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Sequestrador da noire

O Labirinto de Seda e Aço

O despertar não foi súbito. Foi uma lenta e dolorosa subida das profundezas de um oceano de chumbo. Minha cabeça latejava com uma pressão rítmica, e o gosto residual de produtos químicos queimava o fundo da minha garganta. Tentei levar a mão à testa para afastar a névoa mental, mas meu braço não se moveu. Um frio repentino percorreu minha espinha, mais intenso do que o vento da BR-101.

Tentei o outro braço. Nada. Tentei mover as pernas, mas elas estavam pesadas, fixas. Meus olhos azuis se abriram com esforço, lutando contra a sensibilidade à luz suave e amarelada que banhava o quarto luxuoso. Quando a visão finalmente focou, o horror se materializou diante de mim de uma forma que minha mente mal conseguia processar.

Eu estava deitada em uma cama imensa, mas não estava livre. Meus braços estavam esticados acima da cabeça, cada pulso preso por algemas de couro acolchoado a um dos pilares da cabeceira. Minhas pernas seguiam o mesmo destino, abertas e presas aos pés da cama. Eu estava imobilizada em um "X" perfeito, vulnerável e exposta sobre os lençóis de seda cinza.

— Finalmente acordou, minha boneca. — A voz de Erick veio de um canto sombrio do quarto.

Eu o vi se aproximar. Ele havia tirado a jaqueta de couro, revelando ainda mais a musculatura impressionante sob a camiseta preta. Seus ombros pareciam ainda mais largos naquele ambiente fechado, e o peito definido subia e descia com uma calma que me aterrorizava. Ele segurava um pequeno pedaço de pano preto nas mãos.

— Erick... por favor... o que é isso? Me solta! — Minha voz saiu embargada, o pânico subindo pela garganta como bile. — Eu tenho uma vida, eu tenho trabalho, minha família vai me procurar!

Erick parou ao lado da cama, observando-me com uma intensidade quase clínica. Ele ignorou meus apelos, seus olhos castanhos percorrendo cada centímetro do meu corpo, desde o meu rosto maquiado — agora borrado pelas lágrimas — até a bainha do meu vestido rosa, que subira um pouco devido à posição em que eu fora presa.

— Ninguém vai te procurar, Aurora — disse ele, pronunciando meu nome com uma reverência possessiva que me fez estremecer. — O seu carro foi levado. Para o mundo, você é apenas mais uma estatística de desaparecimento em estradas perigosas. Mas para mim... para mim, você é o centro do universo agora.

— Você é louco! — gritei, puxando as amarras com toda a força que meu corpo magro permitia. O couro rangeu, mas não cedeu um milímetro. — Me deixa ir embora!

Erick soltou um suspiro curto, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Ele se inclinou sobre mim, seu tamanho eclipsando a luz. O cheiro de seu perfume amadeirado me atingiu, uma fragrância que eu antes achara atraente e que agora cheirava a perigo.

— Eu disse que você precisava de obediência. Gritos não combinam com você.

Antes que eu pudesse formular outro protesto, ele agiu. Com uma rapidez que denunciava treinamento, ele passou o pano preto pela minha boca. Tentei morder, tentei desviar o rosto, mas ele segurou meu queixo com uma mão de ferro, forçando a mordaça entre meus dentes e prendendo-a firmemente atrás da minha cabeça.

— Hummm! Hummm! — O som morreu na minha garganta, transformado em gemidos abafados de puro terror.

— Assim está melhor — murmurou ele, passando o polegar pela minha bochecha úmida. — Agora você vai apenas me ouvir. E vai sentir o quanto eu te quero.

Ele sentou-se na beira do colchão, o peso de seu corpo fazendo com que o meu rolasse levemente em sua direção. Erick estendeu a mão e começou a acariciar minha cintura. Seus dedos eram quentes e firmes, traçando o contorno do meu corpo através do tecido fino do vestido. Ele parecia maravilhado com a minha silhueta, movendo a mão lentamente para cima, sentindo a curvatura das minhas costelas e a firmeza do meu abdômen.

— Você é perfeita — disse ele, a voz descendo para um tom rouco e perigoso. — Eu observei você na loja, sabia? Há semanas. Vi como você se move, como sorri para os clientes... Eu sabia que você não pertencia àquele lugar comum. Você é uma obra de arte, e obras de arte devem ser guardadas em galerias privadas.

Meus olhos se arregalaram. Ele vinha me seguindo? A sensação de ter sido caçada por tanto tempo sem saber fez meu estômago revirar. Eu era sua obsessão muito antes daquele carro quebrar na estrada.

Erick inclinou-se mais, seus olhos fixos nos meus. A distância entre nós desapareceu. Ele selou seus lábios nos meus, um beijo que começou possessivo e dominante. Mesmo com a mordaça entre nós, senti a força de seu desejo, a maneira como ele reclamava meu território. Ele beijou o pano, depois os cantos da minha boca, descendo para o meu pescoço, onde deixou um beijo demorado sobre a minha pulsação acelerada.

— Você está com o coração disparado — sussurrou ele contra minha pele, sua respiração quente me causando arrepios de pavor e, contra minha vontade, uma descarga elétrica de adrenalina. — É o medo ou é a percepção de que, finalmente, você tem alguém forte o suficiente para te segurar?

Eu balancei a cabeça freneticamente, as lágrimas escorrendo pelos meus templos e molhando o travesseiro de seda. Eu queria gritar que o odiava, que queria minha vida de volta, mas estava reduzida a uma presença silenciosa em sua cama.

Erick se afastou um pouco, mas sua mão continuou na minha cintura, apertando a carne ali com uma pressão que beirava a dor, mas que carregava uma promessa de proteção distorcida. Ele me olhou nos olhos, e por um segundo, vi uma faísca de algo que não era apenas loucura, mas uma solidão profunda e sombria.

— Eu vou cuidar de você, Aurora. Vou te dar as melhores roupas, a melhor comida, tudo o que você desejar... desde que você entenda que os seus pés nunca mais tocarão o chão lá fora. O mundo lá fora é cruel, cheio de homens que não saberiam apreciar sua beleza. Eu sei.

Ele se levantou, mas não para me soltar. Ele caminhou até o pé da cama e pegou um edredom pesado, de um tecido macio e caro. Com movimentos lentos, ele me cobriu, escondendo meu corpo amarrado sob as dobras quentes do cobertor. Ele ajeitou as bordas com cuidado, como se estivesse colocando uma criança para dormir, embora as algemas de couro ainda estivessem bem visíveis acima da coxa e nos meus pulsos.

— Está frio esta noite — disse ele, sua voz voltando ao tom calmo que usara na estrada. — Não quero que minha boneca de porcelana fique resfriada.

Ele voltou para o lado da cabeceira e inclinou-se uma última vez, depositando um beijo casto na minha testa.

— Tente descansar. O sedativo ainda pode te dar algumas alucinações, mas eu estarei logo ali na sala. Eu posso ouvir cada movimento seu, cada respiração. Não tente nada estúpido, Aurora. As travas desta casa só respondem à minha digital.

Ele caminhou até o interruptor. Antes de apagar a luz, ele me lançou um olhar final — um olhar de proprietário satisfeito com sua aquisição mais valiosa.

— Boa noite, meu amor.

A luz se apagou, mergulhando o quarto em uma penumbra azulada filtrada pelas cortinas pesadas. Ouvi o som da porta se fechando e o clique eletrônico da tranca.

Eu estava sozinha na escuridão, amarrada em "X", com a boca amordaçada e o corpo ainda vibrando com o toque de Erick Makevic. O silêncio daquela fortaleza era absoluto, interrompido apenas pelo som da minha própria respiração abafada. Eu era uma prisioneira em um palácio de seda, e o homem que me "salvara" na estrada era agora o dono do meu destino. Fechei os olhos, deixando o desespero me levar, enquanto a imagem de Erick, alto e forte sob a luz da lua, gravava-se em minha mente como o início de um pesadelo do qual eu talvez nunca mais acordasse.