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sequestro

Estilhaços de Vidro e Seda

A escuridão do quarto era um peso físico, mas os sentidos de S/N estavam mais aguçados do que nunca. O metal fino do grampo de cabelo, que ela conseguira esconder com uma habilidade que nem sabia possuir, era agora sua única conexão com o mundo real. Seus dedos trabalhavam às cegas, sentindo a textura da corda de seda e a pequena trava metálica que Jungkook, em seu excesso de confiança ou talvez em um desejo subconsciente de não machucar sua "joia", havia usado para prender as extremidades.

— Vamos lá, por favor... — sussurrou ela, os dentes cravados no lábio inferior para não gritar de frustração.

O suor fazia o grampo escorregar, mas a resistência de S/N era alimentada por um ódio frio. Ela não era uma das vítimas silenciosas das manchetes. Ela era a mulher que servia o café dele, que via a humanidade fingida em seus olhos e que agora via a monstruosidade real. O clique foi quase inaudível, mas para ela soou como uma explosão de liberdade. A pressão em seu pulso direito cedeu.

Com a mão livre, ela desatou rapidamente o nó do pulso esquerdo. A sensação do sangue voltando a circular era dolorosa, um formigamento que subia pelos braços, mas ela não se deu ao luxo de descansar. Ela se sentou na beira da cama, massageando os pulsos marcados pelo vermelho da seda. O quarto estava em silêncio absoluto, mas ela sabia que Jungkook estava em algum lugar daquela casa imensa, talvez vigiando-a através de câmeras, talvez apenas saboreando o poder de saber que ela estava trancada.

S/N levantou-se, as pernas vacilando por um momento. Ela caminhou até a janela, mas as pesadas cortinas de veludo escondiam não apenas a vista, mas grades de ferro reforçadas por dentro. Ele tinha pensado em tudo. Ou quase tudo.

Ela se aproximou da bandeja de comida que Jungkook havia deixado. A carne malpassada estava fria, o sangue coagulado no prato de porcelana fina. Ao lado, um copo de cristal com água. S/N pegou o copo, sentindo o peso. Ela não estava com sede; ela estava com fome de justiça. Com um movimento rápido e silencioso, ela envolveu o copo em uma das fronhas de seda da cama e o bateu contra o pé de metal da mesa de cabeceira. O som foi abafado pelo tecido, mas o cristal se partiu em pedaços pontiagudos e letais.

Ela escolheu o maior estilhaço, escondendo-o na palma da mão, sentindo a ponta fria cutucar sua pele. Se ele voltasse, ela estaria pronta.

Não demorou muito. O som da tranca girando ecoou pelo corredor. S/N voltou rapidamente para a cama, cobrindo-se com o lençol e posicionando as mãos debaixo do travesseiro, fingindo que ainda estava presa. Ela fechou os olhos, controlando a respiração para que parecesse pesada e rítmica.

A porta se abriu. A luz do corredor inundou o quarto, e os passos de Jungkook eram, como sempre, predatórios e elegantes. Ele não acendeu a luz principal, preferindo o abajur de luz quente sobre a cômoda.

— Eu sei que você não está dormindo, S/N — disse ele, a voz suave, quase carinhosa, o que a fez sentir um nó de náusea no estômago. — O seu batimento cardíaco é rápido demais para alguém que está em paz.

Ele se aproximou e sentou-se na beira da cama. S/N sentiu o colchão afundar sob o peso dele. Jungkook estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.

— Sabe, eu passei horas planejando como seria este momento — ele continuou, ignorando o silêncio dela. — Eu imaginei que você ficaria assustada, sim, mas achei que veria a lógica por trás disso. Eu salvei você de uma vida de insignificância. Aqui, você é o centro do meu universo. Não é isso que todas as mulheres querem? Ser o mundo de alguém?

S/N abriu os olhos lentamente, encarando o rosto perfeitamente esculpido dele. Sob a luz fraca, ele parecia um anjo caído, mas ela só conseguia ver as garras invisíveis em seu pescoço.

— O que as mulheres querem, Jungkook, é não serem caçadas por homens que não sabem a diferença entre amor e posse — respondeu ela, a voz rouca.

Jungkook soltou uma risada curta, sem humor.

— Posse é a forma mais pura de amor. Se eu não possuo você, qualquer um pode tirar você de mim. E eu não divido o que me pertence.

Ele desceu o olhar para os pulsos dela, que estavam cobertos pelo lençol.

— Deixe-me ver seus pulsos. Quero ver se a seda machucou sua pele. Eu não queria que ficassem marcas, mas você é tão... rebelde.

— Por que você se importa com marcas na pele, se já destruiu tudo o que havia por dentro? — perguntou ela, apertando o estilhaço de vidro sob o travesseiro.

— Não seja dramática — disse ele, o tom tornando-se subitamente frio, a máscara de amante caindo para revelar o carrasco. — Mostre-me as mãos. Agora.

S/N não se moveu. Jungkook suspirou, um som de impaciência que vibrou no ar. Ele avançou para puxar o lençol, e foi nesse milésimo de segundo que ela agiu.

Ela saltou da cama com uma agilidade nascida do puro desespero, brandindo o estilhaço de cristal. A ponta rasgou o ar, visando o pescoço dele, mas Jungkook tinha reflexos de alguém que vivia na violência. Ele inclinou o corpo para trás, e o vidro apenas cortou superficialmente sua bochecha, abrindo um rastro vermelho que contrastava com sua pele pálida.

Jungkook tropeçou para trás, a mão subindo instantaneamente ao rosto. Ele olhou para os dedos sujos de sangue, e por um momento, o tempo parou. O silêncio no quarto era tão denso que S/N podia ouvir o próprio sangue latejando nos ouvidos.

— Você me cortou — disse ele, a voz em um sussurro perigoso. Não havia dor em seu tom, apenas uma surpresa sombria que rapidamente se transformou em algo muito mais aterrorizante: excitação.

— Eu vou fazer muito mais do que isso se você não me deixar sair — ameaçou S/N, segurando o vidro com as duas mãos, as pontas dos dedos começando a sangrar pelo aperto excessivo no cristal quebrado.

Jungkook deu um passo à frente, ignorando a arma improvisada. Seus olhos brilhavam com uma luz insana.

— Eu subestimei você — admitiu ele, lambendo o sangue dos dedos. — Você não é apenas uma flor no balcão de uma cafeteria. Você tem espinhos. E eu adoro o gosto do sangue.

— Fique longe! — gritou ela, recuando até a parede.

— Ou o quê? — Ele riu, uma risada gélida que ecoou pelas paredes luxuosas. — Você vai me matar? Vá em frente, S/N. Se você me matar, você nunca sairá daqui. Ninguém sabe onde esta casa fica. Você morreria de fome ao lado do meu cadáver. É isso que você quer? Um pacto de morte comigo?

S/N hesitou. A lógica dele era uma armadilha, mas era verdade. Ela não conhecia aquele lugar. Estava em algum ponto remoto, cercada por florestas ou muros altos.

— Eu prefiro morrer de fome do que viver como seu brinquedo — cuspiu ela.

Em um movimento rápido demais para que ela pudesse reagir, Jungkook avançou. Ele não tentou desarmá-la com sutileza. Ele agarrou o pulso dela com a força de uma morsa, apertando até que os dedos dela perdessem a sensibilidade e o cristal caísse no tapete com um baque surdo.

Ele a prensou contra a parede, o corpo dele esmagando o dela. O cheiro de sândalo agora estava misturado com o cheiro metálico de sangue fresco.

— Você foi muito malvada, S/N — sussurrou ele contra o ouvido dela, a respiração quente causando arrepios de puro pavor. — Eu tentei ser gentil. Eu trouxe café, trouxe flores, trouxe conforto. E você me retribui com violência?

— Você me sequestrou! — gritou ela, tentando se livrar do aperto dele, chutando suas canelas, mas ele era como uma rocha.

— Eu tirei você do perigo! — ele rugiu de volta, a mão subindo para apertar o pescoço dela, não o suficiente para sufocar, mas o suficiente para paralisá-la. — Você não entende? Aqueles homens que olhavam para você na cafeteria... eu via como eles te despiam com os olhos. Eu via o desejo imundo deles. Eu te protegi deles! Eu os apaguei para que nenhum outro homem pudesse sequer pensar em você!

O horror tomou conta de S/N. Ele não estava apenas falando de uma obsessão; ele estava admitindo assassinatos cometidos em seu nome, transformando-a em cúmplice involuntária de sua carnificina.

— Você é louco... — soluçou ela, a coragem começando a falhar sob o peso daquela revelação. — Você matou pessoas por minha causa?

— Eu matei por nós — corrigiu ele, sua expressão suavizando-se em uma ternura doentia. — E agora, por causa da sua teimosia, eu terei que ser o que você tanto teme. Eu não queria usar este quarto, mas você não me deixa escolha.

Ele a soltou abruptamente, mas antes que ela pudesse correr, ele a agarrou pela cintura e a jogou por cima do ombro como se ela não pesasse nada. S/N gritou, batendo nas costas dele, mas Jungkook caminhou firmemente em direção a uma porta espelhada no canto do quarto que ela pensara ser apenas um armário.

Ao abrir, não havia roupas. Era uma escada em espiral que descia para as entranhas da casa.

— Me solta! Jungkook, por favor! — implorou ela, a voz falhando.

— O tempo de pedir "por favor" acabou quando você usou aquele vidro contra mim — disse ele, a voz agora monótona e fria. — Você precisa de disciplina. Precisa entender que a sua liberdade é um privilégio que eu concedo, não um direito que você possui.

Eles desceram para um porão que era o oposto do quarto luxuoso de cima. As paredes eram de concreto nu, o ar era úmido e o único som era o gotejar de algum cano distante. Havia uma cadeira de metal no centro, com tiras de couro pesado.

Jungkook a colocou no chão, mas manteve um aperto firme em seu braço. Ele a forçou a se sentar na cadeira.

— Não... por favor, Jungkook, não faça isso — chorou ela, a bravura finalmente dando lugar ao desespero puro.

Ele se ajoelhou à frente dela, limpando as lágrimas do rosto dela com o polegar. O corte em sua bochecha ainda sangrava, uma linha vermelha que o tornava ainda mais assustador.

— Não chore, meu amor. Isso dói em mim mais do que em você. Mas você é como uma criança que tenta brincar com fogo. Eu preciso queimar suas mãos um pouco para que você aprenda a não se queimar no futuro.

Ele começou a prender as tiras de couro em seus tornozelos e pulsos. Desta vez, não havia seda. O couro era áspero e apertado.

— Você vai ficar aqui esta noite — anunciou ele, levantando-se e limpando o pó de suas calças impecáveis. — Sem luz. Sem distrações. Apenas você e o silêncio. Talvez assim, quando eu voltar pela manhã, você se lembre de quem eu sou e de como deve me tratar.

— Eu nunca vou te amar, Jungkook — disse ela, a voz trêmula, mas ainda carregada de veneno. — Você pode me quebrar, mas os pedaços nunca serão seus.

Jungkook parou na porta, a mão no interruptor. Ele olhou para ela uma última vez, e por um segundo, S/N viu um vislumbre de uma tristeza profunda e abissal naqueles olhos escuros.

— Veremos, S/N. O tempo é o meu melhor aliado. E nós temos toda a eternidade.

A luz se apagou. O som da porta pesada de metal se fechando ecoou como o veredito de uma sentença de morte.

No escuro absoluto, S/N ficou sozinha com seus pensamentos. O frio do metal da cadeira subia por sua espinha, e o silêncio era tão opressor que ela podia ouvir o próprio coração batendo. Mas, mesmo ali, no fundo do abismo, uma pequena chama de ódio ainda ardia. Ela não ia quebrar. Ela ia esperar. Porque até o caçador mais experiente acaba baixando a guarda quando acredita que sua presa desistiu de lutar.

Jungkook achava que tinha vencido aquela rodada, mas ele não percebera que, ao levá-la para o porão, ele a levara para o lugar onde os monstros realmente se sentem em casa. E S/N estava descobrindo que, para sobreviver a um monstro, ela teria que se tornar algo muito pior do que ele jamais imaginou.

Lá em cima, Jungkook sentou-se na poltrona da biblioteca, um copo de uísque na mão e o rosto ainda manchado pelo sangue dela. Ele tocou a ferida na bochecha e sorriu. Pela primeira vez em anos, ele se sentia vivo. O desafio nos olhos de S/N era o café mais forte que ele já provara, e ele estava ansioso para beber cada gota daquela resistência, até que não sobrasse nada além de uma submissão doce e absoluta.

A guerra estava longe de terminar, e o aroma de café da Lumière era agora apenas uma memória distante, afogada pelo cheiro de ferro, suor e uma obsessão que não conhecia limites.