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Entre o Fogo e a Seda
O peso daquele sono artificial desceu sobre Clara com a força de uma maré escura e irresistível. O mundo ao seu redor perdeu as arestas duras; o som dos alarmes distantes foi o primeiro a sumir, abafado por uma névoa aveludada que entorpecia seus pensamentos. Suas pálpebras, já tão cansadas pelas semanas de febre e prostração pós-parto, fecharam-se sem qualquer resistência.
A última coisa que sentiu foi o roçar carinhoso dos dedos de Paris contra sua têmpora, e o calor familiar de seu corpo maciço ao lado da cama.
No instante em que a respiração de Clara desacelerou, tornando-se rítmica, profunda e inabalável, o rosto de Paris Anderson transformou-se.
A ternura paciente e a doçura quase paternal que suavizavam suas feições evaporaram como orvalho diante de uma fornalha. As linhas de sua mandíbula tornaram-se pedras talhadas; seus olhos azuis, antes aquecidos pela devoção silenciosa, congelaram em um tom gélido de puro desprezo e ódio militar.
Ele puxou a coberta de seda até os ombros arredondados de Clara, verificando se ela estava devidamente acomodada. Depois, inclinou-se sobre o pequeno Andrew. O bebê, saciado e alheio a tudo, dormia em um ninho de almofadas no centro do enorme colchão. Paris ajustou a proteção lateral acolchoada com precisão milimétrica para garantir que nenhum solavanco tirasse a criança do lugar.
Ele deu as costas à cama.
Caminhou até a porta blindada com passos firmes e silenciosos. Ao alcançá-la, acionou um painel codificado no aço, travando as trancas magnéticas por fora e ativando o sistema de isolamento acústico máximo. Nem mesmo o estrondo de uma bomba rasgando o casco seria ouvido dentro daquele quarto. Ninguém entraria. Clara e seu filho estavam selados em um casulo impenetrável.
Assim que a porta pesada se fechou atrás de si, Paris sacou a arma do coldre.
O corredor metálico do navio de guerra estava mergulhado em uma luz vermelha intermitente. A fumaça densa de pólvora e circuitos queimados ardia nas narinas, misturada ao cheiro inconfundível de sangue fresco. Soldados de sua guarda pessoal, vestidos com fardas blindadas escuras e máscaras de contenção, corriam em formação cerrada, mas estancaram no momento exato em que a figura imponente do Comandante Supremo surgiu à frente deles.
O terror que emanava daqueles homens treinados era quase palpável. Nenhum soldado ousava olhar diretamente nos olhos do homem que governava com mão de ferro e crueldade absoluta.
— Relatório — exigiu Paris, a voz baixa, calma e absurdamente perigosa, cortando o ruído das sirenes como uma lâmina de gelo.
Um oficial de alta patente deu um passo à frente, batendo continência com as mãos trêmulas.
— Senhor! Uma célula insurgente... infiltrados que se passaram por técnicos de manutenção no porto do Setor 38. Eles detonaram uma carga no convés inferior para tentar desativar os motores principais e abriram fogo nos corredores de serviço. Não sabíamos que estavam a bordo.
— Não sabiam — repetiu Paris. As palavras saíram lentas, saboreadas com um veneno corrosivo. — Vocês trouxeram traidores para dentro do meu navio. O navio onde minha esposa descansa. Onde meu herdeiro respira.
O oficial empalideceu a ponto de perder o equilíbrio.
— A contenção foi acionada imediatamente, Comandante Supremo! Eles estão cercados no hangar de carga. São apenas quatro sobreviventes. Imploraram por negociação, disseram que têm informações sobre a resistência do Setor 45 e...
— Eu pareço um diplomata em busca de conversas, coronel? — interrompeu Paris, avançando um único passo. O oficial encolheu-se instintivamente. — Minha esposa precisa de repouso absoluto. O barulho lá embaixo quase a perturbou. A incompetência da sua triagem ameaçou a única coisa que tem valor nesta embarcação.
— Senhor, piedade...
Paris ergueu a pistola sem pressa e disparou uma única vez.
O tiro ecoou com violência no corredor estreito, e o oficial desabou de costas no chão de ferro, o buraco perfeito entre as sobrancelhas fumegando no metal cinzento. Paris nem sequer pestanejou. Olhou para os soldados restantes, que permaneciam imóveis como estátuas de chumbo, aterrorizados demais até para respirar.
— Limpem essa sujeira — ordenou Paris, apontando para o cadáver com a ponta da arma. — E sobre os insurgentes no hangar: não quero prisioneiros, não quero interrogatórios e não quero perder mais dez minutos do meu tempo. Executem todos por asfixia. Trranquem o compartimento e cortem o oxigênio. Que morram no silêncio. Se outro alarme soar neste navio, eu mesmo passarei de cabine em cabine executando cada oficial desta frota.
— Sim, Comandante Supremo! — gritaram os soldados em uníssono, as vozes estranguladas pelo pânico.
Paris virou as costas e caminhou até a sala de descontaminação adjacente. Ele não participaria da matança direta; não porque tivesse escrúpulos, mas porque precisava voltar logo. Clara não podia acordar e encontrar o espaço ao seu lado vazio por muito tempo.
Na câmara de higienização, Paris retirou a jaqueta manchada de fuligem e a jogou em um incinerador embutido na parede. Lavou o rosto e as mãos repetidas vezes em água corrente fervente, esfregando a pele com força até eliminar qualquer vestígio de cinzas, metal queimado ou cheiro de morte. Ele aplicou uma loção neutra sobre a pele e vestiu uma túnica limpa de algodão escuro, macia e sem insígnias militares.
Em questão de vinte minutos, o Comandante Supremo do Restabelecimento, o carrasco temido por nações inteiras, deixava de existir mais uma vez.
Ele respirou fundo, recompôs os traços tensos da testa e destrancou a porta blindada da suíte.
O silêncio do quarto o acolheu como um bálsamo. O ar cheirava a flores secas, leite e ao perfume doce e característico da pele de Clara. A luz fraca das luminárias de cabeceira desenhava sombras suaves na tapeçaria de veludo. Nada da podridão do mundo exterior havia tocado aquele espaço.
Paris caminhou suavemente até a cama. Andrew continuava adormecido, chupando a própria bochecha gordinha em um reflexo inocente. Clara, no entanto, começava a se mover.
O efeito do sedativo estava se dissipando lentamente, deixando-a na fronteira nebulosa entre a inconsciência e a realidade. Ela soltou um gemido baixinho e dolorido, tentando se mexer sob os cobertores pesados. As pernas dela ainda não respondiam direito; o parto longo e traumático havia drenado suas forças vitais de uma forma que os melhores médicos particulares de Paris ainda lutavam para reverter.
— Paris...? — a voz dela saiu em um fiapo rouco, os olhos castanhos piscando contra a penumbra.
— Estou aqui, meu amor. Bem aqui — ele respondeu com infinita paciência, sentando-se ao lado dela e puxando-a gentilmente para seus braços.
Clara enterrou o rosto no peito dele, suspirando de alívio. Ela sentiu o calor estável do marido, as mãos firmes dele acariciando suas costas com um cuidado tão extremo que parecia temê-la quebrar.
— Eu tive... um pesadelo tão feio — sussurrou ela, as bochechas pálidas encostadas no tecido da túnica dele. — Sonhei com barulhos de ferro quebrando... gritos horríveis. Parecia que o mundo estava caindo aos pedaços lá fora.
Paris apertou o abraço com suavidade, beijando o topo da cabeça dela, onde os cabelos castanhos eram macios e ondulados.
— Foi apenas o efeito do tônico, Clara. Eu disse que você teria sonhos vívidos enquanto seu corpo descansava. As máquinas já foram consertadas. Os homens trabalharam em silêncio. Está tudo em perfeita ordem.
— Você não dormiu, não é? — perguntou ela com timidez, erguendo o olhar culpado para o rosto dele. Suas mãos pequenas e cheinhas repousaram sobre os antebraços fortes de Paris. — Ficou vigiando a mim e ao bebê esse tempo todo. Você nunca descansa direito por minha causa...
— Cuidar de você é o único descanso que me interessa — disse ele com convicção absoluta. E, estranhamente, no íntimo distorcido de sua mente, aquilo era a mais pura verdade. Aquele quarto era o único lugar onde sua mente não precisava calcular assassinatos, traições ou estratégias de guerra. Clara era o seu santuário particular.
— Eu me sinto tão pesada... tão inútil — lamentou-se ela, os olhos brilhando com lágrimas tímidas que ela tentou disfarçar piscando rápido. — Uma mulher jovem, com vinte e seis anos, que não consegue nem dar dez passos sem o marido carregar no colo. As outras mulheres... as mulheres fortes que devem trabalhar com você no governo... elas devem ser tão diferentes de mim.
A menção a "outras mulheres" fez um músculo travar no maxilar de Paris por uma fração de segundo, mas seu sorriso permaneceu impassível.
Ele lembrou-se, fugazmente e com asco, da mãe de Aaron. Uma criatura amarga, neurótica, fraca de espírito e consumida pelo rancor até o dia de sua morte. Lembrou-se de como nunca tivera paciência para suas lágrimas, de como o casamento fora apenas uma transação fria para gerar linhagem. Clara, no entanto, nunca fora uma transação. Ele a resgatara do nada, como quem encontra uma flor rara crescendo em meio ao lixo radioativo, e a reivindicara para si.
— Não existem outras mulheres — declarou Paris, a voz firme e solene, forçando-a a encará-lo nos olhos. — Não existe ninguém lá fora que se compare a você. O mundo exterior é feito de poeira e pessoas vazias, Clara. Você é pura. Você é a mãe do meu filho. Você suportou dores que homem nenhum aguentaria para trazer Andrew a este mundo. Não ouse diminuir o seu valor por estar fraca agora. Eu tenho força suficiente por nós dois.
As bochechas de Clara coraram em um tom suave de rosa, a vergonha cedendo lugar àquele afeto devoto que ela sempre guardava para ele.
— Você sempre sabe o que dizer para me fazer sentir segura — murmurou ela.
— Porque essa é a única verdade.
Clara relaxou contra o peito dele, sentindo as mãos frias de Paris após a lavagem com água e álcool na câmara de higienização. Involuntariamente, seu poder reagiu ao contato. Um calor sutil, reconfortante e dourado começou a pulsar na palma de suas mãos rechonchudas, aquecendo a pele e transferindo essa energia morna diretamente para os braços dele.
Paris fechou os olhos por um breve instante, apreciando a sensação daquele calor. Aquele poder que, nas mãos de um de seus generais, seria usado para derreter blindagens e queimar inimigos vivos, ali servia apenas como uma compressa quente para afastar o frio de seus dedos. Ela era incapaz de conceber a violência do próprio dom.
— Suas mãos estavam tão geladas, Paris — comentou ela baixinho, concentrando-se em mandar mais calor para aquecê-lo, tímida como sempre sobre o que seu corpo conseguia fazer. — Eu... espero não estar esquentando demais.
— Está perfeito — respondeu ele, a voz quase rouca. — Você sempre me traz o calor exato, Clara.
Do outro lado da cama, um resmungo miúdo cortou o silêncio.
Andrew começou a esticar as perninhas curtas, os olhos azuis e brilhantes — tão parecidos com os do pai, mas ainda vazios de malícia — abrindo-se para o mundo. O bebê soltou um chorinho agudo e faminto.
Clara tentou se sentar imediatamente, mas uma pontada aguda na base da coluna a fez soltar um gemido curto de dor, caindo para trás nos travesseiros.
— Calma — instruiu Paris com suavidade firme. — Deixe que eu o trago para você.
Com movimentos fluidos e experientes, ele se levantou, pegou o menino com uma mão firme sob o pescoço e outra nas costas, erguendo o filho com uma destreza impecável. Trouxe-o até a cabeceira e o acomodou no colo de Clara, ajeitando as almofadas ao redor dos braços dela para que o peso do bebê não sobrecarregasse seus ombros enfraquecidos.
Clara abriu o decote do vestido com cuidado e colocou o filho para mamar. A expressão de dor em seu rosto deu lugar a uma ternura radiante, maternal, que iluminava até mesmo a penumbra daquela cabine de aço.
Paris sentou-se na beirada da cama, observando a cena em silêncio.
Ele pensou, por um breve segundo, em Aaron. Lembrou-se de quando Aaron era apenas um bebê nos braços da primeira esposa; não havia sentido nada além de um cálculo frio sobre utilidade, treinamento e a inevitável fraqueza humana que precisaria erradicar daquela criança com punhos e ordens brutais. Com Andrew, no entanto, tudo era diferente. Andrew era filho da única mulher que nunca o olhara com medo. A única que não conhecia suas cicatrizes morais, que não sabia que suas mãos haviam estrangulado a esperança de milhares de rebeldes.
Andrew cresceria como um príncipe intocado, vivendo no paraíso dourado que Paris construiria sobre as cinzas de tudo o que destruísse lá fora.
— Ele mama com tanta vontade — disse Clara, a voz carregada de orgulho maternal, acariciando os cabelos ralos e claros da cabeça do bebê. — Ele vai ser forte como você, Paris. Um homem bom, que protege os que não conseguem se defender sozinhos.
Um sorriso tênue, misterioso e indecifrável cruzou os lábios de Paris Anderson.
— Ele terá tudo o que precisa ter, Clara. Eu garantirei isso pessoalmente.
— Eu queria poder ajudar mais... — continuou ela, erguendo os olhos castanhos e ingênuos para ele. — Quando chegarmos em terra firme, você me deixa tentar cozinhar de novo? Pelo menos preparar um chá para quando você voltar do seu trabalho? Eu me sinto tão preguiçosa ficando só deitada.
Paris soltou uma risada baixa e melodiosa, estendendo a mão para acariciar a curva redonda da mandíbula dela.
— Você não vai cozinhar absolutamente nada até que os médicos me jurem que suas forças estão totalmente restauradas. E mesmo depois disso, você não precisa fazer nada além de viver, Clara. Eu conquisto o mundo todos os dias lá fora para que você nunca tenha que trabalhar um único segundo da sua vida.
Clara suspirou, as bochechas queimando de gratidão e constrangimento com as palavras grandiosas dele.
— Você fala como se fosse um rei, Paris.
— Para você, eu sou o que você precisar que eu seja — ele rebateu com um tom que não abria espaço para dúvidas.
O navio completou sua curva suave nas águas escuras do oceano, afastando-se da zona de conflito e seguindo rumo à costa oeste, em direção à residência isolada no alto dos penhascos onde ele a manteria escondida de tudo e de todos. Abaixo do convés, os corpos dos insurgentes já esfriavam no aço lacrado do hangar; no convés superior, oficiais limpavam sangue com água sanitária e medo.
Mas ali, dentro daquele ninho forrado de seda e veludo, o mundo continuava perfeito, sereno e dócil.
Clara terminou de alimentar o filho, colocando-o contra o ombro macio para arrotar. Ela olhou para o marido, os olhos brilhando com a mais cega e pura admiração que um ser humano poderia nutrir por outro.
— Eu tenho tanta sorte de ter você — sussurrou ela.
Paris inclinou-se para a frente, beijando-lhe os lábios com calma, absorvendo a doçura e a inocência que só ela possuía no universo inteiro.
— A sorte é inteiramente minha, meu amor — respondeu ele contra sua boca. — E eu queimaria o restante do mundo antes de deixar essa sorte escapar das minhas mãos.