Sequestro
O Labirinto da Traição
O asfalto parecia queimar sob os pneus do esportivo de Giovanna. Ela dirigia com uma fúria fria, as mãos apertando o volante com tamanha força que os nós dos dedos estavam brancos. O painel indicava uma velocidade que desafiava as leis da física e do bom senso, mas para ela, o mundo ao redor era apenas um borrão. Sua mente era um turbilhão de cálculos e instintos. Lorena mentira. Giovanna sabia disso no momento em que a governanta mencionara que Maya saíra por "vontade própria". Maya não era apenas sua esposa; ela era sua sócia, sua bússola moral, a mulher que, horas antes, prometera mudar o destino da empresa ao seu lado. Ela jamais partiria com um homem como Caio.
— Se você encostou nela, Lorena... — rosnou Giovanna para o vazio do habitáculo —, eu vou garantir que você deseje nunca ter nascido.
Ela ligou para o chefe de segurança particular, um homem que respondia apenas a ela e que operava fora dos registros oficiais.
— Rastreie o celular da Maya. Agora. E quero as imagens das câmeras de segurança da rua de trás da mansão nos últimos sessenta minutos. Se houver um carro preto, quero a placa, o modelo e a rota. Vocês têm cinco minutos.
Enquanto isso, no galpão sufocante, a situação atingia um ponto crítico. Caio caminhava de um lado para o outro, a arma na cintura batendo contra a coxa, um sinal claro de seu nervosismo crescente. Ele olhava para Maya com uma mistura de posse e ressentimento.
— Você não entende, não é? — disse Caio, parando diante dela. — Eu era o melhor homem que aquela empresa tinha. Eu protegi a Giovanna de ameaças que ela nem sabia que existiam. E como ela me agradeceu? Me chutando como se eu fosse um vira-lata sarnento porque eu "questionei" as ordens dela.
— Você não questionou ordens, Caio — rebateu Maya, a voz firme apesar do suor que escorria por sua testa. — Você foi negligente. Você colocou vidas em risco por puro ego. A Giovanna viu quem você era de verdade. E agora, você está provando que ela estava certa.
Caio deu um passo à frente, a mão levantada como se fosse desferir um golpe, mas o som de estilhaços vindo do outro lado do galpão o fez congelar.
— O que foi isso? — gritou ele para os dois capangas. — Vão lá ver! Agora!
Os homens hesitaram, mas a autoridade maníaca na voz de Caio os impulsionou. Eles sacaram as armas e correram em direção ao fundo do galpão, onde sombras pareciam se mover entre as máquinas velhas e enferrujadas.
Do lado de fora, Malu e Sarah agiam com a precisão de quem não tinha nada a perder. Malu sabia que a distração fora apenas o começo. Ela sinalizou para Sarah entrar pela abertura lateral enquanto ela mesma contornava por trás de uma pilha de caixotes de madeira.
— Sarah, agora! — sussurrou Malu.
Sarah deslizou para dentro do galpão, o pedaço de ferro em mãos. Ela viu Maya presa à cadeira e sentiu um aperto no peito. Ao se aproximar, os olhos de Maya se arregalaram em reconhecimento e choque.
— Malu? Sarah? — sussurrou Maya, mal acreditando no que via.
— Shh... — Sarah colocou o dedo nos lábios. — Viemos tirar você daqui.
Sarah começou a trabalhar nas cordas, mas o nó estava apertado demais. A faca que Malu lhe dera estava no outro bolso. Enquanto isso, Malu, escondida nas sombras, observava os dois capangas se aproximarem de sua posição. Ela segurava um extintor de incêndio pesado que encontrara na parede.
Quando o primeiro homem passou por ela, Malu não hesitou. Ela descarregou o extintor no rosto dele, criando uma nuvem branca e ofuscante, e logo em seguida usou a base de metal para golpeá-lo na têmpora. O homem caiu como um saco de batatas. O segundo capanga, atordoado pela fumaça química, começou a disparar aleatoriamente.
— Droga! — gritou Caio do centro do galpão. — O que está acontecendo aí?
Ele se virou para Maya, mas Sarah já havia conseguido cortar a primeira corda. Caio viu o movimento e rosnou, sacando sua arma.
— Paradas! As duas!
Sarah se colocou à frente de Maya, protegendo-a com o próprio corpo, segurando o pedaço de ferro como se fosse uma espada.
— Acabou, Caio! — gritou Sarah. — A polícia está a caminho!
— Mentira! — Caio deu um passo à frente, o dedo no gatilho. — Eu vou acabar com isso agora. Se eu não posso ter a Maya e a redenção, ninguém vai ter nada.
O som de um motor roncando alto do lado de fora interrompeu a cena. Um carro subiu a calçada do galpão, arrebentando o portão de ferro principal com um estrondo ensurdecedor. O impacto lançou poeira e detritos para todos os lados. Do meio da névoa de poeira, Giovanna Torres Garcia emergiu.
Ela não parecia uma empresária. Parecia uma força da natureza. Seus olhos encontraram os de Maya, e por um milésimo de segundo, o terror em seu rosto foi substituído por uma determinação gélida.
— Caio — disse Giovanna, sua voz ecoando pelo galpão como um veredito de morte. — Solte a arma. Agora.
— Giovanna... — Caio riu, mas sua mão tremia. — Você sempre chega na hora certa para o show, não é? Olhe para elas. Suas amigas, sua esposa... todas aqui para ver você falhar.
— Você não tem ideia do que é falhar, Caio — disse Giovanna, caminhando lentamente em direção a ele, ignorando a arma apontada para seu peito. — Falhar é o que você fez quando achou que poderia tocar no que é meu e sair vivo.
— Pare aí mesmo ou eu atiro nelas! — gritou Caio, apontando a arma para Maya.
Nesse momento, Malu surgiu das sombras atrás de Caio. Ela não era uma lutadora treinada, mas era uma irmã movida pela culpa de anos de ausência. Ela se lançou sobre as costas de Caio, agarrando seu braço armado. O tiro disparou para o teto, ricocheteando nas vigas de metal.
— Agora, Sarah! — gritou Malu.
Sarah terminou de cortar as cordas de Maya, e as duas se jogaram no chão enquanto Giovanna avançava. Giovanna não esperou por reforços. Ela atingiu Caio com um golpe preciso no maxilar, seguido de uma joelhada que o deixou sem ar. Ela o desarmou com uma eficiência brutal e o jogou contra a parede.
— Você... — Giovanna desferiu outro soco — nunca... — mais um golpe — toque... nela!
Caio caiu, inconsciente e ensanguentado. O silêncio finalmente caiu sobre o galpão, quebrado apenas pela respiração ofegante das quatro mulheres.
Giovanna se virou para Maya. Em um instante, a armadura de gelo derreteu. Ela correu até a esposa, caindo de joelhos e puxando-a para um abraço desesperado.
— Meu amor... meu Deus, Maya, me perdoa... eu devia ter protegido você — soluçava Giovanna, escondendo o rosto no pescoço de Maya.
— Está tudo bem, Gi... eu estou aqui. Você me achou — Maya retribuiu o abraço, chorando de alívio.
Somente então Giovanna percebeu as outras duas figuras ali. Ela olhou para Sarah e depois para Malu. O choque em seu rosto era evidente.
— Malu? O que você... como vocês chegaram aqui?
Malu limpou o sangue de um pequeno corte no rosto e deu um sorriso triste.
— Eu nunca estive tão longe quanto você pensava, Gi. Eu sinto muito por tudo. Por ter sumido, por ter deixado você carregar o peso da nossa família sozinha. Eu vi o que aquela mulher, a Lorena, fez. Nós as seguimos.
Giovanna se levantou, ajudando Maya a ficar de pé. Ela olhou para a irmã com uma nova compreensão.
— Nós vamos conversar sobre isso. Sobre tudo. Mas agora... — a expressão de Giovanna endureceu novamente — temos uma conta para acertar na mansão.
***
A volta para a mansão foi feita sob a escolta dos seguranças de Giovanna, que haviam chegado logo após o confronto. Lorena estava na sala de estar, bebendo uma taça de vinho caro, sentada na poltrona favorita de Giovanna. Ela acreditava que, a essa hora, Maya estaria longe o suficiente e Caio teria feito o serviço sujo. Ela já imaginava como "consolaria" Giovanna nos próximos meses, tornando-se indispensável.
A porta da frente se abriu com um estrondo. Lorena se levantou, o sorriso de boas-vindas já ensaiado no rosto, mas o sorriso morreu assim que viu Giovanna entrar, seguida por Maya, Malu e Sarah.
— Senhora... eu... o que aconteceu? — gaguejou Lorena, a taça tremendo em sua mão.
Giovanna caminhou até ela com uma calma aterrorizante. Ela não disse uma palavra. Simplesmente pegou a taça da mão de Lorena e a jogou contra a parede, onde o cristal se despedaçou.
— O teatro acabou, Lorena — disse Giovanna. — Eu ouvi tudo. Caio foi muito específico sobre quem planejou isso antes de ser levado pela polícia.
— Ele está mentindo! — gritou Lorena, o desespero tomando conta. — Eu fiz tudo por você, Giovanna! Aquela menina... ela estava destruindo você, mudando você! Você é uma rainha, não uma assistente social! Eu te amo mais do que ela jamais poderia!
— Você não sabe o que é amor, Lorena — interveio Maya, dando um passo à frente, com o apoio da mão de Giovanna em sua cintura. — Você só conhece a obsessão e o poder. Você tentou me destruir porque eu represento a única coisa que você nunca vai ter: a alma da Giovanna.
Giovanna olhou para os seguranças na porta.
— Tirem-na daqui. Entreguem as gravações que Malu fez e o depoimento do Caio para o delegado. Eu quero que ela apodreça em uma cela por sequestro e tentativa de homicídio. E Lorena... — Giovanna aproximou-se do ouvido da governanta, sussurrando para que apenas ela ouvisse — ... agradeça por estarmos em um país com leis. Se dependesse de mim, você não sairia viva deste salão.
Lorena foi arrastada, gritando impropérios e juras de amor distorcidas, até que o som de sua voz desapareceu na noite.
A sala mergulhou em um silêncio pesado. Malu e Sarah ficaram um pouco afastadas, sentindo que aquele momento pertencia ao casal.
— Gi — chamou Malu, baixinho. — Eu e a Sarah vamos para um hotel. Acho que vocês precisam de privacidade.
Giovanna olhou para a irmã. A raiva havia passado, restando apenas a exaustão.
— Não. Fiquem. Esta casa é grande demais e... — ela olhou para Maya, que assentiu com um sorriso encorajador — ... eu acho que é hora de pararmos de fugir da nossa própria família. Dalva vai preparar quartos para vocês. Amanhã conversaremos como irmãs.
Malu sentiu as lágrimas virem aos olhos e apenas assentiu, seguindo Sarah para a ala de hóspedes.
Giovanna e Maya subiram para o quarto principal. O silêncio agora era confortável, preenchido apenas pelo som da chuva que começava a cair lá fora. Giovanna ajudou Maya a se sentar na cama e começou a limpar os ferimentos em seus pulsos com uma delicadeza que contrastava com a violência de horas antes.
— Eu quase perdi você — sussurrou Giovanna, as mãos trêmulas. — Em todos os meus anos de negócios, em todas as minhas lutas por poder, eu nunca senti um medo como esse.
Maya pegou o rosto de Giovanna entre as mãos, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Mas você não perdeu, Gi. E sabe por quê? Porque nós somos mais fortes do que qualquer plano da Lorena ou da Soraya. Você me ensinou a lutar, e eu te ensinei a sentir. Juntas, somos invencíveis.
Giovanna sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto cansado.
— Negócio fechado — disse ela, repetindo as palavras que selaram o acordo na Suíça.
— Para sempre — completou Maya.
Elas se deitaram, entrelaçadas sob os lençóis de seda, enquanto a tempestade lá fora lavava os pecados daquela casa. O império Torres Garcia ainda era vasto e poderoso, mas agora, suas fundações não eram feitas de medo ou ganância. Eram feitas de uma lealdade forjada no fogo e de um amor que, finalmente, encontrara seu porto seguro. A nova era não estava apenas começando; ela já havia vencido.