Sequestrador da noire
O Laço de Couro e o Pacto das Sombras
A consciência é uma linha tênue, um fio de seda que Erick Makevic estava prestes a tecer conforme sua própria vontade. Enquanto o sedativo inundava meus pulmões, o mundo ao redor se transformou em um borrão de sombras e silêncio. Eu não sentia mais o frio cortante da BR-101, nem o tremor de medo que antes me dominava. Eu era apenas peso morto, uma boneca de porcelana cujas cordas haviam sido cortadas, desfalecida nos braços do homem que, minutos antes, eu chamara de herói.
Erick me observou por alguns segundos, a máscara ocultando sua expressão, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma satisfação doentia. Ele apreciou a forma como meu corpo magro e alto se moldava perfeitamente ao seu peito largo. Com uma facilidade assustadora, ele me ergueu do banco do passageiro. Eu não era nada para ele além de um troféu leve e delicado.
Ele me carregou até a motocicleta, a fera de metal que rugia silenciosa sob o luar. Com movimentos calculados, ele me acomodou sobre o tanque e o banco, garantindo que eu não escorregasse enquanto ele realizava a próxima etapa de seu plano.
Erick voltou ao meu carro. Seus olhos varreram o interior do veículo até encontrarem minha pequena bolsa rosa, caída no tapete. Ele a pegou com uma mão enluvada, abrindo-a com uma eficiência mecânica. Seus dedos longos e fortes tatearam o interior até encontrarem o molho de chaves. Ele retirou a chave do carro e, com um gesto quase irônico de despedida, deixou-a sobre o banco do motorista.
— Onde você vai, não precisará mais dirigir, boneca — sussurrou ele, sua voz abafada pela máscara, mas carregada de uma promessa sombria.
Ele guardou minha bolsa dentro de sua mochila de couro preta, fechando o zíper com força. Em seguida, pegou o celular e discou um número rapidamente. Ele não esperou muito para que alguém atendesse.
— Está feito — disse ele, a voz grossa e autoritária não admitindo contestações. — O carro está no quilômetro 142. Traga o reboque e suma com ele. Não quero rastros. Quero que pensem que ela simplesmente evaporou no ar.
Ele desligou sem esperar resposta. Para Erick, ordens eram fatos consumados. Ele guardou o aparelho e voltou sua atenção para mim. Eu continuava imóvel, minha cabeça pendida para o lado, os cabelos castanhos cobrindo parte do meu rosto pálido. Os olhos azuis, que ele tanto admirara, estavam escondidos sob pálpebras pesadas.
Ele subiu na moto, posicionando-me à sua frente, encostada em seu peito maciço. No entanto, ele sabia que a viagem seria longa e que o corpo inerte de uma mulher de 1,78 metros poderia ser difícil de equilibrar em alta velocidade. Erick abriu um compartimento lateral da moto e retirou várias tiras de couro reforçadas, projetadas para carga pesada, mas que agora serviriam a um propósito muito mais sinistro.
Com uma precisão que sugeria que ele já havia planejado aquilo mil vezes em sua mente, ele começou a me amarrar ao seu próprio corpo. Ele passou as tiras em volta da minha cintura e do seu abdômen definido, apertando o nó até que não houvesse espaço para o ar circular entre nós. Depois, garantiu que meus braços estivessem posicionados de forma que não balançassem, prendendo-os levemente sob os dele.
— Agora — murmurou ele, sentindo o calor do meu corpo através da blusa colada — nós somos um só.
Ele deu a partida na moto. O ronco do motor ecoou pela estrada deserta, um som de poder que parecia celebrar sua conquista. Erick acelerou, deixando para trás o carro abandonado e a vida que eu conhecia. O vento começou a chicotear, mas eu não sentia nada. Eu estava fundida ao meu captor, balançando conforme ele inclinava a moto nas curvas, um anexo silencioso de sua vontade.
A viagem durou o que pareceram horas através do nevoeiro da minha inconsciência. Erick dirigia com uma habilidade impecável, seus músculos trabalhando sob a pressão da velocidade, mantendo meu corpo firme contra o dele. Ele ocasionalmente levava uma das mãos para trás, sentindo a minha coxa sob o tecido fino do vestido rosa, apenas para se certificar de que eu ainda estava lá, de que o seu "tesouro" não havia sumido.
Finalmente, ele reduziu a velocidade. O asfalto liso deu lugar a uma estrada de terra batida, cercada por árvores densas que bloqueavam a luz da lua. O cheiro de pinho e terra úmida substituiu o odor de combustível. Paramos diante de um portão de ferro maciço, que se abriu automaticamente com um estalo eletrônico.
Erick estacionou a moto dentro de uma garagem ampla e bem iluminada, que contrastava violentamente com a escuridão lá fora. Ele desligou o motor e o silêncio que se seguiu foi absoluto. Com cuidado, ele desfez os nós das tiras de couro, sentindo o peso do meu corpo cair novamente sobre ele.
Ele me pegou no colo uma última vez, subindo as escadas de uma casa que parecia mais uma fortaleza do que um lar. Ele me levou até um quarto no final de um corredor comprido. O ambiente era luxuoso, mas frio, decorado em tons de cinza e preto, com uma cama imensa no centro.
Ele me deitou sobre os lençóis de seda, removendo meus sapatos com uma delicadeza perturbadora. Erick sentou-se na beira da cama e retirou a máscara, revelando seu rosto de traços fortes e beleza agressiva. Ele passou a mão pelo meu rosto, afastando uma mecha de cabelo da minha testa.
— Você não tem ideia do quanto eu esperei por alguém como você — disse ele, seus olhos castanhos fixos nos meus lábios entreabertos. — Tão alta, tão elegante... e agora, tão silenciosa.
Eu comecei a lutar contra o véu do sedativo. Minha mente tentava emergir das profundezas, mas o corpo ainda não respondia. Senti o colchão afundar quando ele se inclinou sobre mim, seu hálito quente batendo no meu pescoço.
— Onde... onde eu estou? — Minha voz saiu como um sussurro inaudível, uma vibração fraca na garganta.
Erick sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava uma satisfação possessiva.
— Você está em casa, minha querida. — Ele acariciou meu braço magro, descendo até o pulso. — Sua antiga vida acabou no momento em que aquela correia dentada quebrou. Considere isso um novo começo.
— Por que... você fez isso? — Tentei focar meus olhos azuis nos dele, mas a imagem dele ainda dançava diante de mim.
— Porque o mundo é perigoso demais para flores como você — respondeu ele, sua voz tornando-se subitamente grossa e fria. — Eu vi você naquela estrada e soube. Você não pertence a lojas de roupas ou a viagens solitárias. Você pertence a mim. Eu vou te proteger de tudo, inclusive de si mesma.
Tentei mover meus braços, mas eles pesavam toneladas. O pânico começou a borbulhar no meu peito, a percepção da minha total impotência me atingindo como um soco.
— Deixe-me ir... por favor... — As lágrimas começaram a brotar, borrando a maquiagem que eu tinha feito com tanto cuidado.
Erick limpou uma lágrima com o polegar, seu toque era firme, quase áspero.
— Não chore. — O tom dele era de comando, não de consolo. — Você vai aprender a gostar daqui. Eu tenho tudo o que você precisa. E, em troca, eu só preciso de uma coisa.
— O quê? — perguntei, temendo a resposta.
— De sua total e absoluta obediência — disse ele, levantando-se e caminhando até a porta. — Descanse agora. O sedativo ainda vai durar mais algumas horas. Amanhã, começaremos nossa nova rotina.
Ele parou no batente da porta e olhou para trás uma última vez.
— E não tente gritar. Não há ninguém num raio de dez quilômetros que possa te ouvir. Apenas eu.
O som da porta se fechando e o clique da chave girando na fechadura foram os sons finais daquela noite. Eu estava presa. Amarrada não mais por tiras de couro, mas pelas paredes de uma gaiola de ouro e pela vontade inabalável de Erick Makevic. Enquanto a escuridão voltava a me puxar para baixo, a última coisa que processei foi o calor persistente em minha cintura, onde ele havia me apertado contra si na moto, uma marca invisível de que eu agora era sua propriedade.