Voltar ao resumo

sei la

A Ruína da Seda

O estalo do metal retorcido não veio como um sussurro distante, mas como o rugido ensurdecedor de uma besta partindo o navio ao meio.

Clara estava imersa em um sono pesado, afundada na letargia densa das drogas que Paris lhe dera para poupá-la do pânico, quando a realidade a atingiu com a força de uma detonação. A cama de dossel estremeceu violentamente. Almofadas de veludo rolaram pelo chão, e a estrutura de aço da cabine rangeu de forma estridente, as chapas blindadas cedendo como papel alumínio diante de uma pressão inumana.

Ela tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras pareciam costuradas por linhas de chumbo.

— Paris...? — chamou ela, a voz fraca e rouca engolida pelo barulho estarrecedor de passos acelerados, gritos de agonia e o som inconfundível de carne sendo esmagada contra o ferro.

O ar subitamente ficou rarefeito. Um cheiro acre de ozônio e sangue invadiu a cabine outrora perfumada com lavanda. Clara tentou mover os braços para alcançar o ninho de cobertores onde Andrew dormia, mas suas pernas e tronco não responderam. O calor em suas palmas tentou reagir ao medo visceral que a paralisava, faíscas invisíveis aquecendo os lençóis de cetim, mas sua fraqueza pós-parto era um abismo sem fundo.

Houve um estrondo final, seco e absoluto. A porta de aço reforçado, que Paris trancara com tanta certeza de sua invulnerabilidade, foi arrancada das dobradiças e arremessada contra o corredor.

Pelo vão estilhaçado, Clara vislumbrou uma silhueta feminina envolta em sombras e poeira suspensa. Uma garota miúda, mas que parecia carregar o peso de um terremoto nas palmas das mãos enluvadas. Seus olhos brilhavam com uma fúria mortal, letal e implacável. Ao lado dela, homens armados com uniformes civis invadiam o espaço.

A garota deu um passo à frente, e o chão sob suas botas vibrou. Ela olhou para a cama suntuosa, esperando encontrar guardas, armas ou segredos de Estado. Em vez disso, seus olhos arregalaram-se em puro choque.

Tudo o que havia ali era uma mulher jovem, com curvas macias e bochechas redondas banhadas em suor frio, deitada em meio à seda, estendendo desesperadamente os dedos trêmulos na direção de um bebê recém-nascido.

— Não... toque... nele... — Clara conseguiu articular em um fio de voz, o pavor roubando o pouco ar que lhe restava nos pulmões.

— Juliette, espere! — gritou uma voz masculina no corredor, mas Clara não pôde ouvir o restante.

A escuridão, densa e impiedosa, engoliu sua consciência de uma só vez, arrastando-a para o vazio.

***

O cheiro foi a primeira coisa que revelou que o mundo havia mudado.

Não havia mais a fragrância suave dos óleos de banho caros trazidos por Paris, nem o calor das mantas de lã pura tecidas à mão. O ar cheirava a antisséptico hospitalar, umidade subterrânea e poeira antiga de concreto. Era frio. Um frio cortante que fazia sua pele arrepiar.

Clara acordou em um solavanco, a respiração presa na garganta em um arquejo desesperado.

— Andrew! — o grito saiu rasgado, suas mãos se projetando para a frente na tentativa de agarrar o vazio.

— Calma. Ele está aqui. Ele está bem.

A voz feminina que respondeu era firme, mas desprovida de qualquer agressividade.

Clara piscou várias vezes, lutando contra o borrão em sua vista, até conseguir focar o ambiente. Ela estava deitada em uma maca simples de metal, coberta por um lençol áspero de algodão cinzento. As paredes ao redor eram de concreto bruto, sem decorações, iluminadas por lâmpadas fluorescentes que zumbiam monotonamente no teto baixo. Era um bunker. Uma instalação militar oculta, austera e impessoal.

E ali, a menos de um metro de distância, em um cesto forrado com toalhas limpas, estava Andrew. O pequeno dormia serenamente, alheio à tragédia que acabara de reescrever seu destino.

Clara tentou se erguer para pegá-lo, mas uma onda de dor lancinante chicoteou sua coluna e o ventre. Ela soltou um gemido sibilante, caindo de volta contra o travesseiro duro, as lágrimas transbordando por suas bochechas rechonchudas.

— Eu disse para ter calma — a garota do navio deu um passo para a frente, saindo da penumbra da sala.

Juliette Ferrars usava calças escuras e uma jaqueta utilitária. Seus cabelos estavam bagunçados e havia vestígios de fuligem em suas têmporas, mas seus olhos expressavam uma mistura confusa de cautela, desconcerto e uma pontada profunda de comiseração.

Atrás dela, encostado no batente da porta de ferro com os braços cruzados sobre o peito, estava outro rapaz. Ele vestia um uniforme impecável, embora desgastado pela batalha, mas foram suas feições que fizeram o coração de Clara disparar em um espasmo de pura confusão.

Ele tinha a mandíbula quadrada de Paris. O corte reto do nariz de Paris. Os olhos incrivelmente azuis, claros como o gelo do inverno, que ela vira tantas vezes brilharem com carinho sobre ela. Mas a postura daquele jovem era tensa, rígida, marcada por cicatrizes invisíveis e um rancor tão antigo e denso que parecia preencher toda a sala.

— Quem são vocês? — Clara sussurrou, encolhendo-se contra o lençol, a timidez de sempre se transformando em puro terror. Suas mãos começaram a esquentar involuntarily, uma fumaça tênue quase imperceptível subindo de seus dedos contra o tecido. — Onde está o meu marido? O que vocês fizeram com o Paris?

Um silêncio sepulcral engoliu o cômodo.

Juliette olhou de soslaio para o rapaz loiro na porta. A mandíbula dele se contraiu com tanta força que os músculos saltaram sob a pele pálida. Ele descruzou os braços lentamente, dando dois passos hesitantes em direção à maca, como se Clara fosse um fantasma impossível ou uma alucinação fabricada para torturá-lo.

— O que você acabou de dizer? — a voz dele cortou o ar como uma lâmina de barbear. Era suave, culta, mas carregada de uma incredulidade venenosa. — Quem é o seu marido?

— Paris... Paris Anderson — respondeu Clara, soluçando, as bochechas coradas pela humilhação e pelo pânico de estar indefesa diante de estranhos armados. — Ele estava no navio comigo... ele foi consertar as máquinas... ele prometeu que cuidaria de nós. Por favor, onde ele está? Ele é um homem bom, ele trabalha para ajudar as cidades, ele nunca machucou ninguém! Me deixem vê-lo!

O rapaz loiro soltou uma risada curta e amarga, um som oco que parecia arranhar sua própria garganta. Ele passou a mão pelo cabelo impecável, virando-se para Juliette com um olhar que misturava desprezo e um choque devastador.

— Um homem bom — repetiu ele, a voz falhando em um tom quase inaudível. — Ela não sabe. Juliette... ela realmente não faz a menor ideia.

— Aaron, vá com calma — pediu Juliette em tom baixo, tocando o braço dele de forma protetora antes de se aproximar da beirada da cama de Clara.

Clara olhou de um para o outro, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas. O calor que emanava de suas mãos fez a borda do lençol começar a chamuscar, o cheiro de queimado alertando a jovem à sua frente.

— Você tem um dom — disse Juliette calmamente, apontando com o queixo para as mãos de Clara. — Mas não precisa ter medo de nós. Nós não vamos machucar você. Nem o seu bebê.

— Então me levem até o Paris! — implorou Clara, as lágrimas caindo sem parar sobre seu decote frouxo. — Ele deve estar procurando por nós... ele cuida de mim, ele não me deixa sozinha! Eu mal consigo andar desde que dei à luz, eu sou fraca, eu preciso dele...

— Paris Anderson está morto — disparou Aaron Warner, sem um pingo de cerimônia, aproximando-se da cabeceira. Seus olhos azuis perfuravam Clara com uma intensidade dolorosa. — Ele morreu no corredor daquele navio. Eu quebrei o pescoço dele com as minhas próprias mãos.

O mundo ao redor de Clara parou.

O som das lâmpadas sumiu. O próprio ar pareceu congelar em sua garganta. Ela olhou para Aaron, piscando em choque absoluto, esperando ver o sorriso zombeteiro de um mentiroso, esperando que aquilo fosse apenas a continuação do pesadelo induzido pelo remédio. Mas não havia mentira ali. Apenas a frieza cortante de uma verdade inegável.

— Não... — Clara balançou a cabeça de um lado para o outro, os cabelos castanhos desgrenhados chicoteando seu rosto. — Não, você está mentindo! Por que você faria isso? Ele é um diplomata! Ele cuida de pessoas necessitadas!

— Ele não era um diplomata — Juliette interveio, a voz carregada de um pesar genuíno, sentando-se com cuidado na beirada da maca, mantendo as mãos deliberadamente longe para não queimar ou machucar a mulher assustada. — Clara... é esse o seu nome, não é? O seu marido era o Comandante Supremo do Restabelecimento.

Clara franziu a testa, o peito doendo tanto que parecia prestes a rasgar.

— O quê...?

— Ele era o monstro que escravizou este continente — continuou Juliette, falando com uma calma didática e triste, como quem despeja veneno curativo em uma ferida aberta. — Ele mandava fuzilar famílias que roubavam um pedaço de pão. Ele construiu campos de tortura. Ele queimou setores inteiros para conter rebeliões civis. Ele destruiu o mundo exterior e governava com sangue e ferro.

— Mentira! — gritou Clara, a timidez dando lugar a um desespero primitivo. O calor de suas palmas aumentou repentinamente, aquecendo o metal da maca até fazê-lo estalar. — Ele nunca levantou a voz para mim! Ele cuidou de mim desde que eu tinha dezenove anos! Ele limpava as minhas feridas, ele construiu uma casa para nós longe de qualquer guerra! Ele trocou as fraldas do nosso filho hoje de manhã! Ele não é esse monstro!

— Ele trocou as fraldas do seu filho? — a voz de Aaron ecoou, estrangulada por uma dor tão crua que até mesmo Juliette se encolheu.

O rapaz deu um passo à frente, debruçando-se sobre a cama. Ele puxou a gola de sua jaqueta e ergueu a barra da camisa militar com violência calculada, revelando cicatrizes profundas, antigas e recentes, marcas de queimaduras de pontas de cigarro, cortes precisos de lâminas e ossos que haviam sido fraturados e calcificados de forma torta.

Clara prendeu a respiração, o horror congelando as lágrimas em suas bochechas.

— Essa é a assinatura do seu marido cuidadoso — sussurrou Aaron, as palavras saindo como veneno puro entre os dentes cerrados. — Eu sou o filho dele. O primeiro. O filho que ele espancava até sangrar no chão do quarto quando eu tirava notas abaixo do perfeito. O filho que ele forçou a assistir enquanto ele destruía a mente da minha mãe, até que ela se tornasse uma casca vazia e morresse em agonia numa cama fria, sem nunca receber uma única gota de carinho daquele desgraçado.

Clara olhou para as cicatrizes. Olhou para o rosto do jovem, para os mesmos olhos azuis que ela vira em Paris... e que agora via no rostinho adormecido de Andrew.

— Filho...? — balbuciou ela, o chão sob sua alma desmoronando em um precipício sem fundo. — Ele... ele nunca me disse que tinha um filho. Ele disse que eu era a única... que nunca tinha amado ninguém antes de mim...

— Porque ele era um psicopata — declarou Aaron, abaixando a camisa com mãos que tremiam minimamente, um detalhe que ele odiava demonstrar. — Ele construiu uma jaula dourada para você, garota. Ele a manteve ignorante, fraca e trancada nas montanhas para brincar de ser um bom homem. Para se convencer de que não era a escória da humanidade. Enquanto você vivia na seda, pessoas morriam aos milhões por uma assinatura dele.

A revelação caiu sobre Clara não como palavras, mas como toneladas de concreto desabando sobre seu peito. As lembranças dos últimos sete anos desfilaram em sua mente em um ritmo alucinante: as ausências longas e misteriosas que ele chamava de "viagens humanitárias"; as armas que guardava em cofres secretos; o modo como proibia rádios, jornais ou qualquer visitante na propriedade; o modo como insistia que o mundo lá fora estava podre demais para que ela o visse.

Ele não a estava protegendo do mundo.

Ele estava protegendo a si mesmo da verdade. Mantendo um espelho intacto onde pudesse olhar e ver uma versão de si que nunca existiu.

A dor emocional somou-se à exaustão física brutal que já corroía seu corpo. Clara levou as mãos à cabeça, puxando os próprios cabelos em um pranto convulsivo e dilacerante.

— Não, não, não... Deus, por favor, não...

Seu corpo não aguentou. A febre pós-parto, que já ardia baixa em seu sangue há semanas, explodiu em um pico repentino. Clara arqueou as costas na maca, a respiração presa em um estertor agudo, os lábios arroxeando enquanto seu coração falhava em sustentar o impacto do colapso nervoso. O metal da cama chiava com o calor involuntário que emanava de seu corpo em choque.

— O pulso dela está caindo! — alertou Juliette, erguendo a voz em direção ao corredor. — Sara! Sonya! Entrem aqui agora!

A porta se abriu com rapidez e duas irmãs gêmeas, com passos sincronizados e olhares calmos e focados, entraram na enfermaria. Vestiam túnicas claras e exalavam uma serenidade contrastante com o caos que imperava na sala.

— Afaste-se, Juliette — disse Sara suavemente, posicionando-se ao lado direito da maca enquanto Sonya tomava o lado esquerdo.

— Ela está entrando em choque séptico ou falência múltipla — observou Sonya, pousando uma das mãos com firmeza sobre o ombro rechonchudo de Clara, enquanto a outra irmã repousava as palmas diretamente sobre o ventre e o peito dela. — O corpo dela nunca se recuperou do parto. Foi forçado além do limite e a mente acabou de quebrar a última barreira de sustentação.

No instante em que as gêmeas ativaram suas habilidades, um brilho cálido e azulado começou a se espalhar pelas pontas de seus dedos, filtrando-se através da pele pálida e suada de Clara.

Clara tentou lutar contra o toque, em pânico total, mas o poder das curandeiras desceu sobre seu organismo como uma torrente de água pura e restauradora.

A dor lacerante que a acompanhava desde a noite em que dera à luz começou a dissolver-se. Os tecidos internos rasgados e mal cicatrizados se uniram em uma velocidade milagrosa. O sangue empobrecido e intoxicado pela infecção latente foi limpo, purificado onda após onda de energia vital. As pernas que pareciam feitas de chumbo recuperaram a densidade muscular; a fraqueza debilitante que a impedia de carregar o próprio filho evaporou, substituída por um vigor físico que Clara não sentia há quase um ano.

Ela respirou fundo, puxando uma quantidade imensa de ar fresco para os pulmões sem sentir a costumeira pontada nas costelas.

Sara e Sonya retiraram as mãos em uníssono, exalando um suspiro curto de cansaço enquanto o brilho se apagava.

— O corpo dela está completamente curado — afirmou Sara, limpando o suor da testa e olhando para Juliette com um aceno afirmativo. — O útero está recomposto, as infecções cessaram e a força física foi restabelecida. Ela não é mais uma inválida.

Clara permaneceu imóvel por alguns segundos. Ela olhou para as próprias mãos rechonchudas, ainda trêmulas, mas agora cheias de cor e vida. Sentou-se na maca sem o menor esforço, as dores nas costas e no quadril haviam simplesmente desaparecido. Pela primeira vez em meses, seu corpo respondia perfeitamente a cada comando.

Ela estava sã. Forte. Fisicamente inteira.

Mas por dentro, ela sentia como se tivesse sido esfolada viva.

O choro fraco de Andrew cortou o silêncio atordoado da enfermaria. O bebê acordara com o barulho, remexendo-se inquieto sob as toalhas ásperas.

Clara não hesitou. Moveu as pernas para fora da maca, colocando os pés descalços no chão de concreto frio. Ela não fraquejou. Seus passos eram firmes quando deu os dois passos necessários até o cesto e puxou o pequeno Andrew contra o peito, envolvendo-o em seus braços robustos e acolhedores com uma força protetora quase selvagem.

O bebê sentiu o cheiro da mãe e imediatamente aninhou a bochechinha redonda contra o seio dela, cessando o choro.

Clara levantou os olhos cheios de lágrimas para Aaron Warner. O jovem continuava imóvel, os braços agora caídos ao lado do corpo, observando fixamente a criança nos braços da mulher que o pai escolhera amar enquanto o torturava no Setor 45.

Não havia crueldade nos olhos de Aaron naquele instante. Havia apenas uma tristeza abissal, quase infantil, a constatação definitiva de que seu progenitor fora capaz de afeição — apenas escolhera não gastar nenhuma com ele.

— O nome dele é Andrew — sussurrou Clara, a voz ainda carregada de tremor, mas sustentada por uma nova e dolorosa firmeza. As lágrimas molhavam o tecido do vestido simples. — Ele... ele tem o sangue dele. Mas ele não tem culpa. Eu não sabia... por Deus, eu juro pela minha vida que eu não sabia de nada.

Juliette deu um passo à frente, trocando um olhar silencioso e significativo com Aaron antes de encarar Clara com genuína bondade.

— Nós sabemos que você não sabia — disse Juliette suavemente. — Ninguém a culpa pela teia de mentiras em que ele a prendeu. Você está no Setor 45 agora. O santuário dele se foi, mas aqui vocês dois estão a salvo. Nós não matamos bebês. E não punimos mulheres inocentes.

Clara olhou ao redor, fitando o concreto frio, as armas presas aos cintos dos soldados e o jovem quebrado que era, por direito de sangue, irmão mais velho de seu filho. O casulo de seda, veludo e mentiras em que vivera os últimos sete anos acabara de se desfazer em pó. O homem que a salvara da sarjeta aos dezenove anos e que prometera protegê-la do mundo era, na verdade, o pior pesadelo daquele mesmo mundo.

Ela apertou o pequeno Andrew mais forte contra si, beijando o topo da cabecinha macia do bebê enquanto as lágrimas lavavam de seu rosto a última gota de inocência.

Paris Anderson estava morto. Mas ela, pela primeira vez em toda a sua vida, teria que aprender a ser forte sem ele.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.