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O Eco do Último Desejo

As montanhas de Caingorn eram implacáveis, mas o ar rarefeito não era nada comparado à tensão que sufocava o acampamento após a caçada ao dragão dourado. O cheiro de enxofre e rocha queimada ainda pairava no ar, misturando-se ao aroma de ervas que Clara tentava, em vão, usar para acalmar seus próprios nervos. Ela estava sentada sobre uma pedra achatada, limpando uma pequena escoriação no joelho de Jaskier, que, por um milagre, não havia quebrado o alaúde — nem o pescoço — durante a confusão.

A poucos metros dali, o mundo parecia estar desmoronando. Geralt e Yennefer estavam envolvidos em uma daquelas discussões que não eram apenas palavras, mas lâminas afiadas projetadas para sangrar a alma. Clara tentava não ouvir, mas cada grito da feiticeira e cada resposta rosnada do bruxo ecoavam nas paredes do desfiladeiro. Ela viu o momento em que Yennefer partiu, um rastro de portal e fúria deixando para trás um silêncio que era mil vezes mais perigoso do que a gritaria.

Geralt ficou parado, as costas tensas, os ombros subindo e descendo com uma respiração pesada e errática. Clara sentiu aquela velha pontada no peito. O instinto de proteção, aquele que a definia, gritou mais alto que o bom senso. Ela se levantou, ignorando o protesto baixo de Jaskier, e caminhou em direção ao bruxo.

— Geralt... — chamou ela suavemente, estendendo a mão para tocar o braço dele. — Deixe-me ver se você se machucou. Aquele desmoronamento...

Geralt se virou com uma velocidade que a fez recuar. Seus olhos não eram apenas âmbar; eram fendas de puro ódio, a pupila dilatada pelas poções e pela dor emocional que ele não sabia como processar.

— Afaste-se de mim, Clara — rosnou ele, a voz soando como o atrito de pedras em um moinho.

Jaskier, sentindo o perigo, aproximou-se, tentando usar sua habitual leveza para desarmar a bomba.

— Ora, Geralt, não seja tão dramático! A feiticeira se foi, sim, mas olhe pelo lado positivo: ainda estamos vivos, o dragão está a salvo e Clara tem um ensopado de lebre que...

— Cale a boca, Jaskier! — Geralt explodiu, dando um passo em direção ao bardo. — Cale a maldita boca!

Clara se colocou entre os dois, o corpo arredondado servindo de escudo para o irmão, a expressão brava que lhe rendera a fama de protetora brilhando em seus olhos castanhos.

— Não fale assim com ele, Geralt. Ele está apenas tentando ajudar. Estamos todos exaustos.

Geralt soltou uma risada seca, um som desprovido de qualquer alegria. Ele olhou para Clara, e o desprezo que viu ali foi o golpe mais doloroso que ela já recebera. Era como se todos os momentos íntimos, cada noite em que ela cuidara de suas feridas, cada vez que ela entregara seu corpo e seu coração a ele, tivessem sido apagados.

— Ajudar? — Geralt cuspiu as palavras. — Vocês não ajudam em nada. Vocês são como carrapatos, agarrados à minha pele, sugando o que resta da minha paciência. A vida é uma merda, Jaskier e Clara, e vocês só adicionam mais merda a ela!

Clara sentiu o impacto das palavras no estômago. Ela abriu a boca para retrucar, mas Geralt não tinha terminado. A raiva que ele sentia por Yennefer, pelo destino, por sua própria natureza de mutante, estava sendo canalizada para os dois únicos seres que realmente se importavam com ele.

— Se a vida me deu tudo o que eu não queria, foi por causa de vocês! — continuou ele, a voz subindo de tom, ecoando pelo vale. — Jaskier com suas canções idiotas que atraem problemas, e você, Clara... com esse seu sentimentalismo sufocante, achando que um pouco de pomada e um corpo quente podem mudar o que eu sou!

— Geralt, pare — pediu Jaskier, a voz agora tremendo, a máscara de bobo da corte caindo completamente. — Você não está falando sério.

— Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida! — O bruxo deu um passo final, ficando a centímetros do rosto de Clara. — Se eu pudesse ter um último desejo agora, seria que vocês sumissem da minha vida! Para sempre!

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o vento parecia ter parado de soprar. Jaskier deu um passo para trás, o rosto pálido, os olhos cheios de uma tristeza que nenhuma balada poderia descrever.

— Bem — disse o bardo, a voz saindo pequena, quase um sussurro. — Acho que, finalmente, a rima acabou. Eu sempre pensei que, no fim das contas, seríamos nós contra o mundo, Geralt. Mas parece que o mundo é você, e nós somos apenas o que você quer descartar.

Jaskier olhou para a irmã, esperando uma explosão, um grito, uma de suas famosas broncas que faziam até os mercenários mais durões baixarem a cabeça. Mas Clara estava estranhamente imóvel.

Ela observou Geralt. Viu o homem que ela amou em segredo e em público, o homem cujas cicatrizes ela conhecia pelo tato, na escuridão das tendas. Ela viu o monstro que ele insistia em dizer que era, e percebeu, com uma clareza dolorosa, que ele finalmente tinha conseguido o que queria: ele a tinha quebrado. A "braba" irmã do cantor não tinha mais fogo para queimar.

Clara respirou fundo, o peito subindo e descendo devagar. Ela não chorou. Não ali, na frente dele.

— Tudo bem — disse ela.

A voz dela foi calma, desprovida de raiva, desprovida de paixão. Foi a voz de alguém que acabara de aceitar uma sentença de morte.

— O quê? — Geralt pareceu vacilar por um segundo, o brilho de fúria em seus olhos piscando como uma vela prestes a apagar.

— Eu disse "tudo bem", Geralt — repetiu ela, olhando-o diretamente nos olhos. — Você terá o seu desejo.

Ela se virou para o irmão e pegou a mão dele. A mão de Jaskier estava fria e tremia violentamente.

— Vamos, Jaskier. Pegue suas coisas.

— Clara... — Geralt deu um passo à frente, um gesto instintivo de quem percebe que a corda arrebentou, mas Clara não parou.

Ela caminhou até o local onde suas bolsas estavam, jogando os frascos de ervas e as bandagens de qualquer jeito para dentro do couro. Ela não se importou se as poções se misturassem ou se o linho se sujasse. Nada mais importava.

Jaskier a seguiu em silêncio absoluto, algo que era mais assustador do que qualquer um de seus falatórios. Ele pegou seu alaúde como se fosse um objeto estranho e pesado.

Enquanto se preparavam para descer a trilha da montanha, deixando Geralt sozinho no topo, o bruxo permaneceu parado, observando-os. O peso do que ele dissera começou a assentar sobre seus ombros, substituindo a adrenalina da raiva por um vazio gélido.

— Clara! — ele chamou uma última vez, mas não havia autoridade em sua voz, apenas uma incerteza desesperada.

Ela parou por um breve momento, as costas voltadas para ele. Jaskier já estava alguns metros à frente, descendo a encosta com os ombros curvados.

— Você sempre disse que as mutações te impediam de sentir, Geralt — disse ela, sem se virar. — Mas a verdade é que você sente tudo. Você só é covarde demais para amar alguém que não seja um reflexo da sua própria dor. Yennefer é o seu espelho. Eu era apenas o seu curativo. E curativos são jogados fora quando a ferida para de sangrar.

— Eu não quis dizer... — começou ele, mas as palavras morreram em sua garganta.

— Quis sim. E eu te ouvi. Pela primeira vez em anos, eu finalmente te ouvi de verdade.

Clara começou a descer, seguindo o irmão. O caminho era íngreme e perigoso, mas ela não olhou para trás. Ela sentia o olhar de Geralt queimando em suas costas, mas não cedeu. A mulher que protegia a todos tinha finalmente entendido que não podia proteger um homem de si mesmo.

Lá embaixo, na base da montanha, o ar era mais quente, mas Clara sentia um inverno eterno se instalando em seu coração. Jaskier parou perto de um riacho, sentando-se em um tronco caído. Ele olhou para as mãos, depois para a irmã.

— Para onde vamos agora, maninha? — perguntou ele, a voz rouca. — Onde a trilha nos leva se o Lobo não está mais nela?

Clara aproximou-se e sentou-se ao lado dele, puxando a cabeça do irmão para o seu ombro, exatamente como ele fizera por ela tantas vezes.

— Para qualquer lugar onde não haja bruxos, Jaskier. Para qualquer lugar onde suas canções sejam apenas música, e não um lembrete de alguém que não nos quer por perto.

— Eu vou escrever uma canção sobre isso — murmurou Jaskier, embora não houvesse entusiasmo em sua voz. — Vai ser a balada mais triste de todo o continente. "O Adeus na Montanha".

— Não — disse Clara, firme. — Você não vai dar a ele o luxo de se tornar uma canção. Geralt de Rívia não merece seus versos, nem as minhas lágrimas.

Ela olhou para as próprias mãos, as mãos que tantas vezes haviam acariciado os cabelos brancos do bruxo e costurado sua pele rasgada. Ela sentiu uma vontade imensa de chorar, um soluço entalado na garganta que ameaçava explodir, mas ela o engoliu.

Ela era a irmã do bardo. Ela era a mulher que cuidava. E, a partir daquele momento, ela cuidaria apenas de si mesma e do irmão.

Lá no alto, Geralt de Rívia sentou-se diante das cinzas da fogueira. O silêncio da montanha, que ele sempre apreciara, agora parecia ensurdecedor. Ele olhou para o lugar onde Clara costumava se sentar, organizando suas ervas com aquela paciência infinita que ele nunca soube retribuir.

Ele desejou que eles sumissem. E o destino, com seu senso de humor distorcido, concedera o desejo. O bruxo estava sozinho. Exatamente como ele sempre dissera que deveria ser.

Mas, pela primeira vez em décadas, a solidão não parecia uma escolha. Parecia um castigo. E enquanto a primeira neve do inverno começava a cair sobre as montanhas de Caingorn, Geralt percebeu que algumas feridas, por mais que Clara tentasse, nunca parariam de sangrar. Especialmente aquelas que ele mesmo infligira.

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