Sempre estarei aqui com você
O Porto Seguro em Meio à Tempestade
A luz da manhã em Mônaco era de um azul cristalino, refletindo-se nas águas calmas da marina que Oscar conseguia ver da varanda de seu apartamento. No entanto, o clima dentro de casa era de uma calmaria vigilante. Após o incidente na escola, Oscar e Lily haviam tomado uma decisão unânime: a privacidade de Lucas era inegociável.
Oscar estava na cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom e uma camiseta branca simples. Ele preparava panquecas, o prato favorito de Lucas aos sábados. Não havia câmeras, não havia assessores de imprensa, apenas o som do chiado da massa na frigideira e o aroma de café recém-passado.
— Papai? — Uma voz pequena e sonolenta ecoou no corredor.
Oscar desligou o fogo imediatamente e se virou. Lucas estava parado ali, esfregando um dos olhos com o punho fechado, vestindo um pijama de dinossauros. Seus cabelos castanhos estavam completamente bagunçados, uma imagem espelhada de como Oscar acordava todos os dias.
— Bom dia, mate — disse Oscar, abrindo os braços. — Você acordou bem na hora. As panquecas estão quase prontas.
Lucas correu e abraçou as pernas do pai. Oscar o ergueu sem esforço, sentando-o na bancada de mármore da cozinha. O menino parecia mais calmo do que no dia anterior, mas ainda havia uma sombra de timidez em seus gestos, algo que Oscar notava com a precisão de quem analisa telemetria.
— A mamãe ainda está dormindo? — perguntou Lucas, observando Oscar espalhar um pouco de mel sobre a panqueca.
— Shh, é o nosso segredo — Oscar piscou para ele. — Vamos levar o café na cama para ela hoje. O que você acha?
Lucas abriu um sorriso largo, o primeiro sorriso genuíno desde que voltara da escola.
— Sim! Eu quero levar o suco!
Enquanto montavam a bandeja, Lily apareceu na porta, já acordada e sorrindo diante da cena. Ela usava um roupão de seda e tinha os cabelos presos em um coque despojado. Para Oscar, ela era a âncora que mantinha tudo no lugar.
— Eu ouvi algo sobre segredos e suco de laranja — disse ela, aproximando-se e dando um beijo na bochecha de Oscar e depois na testa de Lucas. — Bom dia, meus meninos.
— Você estragou a surpresa, mamãe! — Lucas riu, batendo as mãos pequenas na bancada.
— Ah, me desculpe, pequeno. Vou voltar para o quarto e fingir que estou roncando, pode ser?
A risada de Lucas preencheu a cozinha, e por um momento, o peso do mundo exterior desapareceu. Mas a realidade da vida de um piloto de elite sempre encontrava uma maneira de se infiltrar. O celular de Oscar, deixado sobre a mesa, vibrou. Era uma notificação de uma rede social.
Oscar lançou um olhar rápido. Um site de fofocas de Mônaco havia publicado fotos dele e de Lucas na porta da escola no dia anterior. A legenda especulava sobre a "tristeza do herdeiro Piastri" e questionava se a pressão de ser filho de um campeão estava afetando o menino.
O maxilar de Oscar travou. Ele sentiu uma onda de proteção subir pelo peito. Ele bloqueou a tela antes que Lucas pudesse ver qualquer coisa. Lily, que conhecia cada microexpressão do marido, percebeu imediatamente. Ela colocou a mão sobre o ombro dele, um toque silencioso que dizia: *“Agora não. Deixe para depois.”*
— Lucas, por que você não vai pegar seu bloco de desenhos? — sugeriu Lily, com a voz suave. — O papai quer ver o que você começou a pintar ontem.
— Tá bom! — O menino pulou da bancada e correu em direção ao quarto, animado com a ideia de mostrar sua arte.
Assim que os passos de Lucas se distanciaram, o semblante de Oscar mudou. Ele se virou para Lily, mostrando a tela do celular.
— Isso tem que parar, Lily. Eles tiraram fotos dele chorando. Eles estão analisando a expressão de uma criança de cinco anos como se fosse um setor de uma pista.
— Eu sei, Oscar. É horrível — Lily suspirou, cruzando os braços. — Eu já mandei um e-mail para o seu agente. Precisamos reforçar a segurança nas idas à escola ou talvez considerar o ensino domiciliar por um tempo, até as coisas se acalmarem.
— Eu não quero que ele viva em uma bolha, mas também não quero que ele tenha medo de sair de casa — disse Oscar, passando a mão pelo rosto. — Ele é sensível, Lily. Ele sente o olhar das pessoas. Ontem na escola... o que aquelas crianças disseram... isso vem dos pais. Vem do que as pessoas leem na internet.
— Nós vamos lidar com isso — afirmou Lily, aproximando-se e segurando as mãos dele. — Você é o piloto mais calmo do grid, lembra? Use essa calma agora. Lucas precisa que você seja o porto seguro dele, não o Oscar que quer brigar com o mundo.
Oscar respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Ela tinha razão. Ele precisava ser a rocha de Lucas.
— Papai! Olha! — Lucas voltou correndo, segurando uma folha de papel um pouco amassada.
Era um desenho colorido, feito com giz de cera e aquarela. Não era um carro de corrida. Era uma casa grande, cercada por árvores azuis e um sol gigante e sorridente. No centro, três figuras de mãos dadas. Uma era alta e tinha um boné da McLaren — claramente Oscar.
— Esse é você, essa é a mamãe e esse sou eu — explicou Lucas, apontando para as figuras. — E aqui em volta é um escudo invisível. Nada de ruim entra aqui.
Oscar sentiu um nó na garganta. Ele se ajoelhou para ficar na altura do filho e pegou o desenho com as mãos trêmulas de emoção.
— É o desenho mais lindo que eu já vi, mate. Um escudo invisível, hein?
— É. Como o capacete que você usa — disse Lucas, com a inocência que só uma criança possui. — Protege a cabeça e o coração.
Oscar puxou o filho para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no pescoço de Lucas, sentindo o cheiro de shampoo infantil e infância.
— Você é muito inteligente, sabia? — sussurrou Oscar. — E você está certo. Nada de ruim vai entrar no nosso escudo.
O restante do dia foi passado de forma lenta, exatamente como eles gostavam. Eles decidiram evitar os parques públicos de Monte Carlo naquele sábado. Em vez disso, ficaram no terraço do apartamento, onde Lucas tinha uma pequena piscina inflável e seus brinquedos espalhados.
Oscar sentou-se no chão com o filho, ajudando-o a construir uma pista de obstáculos para seus dinossauros. Lily lia um livro em uma espreguiçadeira próxima, mas seus olhos frequentemente se desviavam para os dois. Era nesses momentos que Oscar Piastri, o piloto que desafiava a gravidade a 300 km/h, se sentia mais completo.
No entanto, a sensibilidade de Lucas se manifestou novamente no final da tarde. O som de um helicóptero sobrevoando a região — algo comum em Mônaco — fez o menino parar de brincar e olhar para cima com ansiedade.
— São eles, papai? Os homens com as câmeras grandes?
Oscar sentiu uma pontada de culpa. O fato de um menino de cinco anos associar um barulho no céu com a perda de sua privacidade era um sinal claro de que os limites haviam sido ultrapassados pela mídia.
— Não, pequeno. É só alguém indo para o aeroporto — explicou Oscar, aproximando-se e sentando Lucas em seu colo. — Ninguém pode ver a gente aqui. Este é o nosso esconderijo secreto, lembra?
— Eu não gosto quando eles tiram fotos — murmurou Lucas, escondendo o rosto no peito de Oscar. — Eles fazem rostos estranhos. E eu fico triste.
— Eu sei, mate. Eu também não gosto — admitiu Oscar, sendo honesto. — Mas escuta o que o papai vai te falar. Aquelas câmeras... elas só conseguem ver o lado de fora. Elas não sabem quem você é de verdade. Elas não sabem que você faz os melhores desenhos do mundo ou que você é o mestre dos dinossauros.
Lucas olhou para cima, com os olhos brilhando.
— Elas não sabem?
— De jeito nenhum — Oscar sorriu, fazendo cócegas na barriga do filho para mudar o clima. — É o nosso segredo. Você é o meu Lucas. E nada que eles escrevam ou mostrem vai mudar isso.
A noite caiu sobre o principado, e as luzes da cidade começaram a brilhar como diamantes. Após o jantar, o ritual de sempre começou. Lucas, já exausto pelas brincadeiras e pela carga emocional do dia anterior, começou a bocejar.
— Hora da cama, campeão — disse Lily, estendendo a mão para ele.
— Posso dormir com o papai hoje? — pediu Lucas, com aquela voz doce que Oscar nunca conseguia recusar.
— Só um pouquinho, até você pegar no sono — cedeu Oscar.
Eles foram para o quarto de Lucas, que era decorado com estrelas que brilhavam no escuro e prateleiras cheias de livros e alguns troféus que Oscar havia dado a ele — os "troféus de participação" que Lucas achava mais bonitos.
Oscar se deitou na cama pequena, e Lucas imediatamente se acomodou sobre seu peitoral. Era o lugar favorito do menino no mundo. Ele conseguia ouvir os batimentos cardíacos lentos e constantes do pai, um som que para ele significava segurança absoluta.
— Papai? — murmurou Lucas, já quase dormindo.
— Sim, mate?
— Você vai viajar logo?
Oscar suspirou. A próxima corrida era em Suzuka, no Japão. Uma viagem longa.
— Vou daqui a dois dias. Mas a mamãe vai ficar aqui com você. E eu vou te ligar todo dia por vídeo, para você me mostrar seus desenhos novos.
— Eu vou sentir saudade do seu cheiro — disse o menino, a voz sumindo.
— Eu também vou sentir a sua, pequeno. Mas lembre-se do nosso escudo invisível. Ele continua funcionando mesmo quando eu estou longe.
Oscar ficou ali, no escuro, ouvindo a respiração de Lucas se tornar pesada e rítmica. Ele sentia o peso reconfortante do filho sobre si, uma responsabilidade que ele levava muito mais a sério do que qualquer estratégia de corrida.
Lily apareceu na porta, observando-os em silêncio. Ela entrou no quarto na ponta dos pés e cobriu os dois com uma manta leve.
— Ele adormeceu rápido — sussurrou ela.
— Ele estava exausto — respondeu Oscar, também em sussurro, sem se mover para não acordar o filho. — Lily, eu decidi uma coisa.
— O quê?
— Na próxima coletiva de imprensa, eu vou falar. Não sobre a corrida, mas sobre os limites. Vou deixar claro que a minha família está fora de questão. Se eles querem o piloto, eles me têm na pista. Mas o meu filho... o meu filho é sagrado.
Lily sorriu, com orgulho brilhando nos olhos. Ela sabia que Oscar não era de fazer cenas ou declarações polêmicas, mas quando se tratava de Lucas, ele era capaz de enfrentar qualquer um.
— Ele tem sorte de ter você, Oscar.
— Eu é que tenho sorte — corrigiu ele, olhando para o pequeno rosto sereno de Lucas.
Oscar passou mais uma hora ali, simplesmente sentindo a presença do filho. Ele sabia que, em poucos dias, estaria enfrentando forças G brutais e a pressão de milhões de espectadores. Mas ali, naquele momento, a única coisa que importava era garantir que Lucas continuasse sonhando com árvores azuis e sóis sorridentes, seguro dentro do abraço de seu pai.
Porque para o mundo, ele era Oscar Piastri, o prodígio da McLaren. Mas para Lucas, ele era apenas o "papai", o homem cujo peito era o melhor lugar do mundo para dormir e cujo amor era o escudo mais forte que existia. E Oscar faria de tudo para que continuasse sendo exatamente assim.