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Segunda chance

O Elo das Almas Perdidas

O ar de Hawkins tinha um peso diferente. Para a maioria das pessoas, era apenas a umidade típica do Indiana ou o cheiro de folhas secas e asfalto, mas para Clara Bennett, cada lufada de ar parecia carregada de eletricidade estática e memórias de pesadelo. Assim que o Chevy de Nancy Wheeler cruzou a placa de boas-vindas da cidade, Clara sentiu um solavanco no peito, como se um anzol invisível tivesse sido cravado em seu esterno e puxado com força bruta.

— Você está bem? — perguntou Nancy, as mãos firmes no volante, mas os olhos desviando constantemente para a passageira. — Você ficou pálida de repente.

Clara pressionou a mão contra o peito, sentindo o coração galopar. Não era apenas ansiedade. Era uma ressonância.

— Ele está aqui — sussurrou Clara, a voz quase sumindo. — Não apenas na cidade, Nancy. Ele está... em todo lugar.

A quilômetros dali, nas profundezas da dimensão espelhada e pútrida, o ser que um dia foi Henry Creel estancou. As gavinhas que o sustentavam vibraram em uníssono. Por anos, ele sentira um vazio, um silêncio absoluto onde antes existia a melodia mais doce que já conhecera. Ele acreditava que a distância e a morte haviam silenciado Clara para sempre. Mas agora, a frequência havia retornado. Era como um grito no vácuo.

Ela estava em casa. Ela estava em Hawkins.

Vecna fechou os olhos, e sua consciência se expandiu como uma mancha de óleo sobre a água. Ele não precisava mais procurar; a conexão deles era um farol.

***

Nancy levou Clara para o esconderijo no porão dos Wheeler. Era o lugar mais seguro que conseguia pensar, longe dos olhos do governo e, esperava ela, protegido pelo caos adolescente de Mike e seus amigos. Dustin, Steve e Max já estavam lá, debruçados sobre mapas e anotações. O silêncio caiu sobre o grupo assim que a mulher gordinha, de olhar cansado e aura poderosa, desceu os degraus.

— Então... você é a 002? — Dustin quebrou o gelo, ajustando o boné com uma mistura de reverência e curiosidade científica. — Quero dizer, a número dois original? Antes de todo o... você sabe, massacre?

Clara forçou um sorriso triste, sentando-se em uma das cadeiras de plástico.

— Eu sou apenas Clara agora. Ou pelo menos, tentei ser.

Nancy se aproximou, entregando uma xícara de chá quente para Clara. Seus olhos de jornalista estavam atentos, buscando respostas para o que vira na mente de Vecna.

— Clara, quando eu estava na mente dele, eu vi algo — começou Nancy, sentando-se à frente dela. — Eu vi vocês dois. Henry parecia... diferente com você. Mas havia uma conexão que eu não conseguia explicar. Como ele consegue te sentir agora? Como ele sabia que você estava viva no momento em que entramos na cidade?

Clara olhou para o vapor subindo da xícara. Ela sabia que essa pergunta viria. Ela se lembrou das noites frias no laboratório, do som das máquinas de Brenner e do cheiro de ozônio. Lembrou-se de Henry, jovem e pálido, segurando suas mãos com uma intensidade que beirava a loucura.

— O Doutor Brenner... — Clara começou, a voz vacilando propositalmente. Ela olhou para Nancy, vendo a sede de justiça e a raiva que a garota sentia pelo "Papai". — Brenner era obcecado por controle. Ele percebeu que Henry e eu tínhamos uma afinidade que ia além dos testes. Ele queria saber se o poder de um poderia ser usado para amplificar o do outro.

— Ele fez experimentos em vocês dois juntos? — Max perguntou, a voz carregada de desprezo pelo homem que havia causado tanto sofrimento a Onze.

— Sim — mentiu Clara, embora a mentira fosse envolta em uma meia-verdade. — Ele nos colocou em uma câmara de isolamento sensorial. Ele ligou nossas mentes através de frequências eletromagnéticas, tentando criar um elo psíquico permanente. Ele chamava isso de "entrelaçamento de almas". Ele queria que fôssemos uma bateria única de poder.

Nancy anotou mentalmente, a expressão endurecendo.

— Aquele monstro... — murmurou Nancy. — Ele não tinha limites.

Clara baixou o olhar para a xícara. A verdade era muito mais sombria e, ao mesmo tempo, mais íntima. Brenner nunca soubera a extensão do que eles haviam feito. Naquelas noites de isolamento, quando as câmeras estavam desligadas ou quando Henry usava seus dons para criar ilusões que enganavam os guardas, eles haviam feito aquilo sozinhos.

Não fora uma máquina de Brenner que ligara suas almas. Fora um pacto de sangue e vontade. Henry havia entrado na mente de Clara e ela na dele, não para se fundirem, mas para se pertencerem. Eles haviam entrelaçado suas essências de tal forma que um era o âncora do outro. Henry fizera isso para garantir que Clara nunca pudesse deixá-lo, e ela aceitara porque, naquele lugar de paredes brancas e tortura, ele era o seu único sol.

Mas ela não podia contar isso a Nancy. Nancy precisava acreditar que Henry era uma vítima de Brenner, ou pelo menos que a conexão era uma imposição externa. Se Nancy soubesse que Clara havia se entregado voluntariamente àquela escuridão, ela nunca confiaria nela. E Clara precisava da confiança deles para chegar até Henry.

— Por isso ele te sente — concluiu Dustin, andando de um lado para o outro. — Vocês são como dois walkie-talkies sintonizados na mesma frequência proibida. Enquanto você estava fora de Hawkins, o sinal era fraco demais, bloqueado pela distância e talvez pela interferência de outras cidades. Mas aqui... aqui é o epicentro.

— Eu sinto cada batida do coração dele — confessou Clara, e desta vez não era mentira. — É como um tambor batendo no fundo da minha cabeça. Ele está furioso, Nancy. Mas também está... em agonia. Ele sente que eu o abandonei.

— Ele matou crianças, Clara — lembrou Steve, sua voz séria, perdendo o tom brincalhão habitual. — Ele tentou matar a Max. Não importa o que Brenner fez com vocês ou o quanto vocês estavam "ligados". Ele é um monstro agora.

Clara olhou para Steve, e por um momento, seus olhos brilharam com uma luz azulada, fria e profunda.

— Eu sei o que ele se tornou — disse ela, a voz subindo de tom. — Mas você não entende o que é ter uma parte da sua alma arrancada e jogada em um abismo. Ele passou dez anos achando que eu estava morta por culpa dele. O ódio dele é o luto que apodreceu.

Nancy colocou a mão sobre a de Clara.

— Podemos usar isso? Essa ligação? Se ele está vindo atrás de você, podemos atraí-lo para uma armadilha?

Clara sentiu um aperto no estômago. Atrair Henry para uma armadilha parecia uma traição pior do que a que Brenner cometera. Mas ela olhou para Max, que ainda carregava as cicatrizes invisíveis do encontro com Vecna, e soube que não tinha escolha.

— Ele não vai vir fisicamente, não no início — explicou Clara. — Ele vai tentar me puxar para o mundo dele. Para o lugar onde ele reina. Ele vai tentar usar o elo para me reivindicar.

— E se ele fizer isso? — perguntou Dustin. — O que acontece com você?

— Eu não sei — admitiu Clara. — Mas se eu for, Nancy, você precisa estar pronta. Se o plano de vocês é matá-lo, a hora será quando ele estiver focado em mim. Quando ele baixar a guarda para me tocar, o elo vai estar mais forte do que nunca. É a única chance de vocês.

Nancy assentiu, embora houvesse uma hesitação em seus olhos. Ela sentia a dor de Clara, a tragédia de uma mulher ligada a um demônio.

— Vamos preparar tudo — disse Nancy, levantando-se. — Dustin, Steve, comecem a reunir o equipamento. Max, fique com a Clara. Eu vou falar com o Jonathan e ver se conseguimos mais reforços.

Enquanto o grupo se dispersava pelo porão, Clara permaneceu sentada, olhando para o nada. Ela sentia a presença de Henry se aproximando nas bordas de sua consciência. Ele estava sussurrando seu nome, uma vibração que fazia seus dentes doerem.

— Clara... — a voz dele ecoou, não nos ouvidos, mas nos ossos.

Ela fechou os olhos e, por um breve segundo, não estava no porão dos Wheeler. Ela estava em uma sala branca, o cheiro de lavanda e sangue misturados. Henry estava lá, jovem, bonito, com a mão estendida.

— Por que você me deixou no escuro? — ele perguntou, a voz carregada de uma mágoa milenar.

— Eu não tive escolha, Henry — ela respondeu em pensamento. — Eles me levaram. Eles me disseram que você tinha partido.

— Eles mentiram — rosnou a voz, tornando-se mais gutural, mais parecida com a de Vecna. — Todos eles mentem. Mas agora eu vejo você. E eu nunca mais vou deixar o mundo nos separar.

Clara abriu os olhos, voltando à realidade do porão. Suas mãos tremiam tanto que ela teve que escondê-las sob a mesa. Ela olhou para Nancy, que organizava mapas com uma determinação feroz.

"Perdoe-me, Nancy", pensou Clara. "Você acha que Brenner é o vilão desta história de amor, e talvez ele seja. Mas a ligação que nos une... ela não foi feita com fios e eletrodos. Ela foi feita com a nossa própria escuridão. E eu não sei se quero ser salva dela."

Lá fora, o céu de Hawkins começou a girar em tons de roxo e cinza. O portal não precisava estar aberto para que a tempestade começasse. O encontro entre a 001 e a 002 era inevitável, um eclipse que ameaçava consumir tudo o que restava daquela cidade amaldiçoada. E enquanto Nancy Wheeler planejava uma guerra, Clara Bennett esperava pelo seu marido, sabendo que, no fim, o amor deles poderia ser a coisa mais destrutiva que Hawkins já vira.