Sereia
O Reflexo do Vidro e o Gosto do Açúcar
O sol da tarde ainda tingia o céu de um laranja vibrante quando Kuro, Nico e Emma chegaram ao velho píer. Nenhum deles tinha conseguido dormir direito na noite anterior. A imagem de Tatsuyo — a pele parda, a cauda de um branco perolado e o tilintar das pérolas em seu cabelo — parecia gravada no interior de suas pálpebras. Eles caminhavam com pressa, mas também com uma cautela renovada, olhando para os lados para garantir que nenhum turista ou pescador local os estivesse seguindo.
Kuro carregava uma mochila térmica preta pendurada em um ombro, enquanto Emma segurava uma sacola de papel pardo com um cuidado quase religioso. Nico, como de costume, liderava o caminho, seus olhos verdes escaneando a superfície da água em busca de qualquer sinal de movimento que não fosse o balanço natural das ondas.
— Vocês acham que ela vem mesmo? — perguntou Emma, a voz falhando levemente pela ansiedade. — E se o pai dela a proibiu? Ou se ela achou que ontem foi perigoso demais?
— Relaxa, loirinha — Kuro respondeu, embora o suor em suas mãos denunciasse que ele estava tão nervoso quanto ela. Ele ajeitou o cabelo branco repicado, que brilhava intensamente sob o sol. — Mulheres bonitas gostam de ser esperadas, mas eu tenho um pressentimento de que ela está tão curiosa quanto a gente. Além disso, eu trouxe o "kit de sedução terrestre". Ninguém resiste a isso.
— Se o seu "kit" for só comida e tralha de plástico, duvido que ela se impressione — Nico comentou, parando na ponta do deck, exatamente onde haviam se despedido dela na noite anterior.
Eles se sentaram, deixando as pernas balançando sobre a água. O mar estava calmo, de um azul profundo que começava a escurecer com o pôr do sol. Por longos minutos, o único som era o das ondas batendo nos pilares. O silêncio começou a pesar, e a dúvida começou a crescer no peito de Nico.
— Tatsuyo? — Nico chamou baixinho, inclinando-se para frente. — Você está aí?
De repente, uma bolha estourou na superfície, seguida por um rastro de espuma prateada. A poucos metros deles, uma cabeça emergiu lentamente. Primeiro os cabelos pretos ondulados, depois os olhos negros e profundos que pareciam conter todo o mistério do oceano. Tatsuyo se aproximou da rocha submersa, subindo nela com a mesma graça felina de antes. Sua cauda branca brilhou como opala sob os últimos raios de sol, e as pequenas conchas em seu cabelo tilintaram suavemente.
— Criaturas de Terra — disse ela, sua voz melodiosa ecoando pelo píer. — Vocês voltaram.
— Nós prometemos, não prometemos? — Emma sorriu, sentindo um alívio imenso. — Trouxemos algumas coisas para você, Tatsuyo. Como prometido.
Tatsuyo inclinou a cabeça, observando-os com uma desconfiança curiosa. Ela se aproximou um pouco mais da borda do deck, apoiando os braços na madeira áspera.
— Eu quase não vim — admitiu ela, os olhos fixos em Kuro. — O conselho das marés estava agitado hoje. Eles dizem que o cheiro de vocês está ficando forte perto da nossa enseada. Mas... eu não conseguia parar de pensar nas coisas que vocês disseram. Sobre "roupas" e sobre "ser especial".
— Bem, hoje você vai descobrir o que é ser especial de verdade — Kuro disse, abrindo a mochila com um floreio dramático. — Primeiro: a sobrevivência básica. Tatsuyo, você disse que bebe água, certo? Mas você já experimentou água que... explode?
Ele tirou uma lata de refrigerante de cola, gelada e coberta por gotículas de condensação. Tatsuyo arregalou os olhos, recuando um pouco.
— Por que o metal está chorando? — ela perguntou, apontando para a condensação. — Ele está triste por estar fora do mar?
— Não, não está chorando — Emma explicou, rindo baixo. — É apenas o frio encontrando o ar quente. Aqui, veja.
Kuro abriu a lata. O som do *psssshht* fez Tatsuyo dar um pequeno salto para trás, mergulhando metade do corpo na água por instinto.
— Ele rosnou para mim! — ela exclamou, com os olhos arregalados.
— Calma, gracinha, é só o gás — Kuro estendeu a lata para ela. — Experimenta. Confia em mim, é doce como... bem, eu não sei o que vocês comem lá embaixo, mas isso aqui é o paraíso.
Tatsuyo hesitou, olhando para a mão de Kuro e depois para a lata. Ela estendeu os dedos palmados e pegou o objeto com extrema delicadeza, como se fosse um artefato explosivo. Ela cheirou o líquido, franzindo o nariz pardo.
— Tem cheiro de raízes e de... algo que não conheço.
Ela deu um pequeno gole. No instante em que as bolhas tocaram sua língua, sua expressão passou do medo para o choque absoluto. Ela arregalou os olhos, apertou as bochechas e engoliu rápido.
— Tem... tem formigas vivas dentro do meu pescoço! — ela gritou, mas logo em seguida deu um sorriso largo. — É engraçado! Elas dançam!
— Viu só? — Kuro se gabou, cruzando os braços e exibindo o tanquinho com orgulho. — O mundo humano tem seus truques.
— É muito doce — Tatsuyo disse, bebendo mais um pouco, fascinada com a sensação. — No mar, tudo tem gosto de sal ou de ferro. Isso é... brilhante.
Nico então abriu a sacola de papel pardo.
— Temos algo melhor que a bebida. Emma insistiu que você precisava provar isso.
Emma tirou um donut coberto com glacê rosa e granulados coloridos. Tatsuyo olhou para o doce com uma expressão de pura incompreensão.
— É um anel de coral? — ela perguntou.
— É comida — Emma explicou. — Chamamos de donut. É feito de farinha e açúcar.
Tatsuyo pegou o donut, sentindo a textura macia. Ela deu uma mordida generosa e, por um momento, pareceu que ia flutuar.
— Pelas grandes baleias... — sussurrou ela, com a boca suja de glacê rosa. — Isso é macio como as nuvens que vejo debaixo da água. Como vocês conseguem criar algo que não precisa ser caçado para ser gostoso?
— Nós somos mestres na arte de não fazer esforço — Kuro brincou, sentando-se mais perto dela. — Mas agora, chega de comida. Eu trouxe algo que eu acho que você vai gostar mais, já que você gosta tanto de pérolas e conchas.
Kuro remexeu na mochila e tirou um pequeno espelho de mão, com a moldura de plástico prateado. Ele o entregou para Tatsuyo.
— O que é isso? — ela perguntou, olhando para a superfície plana e cinzenta.
— Vire para você — instruiu Nico.
Quando Tatsuyo girou o espelho e viu o próprio reflexo com clareza pela primeira vez, ela soltou um suspiro audível. Na água, os reflexos eram sempre ondulados, quebrados pelo movimento das correntes. Mas ali, no espelho, ela viu cada detalhe de seus olhos negros, a curva de seus lábios e o brilho das pérolas em seu cabelo.
— Sou... sou eu? — ela sussurrou, tocando o próprio rosto com a ponta dos dedos. — Eu sou assim de verdade?
— Você é muito mais bonita do que esse reflexo, Tatsuyo — disse Nico, sua voz soando suave e sincera.
Tatsuyo ficou em silêncio por um longo tempo, admirando a própria imagem. A vaidade, um conceito que ela mal conhecia, parecia florescer ali.
— As sereias não têm nada disso — disse ela, com um tom de tristeza na voz. — Nós nos vemos nas sombras das pedras ou nas bolhas de ar. Mas aqui... eu pareço tão real. Tão sólida.
— Você é real — Emma garantiu, colocando a mão sobre a de Tatsuyo, que estava apoiada no deck. A pele da sereia era fria e suave, como cetim molhado. — E você é nossa amiga agora.
Tatsuyo olhou para Emma, e depois para o toque de suas mãos.
— Amiga — ela repetiu. — No meu mundo, temos companheiros de cardume. Nós nadamos juntos para nos proteger. É isso que "amigo" significa?
— É quase isso — explicou Nico. — Mas amigos também cuidam um do outro mesmo quando não há perigo. Eles compartilham coisas... como esses donuts ou segredos.
Tatsuyo sorriu, e o som de suas pérolas pareceu mais alegre. Ela então olhou para a mochila de Kuro.
— O que mais vocês trouxeram? O que são essas coisas quadradas que vocês seguram?
Kuro tirou seu celular do bolso.
— Isso aqui? É um smartphone. É como... uma caixa mágica que faz tudo.
Ele ligou a tela, que brilhou intensamente. Tatsuyo recuou, assustada com a luz artificial.
— Tem um sol preso dentro dessa pedra! — ela exclamou.
— Quase isso — Kuro riu. — Veja, ele pode fazer música.
Ele abriu um aplicativo e colocou uma música pop animada, com uma batida de baixo bem marcada. Tatsuyo inclinou a cabeça, os olhos acompanhando o ritmo. De repente, ela começou a balançar os ombros e a cauda começou a bater ritmicamente contra a água, criando pequenas explosões de espuma.
— Isso é como o canto das baleias, mas... mais rápido! — ela disse, rindo. — Dá vontade de nadar contra a correnteza mais forte!
— É para dançar, Tatsuyo! — Emma começou a estalar os dedos, acompanhando o ritmo.
Por alguns minutos, o píer se transformou em uma pequena festa particular. Uma sereia e três adolescentes, unidos por uma música que ela nunca tinha ouvido e por sabores que ela nunca imaginou existir. Tatsuyo parecia ter esquecido todo o medo e a cautela. Ela girava na água, fazendo sua cauda branca brilhar como uma lâmina de prata sob a luz crescente da lua.
No entanto, a diversão foi interrompida quando Kuro decidiu ser... bem, o Kuro.
— Sabe, Tatsuyo — ele disse, inclinando-se um pouco mais, com um olhar malicioso —, agora que somos amigos e você já provou nossas comidas, você não quer me mostrar como as sereias dão um beijo de agradecimento? Dizem que o beijo de uma sereia permite que um homem respire debaixo d'água. É verdade?
Emma deu um tapa forte no ombro de Kuro.
— Kuro! Deixa de ser nojento!
Tatsuyo parou de dançar e olhou para Kuro, confusa.
— Beijo? — ela perguntou. — É quando encostamos os focinhos como os golfinhos fazem?
— É... — Kuro começou, mas Nico o interrompeu.
— Não dê ouvidos a ele, Tatsuyo. Ele só está sendo bobo. E não, não tente beijar o Kuro, ou você vai pegar alguma doença humana de idiotice.
Tatsuyo riu, um som cristalino que parecia purificar o ar salgado.
— Eu gosto de vocês. Vocês são muito mais interessantes que os caranguejos. Eles só sabem reclamar da temperatura da água.
Ela então olhou para a sacola de Emma.
— O que é aquilo? Aquele objeto comprido e amarelo?
— Ah, isso é uma banana — Emma tirou a fruta. — É uma fruta que cresce em árvores.
Tatsuyo pegou a banana e, antes que Emma pudesse explicar, ela deu uma mordida com casca e tudo. Sua expressão mudou instantaneamente para uma careta de desgosto.
— Isso tem gosto de alga podre! — ela reclamou, cuspindo um pedaço.
— Não, não! — Emma riu, pegando a fruta de volta. — Você tem que descascar primeiro. Veja.
Emma removeu a casca e entregou a polpa para Tatsuyo. A sereia experimentou novamente, desta vez fechando os olhos em apreciação.
— O mundo de vocês é muito complicado — comentou Tatsuyo, limpando a boca. — As coisas têm camadas. A comida tem casca, vocês têm essas "roupas" por cima da pele... Por que tudo na terra é escondido?
Nico suspirou, olhando para o horizonte.
— Talvez porque a terra seja um lugar mais perigoso que o oceano, Tatsuyo. Nós escondemos o que é valioso para que ninguém estrague ou roube.
Tatsuyo ficou em silêncio por um momento, processando a resposta. Ela olhou para o espelho prateado que ainda segurava em uma das mãos e para a lata de refrigerante vazia na outra.
— Eu entendo — disse ela, seriamente. — É por isso que eu me escondo debaixo das ondas. Porque eu sou valiosa?
— A coisa mais valiosa que já encontramos — afirmou Emma, com sinceridade.
Tatsuyo sorriu, mas sua expressão logo se tornou alerta. Ela ergueu a cabeça, as narinas dilatando levemente enquanto cheirava o ar.
— O vento mudou — disse ela, a voz subitamente baixa. — Há outros humanos vindo para a praia. Muitos deles. Consigo ouvir o som de suas máquinas de terra.
Nico e Kuro olharam para trás, em direção ao estacionamento da praia, que ficava a algumas centenas de metros. Luzes de faróis começavam a aparecer.
— É o pessoal que vem para o luau de sexta-feira — Nico disse, levantando-se. — Você precisa ir, Tatsuyo. Se eles te virem, vai ser um caos.
Tatsuyo acenou com a cabeça, guardando o espelho em uma pequena bolsa feita de algas tecidas que ela trazia presa à cintura, algo que os meninos não tinham notado antes.
— Eu vou levar isso — disse ela, apontando para o espelho. — Para me lembrar de como sou quando estou com vocês.
— Pode ficar — disse Kuro, com um tom de voz surpreendentemente gentil. — É um presente do seu "amigo" favorito.
Tatsuyo deu uma última olhada para os três.
— Amanhã? — perguntou ela, a esperança brilhando em seus olhos negros.
— Amanhã — confirmaram os três em uníssono.
Com um movimento rápido e poderoso, Tatsuyo mergulhou. Desta vez, ela não desapareceu imediatamente; ela nadou por baixo do deck, sua cauda branca visível através das frestas da madeira, antes de disparar em direção ao mar aberto como um raio de lua submerso.
Kuro, Nico e Emma ficaram ali por um tempo, recolhendo o lixo e as sobras.
— Cara — disse Kuro, guardando a mochila térmica —, eu nunca mais vou conseguir olhar para um donut da mesma forma.
— E eu nunca mais vou conseguir olhar para o mar e achar que ele é só água — Emma completou, olhando para a vastidão escura.
— Temos que ser cuidadosos — Nico alertou. — O luau vai trazer muita gente. Amanhã teremos que vir mais tarde, ou encontrar um lugar mais escondido.
Enquanto caminhavam de volta para o carro, o som da música eletrônica do luau começando ao longe parecia estranhamente vazio comparado ao riso de Tatsuyo. Eles tinham um segredo que brilhava mais que qualquer pérola, e sabiam que, a partir daquele momento, suas vidas pertenciam tanto à terra firme quanto ao mistério insondável do oceano.