Sei lá
Combustão Espontânea
O ronco compassado do motor V8 do Impala vibrava pelo chassi como um pulso constante, reverberando diretamente na base da coluna de Clara. A paisagem monótona do Meio-Oeste corria do lado de fora da janela: milharais ressequidos pela geada da manhã, silos enferrujados contra um céu cinzento e o asfalto úmido da Interestadual 29 se desenrolando como uma fita sem fim.
Dentro do carro, no entanto, a atmosfera era quase asfixiante de tão densa.
A cada troca de marcha, a mão direita de Dean roçava intencionalmente na lateral da coxa de Clara. Não era um toque discreto ou acidental. A palma grande e calejada demorava-se sobre o jeans apertado dela, apertando a carne macia e generosa com uma lentidão calculada que fazia o ar escapar entre os dentes dela. Clara mantinha os olhos fixos na estrada à frente, tentando desesperadamente parecer absorta nas anotações sobre os demônios babilônicos em seu colo, mas o rubor que ardia em seu pescoço e a respiração entrecortada a traíam por completo.
No banco de trás, Sam parecia um monge budista em retiro forçado. Sentado rigidamente no centro exato do estofamento, com as pernas longas encolhidas para não encostar em nada, ele encarava o teto do carro com uma expressão de sofrimento silencioso.
— Se você passar essa quarta marcha de novo desse jeito, Dean — murmurou Sam, a voz gélida ecoando por trás —, eu vou abrir a porta e rolar na valeta.
Dean soltou uma risada baixa e rouca, nem sequer se dignando a olhar pelo retrovisor. Seus dedos apertaram a coxa de Clara mais uma vez antes de voltarem para o volante.
— Eu tô apenas dirigindo, Sammy. A transmissão tá um pouco dura hoje.
— A transmissão tá ótima — rebateu Sam, com a voz carregada de veneno. — Quem tá duro é você, e eu não preciso dessa informação sensorial no meu cérebro.
— Sam! — Clara exclamou, fechando o caderno de anotações com um estalo e escondendo o rosto entre as mãos. — Pelo amor de Deus, parem vocês dois!
— Pare no próximo posto — ordenou Sam, chutando de leve as costas do banco do motorista. — Preciso de café, preciso usar o banheiro e, acima de tudo, preciso de cinco minutos de oxigênio que não esteja carregado de tensão hormonal radioativa.
Dean bufou, mas a verdade é que o ponteiro do tanque de combustível já beirava a reserva. Ele deu a seta e manobrou o Impala para a saída de uma área de descanso esquecida pelo tempo, onde uma velha bomba de gasolina enferrujada dividia espaço com uma loja de conveniência decrépita e uma lanchonete fechada com tábuas na janela. Não havia outros carros à vista; apenas a vastidão vazia dos campos de milho e a névoa fria da manhã.
Assim que o carro parou com um rangido suave dos freios ao lado da bomba, Sam não perdeu um único segundo. Ele empurrou a porta traseira com o ombro e saltou para fora como se o interior do veículo estivesse em chamas, esticando os quase dois metros de altura com um suspiro de alívio puro.
Ele apoiou os braços na janela aberta do lado do passageiro, encarando os dois com uma severidade quase paternal.
— Eu vou pagar a gasolina no caixa, usar o banheiro e comprar café — disse Sam, apontando o dedo indicador primeiro para Dean, depois para Clara. — São exatamente dez minutos. Dean, abastece essa droga. Clara, não incentive o animal. Se eu voltar e vir qualquer tipo de movimento suspeito que balance a suspensão desse carro, eu largo vocês aqui e vou a pé pra Omaha. Estamos entendidos?
Dean apenas sorriu, aquele sorriso insolente e torto que Clara conhecia tão bem, apoiando o cotovelo no volante.
— Vai lá, mãe. Traz uma torta se tiver. Daquela de cereja.
Sam revirou os olhos com tamanho desgosto que quase pareceu doloroso, ajeitou a gola do sobretudo e marchou em direção à loja de conveniência com passadas largas e decididas.
Clara acompanhou a silhueta alta do amigo até que ele atravessasse as portas de vidro fosco do estabelecimento e o sino estridente da entrada ecoasse fracamente à distância.
Ela soltou um longo suspiro, recostando a cabeça contra o banco de couro e fechando os olhos por um segundo para acalmar os nervos.
— O Sam tá traumatizado de verdade, sabia? — comentou ela, com a voz suave. — Você não precisava provocar ele daquele jeito com a marcha...
A frase morreu em sua garganta.
O clique seco e metálico das travas elétricas das portas soou alto no silêncio da cabine.
Antes que Clara pudesse abrir os olhos ou processar o som, o peso de Dean estava sobre ela.
Ele não perdeu tempo descendo para abastecer. Ele simplesmente soltou o cinto de segurança num movimento fluido, girou o tronco maciço no banco do motorista e invadiu o espaço dela. A mão grande de Dean voou para a nuca de Clara, os dedos calejados afundando em seus cabelos com uma força urgente, enquanto a outra mão se espalmava na lateral da cintura cheia dela, puxando-a contra si até que não sobrasse um milímetro de ar entre seus corpos.
Sua boca colidiu com a dela com uma fome voraz, quase selvagem.
Clara soltou um gemido abafado de surpresa, mas seus lábios se abriram instantaneamente ao toque abrasador da língua dele. O beijo tinha gosto de café amargo, hortelã e do perigo cru que Dean carregava na pele. Não havia a menor sombra de hesitação; era como se ele estivesse contendo uma represa desde o momento em que a vira caída na sala de estar naquela madrugada.
— Dean... — conseguiu murmurar ela entre um beijo e outro, tentando recuperar o fôlego enquanto as mãos dela, traidoras, agarravam a gola da jaqueta de couro dele. — O Sam... ele tá ali dentro, ele vai voltar...
— Que se dane o Sam — rosnou Dean contra a boca dela, sua respiração batendo quente e pesada na pele de Clara.
Ele aprofundou o beijo, deslizando a língua com uma destreza que fez a espinha de Clara se liquefazer. As mãos de Dean começaram a traçar um caminho desesperado pelo corpo dela. Ele desceu a palma áspera pelo contorno do peito farto, acariciando a curva através da lã grossa da blusa, fazendo o bico de seus seios endurecer instantaneamente sob o tecido.
Clara arqueou as costas contra o encosto do banco, uma onda de calor denso pulsando direto para o meio de suas pernas. Ela tentou manter um resquício de sensatez, lembrou-se das discussões, dos meses de separação, da recusa obstinada dele em dar a ela qualquer garantia de um futuro estável. Mas quando a boca de Dean abandonou seus lábios para descer em mordidas suaves e sôfregas pela linha de sua mandíbula, sugando a pele macia logo abaixo de sua orelha, todo o bom senso virou cinzas.
— Você não tem ideia — sussurrou ele, a voz tão rouca e carregada de desejo que vibrava contra a pele úmida dela —, do que foi ver você de robe hoje de manhã. Olhar pra essa sua boca e lembrar de ontem à noite. Eu quase bati a porcaria do carro três vezes nessa estrada só de pensar em te encostar contra essa porta.
— Você é louco — ofegou ela, suas mãos deslizando para os cabelos curtos da nuca dele, puxando-o para mais perto. — Alguém pode ver a gente pela vitrine do posto...
— Não tem ninguém nessa porcaria de lugar, Clara. Só eu e você.
Dean não parou. Ele puxou a barra da jaqueta de lã dela para cima com uma impaciência febril. Suas mãos desceram firmes para os quadris largos de Clara, apertando a carne macia com aquela possessividade crua que sempre desarmava as inseguranças dela. Dean amava a densidade do corpo dela, amava o peso e a generosidade de suas curvas, e deixava isso absolutamente claro na forma como suas mãos a moldavam, erguendo ligeiramente o quadril dela no assento para abrir espaço.
Com um puxão firme, ele abriu o botão de metal da calça jeans de Clara. O som do zíper descendo pareceu ensurdecedor no silêncio do carro.
— Dean! — o protesto saiu como um suspiro agudo quando a mão quente dele deslizou diretamente para dentro do tecido áspero do jeans, contornando a renda fina da calcinha até encontrar a pele incandescente da virilha dela.
— Fica quieta, docinho — ordenou ele em um murmúrio rouco, os olhos verdes brilhando na penumbra da cabine com uma intensidade quase animalesca. — Deixa eu cuidar de você.
Os dedos longos e calejados de Dean não hesitaram. Ele afastou a lateral da renda com destreza, seus dedos encontrando a umidade densa e escorregadia que já ensopava o tecido entre as coxas dela. Quando a ponta do polegar dele pressionou com firmeza o ponto mais sensível de sua intimidade, Clara soltou um grito abafado, os quadris erguendo-se involuntariamente contra a mão dele.
— Olha só pra você... — gemeu Dean, os olhos semicerrados enquanto sentia o calor pulsante dela contra a sua pele. — Já tá encharcada pra mim. Você sabe o que isso faz comigo?
Ele começou a massageá-la com movimentos lentos e circulares, aumentando a pressão exatamente onde ela precisava, enquanto dois de seus dedos deslizavam para dentro dela, preenchendo-a com uma facilidade que arrancou lágrimas de prazer dos olhos de Clara.
Ela jogou a cabeça para trás, a nuca batendo contra o vidro frio da janela, seus dedos cravando-se com força nas coxas musculosas de Dean. A sensação do contraste entre a frieza do ar que entrava pelas frestas e a brasa da mão dele entre suas pernas era quase avassaladora. Cada investida dos dedos dele era calculada, profunda, atingindo o ritmo exato que a levava à beira da insanidade.
— Dean, por favor... — implorou ela, sem saber se estava pedindo para ele parar ou para nunca mais tirar as mãos dali. O quadril volumoso dela movia-se no ritmo da mão dele, buscando mais atrito, entregando-se sem reservas àquele toque.
— Pede pra mim — rosnou ele contra a boca dela, voltando a beijá-la com ferocidade, a língua imitando o ritmo compassado de seus dedos lá embaixo. — Me diz que você sentiu falta disso. Me diz que ninguém te tocou desse jeito desde que você foi embora.
— Ninguém... — confessou ela num soluço sufocado contra os lábios dele, as lágrimas de pura excitação queimando em suas bochechas. — Só você, seu desgraçado... só você!
Um grunhido de satisfação gutural escapou da garganta de Dean. A confirmação pareceu alimentar ainda mais o fogo que o consumia. Ele acelerou o movimento dos dedos, trabalhando sua intimidade com uma precisão devastadora, enquanto a outra mão apertava com força o seio farto de Clara por cima da blusa, moldando-o, exigindo cada fração de sua atenção e entrega.
O prazer subiu como uma onda gigantesca na base da espinha de Clara. As paredes de seu corpo começaram a se contrair violentamente ao redor dos dedos dele, o aperto involuntário de seu clímax puxando um gemido longo e rouco do peito de Dean. Ela enterrou as unhas nas costas dele através da jaqueta, mordendo o lábio inferior dele para abafar o grito que queria rasgar sua garganta, estremecendo dos pés à cabeça enquanto as ondas de choque do orgasmo a varriam por completo, deixando-a sem fôlego, trêmula e vulnerável nos braços dele.
Dean não parou imediatamente. Manteve os dedos dentro dela por mais alguns segundos preciosos, saboreando cada espasmo das contrações de Clara, beijando suas pálpebras, sua testa e suas bochechas com uma ternura desconcertante que contrastava brutalmente com a fúria de instantes atrás.
— Minha garota... — murmurou ele contra o pescoço dela, a respiração pesada soprando em sua pele úmida. — Você é perfeita demais, Clara. Puta que pariu.
Clara ainda tentava recuperar o ar, o peito subindo e descendo em arfadas curtas, as pernas bambas e a mente flutuando em uma névoa espessa de dopamina. Mas a realidade não tardou a cobrar seu preço.
O som estridente de um sino ecoou pelo pátio do posto.
As portas da loja de conveniência se abriram.
O choque de adrenalina foi instantâneo. Clara arregalou os olhos e empurrou o peito de Dean com as duas mãos, em pânico.
— Ele tá vindo! Dean, sai! Sai de cima de mim agora!
Dean soltou uma praga baixa entre dentes, arrancando a mão de dentro da calça dela com relutância evidente. Seus olhos verdes brilharam ao ver os próprios dedos brilhando com a umidade dela, mas não havia tempo para contemplações. Ele deslizou de volta para o banco do motorista em um movimento frenético, limpando a mão disfarçadamente na perna da calça jeans enquanto tentava domar a respiração descompassada.
Clara se contorceu no banco do passageiro com uma agilidade desesperada, puxando a calcinha, fechando o zíper da calça com as mãos trêmulas e abotoando o jeans no segundo exato em que ajeitava a blusa sobre o quadril. Ela puxou o espelho retrovisor interno para checar o próprio rosto: o batom estava completamente borrado, o cabelo despenteado e seus lábios pareciam duas amoras esmagadas de tão inchados.
— Meu Deus, eu tô parecendo uma louca — sussurrou ela, tentando ajeitar os fios rebeldes com os dedos trêmulos.
— Você tá linda — rebateu Dean, ajeitando a jaqueta com um meio sorriso presunçoso e cafajeste que deixava Clara entre a vontade de beijá-lo de novo ou quebrar o nariz dele com uma chave de roda.
Passos pesados soaram sobre o cascalho do pátio.
A porta traseira do Impala se abriu com um solavanco e Sam jogou-se para dentro do veículo, carregando dois copos térmicos de papelão em um suporte e um saco de papel pardo com rosquinhas. Ele parecia revigorado pelo ar frio lá de fora, com o rosto corado pelo vento.
— O banheiro daquele lugar é um crime contra a humanidade — começou Sam, fechando a porta e acomodando os cafés no espaço entre os bancos dianteiros. — Acho que vi uma nova espécie de fungo crescendo na pia. Mas pelo menos consegui um café decente e...
Sam travou no meio da frase.
O silêncio caiu como uma marreta dentro do carro.
Os olhos castanhos e analíticos de Sam desceram lentamente do teto do carro para a cena à sua frente.
Primeiro, ele olhou para Clara: ela estava sentada em uma postura excessivamente ereta, as mãos cruzadas com força sobre o caderno de anotações no colo, as bochechas queimando em um tom escarlate brilhante e a respiração visivelmente acelerada. Depois, o olhar de Sam virou-se para Dean: o irmão mais velho segurava o volante com as duas mãos, olhando fixamente para a bomba de gasolina com uma expressão de falsa inocência tão exagerada que beirava o ridículo, as abas da jaqueta ligeiramente desajeitadas e uma mancha tênue de batom brilhando no canto de sua boca.
E, finalmente, o olhar de Sam desceu para o vidro dianteiro do Impala.
Havia uma mancha circular e úmida de vapor condensado exatamente na altura da cabeça de Clara, como se alguém tivesse sido prensado com força contra o vidro há menos de dois minutos.
O rosto de Sam contorceu-se em uma máscara de absoluto horror, nojo e indignação cósmica. Ele fechou os olhos com força, levou os dedos à ponte do nariz e respirou fundo, parecendo implorar mentalmente a Deus por uma morte rápida e indolor.
— Vocês... — começou Sam, a voz saindo num tom perigosamente baixo e vibrante de raiva. — Vocês não tiveram coragem.
— Não tivemos coragem de quê, Sammy? — perguntou Dean, a voz soando dois tons mais aguda do que o normal, fingindo a mais pura confusão. — Eu só tava esperando você voltar pra gente abastecer.
— O carro nem tá desligado, Dean! — explodiu Sam, apontando para o painel iluminado. — O motor tá roncando desde a hora que eu saí! E que cheiro é esse? O ar aqui dentro parece... parece o camarim de uma casa de strip-tease barato!
Clara enterrou a cabeça entre os braços sobre o painel, gemendo de vergonha.
— Eu quero morrer. Sam, por favor, só atira na minha cabeça. Usa uma bala de prata, tanto faz, só acaba com isso.
— Clara, você tem a sua própria casa! — vociferou Sam do banco de trás, gesticulando descontroladamente com o saco de rosquinhas na mão. — Você tem uma cama de casal confortável! A gente dormiu lá a porcaria da noite toda! Por que diabos vocês precisam usar o carro da família a cada vinte minutos como dois animais no cio? Eu passei dez minutos fora! Dez malditos minutos!
Dean não aguentou mais. Ele começou a rir, uma gargalhada solta, aberta e absolutamente desavergonhada que ecoou pela cabine inteira, fazendo seus ombros tremerem contra o encosto do banco.
— Qual é, Sammy, deixa de ser puritano. A adrenalina pós-quase-morte abre o apetite das pessoas. Você deveria tentar um dia desses, faria maravilhas pelo seu humor.
— Eu vou vomitar — declarou Sam, enfiando a mão no bolso do sobretudo e puxando um frasco de álcool em gel, esfregando as mãos com uma fúria quase maníaca. — Eu exijo que a gente pare na próxima cidade pra eu comprar luvas cirúrgicas e uma máscara de oxigênio. Eu me recuso a tocar em qualquer maçaneta desse veículo.
— Deixa de drama — disse Dean, ainda rindo enquanto engatava a primeira marcha e pisava no acelerador, ignorando olimpicamente o fato de que nem sequer havia abastecido o tanque.
O Impala cantou pneu sobre o cascalho molhado, ganhando a pista de asfalto da interestadual com uma aceleração potente que jogou todos contra os assentos.
Clara levantou a cabeça devagar, o rosto ainda ardendo de vergonha, limpando o canto da boca com as costas da mão. Quando seus olhos encontraram os de Dean pelo reflexo do espelho retrovisor, ele piscou para ela com uma malícia descarada, a mão descendo discretamente do volante para repousar mais uma vez sobre a coxa dela, apertando o jeans com firmeza.
Desta vez, Clara não tentou tirar a mão dele. Ela apenas soltou um suspiro rendido, aceitando a loucura familiar que voltara a tomar conta de seus dias, sabendo muito bem que, por mais caótica e vergonhosa que fosse aquela viagem, ela não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.