Sereia
O Salto sobre as Dunas e o Peso do Segredo
A lua estava quase cheia, um disco de prata maciça que vigiava a costa com uma intensidade que deixava Nico nervoso. Já fazia uma semana desde o primeiro encontro com Tatsuyo. Sete dias em que a rotina dos três adolescentes havia se transformado em uma operação de espionagem. Eles passavam as manhãs fingindo normalidade na escola e as noites debruçados sobre o píer, alimentando uma amizade que desafiava as leis da biologia e da lógica.
Naquela noite, porém, o ar estava diferente. O vento soprava mais quente, e a praia estava estranhamente barulhenta. Um grupo de turistas havia montado acampamento perto das rochas, com fogueiras e música alta que ecoava pelas falésias.
— Não podemos ficar aqui — sussurrou Emma, olhando apreensiva para as silhuetas ao longe. — Se ela aparecer agora e alguém acender uma lanterna na direção errada, acabou tudo.
— Eu tive uma ideia — disse Nico, ajustando os óculos. — Os pais da Emma estão viajando, não estão? Só voltam daqui a uma semana.
Emma arregalou os olhos azuis, entendendo imediatamente onde ele queria chegar.
— A piscina? Nico, você enlouqueceu? Como vamos levar uma sereia de quase dois metros, contando a cauda, até a minha casa sem que ninguém perceba?
— Eu levo — Kuro interveio, dando um passo à frente e estalando o pescoço. Ele estava sem camisa, como de costume, e a luz do luar definia cada músculo de seu abdômen. — Eu aguento o peso. Se formos pela trilha das dunas, por trás da vegetação, chegamos na sua casa em quinze minutos. É o caminho mais escuro.
— É perigoso demais — murmurou Emma, mas então um tilintar familiar veio debaixo do deck.
Tatsuyo emergiu, mas não subiu na rocha. Ela parecia inquieta, as mãos pequenas agarradas a um dos pilares de madeira. Suas pérolas batiam umas nas outras com o tremor de seu corpo.
— Criaturas... há muito barulho — disse ela, a voz carregada de medo. — Muitas luzes de terra. Eu sinto o cheiro de fumaça e de metal. Meu pai disse que quando os humanos fazem fogo na areia, eles estão caçando.
— Eles não estão caçando você, Tatsuyo — Nico tentou acalmá-la, ajoelhando-se na beira do píer. — Mas você não está segura aqui hoje. Queremos te levar para um lugar diferente. Um lugar com água calma, onde ninguém possa te ver.
Tatsuyo inclinou a cabeça, a água escorrendo pelos cabelos pretos ondulados.
— Outro oceano?
— Uma piscina — explicou Emma. — É como um pequeno pedaço de mar, mas cercado por paredes de pedra e dentro da minha propriedade. Você estaria segura. Poderíamos conversar sem medo.
A sereia olhou para a vastidão escura atrás de si e depois para os rostos ansiosos dos três amigos. Ela confiava neles. Em uma semana, eles haviam lhe mostrado o gosto do açúcar, o reflexo do vidro e a sensação de rir até o estômago doer.
— Como eu vou chegar lá? — perguntou ela, olhando para a própria cauda branca e majestosa. — Eu não tenho esses galhos de caminhar que vocês usam.
Kuro deu um sorriso largo e saltou do píer para a areia fofa lá embaixo, aterrissando com agilidade. Ele caminhou até a beira da água, onde as ondas morriam suavemente.
— Você vai de carona comigo, gracinha — disse ele, estendendo os braços. — Eu prometo que não te derrubo.
Tatsuyo hesitou. Para uma sereia, ser tirada da água era o ápice da vulnerabilidade. No mar, ela era rápida, poderosa; na terra, ela era apenas peso e escamas. Mas ela olhou para os olhos castanhos de Kuro e viu algo que não era apenas a habitual malícia dele, mas uma determinação protetora.
Lentamente, ela nadou até a margem. À medida que a água ficava rasa, sua cauda branca começou a brilhar intensamente, refletindo a luz da lua. Kuro se inclinou e, com um movimento firme, passou um braço por baixo dos ombros dela e o outro por baixo da cauda, logo abaixo da curvatura onde começavam as escamas mais grossas.
Ele a ergueu no "estilo noiva". Tatsuyo soltou um ganido de surpresa e instintivamente passou os braços pelo pescoço de Kuro, segurando-se com força. Sua pele parda estava molhada e fria, contrastando com o calor do corpo dele.
— Uau... — Kuro soltou um suspiro, sentindo o peso. — Você é mais pesada do que parece, Tatsuyo. O que você comeu hoje? Uma baleia inteira?
— Eu como algas e peixes pequenos! — ela protestou, o rosto muito próximo ao dele. — E você cheira a suor e a aquele sabão de terra. É estranho.
— Shh! — Nico desceu do píer apressado, seguido por Emma. — Parem de discutir e vamos logo. Emma, vá na frente. Se vir alguém, dê um assobio. Eu fico na retaguarda.
O grupo começou a se mover. Emma liderava o caminho, entrando por uma abertura na vegetação de restinga que levava às dunas altas. O caminho era íngreme e a areia fofa dificultava cada passo.
Kuro bufava, os músculos dos braços e das costas saltando sob o esforço. Tatsuyo estava rígida em seus braços, olhando para tudo ao redor com olhos arregalados. As árvores retorcidas pelo vento, o som dos grilos, o cheiro das flores noturnas — tudo era um ataque sensorial para ela.
— O que são esses monstros verdes e altos? — ela sussurrou, apontando para os arbustos. — Eles têm braços, mas não se movem.
— São plantas, Tatsuyo — explicou Emma, olhando para trás para verificar o progresso deles. — Elas não fazem mal. Só ficam aí pegando o orvalho.
— E aquele som? — Tatsuyo se encolheu quando um mocho piou em algum lugar próximo. — Parece o grito de um espírito abissal.
— É só um pássaro — disse Nico, mantendo os olhos na trilha atrás deles. — Ele caça ratos, não sereias. Fique calma.
Kuro parou por um momento para ajustar o peso. Suas mãos estavam começando a escorregar por causa da umidade da pele dela.
— Ei, Tatsuyo — ele disse, tentando distraí-la do medo e a si mesmo do cansaço. — Sabe, no nosso mundo, existe uma lenda de que sereias podem andar na terra se quiserem.
Tatsuyo desviou o olhar das árvores para ele. Suas pérolas tilintaram contra o peito de Kuro.
— É verdade — disse ela, a voz ficando séria. — Há um ritual. Quando a lua está cheia e o sal está quente, podemos pedir às correntes para trocar nossa cauda por essas pernas. Mas é uma escolha difícil.
— Por que difícil? — perguntou Emma, aproximando-se para ouvir.
— Porque dói — Tatsuyo respondeu, e houve uma nota de tristeza em seu tom. — É como se cada escama se transformasse em um espinho de vidro entrando na carne. E quando voltamos para o mar, o processo é o mesmo. Podemos decidir quanto tempo ficamos assim, mas o preço é o sangue e o cansaço.
— Você já fez isso? — Nico perguntou, curioso.
— Nunca. Meu pai diz que quem anda na terra corre o risco de esquecer o caminho de volta para o azul. Eu não quero ter pernas. Eu gosto da minha cauda. Ela me leva para onde eu quiser.
Kuro olhou para a cauda branca que pendia de seus braços. Ela era linda, coberta por uma mucosidade natural que a protegia, mas que agora deixava os braços dele levemente pegajosos.
— Bem, por enquanto, eu sou as suas pernas — disse Kuro, voltando a caminhar. — E eu sou muito mais rápido que qualquer ritual de lua cheia, pode apostar.
— Você é muito convencido para uma criatura de terra — Tatsuyo comentou, mas desta vez ela encostou a cabeça no ombro dele, relaxando um pouco.
Eles chegaram ao topo de uma duna alta de onde podiam ver as luzes da cidade ao longe e, mais perto, o telhado da casa de Emma. Era uma construção moderna, com grandes janelas de vidro e uma cerca viva alta que garantia total privacidade.
— Estamos quase lá — disse Emma, apontando para o portão lateral de madeira. — Só precisamos atravessar aquele trecho aberto.
— Esperem! — Nico sinalizou para que todos parassem.
Lá embaixo, na estrada que margeava as casas, um carro de polícia passava lentamente, a luz giroscópica apagada, mas os faróis iluminando a areia. Todos se abaixaram. Kuro teve que se ajoelhar, mantendo Tatsuyo firme em seu colo.
— O que é aquela luz que varre a escuridão? — Tatsuyo sussurrou, o medo voltando a dominar sua voz. — É o olho do caçador?
— É só uma patrulha — Nico respondeu, o coração batendo forte contra as costelas. — Eles estão apenas vigiando a estrada. Se ficarmos parados, eles não vão nos ver.
Tatsuyo tremia levemente. A sensação de estar fora da água por tanto tempo estava começando a deixá-la desconfortável. Sua pele, que precisava de umidade constante, parecia arder sob a brisa seca da noite.
— Kuro... — ela chamou baixinho. — Minhas escamas... elas estão ficando quentes.
Kuro olhou para baixo e viu que o brilho perolado da cauda estava ficando opaco.
— Emma, rápido! Ela está secando! — ele disse, a urgência substituindo o tom de brincadeira.
Assim que o carro de polícia dobrou a esquina e desapareceu de vista, o grupo disparou duna abaixo. Kuro corria o mais rápido que podia, ignorando a queimação nos pulmões e o peso que parecia dobrar a cada passo. Eles atravessaram o trecho aberto como sombras fugitivas.
Emma tirou as chaves do bolso com as mãos trêmulas e abriu o portão lateral. Eles entraram no jardim, e o cheiro de cloro da piscina misturado ao perfume das gardênias os atingiu. Era um ambiente controlado, silencioso e, acima de tudo, seguro.
— Ali! — Emma apontou para a piscina iluminada por luzes subaquáticas de um azul suave.
Kuro não parou para descansar. Ele atravessou o deck de pedra e chegou à borda da água.
— No três, Tatsuyo — ele disse, ofegante.
— Um... dois... três!
Kuro a soltou com cuidado, e Tatsuyo deslizou para dentro da água. O impacto foi um som suave de mergulho. Por alguns segundos, ela desapareceu nas profundezas da piscina, que tinha quase três metros de profundidade na parte mais funda.
Nico, Emma e Kuro ficaram na borda, observando as bolhas subirem. Kuro desabou sentado no chão, limpando o suor da testa e tentando recuperar o fôlego. Seus braços tremiam pelo esforço.
— Cara... — ele ofegou. — Se alguém me dissesse há um mês que eu estaria carregando uma sereia por cima de uma duna, eu diria que esse alguém estava usando drogas pesadas.
— Você foi bem, Kuro — Emma disse, colocando a mão no ombro dele. — Realmente bem.
De repente, Tatsuyo emergiu no centro da piscina. Ela girou o corpo, fazendo a água ondular, e soltou um suspiro de puro êxtase. Ela mergulhou novamente, nadando de um lado para o outro com uma velocidade impressionante, sua cauda branca chicoteando a água clorada.
— É diferente! — ela gritou, saindo novamente para respirar, os cabelos colados ao rosto pardo. — A água é... parada. Não há correnteza. E o gosto é estranho, não tem sal. Mas é fresca!
Ela nadou até a borda onde eles estavam e apoiou os braços no mármore. Seus olhos pretos brilhavam com uma alegria renovada.
— Obrigada, Criaturas de Terra. Eu me sinto... leve de novo.
— Você está segura aqui — disse Nico, sentando-se ao lado de Kuro. — Ninguém pode ver você por causa desses muros altos.
Tatsuyo olhou em volta, maravilhada com a arquitetura da casa de Emma. Para ela, as paredes brancas e as luzes pareciam algo de outro planeta.
— Então é aqui que vocês se escondem do sol? — ela perguntou, tocando a borda da piscina. — É muito sólido. Tudo na terra é tão duro e imóvel.
— É o nosso refúgio — Emma explicou, sentando-se também e mergulhando os pés na água. — E agora é o seu também, pelo menos por enquanto.
Tatsuyo olhou para Emma e depois para os meninos. Ela parecia estar processando tudo o que tinha acontecido nos últimos vinte minutos. O medo da patrulha, o calor da pele de Kuro, o som do mocho... e agora, a paz daquela água azul.
— Kuro — ela chamou.
O rapaz de cabelo branco olhou para ela, ainda tentando controlar a respiração.
— O que foi, sereiazinha?
— Suas mãos... — ela apontou para os braços dele, que tinham marcas vermelhas onde o peso da cauda dela havia pressionado. — Eu te machuquei?
Kuro olhou para os próprios braços e deu um de seus sorrisos convencidos, embora houvesse uma doçura real em seus olhos castanhos.
— Isso aqui? Não é nada. Eu enfrentaria um tubarão branco só com as mãos por você, Tatsuyo. Além disso, agora eu posso dizer que tive a mulher mais bonita do oceano nos meus braços.
Tatsuyo inclinou a cabeça, as pérolas no cabelo fazendo um som suave.
— Vocês humanos dizem coisas muito estranhas — ela comentou, mas um rubor leve subiu por suas bochechas pardas. — Mas eu acho que gosto disso.
O silêncio caiu sobre o jardim, quebrado apenas pelo som da água filtrando na piscina. Eles sabiam que aquele era apenas o começo de uma semana que nenhum deles jamais esqueceria. Mas, por enquanto, o perigo das dunas e do píer estava longe. Ali, sob as luzes azuis e as estrelas, o mundo humano e o mundo marinho tinham finalmente encontrado um ponto de equilíbrio.
— Então — disse Nico, quebrando o silêncio —, quem quer ver o que acontece se jogarmos um donut na água para a Tatsuyo caçar?
— Nico! — Emma reclamou, mas todos começaram a rir, inclusive Tatsuyo, que deu um tapa na água com sua cauda, molhando todos eles e selando o início de sua estadia secreta na terra firme.