emma murmurou, sentindo o peso daquela lealdade. — Eu sei disso.

Mais tarde, na prefeitura, Regina recebia uma visita menos amigável. Ruby entrou em seu escritório sem bater, fechando a porta com um estrondo.

— Você precisa falar com ela, Regina — disse Ruby, sem preâmbulos.

Regina arqueou uma sobrancelha, mantendo a postura impecável atrás de sua mesa de carvalho.

— Suponho que você esteja falando da xerife. E, se bem me lembro, eu não lhe dei permissão para entrar assim.

— Deixe a pose de Rainha para os turistas — Ruby aproximou-se da mesa. — Eu vi a Emma hoje cedo. Ela parece que vai desmoronar a qualquer momento. O Gold está rondando o Granny's e fazendo perguntas estranhas sobre "lealdades românticas". Se você não fizer algo, ele vai explodir essa bomba do jeito dele, e vai ser muito pior.

Regina sentiu uma pontada de ansiedade. Ela sabia que Ruby tinha razão. O silêncio de Gold não era um presente; era uma estratégia.

— Nós estamos lidando com isso, Ruby. Do nosso jeito.

— O jeito de vocês é se esconder e sofrer? — Ruby cruzou os braços. — Regina, Storybrooke já passou por coisas piores que duas mulheres se amando. O problema não é o romance, é a mentira. As pessoas aqui perdoam quase tudo, menos a falta de confiança.

— Você fala como se fosse simples — Regina levantou-se, caminhando até a janela que dava para a praça central. — Mas para mim, nada nunca foi simples.

— Talvez devesse ser — Ruby disse suavemente antes de sair do escritório.

À noite, Emma e Regina se encontraram novamente na mansão. Desta vez, não houve jantar ou risadas. Elas se sentaram na varanda dos fundos, observando as estrelas. O ar estava frio, e Emma usava sua jaqueta de couro vermelha por cima de um suéter.

— A Mary Margaret veio me ver hoje — começou Emma, quebrando o silêncio. — Ela sabe que algo está errado. Eu quase contei, Regina.

Regina apertou a mão de Emma, seus dedos entrelaçados com força.

— O Gold esteve no Granny's. Ruby veio me dar um sermão sobre honestidade. Parece que o mundo está conspirando para nos tirar do armário, queiramos ou não.

— Talvez devêssemos apenas... fazer isso — sugeriu Emma, olhando para Regina. — Não um anúncio no jornal da cidade, mas apenas parar de mentir. Se alguém perguntar, dizemos a verdade. Se nos virem juntas, que vejam.

Regina olhou para a escuridão do jardim, ponderando sobre as consequências.

— Você está pronta para os olhares, Emma? Para os sussurros quando você passar pela Main Street?

— Eu já sou a "Salvadora" órfã que veio de outro mundo e tem pais da mesma idade que ela — Emma riu secamente. — Eu já sou o assunto da cidade há anos. Se eles quiserem adicionar "namorada da ex-Rainha Má" à lista, que seja. Pelo menos é a verdade.

Regina virou o rosto para Emma, e pela primeira vez em muito tempo, não havia medo em sua expressão. Havia apenas uma aceitação serena.

— Tudo bem, Swan. Do seu jeito. Mas se o David tentar me atacar com uma espada, você é quem vai segurá-lo.

— Combinado — Emma sorriu, puxando Regina para um abraço apertado.

No dia seguinte, o teste veio mais cedo do que esperavam. Era um sábado ensolarado, e a cidade estava cheia. Emma e Regina haviam combinado de levar Henry ao Granny's para o almoço. Geralmente, elas chegariam em carros separados e se sentariam em lados opostos da mesa, mantendo uma distância segura.

Mas hoje foi diferente.

Emma estacionou o fusca amarelo em frente à prefeitura e esperou por Regina. Quando a prefeita saiu, Emma não apenas acenou; ela caminhou até Regina e, diante de vários moradores que passavam, colocou a mão em sua cintura e depositou um beijo em sua bochecha.

O silêncio que se seguiu na calçada foi quase cômico. Granny, que estava varrendo a entrada do restaurante, parou com a vassoura no ar. Leroy, que atravessava a rua, quase tropeçou no próprio pé.

Regina ficou tensa por um microssegundo, mas então relaxou, inclinando-se levemente para o toque de Emma. Ela olhou em volta, sua expressão desafiadora e real, como se dissesse: "Sim, é exatamente o que vocês estão vendo. Algum problema?".

— Vamos? — perguntou Emma, com um sorriso travesso.

— Vamos — respondeu Regina, sua voz clara e firme.

Elas caminharam até o Granny's de mãos dadas. Henry as esperava na porta, e quando viu as duas se aproximando daquela forma, seu sorriso foi o único selo de aprovação que realmente importava para elas.

Dentro do restaurante, o burburinho parou instantaneamente quando elas entraram. Mary Margaret e David estavam em uma mesa de canto, tomando café. O choque no rosto de Mary Margaret foi evidente, enquanto David apenas franziu a testa, observando as mãos unidas das duas.

Emma sentiu um frio na barriga, mas não soltou a mão de Regina. Elas caminharam até a mesa dos Charming.

— Oi, mãe. Oi, David — disse Emma, sua voz firme apesar do nervosismo. — Nós viemos almoçar com o Henry. E queríamos que vocês soubessem... oficialmente.

Mary Margaret olhou para Regina, depois para Emma, e então para as mãos entrelaçadas. O silêncio durou uma eternidade.

— Emma... — começou Mary Margaret, a voz trêmula. — Isso é... vocês estão...

— Sim — interrompeu Regina, sua postura impecável. — Nós estamos juntas, Mary Margaret. E eu sei que isso é a última coisa que você esperava ou queria, mas eu amo a sua filha. E eu não vou mais me esconder.

David levantou-se lentamente, sua expressão ilegível. Ele olhou para Regina por um longo tempo, depois para Emma.

— Você está feliz, Emma? — perguntou David, sua voz baixa e séria.

— Mais do que nunca, David — respondeu Emma, apertando a mão de Regina.

David suspirou, passando a mão pelo cabelo. Ele olhou para Regina novamente, desta vez com um brilho de compreensão.

— Eu não vou dizer que entendo isso agora. E eu ainda tenho muitas perguntas. Mas se você a fizer sofrer, Regina... magia ou não, você terá que lidar comigo.

Regina assentiu com respeito.

— Eu não esperaria nada menos de você, David.

Mary Margaret, que ainda parecia em choque, finalmente se levantou e caminhou até as duas. Ela não disse nada a princípio, apenas abraçou Emma com força. Quando se afastou, olhou para Regina com uma mistura de confusão e aceitação relutante.

— Isso vai levar um tempo para processar — admitiu Mary Margaret. — Mas... se isso traz paz para vocês duas, e se o Henry está feliz... então nós vamos encontrar um jeito de fazer isso funcionar.

O restaurante voltou ao seu barulho normal, embora os sussurros fossem inevitáveis. Emma e Regina sentaram-se em sua própria mesa com Henry, sentindo como se um peso imenso tivesse sido retirado de seus ombros.

— Viu? — sussurrou Emma, aproximando-se de Regina por baixo da mesa. — O mundo não acabou.

— Ainda não — brincou Regina, embora houvesse um brilho de alívio em seus olhos. — Mas o Gold vai ficar furioso por ter perdido o seu trunfo.

— Deixe-o ficar — Emma disse, levantando sua caneca de café. — Nós temos algo que ele nunca terá.

— E o que seria isso, Swan?

— A verdade — respondeu Emma. — E um ao outro.

Naquela tarde, enquanto o sol brilhava sobre Storybrooke, a história da Rainha e da Salvadora tomou um novo rumo. Não era mais um conto de segredos e sombras, mas uma narrativa de coragem e redenção à luz do dia. O ciúme ainda existiria, os desafios ainda viriam e o passado sempre estaria à espreita, mas agora, elas não precisavam mais lutar sozinhas. Entre linhas e segredos expostos, Emma e Regina haviam finalmente encontrado sua liberdade. E em uma cidade de contos de fadas, esse era o final mais real que poderiam ter escrito.