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O Véu das Ilusões
O balanço sutil do chão de aço e o zumbido mecânico e constante dos motores pesados eram as únicas pistas de que Clara não estava mais em seu refúgio cercado de pinheiros. Paris havia insistido em trazê-la. Com a saúde dela ainda tão frágil e a incapacidade quase total de ficar em pé sem que as pernas cedessem, ele não admitia deixá-la a dias de distância. Se precisava inspecionar as frotas e resolver o que chamava de "graves crises logísticas no litoral", ela e o pequeno Andrew iriam com ele.
A cabine principal do gigantesco navio de guerra fora transformada em um oásis. Paredes blindadas haviam sido forradas com tapeçarias de seda, o chão de metal fora coberto por camadas espessas de tapetes felpudos e a imensa cama de casal tinha dossel e edredons que cheiravam à lavanda e óleo de amêndoas.
Clara estava recostada nos travesseiros macios, os olhos pesados pela costumeira exaustão. Ao seu lado, embrulhado em uma manta de lã azul, o pequeno Andrew dormia profundamente com as mãozinhas fechadas perto do queixo.
De repente, a estrutura de ferro estremeceu. Um estrondo abafado ecoou pelas profundezas do navio, seguido pelo uivo agudo e distante de alarmes de contenção.
A porta blindada da cabine se abriu num estrondo metálico, revelando Paris.
Ele não usava as camisas de linho folgadas das manhãs na montanha. Vestia o uniforme preto de corte reto, mas a jaqueta estava entreaberta, e uma mancha escura de fuligem marcava seu colarinho engomado. Havia uma pistola pesada presa ao coldre de sua coxa, algo que Clara raramente via. Seus olhos azuis, no entanto, perderam a crueza assassina no milissegundo em que cruzaram com os dela.
— Paris? — chamou Clara, a voz trêmula, tentando erguer o tronco. Suas bochechas redondas estavam pálidas, e o calor involuntário começou a pulsar fraco em suas mãos pelo susto. — O que foi isso? O navio... bateu em alguma coisa?
— Fique deitada, meu amor — disse ele, a voz incrivelmente suave, caminhando com passos firmes até a cama. Ele trazia um pequeno frasco de vidro âmbar e um copo de água. — Houve uma falha de pressurização em uma das caldeiras inferiores. Nada que você precise se preocupar, mas o barulho e as manobras vão ficar piores nos próximos minutos.
— Estou com medo — confessou ela com timidez infantil, os olhos castanhos marejando ao olhar para o berço improvisado na cama. — E o Andrew...
— Shh, não tenha medo. Eu estou cuidando de tudo — Paris sentou-se na beirada do colchão, inclinando-se para beijar a testa suada de Clara e, em seguida, a bochecha gordinha do bebê, que nem sequer se mexeu. Paris pegou o pequeno frasco e despejou algumas gotas transparentes na água. — O médico do navio preparou isso para você. É um tônico calmante e restaurador. Vai ajudá-la a dormir profundamente enquanto a tripulação resolve a avaria. Quando você acordar, já teremos atracado e o barulho terá passado.
Clara olhou para o copo. Ela confiava cegamente nele; Paris nunca permitira que um único arranhão a tocasse em sete anos.
— Tem certeza de que você vai ficar bem? — perguntou ela em um murmúrio dócil.
— Sempre fico bem quando sei que você está protegida — respondeu ele, acariciando os cabelos castanhos dela com dedos firmes, mas surpreendentemente carinhosos. — Beba tudo, Clara. Por favor.
Ela assentiu, pegando o copo com as mãos trêmulas. O líquido tinha um gosto ligeiramente adocicado e denso. Ela engoliu até a última gota, devolvendo o copo vazio a ele.
Quase de imediato, uma onda pesada de calor e torpor começou a descer por sua nuca, anestesiando os pensamentos e puxando suas pálpebras para