Sereia
O Despertar da Espuma e a Promessa de Sal
A luz da manhã atravessava as grandes janelas de vidro da sala de estar de Emma, pintando o chão de madeira com tons de ouro pálido. O primeiro a despertar foi Nico. Ele sentou-se no sofá com um gemido, sentindo os músculos rígidos por ter dormido em uma posição desconfortável. Seus olhos verdes demoraram alguns segundos para focar, mas assim que a memória da noite anterior o atingiu, ele deu um pulo.
— Emma! Kuro! Acordem! — Nico exclamou, cutucando o pé de Kuro, que estava jogado no sofá oposto com um braço pendurado para fora.
Emma, que dormia em uma poltrona lateral envolta em um cobertor felpudo, abriu os olhos azuis e piscou confusa.
— Já é de dia? — Ela bocejou, ajeitando o cabelo loiro bagunçado. — Como está a Tatsuyo?
Kuro não respondeu de imediato. Ele apenas soltou um resmungo satisfeito e rolou para o lado, um sorriso bobo estampado no rosto enquanto ainda mantinha os olhos fechados. Ele parecia estar em algum lugar muito distante, um lugar que cheirava a mar e mistério.
— Kuro, levanta logo! — Nico insistiu, chutando levemente o sofá. — Temos que ver se ela está bem antes que a Dona Sônia resolva regar as plantas no muro vizinho.
Mencionar o perigo de serem descobertos foi o suficiente para despertar Kuro. Ele se sentou rapidamente, passando a mão pelo cabelo branco repicado que estava mais espetado do que o normal. Seus olhos castanhos brilharam com uma intensidade nova.
— Eu já estou indo, já estou indo — disse Kuro, levantando-se com uma energia que não combinava com alguém que mal tinha dormido.
Os três caminharam em direção à porta de vidro que dava para o jardim. O ar da manhã estava fresco e carregado com o cheiro da maresia que vinha da praia próxima, misturado ao aroma das flores de Emma. Quando chegaram à borda da piscina, a água estava calma, refletindo o céu límpido.
Por um momento, não viram nada além do azul profundo da piscina. Então, uma silhueta clara começou a subir das profundezas. Tatsuyo emergiu com uma graciosidade que fazia o coração de qualquer um tropeçar. A água escorria por seus cabelos pretos ondulados, e as conchas brancas em seu peito brilhavam intensamente sob o sol matinal. As pérolas em seus cabelos tilintaram suavemente quando ela balançou a cabeça para tirar o excesso de água.
Ao ver os três amigos, o rosto pardo de Tatsuyo se iluminou com um sorriso radiante.
— Criaturas de Terra! — exclamou ela, nadando rapidamente para a borda. — O sol finalmente voltou! Eu observei as estrelas mudarem de lugar a noite toda.
— Bom dia, Tatsuyo — disse Emma, agachando-se na beira da piscina. — Você conseguiu descansar?
— A água de vocês é muito silenciosa — Tatsuyo respondeu, apoiando os braços no mármore. — Mas eu me senti protegida. Sonhei com correntes quentes e com o brilho que o Kuro me deu.
Ela tocou o colar de estrela-do-mar que ainda adornava seu pescoço. Seus olhos pretos imediatamente encontraram os de Kuro.
Nico sentou-se na borda, com as pernas balançando na água.
— Trouxemos algumas coisas para te mostrar hoje. Queríamos explicar o que é a televisão e talvez te mostrar alguns livros sobre o oceano, para ver se as fotos se parecem com a sua casa.
Tatsuyo assentiu, mas parecia distraída. Ela ignorou as palavras de Nico e focou inteiramente em Kuro, que estava parado bem à sua frente. Sem aviso prévio, a sereia se impulsionou para cima, apoiando as mãos com firmeza na borda da piscina e inclinando o tronco para fora da água.
Kuro, como se já estivesse esperando por aquilo, ajoelhou-se e inclinou-se na direção dela.
Diante dos olhos arregalados de Nico e Emma, Tatsuyo envolveu o pescoço de Kuro com seus braços úmidos e o puxou para um beijo profundo e apaixonado. Não foi um selinho tímido ou um toque acidental; foi um beijo carregado de toda a curiosidade e intensidade que havia florescido durante a madrugada. A cauda branca de Tatsuyo subiu e bateu na superfície da piscina com um estrondo, jogando água para todos os lados.
Nico ficou paralisado, com a boca aberta no meio de uma frase. Emma soltou um grito abafado, cobrindo a boca com as duas mãos, os olhos azuis quase saltando das órbitas.
O tempo pareceu congelar no jardim. O único som era o tilintar das pérolas de Tatsuyo e o murmúrio da água se acalmando. Quando finalmente se separaram, Kuro tinha o rosto molhado e um olhar de quem tinha acabado de descobrir o segredo do universo. Tatsuyo sorria, com as bochechas pardas levemente coradas.
Houve um silêncio mortal por quase dez segundos.
— Mas o que... o que foi isso?! — Nico finalmente explodiu, levantando-se e apontando para os dois. — Kuro! Você beijou uma sereia?!
— Na verdade — Kuro disse, limpando os lábios com o polegar e tentando manter a voz estável, apesar do tremor em suas mãos —, ela me beijou primeiro.
— Kuro, você perdeu o juízo? — Emma exclamou, passando da surpresa para a indignação em um segundo. — Nós estamos tentando manter a calma, esconder ela do mundo, e você está aí tendo um romance de cinema na minha piscina?
Tatsuyo olhou para Emma, parecendo confusa com a reação.
— Por que vocês estão fazendo esses sons altos com a boca? — perguntou ela. — O Kuro me disse que isso é o que os humanos fazem quando sentem algo especial. Ele me ensinou ontem à noite.
— Ontem à noite?! — Nico e Emma gritaram em uníssono.
Kuro deu de ombros, exibindo seu sorriso mais convencido, embora houvesse uma vulnerabilidade rara em seus olhos castanhos.
— Eu não conseguia dormir — explicou ele. — Vim aqui fora e nós conversamos. Ela me contou sobre o "fôlego compartilhado" das sereias, e eu expliquei como os humanos demonstram afeto. Uma coisa levou à outra... e, bem, a engenharia das conchas é realmente fascinante de perto.
— Você é um idiota, Kuro! — Emma bufou, mas não conseguiu esconder um sorriso de canto. — Uma sereia, cara. Você beijou uma sereia de verdade.
— Não é apenas uma sereia — corrigiu Tatsuyo, olhando para Kuro com uma doçura que fez Nico desviar o olhar, sentindo-se um intruso. — O Kuro é o meu guia na terra. Ele tem um calor que me faz querer esquecer o frio do fundo do mar.
Nico suspirou, sentando-se novamente e passando a mão pelo cabelo castanho.
— Certo, certo. Eu devia ter imaginado. O Kuro não consegue ver uma criatura mística sem tentar levá-la para um encontro.
— Inveja é uma coisa feia, Nico — provocou Kuro, sentando-se ao lado de Tatsuyo e deixando que ela repousasse a cabeça em seu ombro molhado.
— Não é inveja — Nico retrucou —, é preocupação! Tatsuyo, você entende que o Kuro é meio... err... peculiar, certo? Ele é um tarado de marca maior.
Tatsuyo soltou uma risada cristalina, um som que parecia acalmar os ânimos de todos.
— Ele é engraçado. E ele me deu essa estrela que brilha. No mar, quem dá presentes assim é porque quer proteger o outro. Eu sinto que ele é bom, mesmo que fale coisas que eu não entendo.
Emma suspirou, rendendo-se à situação. Ela se aproximou e sentou-se do outro lado de Tatsuyo.
— Tudo bem. Se vocês dois decidiram que são um casal interespécies, quem sou eu para julgar? Mas temos trabalho a fazer. Tatsuyo, você precisa entender que esse beijo... isso cria um laço. Se você voltar para o mar e nunca mais voltar, o Kuro vai ficar pior do que um náufrago.
Tatsuyo ficou séria, seus olhos negros encontrando os azuis de Emma.
— Eu nunca vou esquecer o calor da terra. E agora que eu sei o gosto do beijo humano, o oceano vai parecer muito mais vasto e vazio sem vocês.
Kuro envolveu os ombros dela com o braço, sentindo o frescor da pele dela contra o seu calor.
— Ninguém vai a lugar nenhum ainda — disse ele. — Temos uma semana inteira. E eu pretendo ensinar para a Tatsuyo muito mais do que apenas beijos. Temos que mostrar para ela o que é sorvete, filmes de aventura e, quem sabe, eu convença ela a me deixar ver o que tem atrás daquelas conchas "por motivos científicos".
— Kuro! — Emma e Nico gritaram novamente, mas desta vez, Tatsuyo apenas riu, jogando água neles com a cauda.
— O engenheiro é muito persistente! — Tatsuyo brincou, mergulhando e voltando à superfície em um salto gracioso.
Enquanto o sol subia no horizonte, o grupo começou a relaxar. A tensão da descoberta fora substituída por uma cumplicidade estranha e maravilhosa. Emma buscou o notebook para mostrar fotos do mundo para Tatsuyo, enquanto Nico tentava explicar, sem muito sucesso, o conceito de "internet".
Kuro, no entanto, mal ouvia as explicações técnicas. Ele observava Tatsuyo tocar a tela do computador com curiosidade, as pérolas em seu cabelo brilhando sob a luz do dia. Ele sabia que o que tinham era temporário, que o mar acabaria chamando sua sereia de volta, mas naquele momento, na borda daquela piscina, ele sentia que tinha conquistado algo que nenhum tesouro pirata jamais poderia igualar.
— Olhe, Tatsuyo — disse Emma, apontando para uma foto de uma floresta. — Isso é o que fica além das dunas.
— É como um jardim de anêmonas, mas verde? — Tatsuyo perguntou, fascinada.
— Mais ou menos — explicou Nico. — E os pássaros moram lá, no topo das árvores.
Tatsuyo olhou para Kuro.
— Você me levaria lá? Se eu tivesse pernas?
Kuro olhou para a cauda branca dela, imaginando o sacrifício que ela teria que fazer para andar naquele mundo seco.
— Eu te levaria até o fim do mundo, Tatsuyo. Mas, por enquanto, vamos focar em terminar esse donut que a Emma trouxe.
Ele entregou um pedaço de doce para ela, e Tatsuyo comeu com prazer, sujando o canto da boca com açúcar. Kuro limpou a mancha com o polegar, e o olhar que trocaram foi tão intenso que Emma teve que tossir para chamar a atenção.
— Certo, pombinhos. Menos romance e mais educação. Tatsuyo, agora vamos te mostrar o que é um "filme de animação". Prepare-se, porque isso vai explodir sua mente.
A manhã seguiu com risadas, descobertas e a constante vigilância contra vizinhos curiosos. Entre uma explicação e outra, Kuro e Tatsuyo trocavam toques furtivos e olhares que diziam mais do que qualquer palavra humana ou canto de sereia. O segredo deles estava seguro, protegido pelos muros altos da casa e pela lealdade de uma amizade que agora cruzava as fronteiras entre o sal e o sangue.
E, no fundo de seu coração, Kuro sabia que, não importa o que acontecesse no futuro, ele nunca mais seria apenas o garoto do píer. Ele era o guardião de uma sereia, e o sabor daquele beijo matinal seria a bússola que guiaria sua vida para sempre.