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A Farsa Despedaçada

O ar no interior daquele hangar subterrâneo era gélido e cheirava a ferrugem, pólvora e um pavor silencioso que parecia impregnar as paredes de concreto bruto.

Clara estava encolhida em um canto escuro, sentada sobre uma caixa de metal, com os joelhos pressionados contra o peito. Seu corpo não doía mais; as gêmeas curandeiras haviam restaurado cada músculo, cada fibra rasgada pelo parto terrível que quase lhe custara a vida. Suas pernas agora sustentavam seu peso, suas mãos rechonchudas tinham força, mas sua alma continuava em frangalhos. Saber que seu refúgio de sete anos fora erguido sobre montanhas de cadáveres a deixara oca por dentro.

À sua frente, Kenji Kishimoto andava de um lado para o outro em passos curtos e abafados. Em seus braços musculosos, enrolado em uma manta verde-oliva do exército rebelde, estava o pequeno Andrew. O bebê soltava resmungos baixinhos, mas Kenji o embalava com uma paciência surpreendente, os olhos castanhos sempre atentos a qualquer som vindo do corredor principal.

No centro da sala ampla e mal iluminada, Juliette Ferrars e Aaron Warner estavam ajoelhados no chão frio, com as mãos presas para trás por grossas algemas inibidoras de energia. A emboscada fora rápida e implacável. Horas antes, forças de choque com armaduras pesadas e tecnologia de ponta haviam invadido o perímetro do esconderijo, desativando os geradores e capturando os dois líderes do Setor 45 antes que pudessem montar qualquer linha de defesa. Clara e o bebê haviam sido arrastados junto na confusão, empurrados para aquele ponto cego como despojos de guerra sem identificação prévia.

— Ele não pode estar vivo — sussurrou Aaron, os dentes cerrados com tanta força que o som do atrito ósseo ecoava na sala. Havia um corte recente sangrando em sua têmpora, manchando o colarinho de sua camisa impecável. — Eu senti a traqueia dele ceder. Eu vi o pulso parar.

— Aaron, economize suas forças — pediu Juliette em um sussurro aflito. Seus olhos vasculhavam as sombras, o corpo tensionado como uma mola prestes a se romper, mesmo sob a opressão esmagadora do metal que anulava seu toque letal.

— Vocês dois calem a boca — murmurou Kenji sem desviar o olhar da porta blindada, ajeitando o bebê contra o peito com extrema delicadeza. — Estão vindo. Seja lá quem for que sobreviveu àquele inferno, está subindo com uma escolta pesada. Clara, fique atrás de mim. Se o tiroteio começar de novo, você corre para os dutos. Entendeu?

Clara apenas assentiu com a cabeça, os olhos castanhos arregalados e marejados. Seu coração martelava contra as costelas com tamanha violência que ela sentia a ponta dos dedos arderem involuntariamente, pequenas fagulhas de calor invisível aquecendo a manga de seu vestido de algodão cinza. Ela tinha medo de tudo: dos rebeldes, do mundo lá fora, das armas... mas, acima de tudo, tinha medo do fantasma que parecia se recusar a permanecer enterrado.

O rangido metálico da porta principal cortou a penumbra.

Quatro soldados com capacetes espelhados e fuzis automáticos entraram primeiro, formando um semicírculo de contenção ao redor de Juliette e Aaron. Logo atrás deles vinha Delalieu. O velho homem de confiança do Setor 45 parecia prestes a ter um colapso cardíaco; sua pele estava pálida como giz, os lábios tremiam descontroladamente e as mãos seguravam uma prancheta eletrônica com nós dos dedos brancos de desespero.

E então, os passos firmes e inconfundíveis soaram no chão de metal.

Clara prendeu a respiração. O ar fugiu de seus pulmões como se alguém a tivesse golpeado com uma marreta.

Ele entrou.

Não havia uma única gota de cinza ou fraqueza na postura daquele homem. Paris Anderson usava seu uniforme preto de gala, com a gola alta debruada em prata fosca e as dragonas do Comandante Supremo brilhando friamente sob a luz fraca das lâmpadas fluorescentes. Havia um curativo cirúrgico discreto na lateral de seu pescoço, mas fora isso, parecia invulnerável. Seus cabelos loiros estavam milimetricamente alinhados, e seus olhos azuis cortavam o ambiente como lâminas de gelo polido.

Ele estava vivo. O homem que a acolhera aos dezenove anos, o homem que ela acreditava ter sido assassinado... estava de pé ali.

— Como você pode ver, Comandante Supremo — a voz de Delalieu saiu esganiçada, quase inaudível pelo pânico —, a contenção foi executada dentro dos parâmetros exigidos pelo protocolo cinco. Nós... nós conseguimos desativar as defesas da célula insurgente antes que houvesse tempo hábil para a destruição dos documentos confidenciais.

Paris não olhou para o velho. Seus passos lentos e cadenciados o levaram até o centro do semicírculo, parando a menos de três metros de onde Juliette e Aaron estavam curvados no chão. Ele mantinha as mãos cruzadas atrás das costas, em uma pose de arrogância e soberania inabalável.

— Você cometeu três erros graves nesta operação, Delalieu — disse Paris, a voz melodiosa, suave e cortante como vidro.

Delalieu estremeceu visivelmente, recuando meio passo.

— Senhor... eu segui as ordens de contingência...

— Primeiro: você levou quase quatro horas a mais do que o previsto para interceptar o perímetro, permitindo que insurgentes secundários dispersassem equipamentos vitais — enumerou Paris, o tom monocórdico, como se estivesse lendo um relatório meteorológico entediante. — Segundo: você hesitou em autorizar o bombardeio prévio da ala médica deste complexo, demonstrando uma fraqueza moral patética que não tolero em oficiais do Restabelecimento.

— Senhor, eu temia que fôssemos atingir civis que poderiam ter informações... — tentou justificar-se o velho, as lágrimas começando a escorrer pelas bochechas enrugadas.

— E terceiro — continuou Paris, interrompendo a lamúria sem erguer a voz —, você ousou levantar a cabeça e tentar negociar a sua incompetência com desculpas sentimentais.

O movimento foi rápido demais para que os olhos humanos pudessem antecipar.

Paris descruzou as mãos, sacou a pistola pesada de seu coldre lateral e, sem pestanejar, sem desviar o olhar de Aaron, disparou à queima-roupa contra o rosto de Delalieu.

O estrondo do tiro no espaço fechado foi ensurdecedor.

O crânio do velho estourou em uma chuva escarlate e fragmentos ósseos que mancharam a parede cinzenta e o chão de concreto. O corpo sem vida tombou para trás com um baque seco e desajeitado, o sangue espesso escorrendo em poças fumegantes.

Clara soltou um grito rasgado e sufocado, cobrindo a boca com as duas mãos trêmulas enquanto recuava contra a parede de metal, as costas batendo com força no aço. O calor explodiu em suas palmas descontroladamente, chamuscando a beirada de seu vestido. Aquele não era um pesadelo. Aquele era o homem que horas antes a havia banhado em água morna com sais de alfazema; o homem que beijara sua testa e dissera que ela era a única coisa pura em sua vida acabara de estourar a cabeça de um idoso desarmado como se esmagasse uma barata.

O barulho do grito ecoou pelo hangar, quebrando o silêncio fúnebre pós-disparo.

A postura de Paris Anderson congelou instantaneamente.

Ele não esperava que houvesse civis ali. Os olhos azuis do Comandante Supremo, ainda brilhando com a ferocidade assassina da execução sumária, moveram-se devagar para o canto escuro de onde o choro aterrorizado havia partido.

Sua expressão transformou-se de forma assustadora. A máscara de ferro e crueldade do monstro despencou em uma fração de segundo, revelando um choque genuíno, bruto e estarrecido.

— Clara...?

O nome escapou dos lábios dele em um murmúrio estupefato.

Ali, encolhida na sombra, estava sua esposa. A mulher com quem compartilhara sete anos de mentiras doces. Suas bochechas redondas estavam brancas como papel, manchadas por lágrimas de absoluto pavor. Ela tremia dos pés à cabeça, os olhos castanhos fixos no sangue que escorria da boca do cano da arma que ele ainda segurava na mão direita.

E então, os olhos de Paris se moveram um palmo para a esquerda.

Kenji Kishimoto estava lá, segurando um fuzil em uma das mãos e, com a outra, mantinha o pequeno Andrew pressionado com firmeza contra o peito blindado. O bebê, assustado com o barulho do tiro, começara a chorar, um pranto miúdo e agudo que parecia chicotear o rosto de Paris com mais força do que qualquer bala.

— Solte essa arma, Anderson! — gritou Kenji, dando um passo protetor na frente de Clara, o fuzil apontado diretamente para o peito do Comandante. — Um único passo em falso e eu juro por Deus que você não sai deste buraco respirando!

Os soldados de Paris engatilharam suas armas em uníssono, apontando de volta para a cabeça de Kenji, mas o Comandante Supremo ergueu a mão esquerda em um gesto ríspido e autoritário.

— Não atirem! — rugiu Paris, a voz saindo com uma crueza tão desesperada que seus próprios homens hesitaram. — Abaixem as armas, seus idiotas incompetentes! Abaixem agora! Se uma única bala perdida ricochetear nessa direção, eu mato cada um de vocês lentamente!

Os soldados recuaram de imediato, abaixando os canos em um silêncio tenso.

Paris guardou a pistola fumegante no coldre com movimentos deliberadamente lentos, como quem desarma uma bomba prestes a explodir. Ele deu um passo hesitante na direção do canto, os olhos cravados no rosto em pânico de Clara.

— Clara... meu amor — começou ele, a voz voltando àquele tom suave, paternal e quase aveludado que ele usava nos quartos forrados de veludo de seu santuário nas montanhas. — O que você está fazendo aqui? Como eles chegaram até você? Eles machucaram você?

Clara não conseguiu responder. Ela apenas sacudiu a cabeça, encolhendo-se ainda mais contra o metal frio. As lágrimas desciam aos borbotões. O contraste entre a criatura sanguinária que executara Delalieu e a doçura doentia com que ele a chamava de "meu amor" era uma tortura psicológica que sua mente ingênua não conseguia processar.

— Fique longe dela, seu monstro desprezível! — cuspiu Aaron do chão, lutando desesperadamente contra as algemas de aço reforçado, as veias de seu pescoço saltando pela raiva. — Você não tem vergonha na cara? Você a manteve trancada como uma prisioneira, envenenada por drogas para não ver o demônio que você é!

Paris não deu a mínima atenção ao primogênito. Para ele, Aaron não passava de um detalhe irritante no cenário.

— Clara, venha aqui — chamou ele, dando mais um passo cauteloso, estendendo as duas mãos vazias para a frente em um sinal de rendição aparente. — Venha até mim. Eu estou aqui para levar você e o nosso menino de volta para casa. Eu disse que nada iria tocar vocês. Eu prometi.

— Não chegue perto! — Kenji gritou, recuando mais meio passo para proteger a mulher e a criança. — Você não vê o que fez com ela? Você roubou a juventude dessa garota, trancou a coitada numa farsa no meio do nada enquanto devastava o mundo! Você a usou, seu bastardo! Usou uma garota doente e indefesa para bancar o bom homem, enquanto torturava o próprio filho e mandava pessoas para forcas públicas! Você faz mal a tudo que toca, Anderson! Fez mal a ela desde o dia em que a tirou daquela sarjeta!

Um estalo invisível pareceu quebrar a compostura de Paris Anderson.

Ele não se importava em ser chamado de assassino. Não piscava quando rebeldes o acusavam de queimar cidades inteiras, escravizar milhares de civis ou mandar fuzilar traidores por atacado. A violência, o medo e a tirania eram suas ferramentas de trabalho, medalhas invisíveis que ele ostentava com orgulho em sua marcha pelo poder absoluto do Restabelecimento.

Mas aquela acusação... aquela insinuação rasteira e suja de que ele havia feito mal a Clara tocou em um nervo exposto, cru e envenenado dentro de sua mente retorcida.

A mandíbula de Paris travou. Uma veia pulsou violenta em sua têmpora.

— Cale a sua maldita boca — sibilou ele, e sua voz não tinha mais a elegância habitual; era o rosnado baixo de um predador ferido em seu ponto mais sagrado. — Você não sabe nada. Nenhum de vocês sabe de nada!

Ele deu um passo furioso à frente, ignorando o fuzil de Kenji.

— Você pode me chamar de tirano! Pode me chamar de carrasco, de diabo, do que a sua imaginação imbecil e rebelde conseguir conceber! — gritou Paris, apontando um dedo rígido para o peito de Kenji. — Eu esmago insurgentes porque eles são o câncer que mantém este mundo na ruína! Eu mato porque é preciso pulso firme para reconstruir uma nação despedaçada! Eu assumo cada morte, cada fuzilamento, cada ordem de execução que saiu da minha mesa!

Ele virou o rosto para Aaron, cuspindo as palavras com um desprezo visceral:

— Eu quebrei você porque você era fraco! Porque você choramingava nos cantos em vez de se tornar o soldado que a liderança exige! Você é a minha maior decepção genética, um fracasso sentimental que herdou as lamentações daquela mulher amarga que o pariu!

Aaron estremeceu, os olhos azuis faiscando de ódio homicida contra o pai.

Então, Paris voltou-se para Kenji, e seus olhos pareciam injetados de puro fogo.

— Mas nunca... nunca em toda a sua miserável e patética existência ouse dizer que eu fiz mal à minha esposa! — rugiu ele, a voz preenchendo o hangar subterrâneo como um trovão enjaulado. — Eu a tirei da podridão das ruas quando todos zombavam da timidez dela! Eu dei a ela um palácio nas montanhas! Eu a cobri de seda, de comida limpa, de médicos particulares, de paz absoluta! Eu passei semanas em claro ao lado daquela cama lavando o corpo dela com as minhas próprias mãos para que ela não sentisse a vergonha de estar fraca!

Paris ofegou, o peito subindo e descendo com força, os olhos brilhando com uma insanidade possessiva que beirava a religiosidade.

— Eu nunca ergui a minha voz para Clara! Nunca a deixei derramar uma única lágrima de tristeza enquanto estivesse sob o meu teto! Eu construí um paraíso inteiro com o sangue dos meus inimigos só para que ela pudesse respirar sem medo! Eu dei a ela o mundo inteiro em uma bandeja de prata! Como você ousa... como qualquer um de vocês ousa dizer que eu fiz mal à mulher que eu amo mais do que a minha própria vida?!

O silêncio que se seguiu àquele desabafo foi aterrador.

Até mesmo Juliette parecia emudecida pelo desvario daquele homem. Ele era um monstro completo, mas não mentia sobre sua devoção. Em sua mente deturpada, proteger Clara da realidade era o ato supremo de amor. Manter as mãos dela limpas de sangue justificava afogar o resto da humanidade nele.

Clara olhou para o marido através do véu de suas lágrimas. Ela viu as mãos dele — aquelas mesmas mãos que tantas vezes lhe prepararam chá, que ajeitaram os lençóis de cetim sobre seus ombros inchados, que seguraram Andrew com uma delicadeza quase inacreditável —, e depois olhou para o corpo decapitado de Delalieu, a poça escura se espalhando a poucos metros de suas botas impecáveis.

Ela entendeu tudo.

Paris a amava. Amava com uma intensidade obsessiva, doentia e inegável. Mas o amor dele era uma jaula dourada construída no centro de um matadouro.

— Paris... — a voz de Clara saiu fraca, mas audível no silêncio tenso.

O Comandante Supremo voltou a respirar no momento em que ouviu o sussurro dela. Ele deu um passo lento em sua direção, os ombros caindo em alívio ao vê-la se mover.

— Clara... meu amor, você está em pé — sussurrou ele, um sorriso tênue e maravilhado iluminando suas feições duras. — As suas pernas... você está curada. Eu sabia que você se recuperaria, minha doce Clara. Venha. Pegue o nosso filho e venha até mim. Eu preparei outro abrigo. Um lugar ainda mais seguro, onde esses traidores nunca colocarão os pés. Nós seremos felizes novamente.

Clara olhou para ele. Levantou-se da caixa de metal, as pernas firmes e sustentadas pela energia das gêmeas curandeiras. Mas ela não deu um passo em direção a Paris.

Ela deu dois passos para trás, encostando-se firmemente ao lado de Kenji, estendendo os braços fortes e curados para receber o bebê. Kenji hesitou por um milésimo de segundo antes de passar o pequeno Andrew com segurança para o colo da mãe.

Clara abraçou o filho contra o peito, os braços rechonchudos formando uma muralha viva de proteção ao redor da pequena criatura de olhos azuis. O calor de suas palmas subiu, morno e acolhedor, mantendo o menino aquecido em meio ao ar gélido daquele túmulo de concreto.

Ela ergueu o queixo, olhando diretamente nos olhos do homem que fora seu refúgio por sete anos.

— Você me deu um palácio, Paris — disse ela, a voz trêmula pela timidez de sempre, mas carregada de uma dor profunda e cortante que o atravessou como um punhal. — Mas você me deu um palácio feito de mentiras. Você usou a minha inocência como uma venda para os seus próprios olhos.

O sorriso no rosto de Paris Anderson congelou, transformando-se em uma máscara de pura agonia.

— Clara... não...

— Eu não sou cega mais — continuou ela, as lágrimas escorrendo quentes por suas bochechas redondas, sem que ela se importasse em limpá-las. — Eu vi o que você fez com aquele homem. Eu vi as cicatrizes no corpo do seu próprio filho. Você não é um protetor, Paris. Você é a tempestade da qual você fingia que me escondia.

— Eu fiz tudo por você! — a voz dele falhou, saindo em um grito quase infantil de desespero, os olhos azuis arregalados como se ela estivesse arrancando seu coração vivo de dentro do peito. — Por você e pelo nosso menino!

— Você fez tudo por você mesmo — rebateu ela, a firmeza recém-descoberta em sua alma superando o medo que a paralisara a vida inteira. — O Andrew nunca vai crescer nas sombras de quem você é. Eu não vou deixar.

Paris deu mais um passo à frente, mas Kenji engatilhou o fuzil com um estalo metálico definitivo.

— Pare aí mesmo, Anderson. Acabou.

Os olhos de Paris alternaram entre o fuzil, o rosto quebrado de Clara e a cabecinha loira do filho que descansava no peito da mulher que ele considerava sua maior conquista. Ele era o Comandante Supremo do Restabelecimento. Poderia estalar os dedos e mandar sua guarda massacrar todos naquela sala em questão de segundos. Poderia arrastar Clara pelos cabelos de volta para o navio, trancá-la em uma suíte blindada e sedá-la para sempre se assim desejasse.

Mas ele não o fez.

Porque quebrar Clara significaria quebrar o único espelho no mundo inteiro onde ele conseguia se ver como algo além de um carrasco.

Paris Anderson abaixou lentamente os braços, a postura imponente murchando em uma frieza desolada e irreversível. Ele olhou para a esposa pela última vez, sabendo, com a certeza cruel de um estrategista militar, que havia vencido a guerra contra o mundo, mas perdera de forma absoluta e irremediável a única coisa que realmente desejava possuir.

— Seus homens... — a voz de Paris saiu gélida, cortante, a máscara de chumbo fechando-se novamente sobre seus traços. — Têm dez minutos para evacuar este setor com os prisioneiros. Depois disso, a artilharia pesada reduzirá este complexo a cinzas atômicas.

Ele não esperou por uma resposta. Virou as costas com a rigidez de uma estátua, marchando em direção à porta blindada sem olhar para trás, deixando no concreto o rastro de sangue de suas mentiras e o silêncio pesado de um amor que nunca fora capaz de curar sua própria podridão.

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