Segunda chance
O Echo do Berço Vazio
O silêncio no porão dos Wheeler era interrompido apenas pelo som rítmico de Dustin testando os walkie-talkies. Nancy estava debruçada sobre um mapa da floresta de Hawkins, marcando pontos estratégicos, mas seus olhos frequentemente voltavam para Clara. A mulher exalava uma tristeza que parecia física, uma névoa densa que nem mesmo a luz forte das lâmpadas fluorescentes conseguia dissipar.
Clara sentia o olhar de Nancy. Ela sabia que a jovem jornalista estava tentando montar o quebra-cabeça, tentando entender por que o monstro que aterrorizava a cidade se tornava um homem vulnerável diante da simples menção ao nome dela.
— Você está muito quieta — disse Nancy, aproximando-se com uma cadeira. — No que está pensando?
Clara apertou as mãos sobre o colo. O peso da mentira sobre Brenner ainda pairava entre elas, mas havia outra verdade, uma muito mais dolorosa, que estava começando a emergir conforme a conexão com Henry se estreitava.
— Eu estava pensando em como as coisas poderiam ter sido — começou Clara, a voz rouca. — Antes do massacre. Antes de Brenner decidir que nós éramos apenas... ferramentas.
Nancy inclinou-se para frente, a curiosidade brilhando em seus olhos, mas temperada com uma empatia genuína.
— Ele não queria apenas que fôssemos armas, Nancy — continuou Clara, olhando para um ponto invisível na parede. — Ele queria ver até onde a biologia de dois experimentos poderia chegar.
— O que você quer dizer? — perguntou Nancy, sentindo um calafrio.
Clara fechou os olhos. A memória veio como uma onda de água gelada. O laboratório. O quarto privativo que Henry e ela compartilhavam, uma pequena concessão de Brenner para mantê-los dóceis.
— Houve um tempo em que Hawkins não era apenas um laboratório para nós — murmurou Clara. — Foi o nosso lar. Por alguns meses, nós acreditamos que poderíamos ter algo... normal. Eu engravidei, Nancy.
O som do walkie-talkie de Dustin parou abruptamente. Steve e Max, que estavam em um canto, viraram-se simultaneamente. O choque na sala era quase palpável.
— Você... você e o 001? — gaguejou Dustin. — Vocês iam ter um filho?
Clara assentiu, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto redondo.
— Henry ficou radiante. Foi a única vez que vi o ódio nos olhos dele desaparecer completamente. Ele falava com a minha barriga todas as noites. Ele dizia que aquela criança seria perfeita. Que ela não teria as correntes que Brenner nos impôs. Ele a chamava de "nossa pequena luz".
Nancy sentiu um nó na garganta. A ideia de Vecna, aquela criatura de carne exposta e gavinhas, acariciando o ventre de uma esposa grávida era uma imagem impossível de processar.
— O que aconteceu? — perguntou Nancy, quase temendo a resposta.
Clara soltou um suspiro trêmulo, as mãos subindo instintivamente para o abdômen, um gesto reflexo de uma dor que nunca cicatrizou.
— Brenner descobriu. Ele ficou fascinado, mas não da forma humana. Ele queria testar a resistência do feto. Ele queria saber se os poderes de Henry passariam para a próxima geração através do estresse psíquico.
Ela fez uma pausa, a respiração tornando-se curta.
— Eles me levaram para a sala de testes. Henry foi trancado atrás do vidro reforçado, obrigado a assistir. Brenner aumentou a voltagem dos indutores psíquicos. Ele me forçou a entrar em um transe tão profundo que eu não conseguia mais respirar. O experimento foi... pesado demais. O meu corpo não suportou. A conexão foi forte demais para um ser tão pequeno.
— Meu Deus... — sussurrou Max, cobrindo a boca com a mão.
— Eu perdi o bebê naquela sala — disse Clara, a voz agora fria e desprovida de emoção, o sinal de um trauma profundo. — E Henry... Henry quebrou. Foi ali que o último vestígio de humanidade dele morreu. Ele gritou até suas cordas vocais sangrarem. Ele tentou derrubar as paredes com a mente, mas Brenner usou os inibidores. Ele viu o filho dele morrer por causa da curiosidade de um homem que se achava Deus.
Clara olhou diretamente para Nancy.
— Você me perguntou por que Brenner nos ligou. Eu deixei você acreditar que foi uma máquina. Mas a verdade é que, depois que perdemos o bebê, Henry se recusou a me soltar. Ele usou o que restava do seu poder para fundir nossas almas. Ele disse que, se não pudéssemos criar vida juntos, nós compartilharíamos a mesma vida até o fim dos tempos. Brenner apenas observou e anotou, como se fôssemos ratos em um labirinto.
A sala mergulhou em um silêncio sepulcral. A raiva de Nancy contra Brenner, que já era vasta, atingiu um novo patamar. Mas havia algo mais. Ela agora entendia a fúria de Vecna. Não era apenas niilismo. Era vingança por um futuro que lhe fora roubado da forma mais cruel imaginável.
— É por isso que ele está voltando — disse Nancy, a voz firme apesar da emoção. — Ele não quer apenas destruir Hawkins. Ele quer recuperar o que sobrou daquela vida. Ele quer você.
— E eu sou a única que pode fazê-lo parar — disse Clara, levantando-se. — Porque eu sou a única que lembra do homem que ele era antes do sangue e das cinzas.
De repente, as luzes do porão piscaram violentamente. O rádio de Dustin começou a emitir um chiado estridente, uma frequência distorcida que parecia um choro de criança.
— Clara... — a voz não veio do rádio, mas de todos os cantos da sala ao mesmo tempo. Era um sussurro gutural, carregado de uma saudade aterrorizante.
Clara empalideceu, segurando-se na borda da mesa.
— Ele está aqui — disse ela.
— Nancy, pegue as armas! — gritou Steve, agarrando seu bastão com pregos.
— Não! — Clara levantou a mão, e uma onda de energia azul emanou dela, empurrando Steve suavemente para trás. — Se vocês lutarem agora, ele vai destruir esta casa com todos vocês dentro. Ele não quer vocês. Ele quer a mim.
— Não vamos deixar você se entregar, Clara — disse Nancy, sacando sua pistola. — Nós temos um plano.
— O plano mudou, Nancy — disse Clara, os olhos brilhando intensamente. — Ele está usando o eco do nosso bebê. Ele está me chamando através da dor que compartilhamos. Eu preciso ir até ele, ou Hawkins vai queimar hoje à noite.
— Clara, espere! — Dustin gritou, mas era tarde demais.
O chão do porão pareceu se liquefazer. Uma fenda escura, pulsando com uma luz vermelha doentia, abriu-se sob os pés de Clara. Gavinhas negras subiram como serpentes, envolvendo seus tornozelos com uma delicadeza perturbadora.
— Ele não vai me machucar — disse Clara, olhando para Nancy uma última vez. — Mas quando eu estiver lá... quando o portão se fechar atrás de mim... você terá que fazer o que for preciso. Prometa-me, Nancy. Não o deixe sofrer mais.
Antes que Nancy pudesse responder, Clara foi puxada para baixo. O grito de Nancy foi abafado pelo som de carne se fechando. O porão voltou ao normal, as luzes pararam de piscar, e o silêncio retornou, mais pesado do que nunca. No chão, onde Clara estava, restava apenas uma pequena mancha de lavanda e o eco de um choro que não pertencia a este mundo.
— Temos que ir atrás dela — disse Steve, o rosto pálido.
Nancy guardou a arma, seus olhos brilhando com uma determinação fria.
— Nós vamos. Mas agora não é mais apenas uma caçada ao monstro, Steve. É um resgate. E uma execução.
***
No Mundo Invertido, o cenário era de uma beleza macabra. Clara abriu os olhos e se viu no meio do que parecia ser o berçário que eles nunca tiveram, mas construído com os materiais de pesadelo daquela dimensão. As paredes eram feitas de gavinhas pulsantes, e o berço no centro era um emaranhado de raízes negras.
Sentado em uma poltrona feita de ossos e sombras, estava ele. Vecna.
Ele não se moveu, mas Clara sentiu a mente dele envolvê-la como um abraço sufocante.
— Você voltou — disse ele, a voz ecoando pelas paredes orgânicas.
— Eu nunca quis partir, Henry — respondeu Clara, aproximando-se sem medo.
Ela estendeu a mão e tocou a face desfigurada do monstro. Para qualquer outra pessoa, seria um toque de horror, mas para ela, era como tocar a pele do homem que amara no laboratório.
— Eles nos tiraram tudo — rosnou Vecna, fechando os olhos sob o toque dela. — O nosso filho. O nosso futuro. Eu transformei este mundo em um monumento ao que perdemos, Clara.
— Eu sei — sussurrou ela. — Mas a vingança não vai trazê-lo de volta, Henry. Só vai aumentar o vazio.
Vecna abriu os olhos, e por um segundo, a luz azul de Clara refletiu-se na escuridão dele.
— O vazio é tudo o que resta — disse ele. — A menos que você fique. A menos que nós governemos este nada juntos.
Clara sentiu o elo entre suas almas vibrar. Ela podia sentir o plano de Nancy lá fora, a pressão de Onze tentando encontrar uma entrada, o medo dos seus novos amigos. Mas ali, diante do homem quebrado que um dia fora seu mundo, ela sentiu uma tentação perigosa.
— Brenner está morto, Henry — disse ela suavemente. — Ele não pode mais nos machucar.
— Mas o mundo que ele criou ainda respira — respondeu Vecna, levantando-se. Ele era imenso, uma figura de terror puro, mas suas mãos tremiam enquanto ele as aproximava do ventre de Clara, repetindo o gesto de anos atrás. — E enquanto eles respirarem, o nosso filho continuará sendo apenas um fantasma.
Clara sentiu a dor dele, a agonia de um pai que nunca pôde ser pai, e soube que a ligação deles era a arma definitiva. Não para destruir Hawkins, mas para destruir a si mesmos.
— Então vamos acabar com isso — disse ela, as lágrimas caindo sobre as gavinhas no chão. — Juntos. Como Brenner sempre quis, mas do nosso jeito.
Longe dali, no laboratório abandonado de Hawkins, Nancy Wheeler sentiu o solo tremer. O portal estava se expandindo, mas não com ódio. Era algo novo. Algo que cheirava a lavanda e a um adeus final.
— Preparem-se — ordenou Nancy para o grupo. — Clara está fazendo a jogada dela.
A batalha final não seria decidida por armas ou superpoderes, mas pelo peso de um berço vazio que se recusava a ser esquecido. E enquanto o Mundo Invertido rugia, Clara e Henry permaneciam abraçados no centro da tempestade, dois experimentos, duas almas ligadas, e um amor que era, ao mesmo tempo, a salvação e a destruição de tudo o que conheciam.