Segredo
Entre Segredos e Confissões
O sol da manhã em Storybrooke era impiedoso. Para Emma Swan, cada raio de luz que atravessava as cortinas de veludo da mansão de Regina parecia uma agulha perfurando seus globos oculares. A promessa de Regina de que ela acordaria sentindo-se atropelada por um troll não era apenas um "eu avisei", era uma profecia realizada com precisão cirúrgica.
Emma gemeu, enterrando o rosto no travesseiro de seda, que ainda guardava o perfume inconfundível de maçãs e magia. A cama estava vazia ao seu lado, mas o calor residual indicava que Regina não estava longe.
— Se você pretende morrer, Swan, por favor, faça isso sem manchar meus lençóis de linho egípcio.
A voz de Regina veio da porta do quarto. Ela já estava impecável, usando um vestido azul-marinho que abraçava suas curvas com uma autoridade silenciosa. Em suas mãos, trazia uma bandeja com uma xícara de café preto fumegante e um copo de suco verde que parecia saído de um caldeirão de poções.
— Minha cabeça... — Emma tentou se sentar, mas o mundo girou violentamente. — Acho que o Gold colocou veneno naquele uísque.
— O único veneno ali foi a sua falta de autocontrole — Regina aproximou-se, sentando-se na beira da cama com uma elegância que Emma invejava, especialmente naquele estado deplorável. — Beba isso. É um tônico. Vai ajudar com a náusea e a vontade de se esconder em um buraco para sempre.
Emma aceitou a xícara, as mãos tremendo levemente. O café estava forte e amargo, exatamente como ela precisava.
— Você ainda está brava comigo? — perguntou Emma entre um gole e outro, olhando para Regina por cima da borda da xícara com os olhos verdes ainda nublados.
Regina suspirou, cruzando as pernas e observando a xerife com uma mistura de exasperação e uma ternura que ela se esforçava para esconder.
— Eu deveria estar. Você foi imprudente, Emma. Beber até cair no Granny’s? Seus pais poderiam ter aparecido. O Henry poderia ter decidido voltar mais cedo. Você arriscou tudo por causa de um impulso de ciúme infantil.
— Eu sei — Emma baixou o olhar para o café. — Eu me sinto uma idiota. É que... ver aquele cara perto de você, e o Gold rondando como um abutre... Eu sinto que estou perdendo o chão. Storybrooke é pequena demais para o tamanho do que eu sinto por você, Regina. E ter que fingir que não sinto nada é como tentar segurar um furacão dentro de uma caixa de sapatos.
Regina estendeu a mão, afastando uma mecha de cabelo loiro do rosto de Emma. O toque era frio, mas carregado de uma eletricidade confortável.
— Eu também sinto isso — confessou Regina, sua voz baixando para um sussurro que apenas as paredes daquele quarto poderiam ouvir. — Mas a nossa segurança depende dessa caixa de sapatos. Pelo menos por enquanto.
— Por quanto tempo? — Emma olhou nos olhos escuros de Regina, buscando uma resposta que talvez nenhuma das duas tivesse. — Eu não quero ser o seu segredo sujo para sempre.
— Você nunca foi um segredo sujo, Emma. Você é a minha salvação. Mas o mundo lá fora... ele não é gentil com coisas bonitas e complicadas como nós.
O momento de vulnerabilidade foi interrompido pelo som vibrante do celular de Emma, que estava jogado no chão junto com sua jaqueta de couro. Regina revirou os olhos enquanto Emma se esticava para alcançá-lo.
— É a Mary Margaret — Emma anunciou, a expressão de pânico surgindo em seu rosto. — Ela já me ligou três vezes.
— Atenda — Regina ordenou, levantando-se e caminhando até a janela. — Mas tente não soar como se tivesse acabado de sair de uma masmorra.
Emma limpou a garganta, tentando forçar uma voz de "xerife alerta".
— Oi, Mary Margaret.
— Emma! Onde você está? — A voz de sua mãe era um misto de preocupação e aquela intuição materna que Emma tanto temia. — David foi até a delegacia e você não estava lá. Ruby disse que você saiu cedo ontem à noite e parecia... indisposta.
Emma lançou um olhar suplicante para Regina, que apenas assistia à cena com um sorriso de canto, claramente achando graça do desespero da loira.
— Ah, sim. Eu tive uma... enxaqueca horrível. Saí para caminhar e acabei dormindo na delegacia mesmo, no sofá dos fundos. Acordei agora.
— No sofá da delegacia? — Mary Margaret soou cética. — Emma, você tem uma casa. Ou pelo menos um loft. Por que não foi para lá?
— Eu não queria dirigir com a cabeça estourando, mãe. Sério, estou bem. Só preciso de um café forte e uns relatórios para organizar. Vejo vocês no almoço?
— Tudo bem, querida. Mas passe aqui em casa antes. Fiz muffins de mirtilo.
Emma desligou o telefone e soltou um suspiro longo, deixando o corpo cair de volta contra os travesseiros.
— "Muffins de mirtilo" — Regina repetiu, a ironia gotejando de sua voz. — A vida doméstica de vocês é realmente fascinante, Swan.
— Não comece, Regina. Eu acabei de mentir na cara da minha mãe enquanto usava a sua camisa de seda. O carma já vai me pegar de qualquer jeito.
Regina caminhou de volta para a cama e inclinou-se sobre Emma, apoiando as mãos no colchão, uma de cada lado da cabeça da loira. O cheiro de Regina — aquela mistura de maçã e autoridade — envolveu Emma novamente.
— O carma pode esperar — Regina sussurrou, aproximando os lábios do ouvido de Emma. — Mas eu não. Você tem meia hora para tomar um banho e sair desta casa antes que a vizinhança comece a contar os minutos. E Emma...
— Sim?
— Se eu vir você perto de um copo de uísque nas próximas vinte e quatro horas, eu mesma vou transformá-la em um sapo. E não será um que se transforma em príncipe com um beijo.
Emma riu, puxando Regina pela gola do vestido para um beijo rápido, mas intenso. Tinha gosto de café, de perigo e de uma promessa silenciosa de que, apesar do caos, elas ainda estavam no controle.
Meia hora depois, Emma descia as escadas da mansão, sentindo-se um pouco mais humana graças ao banho quente e à poção — ou suco — de Regina. Ela saiu pela porta dos fundos, verificando a rua antes de correr para o seu fusca amarelo.
O dia em Storybrooke seguiu seu curso normal, mas para Emma, cada interação parecia carregada de um novo peso. No Granny’s, ela cruzou com David, que a observou com um olhar analítico.
— Você parece melhor, Emma — disse David, encostado no balcão enquanto esperava seu pedido. — Mas ainda tem um brilho estranho nos olhos. Tem certeza de que foi só uma enxaqueca?
— Absoluta, David. Talvez um pouco de estresse acumulado. A cidade tem estado calma demais, e você sabe como eu fico quando não tenho um mistério para resolver.
— Bom, se você quer mistério, fale com o Leroy — David riu. — Ele jura que viu a Prefeita Mills conversando com um rastro de fumaça roxa na floresta ontem à noite.
Emma sentiu o coração falhar uma batida. Ela sabia que Regina não tinha usado magia ontem à noite — ela estava ocupada demais cuidando de uma xerife bêbada.
— Leroy vê coisas em todo lugar, David. Provavelmente era apenas neblina.
— Provavelmente — David concordou, mas seu olhar permaneceu em Emma por um segundo a mais do que o necessário. — Só tome cuidado. Às vezes, o que procuramos está bem debaixo do nosso nariz, e não queremos ver.
Emma engoliu em seco e forçou um sorriso, saindo do restaurante o mais rápido que pôde. As palavras de seu pai ecoavam em sua mente. Será que eles sabiam? Será que a cidade inteira estava apenas esperando que elas cometessem um erro fatal?
À tarde, Emma estava na delegacia quando a porta se abriu e Henry entrou. O garoto trazia o seu livro de histórias debaixo do braço e um sorriso que sempre desarmava Emma.
— Oi, garoto! — Emma levantou-se para abraçá-lo. — O que faz por aqui? Pensei que estivesse na casa do seu amigo.
— A mãe dele teve que viajar de última hora, então voltei mais cedo — Henry sentou-se na cadeira à frente da mesa de Emma. — Eu passei na prefeitura, mas a minha mãe estava em uma reunião trancada com o Sr. Gold. Ela parecia brava.
Emma sentiu a tensão retornar. Gold e Regina trancados em uma sala nunca era um bom sinal.
— Ela só está ocupada, Henry. Você sabe como o Gold pode ser insistente com os contratos da cidade.
— Não era só isso, Emma — Henry baixou a voz, olhando para os lados. — Eu ouvi o Gold dizer algo sobre "o preço do silêncio". E a minha mãe disse que não seria chantageada por um homem que não consegue nem manter a própria família unida.
Emma sentiu o sangue gelar. Chantagem. Gold estava cumprindo a promessa velada que fizera na delegacia.
— Henry, eu preciso que você vá para casa e fique lá, tudo bem? Eu vou passar na prefeitura para ver se está tudo certo.
— Você vai protegê-la, não vai? — Henry perguntou, seus olhos brilhando com aquela sabedoria antiga que ele possuía. — Eu sei que vocês têm brigado menos ultimamente. Eu gosto disso.
Emma sentiu um nó na garganta. O filho delas, o elo que as unia antes mesmo do amor, sentia a mudança na dinâmica.
— Eu vou protegê-la, Henry. Com a minha vida.
Depois que Henry saiu, Emma não perdeu tempo. Ela praticamente voou até a prefeitura, ignorando os cumprimentos dos transeuntes. Ela não bateu na porta do escritório de Regina; ela a escancarou.
Gold estava de pé perto da lareira, segurando sua bengala com uma elegância predatória. Regina estava atrás de sua mesa, os olhos faiscando e as mãos cerradas em punhos sobre o tampo de carvalho.
— Xerife Swan — Gold disse, sem se virar. — Sua pontualidade para o drama é realmente admirável.
— Saia daqui, Gold — Emma rosnou, caminhando até o centro da sala. — Agora.
— Eu estava apenas discutindo alguns termos de... confidencialidade com a Prefeita Mills. Parece que certas atividades noturnas na Mifflin Street têm um valor de mercado muito alto para certos interessados.
— Você não vai tocar nela. E não vai dizer uma palavra sobre o que acha que sabe — Emma colocou a mão no coldre da arma, um gesto puramente instintivo.
— "Acha que sabe"? — Gold riu, o som seco e cortante. — Swan, eu vi você entrar naquela casa ontem à noite. Vi a Srta. Lucas entregando a encomenda nos fundos. Eu não preciso "achar" nada. Eu tenho a verdade. E a verdade, em Storybrooke, é a moeda mais valiosa.
Regina deu um passo à frente, sua voz saindo como um chicote.
— O que você quer, Gold? Diga logo o seu preço e pare com esse teatro.
Gold virou-se, o rosto sombrio.
— Eu quero que você assine a transferência das terras da orla norte. Sem perguntas, sem impostos, sem interferência da xerife.
— Aquelas terras são protegidas! — Emma interveio. — Você quer construir algo lá que a magia não possa alcançar.
— Eu quero o que é meu por direito — Gold retrucou. — E em troca, o segredo de vocês permanece onde deve estar: nas sombras. Caso contrário, eu me pergunto como a Sra. Blanchard reagiria ao saber que sua filha "Salvadora" está dormindo com a mulher que tentou destruir sua vida por décadas.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Emma olhou para Regina, buscando um sinal, uma direção. Regina parecia uma estátua de gelo, mas Emma podia ver o tremor em seus lábios.
— Não — disse Emma, sua voz firme e clara.
Regina e Gold olharam para ela simultaneamente.
— O quê? — Regina perguntou, chocada.
— Nós não vamos ser chantageadas — Emma caminhou até Regina e, pela primeira vez em um ambiente oficial, diante de um inimigo, ela pegou a mão da prefeita e entrelaçou seus dedos. — Se você quer contar, Gold, conte. Vá em frente. Grite dos telhados.
— Emma, você enlouqueceu? — Regina sussurrou, tentando soltar a mão, mas Emma a segurou com mais força.
— Não, Regina. Eu cansei de ter medo. Ele só tem poder sobre nós enquanto tivermos algo a esconder. Se tirarmos o segredo dele, ele não tem nada.
Gold arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpreso com a audácia da xerife.
— Você está disposta a enfrentar o julgamento de seus pais, Swan? A decepção de Henry? O desprezo da cidade que você salvou?
— Meus pais vão me amar de qualquer jeito. Henry já suspeita e, honestamente, ele é mais maduro que todos nós juntos. E quanto à cidade... eles que se danem. Eu não salvei Storybrooke para ser uma prisioneira dela.
Regina olhou para a mão de Emma unida à sua. Ela sentiu a força, a coragem e, acima de tudo, a aceitação. Por anos, Regina Mills viveu para ser amada ou temida, mas nunca se sentira verdadeiramente pertencente a algo. Até agora.
Regina endireitou a postura, o olhar voltado para Gold com uma frieza renovada.
— Você ouviu a xerife, Gold. Saia do meu escritório. E se quiser espalhar fofocas, sinta-se à vontade. Mas saiba que, no momento em que você abrir a boca, eu vou dedicar cada grama da minha magia e da minha influência política para destruir cada contrato, cada posse e cada grama de poder que você tem nesta cidade. E você sabe que eu sou muito boa em destruir coisas.
Gold observou as duas por um longo momento. Ele viu a união, a falta de medo e o perigo que aquela combinação representava. Ele deu um sorriso curto, quase de respeito.
— Um blefe arriscado, senhoras. Mas admito que a coragem é... refrescante. Por enquanto, manteremos o status quo. Mas não se enganem: o segredo de vocês ainda é uma dívida. E eu sempre recebo o que me é devido.
Ele saiu da sala, o som de sua bengala desaparecendo nos corredores da prefeitura.
Regina soltou a mão de Emma e caiu sentada em sua cadeira, as pernas parecendo não sustentar mais seu peso.
— Você é louca, Emma Swan. Completamente louca.
— Talvez — Emma contornou a mesa e ajoelhou-se à frente de Regina, colocando as mãos em seus joelhos. — Mas eu falei sério. Eu não aguento mais o Gold ou qualquer outra pessoa ditando como devemos viver.
Regina cobriu o rosto com as mãos, soltando uma risada nervosa.
— Você percebe que acabamos de declarar guerra ao Senhor das Trevas por causa de um romance escondido?
— Não é só um romance, Regina. É a nossa vida.
Regina afastou as mãos do rosto e olhou para Emma. Seus olhos estavam úmidos, mas brilhavam com uma determinação que Emma nunca vira antes.
— Meus pais vão nos matar — Regina disse, embora houvesse um sorriso brincando em seus lábios.
— Provavelmente — Emma riu, inclinando-se para beijar a testa de Regina. — Mas pelo menos não teremos que nos esconder na cozinha do Granny’s.
— Emma... — Regina segurou o rosto da loira com as duas mãos. — Obrigada por não me deixar desistir.
— Eu nunca vou deixar você desistir. De nós, de Storybrooke, de nada.
Ali, no escritório da prefeitura, com o pôr do sol começando a tingir o céu de laranja e roxo, o segredo ainda existia, mas o peso dele havia mudado. Elas ainda não estavam prontas para caminhar de mãos dadas pela Main Street, mas a sombra de Gold não era mais tão longa.
— Agora — Regina disse, recompondo-se e assumindo seu tom de prefeita novamente —, temos um problema real.
— Qual?
— Henry volta para casa em uma hora. E eu prometi a ele que faríamos lasanha. Você vai me ajudar, e desta vez, tente não cortar os dedos enquanto pica a cebola.
Emma sorriu, levantando-se e estendendo a mão para Regina.
— Sim, senhora Prefeita.
Enquanto caminhavam juntas para fora da prefeitura, Emma sentiu que o ar de Storybrooke estava mais leve. O ciúme, a mentira e o medo ainda faziam parte do cenário, mas agora elas tinham algo novo: a certeza de que, juntas, eram capazes de enfrentar qualquer maldição, qualquer vilão e, talvez, até mesmo um jantar de domingo com os Charming.
A batalha estava longe de terminar, mas naquela noite, na mansão da Mifflin Street, o único som que importava era o das risadas de uma família que estava aprendendo a ser verdadeiramente livre, entre linhas, segredos e o aroma inebriante de uma nova história que começava a ser escrita.