Sei la
Ecos de uma Promessa de Inverno
O ar na taverna "O Ganso Depenado", em Novigrad, estava saturado com o cheiro de cerveja barata, fumaça de cachimbo e o suor de marinheiros que tentavam esquecer o balanço do mar. No palco improvisado, Jaskier dedilhava seu alaúde com uma maestria que só o tempo e a melancolia poderiam refinar. Ele não cantava mais sobre bruxos ou monstros. Suas canções agora falavam de portos seguros, de amores que permaneciam e de casas com lareiras acesas.
Em um canto mais reservado, longe da luz direta das tochas, um homem de cabelos brancos e olhos de gato bebia seu hidromel em silêncio. Geralt de Rívia estava de passagem, como sempre. Um ano e meio se passara desde a montanha de Caingorn. Um ano e meio de silêncio absoluto vindo do bardo e de sua irmã. Geralt tentara se convencer de que era melhor assim, mas cada cicatriz em seu corpo parecia coçar com a lembrança das mãos firmes e calorosas de Clara.
Ele ouviu o som de uma cadeira sendo puxada na mesa ao lado. Dois homens se sentaram. Um deles era Jaskier, visivelmente mais maduro, com roupas de veludo que pareciam novas e bem cuidadas. O outro era um homem robusto, de ombros largos, com mãos calejadas de quem trabalhava a terra ou a madeira, e um olhar honesto que transbordava contentamento.
— Mais uma rodada, meu caro cunhado! — exclamou Jaskier, batendo no ombro do homem. — Por conta do artista! A noite foi produtiva e o público de Novigrad ainda tem bom gosto para a verdadeira poesia.
Geralt congelou com a caneca a meio caminho da boca. *Cunhado?*
— Você vai acabar gastando todo o lucro antes mesmo de voltarmos para a fazenda, Jaskier — disse o outro homem, rindo. A voz era profunda e calma. — E você sabe que Clara não gosta de desperdício. Ela já está preparando a despensa para o inverno.
— Ah, Clara e seu pragmatismo — Jaskier suspirou, mas havia um brilho de adoração em seus olhos. — Mas admita, Tomas, você é o homem mais sortudo de todos os Reinos do Norte. Levar minha irmã para o altar... eu deveria ter cobrado um dote em ouro puro por aquela mulher.
— Eu daria cada moeda que possuo e as que ainda não ganhei — respondeu Tomas, seriamente. — Ela é o coração daquela casa. Não sei como vivi tanto tempo sem a brabeza dela para me colocar no eixo.
Geralt sentiu um peso súbito no estômago, como se tivesse levado um soco de um ciclope. O mundo ao seu redor pareceu perder o foco, restando apenas a conversa na mesa vizinha. Clara estava noiva. Clara tinha uma casa. Clara tinha um homem que não tinha medo de admitir, em uma taverna cheia, que ela era o seu mundo.
— Ela sente sua falta quando você sai em turnê — comentou Tomas, servindo a cerveja. — Mas ela entende. Ela diz que você tem o espírito do vento, e que ela prefere saber que você está voando do que preso em uma gaiola.
— Ela é uma santa — Jaskier tomou um longo gole. — Depois de tudo o que passamos na trilha... depois daquele mutante maldito ter quebrado o coração dela daquele jeito covarde... eu achei que ela nunca mais confiaria em ninguém.
Geralt fechou os olhos. A palavra "covarde" ecoou em sua mente com a força de um veredito.
— Ela não fala muito sobre esse tempo — disse Tomas, o tom de voz baixando. — Mas às vezes, quando o vento sopra mais forte do norte e as velhas feridas dela doem, eu vejo uma sombra nos olhos dela. Eu só queria poder apagar o que quer que aquele sujeito tenha feito.
— Você já apagou, Tomas — Jaskier colocou a mão sobre a do cunhado. — Você deu a ela o que ele nunca teve coragem de dar. Você deu a ela um nome, uma casa e a certeza de que, quando você sai de manhã, você volta à noite. Para uma mulher que passou anos curando feridas de um homem que fugia da própria sombra, isso é tudo.
Geralt não conseguiu mais ficar sentado. A necessidade de ver, de confirmar, de enfrentar o fantasma do que ele havia jogado fora, tornou-se insuportável. Ele se levantou, a armadura de couro rangendo levemente. Ele caminhou até a mesa deles, a silhueta imponente projetando uma sombra longa sobre os dois homens.
Jaskier levantou o olhar, o sorriso morrendo instantaneamente em seu rosto. O bardo empalideceu, e por um momento, Geralt achou que ele fosse gritar ou pegar uma faca de mesa. Mas Jaskier apenas se endireitou, a expressão tornando-se fria e distante como o gelo de Skellige.
— Geralt — disse Jaskier. Não houve "meu amigo", não houve entusiasmo. Apenas o reconhecimento seco de um estranho.
— Jaskier — respondeu o bruxo, a voz rouca. Ele olhou para Tomas, que agora observava a cena com uma confusão cautelosa.
— Quem é esse, Jaskier? — perguntou Tomas, começando a se levantar, o instinto protetor aguçado pela tensão óbvia.
— Ninguém, Tomas — respondeu Jaskier, sem desviar os olhos de Geralt. — Apenas um fantasma de uma vida que já enterramos.
Geralt sentiu a lâmina das palavras do bardo. Ele olhou para Tomas, vendo o homem que ocupara o lugar que ele, em sua arrogância e medo, acreditara que ninguém mais poderia ocupar.
— Eu ouvi... — Geralt começou, mas as palavras pareceram estúpidas. — Ouvi que ela está bem.
— Ela está maravilhosa — sibilou Jaskier. — Ela está feliz. Ela está segura. E o mais importante, Geralt: ela não está esperando por ninguém.
— Eu não vim para...
— Você não veio para nada, porque não sobrou nada para você — Jaskier interrompeu, levantando-se. — Você teve a sua chance. Por anos, ela te deu o sangue, o suor e o amor dela, e você jogou tudo fora em uma montanha porque tinha medo de ser humano. Pois olhe para este homem ao meu lado. Ele é humano. Ele não tem mutações, não tem espadas de prata, mas tem mais coragem em um dedo do que você tem em todo o seu corpo de bruxo.
Tomas, percebendo finalmente quem era o homem à sua frente, fechou os punhos.
— Então é você — disse o noivo de Clara, sua voz não tremia, mas carregava um peso de indignação. — O homem que a deixava chorando nas tendas. O homem que se escondia atrás de poções para não assumir a mulher que salvava a vida dele todos os dias.
Geralt manteve o olhar baixo. Ele não tinha defesa. Pela primeira vez em sua longa vida, o Lobo Branco sentia-se pequeno.
— Onde ela está? — perguntou Geralt, uma necessidade desesperada de vê-la uma última vez queimando em seu peito.
— Longe de você — retrucou Jaskier. — E vai continuar assim. Se você tiver um pingo de decência, Geralt, se é que sobrou algum sentimento humano sob essa pele de mutante, você vai virar as costas agora e nunca mais vai procurar por ela. Deixe-a em paz. Ela finalmente parou de olhar para a estrada esperando por um cavalo preto.
— Jaskier, eu só queria...
— O que você queria? Pedir perdão? — Jaskier riu, um som amargo. — O perdão não cura o tempo perdido. Não apaga a humilhação de ser a "irmã do bardo" enquanto você desfilava com feiticeiras. Vá embora, Geralt. Volte para a sua trilha. Volte para a sua solidão. Você lutou tanto por ela, agora aproveite-a.
Geralt olhou para Tomas uma última vez. Viu o anel de noivado simples, mas polido, na mão do homem. Viu a honestidade e a força de alguém que não precisava de sinais mágicos para proteger quem amava.
— Cuide dela — disse Geralt, a voz quase um sussurro.
— Eu cuido — respondeu Tomas, com uma firmeza que não deixava margem para dúvidas. — Eu faço o que você foi covarde demais para fazer. Eu a amo diante de Deus e dos homens.
Geralt assentiu lentamente. Ele deu um passo para trás, sentindo o peso de mil anos de cansaço. Ele se virou e caminhou em direção à saída da taverna, sentindo os olhos de Jaskier e Tomas queimando em suas costas.
Ao cruzar a porta e sair para a noite fria de Novigrad, o bruxo parou por um momento. O vento soprava do norte, trazendo consigo o cheiro de neve e fumaça de lenha. Ele imaginou Clara em uma fazenda, talvez sentada perto de uma lareira, trançando o cabelo ou preparando ervas para um ensopado, sem precisar se preocupar se o sangue em suas mãos era de um carniçal ou de um homem que ela amava.
Ele sentiu uma lágrima solitária, fria e estranha, escorrer por seu rosto pálido. As mutações deveriam ter tirado suas lágrimas, mas ali, no silêncio da cidade, ele descobriu que havia dores que nem mesmo as provas das ervas podiam anestesiar.
Geralt montou em Roach e puxou as rédeas. A estrada estava à sua frente, escura e infinita. Ele seguiu em frente, um lobo solitário na escuridão, sabendo que, embora as cicatrizes em seu corpo pudessem fechar, a ferida que ele mesmo abrira em sua alma jamais pararia de sangrar.
Lá dentro, Jaskier voltou a se sentar, as mãos ainda tremendo. Tomas colocou a mão no ombro do cunhado.
— Você acha que ele volta? — perguntou o noivo.
— Não — disse Jaskier, olhando para a porta vazia. — Ele finalmente entendeu que, nesta história, o herói não é ele. O herói é quem fica.
E, a quilômetros dali, em uma pequena fazenda na periferia de Oxenfurt, Clara sentiu um arrepio súbito. Ela olhou para a janela, para a estrada escura, por apenas um segundo. Depois, com um sorriso tranquilo, voltou a mexer o ensopado que borbulhava no fogo, esperando pelo homem que, em breve, cruzaria aquela porta para nunca mais partir.