Sempre estarei aqui com você
O Escudo Invisível e o Peso do Sobrenome
A luz do entardecer em Mônaco refletia-se nas janelas de vidro da prestigiada escola internacional onde Lucas estudava. O ambiente era de uma elegância contida, com corredores decorados por artes infantis e o som baixo de conversas entre pais influentes. Lily estava sentada em uma das cadeiras de madeira da sala de reuniões, sentindo-se estranhamente pequena. Oscar ainda não havia chegado; ele estava vindo direto do simulador, e o trânsito entre a fábrica e o aeroporto, seguido pelo voo de helicóptero, parecia estar jogando contra eles.
A reunião de pais não era uma formalidade coletiva, mas um encontro solicitado pela direção após o incidente com Lucas. À mesa, além da professora e da diretora, estavam o Sr. Bennett, pai de Leo — o menino que havia provocado Lucas sobre não ser um "piloto de verdade" — e o Sr. Marchand, pai de uma menina em quem Lucas esbarrara acidentalmente no corredor durante seu momento de choro.
— Sra. Piastri — começou o Sr. Bennett, ajustando o relógio de ouro no pulso com um ar de superioridade —, compreendemos que a rotina de um piloto de Fórmula 1 seja... agitada. Mas a sensibilidade extrema do seu filho está começando a afetar a dinâmica da classe. Meu filho, Leo, apenas disse a verdade. Crianças precisam de resiliência.
Lily respirou fundo, tentando manter a calma que Oscar sempre lhe pedia.
— Sr. Bennett, há uma diferença entre resiliência e crueldade. O que seu filho disse foi pessoal e doloroso. Lucas é uma criança gentil, ele não precisa ser um competidor agressivo para ter valor.
— E quanto à minha filha? — interrompeu o Sr. Marchand, com um tom ríspido. — Ela foi empurrada no corredor. Lucas estava correndo sem olhar para onde ia. Se ele não consegue controlar suas emoções, talvez esta escola não seja o lugar adequado para ele. Ou talvez ele precise de uma disciplina que... bem, que talvez falte em uma casa onde o pai nunca está presente.
Lily sentiu o rosto queimar. A insinuação de que Oscar era um pai ausente era a maior mentira que alguém poderia proferir.
— Meu marido é extremamente presente, Sr. Marchand. Mais do que muitos pais que trabalham em escritórios nesta cidade.
— Ah, claro — desdenhou Bennett, com um sorriso de canto. — Vemos as fotos. Vemos você sempre sozinha com o menino nos eventos. O que é uma pena, na verdade. Uma mulher com a sua... aparência... — Ele percorreu os olhos por Lily de uma forma que a fez sentir um calafrio de nojo. — Merecia mais atenção. Se Oscar está tão ocupado na pista, não me surpreende que você pareça tão disponível para cuidar de tudo sozinha.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Lily abriu a boca para responder, a indignação subindo pela garganta, mas o som da porta da sala se abrindo com firmeza interrompeu qualquer palavra.
Oscar Piastri entrou na sala. Ele ainda vestia o polo da equipe McLaren, com os cabelos levemente desgrenhados e o olhar afiado como uma lâmina. Ele não parecia o homem calmo que montava dinossauros no tapete da sala; ele parecia o piloto que mergulha em uma curva a 300 km/h sem hesitar.
— Perdoem o atraso — disse Oscar, sua voz baixa e controlada, mas carregada de uma autoridade que fez a sala emudecer. — Tive problemas com o transporte.
Ele caminhou até Lily, colocou a mão protetoramente em seu ombro e deu um beijo suave no topo de sua cabeça antes de se sentar ao lado dela. Ele não olhou para a professora ou para a diretora primeiro. Ele fixou os olhos no Sr. Bennett.
— Eu ouvi a última parte da conversa lá fora — continuou Oscar, e o tom de sua voz caiu uma oitava, tornando-se perigosamente frio. — Sr. Bennett, se o senhor tem alguma opinião sobre o meu desempenho como pai, sinta-se à vontade para discuti-la comigo. Mas nunca, em hipótese alguma, use o tom que usou com a minha esposa novamente.
O Sr. Bennett pigarreou, claramente desconfortável com a presença física e a intensidade de Oscar.
— Ora, Piastri, não seja dramático. Estávamos apenas discutindo o comportamento do seu filho. Ele é... instável.
— Meu filho não é instável — rebateu Oscar, inclinando-se para frente. — Ele é uma criança de cinco anos com um coração enorme em um mundo que, infelizmente, está cheio de pessoas que não sabem o que significa respeito. Ele esbarrou na filha do Sr. Marchand porque estava fugindo de ataques verbais que o seu filho, Bennett, iniciou.
— São apenas crianças — murmurou Marchand, tentando recuperar a postura.
— Exatamente — disse Oscar, voltando-se para ele. — São crianças. E o fato de vocês estarem aqui, agindo como se o Lucas fosse o problema por ser sensível, enquanto ignoram que seus filhos estão reproduzindo a arrogância que veem em casa, é o verdadeiro problema.
A diretora tentou intervir, mas Oscar levantou a mão suavemente, pedindo a palavra.
— Eu sou uma figura pública. Eu aceito as críticas ao meu trabalho. Mas o meu filho não assinou contrato com a mídia. Ele não é uma extensão da minha marca. Ele é o Lucas. E se ele prefere pintar a correr, isso faz dele um ser humano admirável, não um alvo.
Ele então voltou o olhar para Bennett, que ainda parecia querer manter o ar de deboche.
— E sobre o que o senhor mencionou... sobre a minha esposa "merecer mais atenção" — Oscar soltou um riso seco, sem nenhum humor. — A Lily é o centro da minha vida. O fato de sermos reservados não dá a ninguém o direito de ser desrespeitoso. O senhor deveria se preocupar menos com a "disponibilidade" da mulher dos outros e mais em ensinar o seu filho a não ser um valentão.
O silêncio na sala era absoluto. Lily segurou a mão de Oscar por baixo da mesa, sentindo a firmeza de seus dedos. Ela sabia o quanto custava para ele perder a paciência, mas sabia que, quando se tratava da família, Oscar não conhecia a palavra "calma".
— Acho que deixamos nossa posição clara — disse Lily, retomando a voz, sentindo-se fortalecida pela presença do marido. — Queremos que a escola tome providências sobre o bullying que Lucas sofreu. Caso contrário, não teremos problemas em encontrar uma instituição que valorize a individualidade dos alunos.
A reunião terminou pouco depois, com pedidos de desculpas desajeitados por parte da diretoria e olhares evitados pelos outros pais. Quando Oscar e Lily saíram para o corredor, o ar parecia mais leve.
— Você foi incrível — sussurrou Lily, enquanto caminhavam em direção ao carro.
— Eu odeio esse tipo de gente, Lily — confessou Oscar, soltando um suspiro longo, a tensão finalmente deixando seus ombros. — Eles acham que, porque temos dinheiro ou fama, podem tratar nossos sentimentos como mercadoria. E aquele comentário sobre você... eu quase perdi a cabeça.
— Eu vi — ela sorriu, entrelaçando seus dedos nos dele. — Mas você se saiu bem. O "escudo invisível" do Lucas funcionou hoje.
Eles chegaram em casa e encontraram Lucas na sala com a babá, cercado por papéis e tintas. O menino, ao ver o pai, soltou um grito de alegria que ecoou por todo o apartamento.
— Papai! Você voltou!
Lucas correu e saltou nos braços de Oscar. O piloto o pegou no ar, girando-o antes de apertá-lo contra o peito. A mudança na energia de Oscar foi imediata; a armadura de competidor caiu, dando lugar ao pai carinhoso que Lucas tanto amava.
— Voltei, mate. E adivinha? Eu vi o seu desenho da casa com o escudo. Ele é tão forte que ninguém conseguiu quebrar hoje.
Lucas sorriu, encostando a cabeça no ombro de Oscar.
— De verdade?
— De verdade.
Mais tarde, após o jantar, o cansaço emocional do dia finalmente atingiu o pequeno. Lucas estava mais manhoso que o normal, recusando-se a soltar a mão de Oscar mesmo enquanto tentava assistir a um desenho animado.
— Vamos para o quarto, pequeno? — sugeriu Lily, fazendo carinho nos cabelos dele.
— Só se o papai me levar no colo — pediu Lucas, com os olhos já pesados.
Oscar o ergueu com cuidado. No quarto, após colocarem o pijama, Lucas não quis ir para sua própria cama. Ele se aninhou no peito de Oscar enquanto o pai se sentava na poltrona de amamentação que ainda permanecia no quarto, um símbolo de conforto.
— Papai, por que as pessoas tiram fotos da gente na escola? — perguntou Lucas em um sussurro, quase pegando no sono.
Oscar respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado.
— Porque elas acham que a nossa vida é um filme, Lucas. Mas elas só veem as partes que brilham. Elas não veem esses momentos aqui, que são os mais importantes. Elas não precisam entender, entende? O que importa é que aqui dentro, você é só o meu Lucas.
— E eu posso dormir aqui? — Lucas apertou a camiseta de Oscar.
— Você sempre pode dormir aqui, mate.
Não demorou muito para que a respiração de Lucas se estabilizasse. Ele adormeceu profundamente, com o rosto pressionado contra o peitoral de Oscar, sentindo o calor e a segurança que só aquele abraço proporcionava.
Lily apareceu na porta, observando a cena. Ela se aproximou e sentou-se no chão, ao lado da poltrona, apoiando a cabeça no joelho de Oscar.
— Ele se sente tão seguro com você — ela disse suavemente.
— E ele está — afirmou Oscar, passando a mão livre pelos cabelos de Lily. — Eu não vou deixar que nada apague esse brilho dele, Lily. Não importa quantas corridas eu tenha que vencer ou quantos limites eu tenha que impor à imprensa. Ele vai ter a infância que merece.
— Nós vamos dar isso a ele — concordou ela.
Oscar olhou para o filho dormindo. Lucas era o seu maior troféu, a sua maior responsabilidade. Fora daquelas paredes, o mundo poderia ser barulhento, invasivo e cruel. Mas ali, sob a luz suave do abajur de estrelas, o tempo parava.
Ele sabia que a batalha contra a exposição continuaria. Sabia que haveria mais manchetes e mais pais arrogantes. Mas, enquanto Lucas pudesse adormecer em seus braços, sentindo-se o menino mais amado do mundo, Oscar sabia que estava vencendo a corrida mais importante de sua vida.
— You don't have to worry about any of that, mate. You're safe — sussurrou Oscar mais uma vez, um mantra de proteção que ele cumpriria todos os dias de sua vida.
E ali, no silêncio de Mônaco, a família Piastri permanecia unida, protegida por um escudo feito de amor, paciência e a promessa inabalável de um pai que faria qualquer coisa para manter o mundo de seu filho intacto. No final das contas, Oscar Piastri poderia ser um dos homens mais rápidos do planeta, mas sua maior pressa era sempre voltar para casa, para o lugar onde ele não era um piloto, mas sim o porto seguro de um pequeno menino que adorava pintar o sol de azul.