Sei lá
A Anatomia de um Retorno Inevitável
O cheiro pungente de água-oxigenada e iodo quase disfarçava o fedor metálico de sangue e a podridão que ainda emanava dos restos do ghoul na sala. Quase.
Sentada sobre a bancada alta de granito da cozinha, Clara cerrou os dentes quando o algodão embebido em antisséptico tocou as quatro linhas vermelhas e inchadas em seu antebraço. Dean estava entre suas pernas abertas, o corpo maciço quase colado ao dela, os ombros tensos ainda cobertos pela jaqueta de couro úmida da tempestade. Ele segurava o pulso dela com uma delicadeza absurda para um homem com as mãos tão ásperas, os dedos longos e calejados ancorando-a como se ela fosse quebrar.
— Ai — chiou ela, tentando puxar o braço de volta por reflexo.
— Fica quieta, docinho — murmurou Dean, sem erguer os olhos da ferida. Ele soprou a pele ferida com cuidado, o hálito quente dele enviando um arrepio elétrico por toda a extensão da espinha de Clara. — Essa porcaria de bicho tem bactérias que fariam o seu braço cair até amanhã de manhã. Não tô a fim de ver você com uma prótese de gancho.
— Muito engraçado, Winchester.
— Eu sou um poço de humor — rebateu ele, aplicando uma gaze esterilizada sobre o ferimento e prendendo-a com esparadrapo cirúrgico que tirara do indefectível estojo de primeiros socorros jogado sobre a pia.
Dean terminou o curativo, mas não se afastou.
Ele permaneceu ali, exatamente onde estava. As pontas dos dedos desceram pelo antebraço dela, traçando a curva macia de sua pele, subindo devagar pelo cotovelo até repousarem na lateral da cintura cheia de Clara. O toque queimava através do tecido fino do suéter rasgado. Os olhos verdes dele, antes focados na medicina de campo, finalmente se ergueram para encontrar os dela. Havia uma tempestade escura ali, uma mistura perigosa de alívio selvagem, desejo sufocado e uma culpa que já durava tempo demais.
— A gente devia... limpar a sala — disse Clara, a voz saindo mais fraca do que pretendia, o peito subindo e descendo com uma rapidez que nada tinha a ver com o susto do monstro. — E a porta da frente. Você arrancou as dobradiças. O vento tá congelando a casa toda.
— É — concordou Dean, a voz caindo uma oitava, tornando-se aquele sussurro rouco e arenoso que sempre desmontava as defesas dela. — Eu tenho tábuas, pregos e lona no porta-malas do Impala. Cinco minutos e eu fecho aquilo provisoriamente.
— Então vai — desafiou ela baixinho, embora suas mãos, pousadas nos ombros dele, tenham se fechado involuntariamente sobre o couro da jaqueta.
Dean soltou uma risada curta, sem humor, os lábios entreabertos a escassos centímetros dos dela.
— Não vou consertar porcaria nenhuma agora, Clara. E você sabe muito bem disso.
Ele nem sequer deu a ela a chance de fingir indignação.
As mãos de Dean subiram com avidez para o rosto dela, afundando nos cabelos ainda úmidos de chuva e medo, e sua boca colidiu contra a de Clara com a ferocidade de um homem faminto. O beijo não teve nada de hesitação ou preliminares contidas. Foi cru, desesperado, carregado de todo o silêncio acumulado nos meses em que ficaram separados.
Clara gemeu contra os lábios dele, abrindo passagem para a língua de Dean, rendendo-se àquela força magnética que ela passara quase um ano tentando extirpar do peito. Ela puxou a jaqueta dele, desvencilhando-o da peça pesada, querendo sentir o calor real do corpo sob a flanela gasta. Dean deslizou as mãos para os quadris largos dela, apertando a carne macia e generosa com uma possessividade que arrancou outro som estrangulado da garganta de Clara.
Ele sempre amara o corpo dela assim — farto, curvilíneo, quente —, e nunca tivera paciência para a timidez dela em relação ao próprio peso. Dean gostava de onde podia afundar os dedos, gostava de carregar o peso dela contra si, e demonstrou isso exatamente naquele instante, puxando-a para a borda da bancada e pressionando sua virilha rígida contra a dela.
— Dean... — sussurrou ela quando as bocas se descolaram por um segundo, os dois arquejando. — O chão tá sujo de tripas, tem um monstro decapitado a cinco metros daqui...
— Que se dane o monstro — rosnou ele contra o pescoço dela, beijando o ponto pulsante sob a mandíbula, sugando a pele suave até que ela arqueasse as costas. — Ele tá morto. Eu quase perdi você hoje, Clara. Não me pede pra parar.
Ela não pediu. Na verdade, foi Clara quem puxou a barra da camisa dele para cima, ajudando-o a se livrar dos panos até que o peito marcado por cicatrizes estivesse colado ao dela. Ele ergueu o suéter rasgado de Clara por cima da cabeça, seus olhos percorrendo a curva farta de seus seios com uma reverência crua que fez o sangue dela arder.
Ali mesmo, sobre a frieza do granito que contrastava violentamente com a brasa de suas peles, Dean a tomou. Ele entrou nela devagar no primeiro empurrão, soltando um gemido abafado contra a curva do ombro macio de Clara, enquanto as mãos grandes desciam para segurar suas coxas grossas, levantando-as para envolvê-lo melhor. Cada movimento dele era firme, deliberado, marcado por uma urgência quase dolorosa que falava mais do que qualquer juramento que ele se recusara a fazer no passado.
Clara enterrou as unhas nas costas dele, sentindo o suor misturar-se entre seus corpos, as respirações compassadas transformando-se em arquejos roucos. Não havia promessas de alianças, não havia futuro garantido naquelas investidas ritmadas; havia apenas a verdade incontestável de que, enquanto estivessem juntos sob o mesmo teto, eles pertenciam um ao outro. Quando o clímax a atingiu, puxando-a para um abismo de sensações agudas, Dean seguiu logo atrás, segurando-a com força, enterrando o rosto em seus cabelos com um grunhido gutural que parecia arrancado do fundo de sua alma.
Depois, quando a adrenalina finalmente baixou e o ar frio da noite começou a morder a pele exposta de ambos, Dean não foi buscar a caixa de ferramentas. Ele simplesmente a pegou no colo — resmungando um "você não vai andar por cima de vidro com esses pés descalços" quando ela protestou que era pesada demais —, e a carregou pelo corredor escuro até o quarto dela.
Eles caíram na cama macia, exaustos, os corpos colados sob os cobertores pesados, e dormiram como há meses nenhum dos dois conseguia dormir.
***
A claridade cinzenta da manhã seguinte começou a invadir o quarto pelas frestas das cortinas.
Clara acordou aos poucos, a mente pesada pela confusão do sono. Seu braço ardia levemente, mas a sensação aconchegante do peso do braço de Dean jogado sobre sua cintura era avassaladora. Ele estava desparramado no colchão, a respiração profunda contra a nuca dela, um calor constante e firme.
Por um breve minuto, Clara permitiu-se fingir que aquela era sua vida. Uma vida onde acordava ao lado do homem que amava, sem caçadas, sem monstros, sem despedidas.
Mas a ilusão quebrou no exato momento em que um som familiar e desconfortável ecoou pela casa: o estalar seco de botas pesadas pisando em vidro estilhaçado na sala de estar.
Dean acordou num piscar de olhos. O corpo dele retesou-se instantaneamente, a mão que antes descansava preguiçosa sobre Clara descendo às cegas para a lateral da cama em busca de uma arma que não estava ali. Ele sentou-se num solavanco, os olhos verdes semicerrados e alertas, o maxilar travado.
— Fica aqui — murmurou ele, jogando as cobertas para o lado e puxando a calça jeans do chão com uma velocidade impressionante.
— Dean, espera... — Clara sentou-se, puxando o edredom para cobrir os seios, o coração voltando a martelar. — Se for outro daqueles...
— Se for outro, vai morrer igual ao primeiro — cortou ele, pegando a faca de caça que deixara sobre o criado-mudo e saindo descalço pelo corredor.
Clara não ficou ali. Vestiu um robe atoalhado felpudo às pressas, amarrou o cordão na cintura e seguiu os passos dele. Seus pés descalços pararam no início do corredor que dava para a sala de estar.
A cena era tragicômica.
A sala continuava em ruínas: a porta de entrada caída no chão como uma ponte levadiça derrubada, o vento frio da manhã entrando sem cerimônia, cacos de vidro espalhados e, perto da lareira, o corpo decapitado do ghoul, agora frio e com o sangue endurecido em uma gosma escura.
Parado no meio daquela destruição, segurando dois copos descartáveis de café em uma das mãos e uma caixa de rosquinhas na outra, estava Sam Winchester.
O irmão mais novo parecia absurdamente calmo para a situação, embora houvesse olheiras profundas em seu rosto e o sobretudo estivesse manchado pela viagem noturna. Ele parou ao lado do monstro morto, encarou a carcaça decapitada com uma sobrancelha arqueada e, em seguida, olhou para a escopeta largada no chão.
— Pelo visto — disse Sam, a voz profunda quebrando o silêncio da casa —, a festa foi boa.
Dean baixou a faca de caça, soltando um suspiro exasperado e passando a mão livre pelo rosto sonolento.
— Você é um idiota, Sam. Eu quase enfiei essa lâmina no seu pescoço.
— É, bom dia pra você também — retrucou Sam, dando um passo cauteloso por cima de uma poça seca para colocar os cafés e as rosquinhas sobre o que sobrara da mesa de centro. Então, os olhos castanhos e gentis de Sam encontraram os de Clara no corredor, e sua expressão endurecida de caçador suavizou-se de imediato. — Clara. Você tá bem?
— Sam? — Ela avançou devagar, pisando onde não havia cacos, o cérebro girando em uma espiral de perguntas. — Como... o que você tá fazendo aqui?
— Eu vim assim que pude — respondeu ele, aproximando-se para envolvê-la em um abraço de urso cuidadoso, seu queixo descansando no topo da cabeça dela como sempre fazia. — Desculpa não ter atendido ontem à noite. Eu tava terminando um ritual num porão sem sinal de celular. Quando saí e vi sua chamada perdida, peguei a estrada na mesma hora.
Clara retribuiu o abraço por um instante, o alívio de ver seu melhor amigo inteiro quase a fazendo chorar de novo. Mas, enquanto se afastava e olhava para o rosto culpado de Sam e depois para a postura excessivamente defensiva de Dean encostado na parede, uma peça do quebra-cabeça estalou alto em sua mente.
Ela estreitou os olhos.
— Espera um pouco. Você viu minha chamada perdida ontem à noite?
— Vi. Eram quase três da manhã quando o sinal voltou.
— E você dirigiu de onde até aqui?
— De Lincoln — respondeu Sam, dando de ombros com inocência. — Umas cinco horas de viagem direto.
Clara virou-se lentamente para Dean. As bochechas dele, que raramente mostravam qualquer traço de constrangimento, pareciam ligeiramente avermelhadas sob a barba por fazer. Ele cruzou os braços sobre o peito nu, fingindo um repentino e fascinante interesse nas tábuas do teto.
— Se o Sam estava a cinco horas de distância em Nebraska... — começou Clara, o tom de voz descendo perigosamente, a autoridade de quem não aceitaria mentiras preenchendo o ar —, por que diabos você disse ontem à noite que estava na Rota 80 a quinze minutos da minha casa por causa de um 'ninho de vampiros'? Vocês não estavam caçando juntos?
Dean pigarreou, deslocando o peso de uma perna para a outra.
— Bom, a caçada começou junta, mas depois... sabe como é. As pistas se dividiram.
— Não se dividiram coisa nenhuma — intrometeu-se Sam, pegando um dos cafés e puxando a tampa plástica, um meio sorriso sarcástico desenhando-se em seus lábios. — Não tinha ninho nenhum de vampiros por aqui, Clara.
— Sam, cala a boca — rosnou Dean, fuzilando o irmão com o olhar.
— Não, Sam, continua — exigiu Clara, cruzando os braços sob o robe e plantando os pés firmes no chão, encarando o gigante de cabelos compridos. — Como o Dean sabia que tinha que estar aqui? Como ele estava a quinze minutos de distância?
Sam deu um gole no café, saboreando a bebida e, aparentemente, a oportunidade dourada de expor o irmão mais velho.
— O Dean sabia porque foi ele quem achou a notícia no jornal local há três dias — revelou Sam calmamente. — Um túmulo violado no cemitério velho de Sioux City. Qualquer um saberia que era um ghoul solitário e faminto, provavelmente desorientado, fácil de despachar. Eu disse que podia vir resolver rapidinho. Mas o Dean surtou.
— Eu não surtei! — protestou Dean, gesticulando no ar. — Eu fui tático!
— Ele quase me jogou pra fora do carro em Nebraska — continuou Sam, ignorando solenemente os protestos furiosos do irmão —, disse que Sioux City ficava muito perto do seu bairro novo, pegou o Impala no meio da noite e sumiu. Ele tá rondando a sua rua há três dias, Clara. Dormindo no carro a duas esquinas daqui só pra ter certeza de que essa coisa não ia chegar perto da sua casa.
O silêncio que caiu sobre a sala arruinada foi tão denso que o gotejar da chuva que havia parado lá fora parecia ensurdecedor.
Clara olhou para Dean. O homem durão, o caçador que não se apegava a nada, o homem que havia partido seu coração dizendo que não podia dar a ela a vida comum que ela sonhava, que pertencia à estrada e à solidão... estava dormindo no banco de trás de um carro velho a duas quadras dali, guardando o sono dela como um cão de guarda silencioso e teimoso.
— Três dias? — perguntou ela num sussurro, a voz embargada entre a incredulidade e uma comoção profunda que fez seu estômago dar voltas.
Dean esfregou a nuca, as orelhas queimando de vergonha, recusando-se a olhar para Sam.
— A criatura era perigosa, tá legal? — resmungou ele, parecendo muito mais um garoto pego em flagrante do que o caçador implacável de monstros. — Eu não ia deixar uma porcaria daquelas andar solta perto de você. E você é teimosa, não ia querer minha ajuda se eu batesse na porta. Então eu fiquei por perto. Só isso. Uma medida de segurança padrão.
— Uma medida de segurança padrão — repetiu Clara, um sorriso involuntário e trêmulo surgindo no canto de sua boca. — Você é um idiota completo, Dean Winchester.
— Olha só quem fala. Foi você quem tentou matar um ghoul com uma bandeja de prata da vovó — rebateu ele, tentando recuperar a dignidade, mas o brilho verde de seus olhos o traía completamente.
Sam pigarreou alto, olhando ostensivamente para o robe de Clara, para a falta de camisa de Dean e para a lona que continuava guardada no porta-malas do Impala lá fora.
— Bom — disse o mais novo, dando mais um gole no café —, eu vejo que vocês estavam ocupadíssimos 'consertando a porta' a noite toda.
Dean lançou um olhar assassino para Sam, apontando a faca de caça para ele.
— Cala a boca e pega a porcaria da caixa de ferramentas no carro. A gente tem uma porta pra consertar de verdade agora. E você vai ajudar a queimar essa carniça no quintal.
— Ah, com certeza — ironizou Sam, virando-se para sair e pisando com cuidado entre os escombros. Ao passar por Clara, ele piscou um olho cúmplice para ela e sussurrou: — Bom te ver de novo, Clara. Você não perdeu o jeito com ele.
Quando Sam finalmente atravessou a entrada aberta, Clara e Dean ficaram sozinhos novamente entre os cacos da noite anterior.
Ela deu um passo à frente, aproximando-se dele. Seus dedos macios subiram pelo peito nu de Dean, sentindo as batidas fortes e descompassadas do coração dele sob as cicatrizes.
— Três dias na esquina, Dean? — provocou ela, olhando para cima, os olhos brilhando com uma doçura que ela não pôde conter.
Dean suspirou, derrotado, as mãos encontrando o caminho natural de volta para a cintura dela, puxando-a contra si sem qualquer vestígio da postura durona de antes.
— Eu disse que sempre ia atender, não disse? — murmurou ele, curvando a cabeça para encostar a testa na dela, os lábios roçando os seus com uma ternura quase dolorosa. — Às vezes eu só... chego um pouco mais perto pra ter certeza de que a ligação vai cair direto.
Clara riu baixinho, sentindo o calor dele envolvê-la por inteiro, sabendo muito bem que a porta continuaria quebrada por pelo menos mais algumas horas, mas que, de alguma forma torta e imperfeita, tudo ali estava exatamente onde deveria estar.