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sequestro

O Veneno na Taça de Cristal

A manhã seguinte nasceu cinzenta, com uma névoa espessa que abraçava a mansão como um sudário. No quarto luxuoso, S/N observava a paisagem melancólica através das grades reforçadas. Seu corpo ainda guardava as marcas da noite anterior; a pele dos ombros estava sensível, e havia um peso novo em seu peito, uma mistura de autodesprezo e uma clareza cortante. Ela havia cruzado uma linha. Ao ceder ao desejo sombrio de Jungkook, ela não apenas sobreviveu; ela entendeu a linguagem dele. E agora, pretendia usá-la.

O som da tranca girando não a fez pular. Ela permaneceu sentada na poltrona de veludo, as pernas cruzadas, observando a porta se abrir. Jungkook entrou trazendo uma bandeja de prata. Ele parecia revigorado, quase radiante, se é que tal palavra poderia ser aplicada a um homem cujo olhar carregava o vazio de mil túmulos.

— Bom dia, S/N — disse ele, colocando a bandeja sobre a mesa de cabeceira. O aroma de café fresco inundou o quarto, um eco cruel da cafeteria Lumière. — Dormiu bem?

— Como uma prisioneira que finalmente aceitou sua cela — respondeu ela, a voz desprovida de emoção.

Jungkook parou, observando-a com curiosidade. Ele serviu uma xícara de café e a entregou a ela. Seus dedos se roçaram, e S/N não recuou. Ela sustentou o olhar dele, os olhos escuros dele buscando qualquer sinal de quebra, mas encontrando apenas um espelho frio.

— Essa aceitação me agrada — ele admitiu, sentando-se na beira da cama, próximo a ela. — Significa que podemos passar para a próxima fase. Não quero que você fique trancada neste quarto para sempre, S/N. Quero que você ande pela casa. Quero que você jante comigo sem correntes.

— E o que eu ganho em troca dessa "liberdade" vigiada? — perguntou ela, soprando a fumaça do café.

— A minha confiança — ele respondeu, a voz baixando para um tom quase íntimo. — E, talvez, a chance de ver que a vida comigo não é apenas feita de sombras. Eu tenho recursos, S/N. Posso te dar o mundo, desde que o seu mundo seja eu.

S/N deu um pequeno gole no café. Estava perfeito. Amargo, forte, exatamente como ele gostava.

— Confiança é uma palavra perigosa para um homem como você, Jungkook. Você confia em si mesmo quando a sede de sangue aperta?

Jungkook sorriu, um gesto lento que revelou seus dentes brancos.

— Eu confio nos meus instintos. E meus instintos dizem que você é a única pessoa que pode me olhar nos olhos sem desviar. Isso é mais do que qualquer outra vítima jamais fez.

— Vítima — ela repetiu, saboreando a palavra como se fosse veneno. — É assim que você me vê.

— Não mais — disse ele, levantando-se e estendendo a mão para ela. — Agora, eu te vejo como minha companheira. Vamos. Quero te mostrar o resto da casa.

S/N hesitou por um segundo, olhando para a mão estendida. Ela sabia que, ao aceitá-la, estava entrando mais fundo no labirinto. Mas para encontrar a saída, ela precisava chegar ao centro. Ela colocou a mão na dele, sentindo o calor firme de sua palma.

A mansão era uma obra-prima de arquitetura gótica e moderna. Corredores largos com quadros caros, uma biblioteca que faria qualquer acadêmico chorar de inveja e janelas que davam para um jardim vasto, cercado por muros de pedra de cinco metros de altura. Era uma gaiola dourada, mas ainda assim, uma gaiola.

Enquanto caminhavam, Jungkook falava sobre sua coleção de arte, sobre a história da casa e, ocasionalmente, deixava escapar detalhes sobre sua "profissão". Ele falava de matar como um cirurgião fala de uma operação; sem remorso, apenas com uma apreciação técnica pela eficiência.

— A maioria das pessoas morre com medo — explicou ele, enquanto paravam diante de uma pintura abstrata em tons de carmesim. — O medo é barulhento. Ele polui o momento. Mas o silêncio... o silêncio de quando a vida se apaga é a coisa mais pura que existe.

— Você é um viciado, Jungkook — disse S/N, parando ao lado dele. — Viciado no poder de decidir quem vive e quem morre. Mas você já parou para pensar que, ao fazer isso, você se torna o escravo da sua própria escuridão?

Ele se virou para ela, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa.

— Talvez. Mas é uma escravidão que eu controlo. E agora, eu tenho você para compartilhar o fardo.

— Você acha que eu vou me tornar como você? — Ela riu, uma risada seca. — Você está enganado. Eu não sinto prazer na morte. Eu sinto prazer na sobrevivência.

— É a mesma coisa, S/N. Para sobreviver, algo sempre precisa morrer. Às vezes é uma pessoa, às vezes é apenas a inocência.

Eles chegaram à cozinha, um espaço amplo de aço inoxidável e granito negro. Jungkook começou a preparar o almoço, movendo-se com uma precisão letal com as facas. S/N o observava, encostada no balcão, fingindo desinteresse enquanto seus olhos mapeavam cada saída, cada gaveta, cada possível arma.

— Sabe — disse ela, sua voz soando casual —, você mencionou que aquele homem, Minho, sabia sobre mim. Quantas pessoas mais sabem que eu estou aqui?

Jungkook parou de picar os legumes por um instante.

— Ninguém que importe. Minho é um facilitador. Ele cuida da logística para que eu não seja incomodado. Ele sabe que, se abrir a boca, a língua dele será a primeira coisa que eu vou colecionar.

— Você é muito confiante na lealdade baseada no medo.

— O medo é o contrato mais honesto que existe — ele deu de ombros, voltando ao trabalho. — O amor é volúvel. O medo é constante.

— Mas o medo também gera traição — rebateu ela. — Alguém que tem medo de você sempre estará procurando uma maneira de não ter mais medo. E a maneira mais fácil é eliminando a fonte.

Jungkook largou a faca e caminhou até ela, cercando-a contra o balcão. Ele colocou as mãos de cada lado do corpo dela, inclinando-se até que suas testas se tocassem.

— E você, S/N? — sussurrou ele. — Você está procurando uma maneira de eliminar a fonte do seu medo?

— Eu não tenho medo de você, Jungkook — mentiu ela, sustentando o olhar. — Eu tenho ódio. E o ódio é muito mais paciente do que o medo.

Ele soltou uma risada baixa, seu hálito quente contra o rosto dela.

— Eu adoro quando você me desafia. Isso faz com que cada momento que passamos juntos seja uma conquista.

O almoço foi servido em um silêncio tenso. S/N comeu, sabendo que precisava de forças. Ela observava Jungkook, notando como ele baixava a guarda sutilmente quando estava perto dela. Ele queria tanto que ela o aceitasse que estava começando a ignorar os próprios protocolos de segurança.

À tarde, ele a levou para o jardim. O ar frio era revigorante. Enquanto caminhavam entre as rosas de inverno, S/N viu algo que a fez parar. Perto do muro dos fundos, havia uma pequena porta de ferro, quase escondida pela hera.

— Aquilo leva para onde? — perguntou ela, tentando não parecer interessada demais.

— Para a floresta — respondeu Jungkook, sem olhar. — Mas está trancada por dentro e por fora. E há sensores de movimento em todo o perímetro. Nem tente, S/N. Seria uma decepção ter que te caçar na neve. Eu não gostaria de te machucar mais do que o necessário.

— Você fala como se estivesse me fazendo um favor.

— De certa forma, estou. Eu te dei uma vida onde você não precisa mais se preocupar com contas, com clientes rudes ou com a solidão.

— Eu preferia a solidão ao seu "companheirismo" forçado.

Jungkook parou e a puxou para um abraço repentino. Ele a apertou contra o peito, o queixo descansando no topo da cabeça dela.

— Você vai aprender a me amar — murmurou ele. — Eu vou te dar tudo o que você nunca soube que queria.

S/N fechou os olhos, sentindo as batidas do coração dele. Era um ritmo constante, calmo. O coração de um homem que não sentia culpa. Ela percebeu, naquele momento, que não poderia fugir apenas correndo. Ela precisava quebrá-lo.

À noite, o clima mudou. Jungkook parecia mais inquieto, seus olhos constantemente voltando-se para o relógio na parede. Ele recebeu uma ligação e se afastou para o escritório, trancando a porta atrás de si. S/N aproveitou a oportunidade.

Ela subiu para o quarto, mas em vez de se deitar, começou a procurar por algo que pudesse usar. No closet, entre os ternos caros e camisas de seda, ela encontrou um pequeno cofre embutido na parede. Estava trancado, mas ela não precisava do que estava dentro. Ela precisava do que estava em cima: um abridor de cartas de prata, pesado e afiado.

Ela o escondeu sob o colchão e voltou para a sala, sentando-se no sofá com um livro, fingindo ser a prisioneira obediente. Quando Jungkook saiu do escritório, ele parecia tenso, uma veia saltando em seu pescoço.

— Algum problema no "trabalho"? — perguntou ela, sem levantar os olhos do livro.

— Apenas negócios inacabados — respondeu ele, servindo-se de uma dose generosa de uísque. — Minho cometeu um erro. Ele achou que poderia vender informações sobre o meu paradeiro para um grupo rival.

— E o que você vai fazer?

Jungkook olhou para ela, e o brilho assassino em seus olhos era mais brilhante do que nunca.

— O que eu sempre faço. Vou limpar a bagunça. Mas terei que sair por algumas horas.

O coração de S/N saltou. Era a chance que ela esperava.

— Você vai me deixar aqui sozinha? — perguntou ela, forçando uma nota de ansiedade na voz.

Jungkook caminhou até ela e ajoelhou-se entre suas pernas, pegando suas mãos.

— Eu vou trancar a casa inteira. O sistema de segurança estará no nível máximo. Ninguém entra, ninguém sai. Você estará segura aqui, S/N. Mais segura do que em qualquer outro lugar.

— E se eles vierem atrás de você aqui?

— Eles não sabem onde é este lugar. Minho não teve tempo de dar as coordenadas exatas. Eu vou garantir que ele nunca tenha.

Ele se levantou, deu um beijo rápido e possessivo nos lábios dela e caminhou até a porta.

— Não tente nada, S/N. Eu vou saber.

Ele saiu, e o som dos motores do carro ecoou pelo pátio antes de desaparecer na distância. S/N esperou dez minutos. Então, ela se levantou.

Ela não foi para a porta da frente. Ela sabia que os sensores de Jungkook eram reais. Em vez disso, ela foi para a cozinha. Ela lembrou-se de ter visto Jungkook digitar o código no painel de controle da casa antes de sair. Ela não viu os números, mas viu o padrão de movimento dos dedos dele.

Ela tentou a primeira vez. Errado. O painel apitou suavemente. Na segunda tentativa, ela respirou fundo, fechando os olhos e visualizando a mão dele. *Cima, direita, baixo, centro.*

O painel deu um clique verde. O sistema de segurança foi desativado por trinta segundos para manutenção manual — um recurso que Jungkook usava para testar os sensores. Era a sua única janela.

Ela correu para o andar de cima, pegou o abridor de cartas e voltou para a sala de jantar. Ela não ia fugir pela floresta; ela seria capturada em minutos. Ela precisava de algo mais.

Ela foi até o escritório de Jungkook. A porta estava trancada, mas ela usou o abridor de cartas para forçar a fechadura antiga de madeira, a força da adrenalina dando-lhe uma potência que ela desconhecia. A porta cedeu com um estalo seco.

Lá dentro, o cheiro de couro e tabaco era forte. Ela começou a revirar as gavetas. Documentos, passaportes falsos, fotos... e então, ela encontrou. Um telefone via satélite e uma chave com um chaveiro de prata em forma de lobo.

Ela pegou o telefone e discou o único número que lembrava de cor: o da delegacia onde seu irmão trabalhava.

— Alô? — a voz do outro lado soou distante.

— Taehyung? Sou eu, S/N! — sussurrou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Não pergunte nada, apenas rastreie este sinal. Eu estou em uma mansão nas montanhas de Bukhan. Ele vai voltar logo. Por favor...

— S/N? Meu Deus! Onde você...

A ligação caiu. A bateria do telefone via satélite estava morta.

— Droga! — exclamou ela, guardando o telefone no bolso.

Ela ouviu o som de um carro se aproximando. Jungkook voltara mais cedo do que o esperado. O pânico tentou paralisá-la, mas ela o sufocou. Ela saiu do escritório, fechando a porta o melhor que pôde, e correu para a cozinha. Ela pegou uma garrafa de vinho que estava aberta e derramou um pouco no chão, sentando-se à mesa com uma taça na mão no exato momento em que a porta da frente se abriu.

Jungkook entrou, suas roupas manchadas de algo escuro que não era vinho. Ele parecia exausto, mas seus olhos se fixaram nela imediatamente.

— O que você está fazendo acordada? — perguntou ele, aproximando-se.

— Eu não conseguia dormir — disse ela, a voz trêmula, o que ele interpretou como medo por ele. — Eu bebi um pouco. Para acalmar os nervos.

Jungkook olhou para a garrafa, depois para ela. Ele parecia desconfiado, mas o desejo de acreditar que ela estava se tornando dependente dele falou mais alto.

— Minho não vai mais nos incomodar — disse ele, sentando-se à frente dela. — Agora, somos só nós dois. Para sempre.

S/N olhou para ele, o abridor de cartas escondido na dobra do seu vestido. Ela sabia que a polícia estava a caminho, mas eles demorariam. Ela teria que sobreviver a Jungkook por mais uma hora.

— Sim — disse ela, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Para sempre.

Ela estendeu a taça para ele, um brinde silencioso. Jungkook a pegou e bebeu, sem saber que o verdadeiro veneno não estava no vinho, mas na mulher que ele acreditava ter domado. A guerra na mansão de sombras estava chegando ao seu clímax, e S/N estava pronta para ser a última pessoa de pé, mesmo que tivesse que queimar o mundo de Jungkook para conseguir.