Sereia
O Despertar das Marés e o Calor da Terra
A madrugada na casa de Emma tinha um silêncio que parecia pulsar. Nico e Emma haviam sucumbido ao cansaço horas atrás, deixando o jardim entregue à luz espectral da lua e ao brilho azulado da piscina. Kuro, no entanto, não conseguia pregar o olho. Ele estava deitado no sofá da sala, mas seus ouvidos estavam sintonizados em cada movimento da água lá fora. A imagem de Tatsuyo — a forma como ela o olhara após o mergulho, o brilho das pérolas e a curiosidade quase inocente em seus olhos — rodopiava em sua mente, impedindo o sono.
Rendendo-se à insônia, ele se levantou silenciosamente. Vestiu apenas uma bermuda e caminhou descalço até a área externa. O ar da noite estava fresco, mas a água da piscina, mantida aquecida pelo sistema da casa, soltava uma névoa fina que dançava sobre a superfície.
Tatsuyo não estava mergulhada. Ela estava sentada no degrau mais alto da escada interna da piscina, com o tronco fora da água e a cauda submersa, movendo-se preguiçosamente. Ela segurava o espelho que Kuro lhe dera, observando o próprio reflexo sob a luz das estrelas. Quando ouviu o som da porta de vidro deslizando, ela não se assustou. Ela já conhecia o ritmo dos passos dele.
— O engenheiro não consegue descansar? — perguntou ela, sem tirar os olhos do espelho.
Kuro soltou um riso baixo e sentou-se na borda, a poucos centímetros dela.
— O engenheiro está com a cabeça cheia de fórmulas complicadas, Tatsuyo. E o silêncio daqui é barulhento demais para mim.
Tatsuyo finalmente baixou o espelho e olhou para ele. Seus olhos pretos pareciam absorver toda a luz ao redor.
— No oceano, nunca há silêncio total. Há sempre o canto das baleias, o estalo dos corais ou o murmúrio das correntes. O silêncio da terra é... pesado. Parece que o ar está esperando por algo.
— Talvez esteja — Kuro murmurou, observando como as gotas de água brilhavam na pele parda dos ombros dela.
Ele percebeu que ela estava trêmula. Não de frio, mas de uma agitação que ele não sabia explicar. Tatsuyo estendeu a mão e tocou a pele do braço de Kuro. Foi um toque hesitante, exploratório.
— Você é tão quente — ela disse, surpresa. — A sua pele... ela emite um calor que eu nunca senti em nada vivo debaixo d'água.
— É o sangue humano — explicou Kuro, sentindo um arrepio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com a brisa noturna. — Nós queimamos energia para manter esse calor. É o que nos mantém funcionando.
Tatsuyo deslizou a mão pelo braço dele até o ombro, aproximando-se um pouco mais. A cauda branca dela agitou a água, criando pequenas ondas que batiam contra as pernas de Kuro.
— Eu sinto que, se eu ficar perto de você por muito tempo, eu vou derreter — ela confessou, com uma voz que era quase um sussurro. — Mas é uma sensação boa. É como encontrar uma fonte térmica no fundo do abismo.
Kuro sentiu seu coração martelar contra as costelas. Ele sempre fora o tipo de cara que tinha uma resposta rápida para tudo, uma cantada pronta, um sorriso malicioso para desarmar qualquer situação. Mas ali, com Tatsuyo o observando com aquela pureza desconcertante, ele se sentia vulnerável.
— Tatsuyo — começou ele, a voz falhando levemente —, você me perguntou por que eu olhava tanto para você.
— Sim. Você disse que era engenharia — ela lembrou, com um pequeno sorriso brincando nos lábios.
— Eu menti — admitiu ele, aproximando-se o suficiente para sentir o cheiro de sal e melancia que emanava dela. — Eu olho porque você é a coisa mais fascinante que eu já vi. E não é só pela cauda ou pelas pérolas. É o jeito que você descobre o mundo. É como se tudo fosse novo através dos seus olhos.
Tatsuyo soltou o espelho, deixando-o flutuar ao lado dela, e colocou a outra mão no peito de Kuro, exatamente sobre o coração dele.
— Ele está batendo muito rápido — ela notou, os olhos arregalados. — Como o bater de asas de um beija-flor marinho. Você está com medo de mim, Kuro?
— Não é medo — ele respondeu, cobrindo a mão dela com a sua, pressionando-a contra o próprio peito. — É outra coisa. Algo que os humanos sentem quando estão perto de alguém que... que eles não conseguem parar de pensar.
Tatsuyo inclinou o corpo para frente. Suas conchas brancas roçaram levemente o joelho de Kuro, e o tilintar das pérolas em seu cabelo soou como sinos distantes.
— No mar, quando queremos conhecer alguém de verdade, nós compartilhamos o nosso fôlego — disse ela, a voz melodiosa agora carregada de uma seriedade nova. — É o laço mais profundo que existe.
— Compartilhar o fôlego? — Kuro perguntou, a respiração curta.
— Sim. Nós mergulhamos juntos e trocamos o ar de nossos pulmões. É uma promessa de que a vida de um pertence ao outro.
Kuro olhou para os lábios dela, úmidos e entreabertos. O desejo que ele sentira antes, aquele impulso puramente físico, estava se transformando em algo muito mais denso e complicado.
— Nós temos algo parecido — ele sussurrou. — Mas chamamos de beijo. E nem sempre é sobre compartilhar fôlego. Às vezes é sobre compartilhar o que sentimos aqui dentro.
Ele levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo preto ondulado. A pele de Tatsuyo era fria, mas ele podia sentir o calor de seu próprio toque sendo absorvido por ela.
— Mostre-me — pediu ela. — Mostre-me como é o beijo das Criaturas de Terra.
Kuro hesitou por um segundo, a consciência de que ela era uma criatura de outro mundo martelando em sua cabeça. Mas então, Tatsuyo fechou os olhos e inclinou o rosto, esperando. Ele se inclinou também, eliminando a distância final.
Quando seus lábios se tocaram, foi como se dois mundos colidissem silenciosamente. O beijo foi suave no início, um encontro de calor e frio, de terra e mar. Tatsuyo soltou um suspiro suave contra a boca dele, e suas mãos se fecharam na nuca de Kuro, puxando-o para mais perto.
Kuro sentiu a eletricidade percorrer seu corpo. O gosto dela era único — salgado e doce ao mesmo tempo, como a brisa do oceano ao entardecer. Ele a envolveu com os braços, puxando-a para a borda da piscina, ignorando a água que molhava sua bermuda. A cauda de Tatsuyo bateu com força na superfície, uma reação instintiva à intensidade do que estava sentindo.
Para Tatsuyo, o beijo era uma explosão de sensações. O calor de Kuro parecia invadir seus pulmões, substituindo a necessidade de água. Era como se ela estivesse finalmente descobrindo o que significava ser "especial", uma palavra que Emma usara tantas vezes.
Eles se separaram lentamente, mantendo as testas encostadas. A respiração de ambos era pesada e errática.
— Isso... — Tatsuyo começou, a voz trêmula — ...isso é muito mais poderoso do que compartilhar fôlego.
Kuro riu baixinho, ainda com os olhos fechados, sentindo a adrenalina diminuir gradualmente.
— É, sereiazinha. Eu te disse que o mundo humano tinha seus truques.
Tatsuyo abriu os olhos e o observou com uma nova profundidade. Ela tocou o colar de estrela-do-mar que ele lhe dera, que agora brilhava intensamente sob a luz da piscina.
— Kuro, se eu decidir usar o ritual... se eu decidir ter pernas por um tempo... você estaria lá?
O coração de Kuro deu um salto. Ele sabia o que aquilo significava. O sacrifício, a dor que ela mencionara antes.
— Eu estaria em cada passo, Tatsuyo. Eu te carregaria se você não conseguisse andar. Eu te mostraria tudo o que as dunas escondem.
Tatsuyo sorriu, e desta vez o sorriso não era de uma criança curiosa, mas de uma jovem que acabara de descobrir um novo tipo de magia.
— O meu povo diz que os humanos são perigosos porque eles querem possuir tudo o que veem — disse ela, acariciando o rosto dele. — Mas eu não sinto que você quer me possuir, Kuro. Eu sinto que você quer me descobrir.
— Há muita coisa para descobrir — Kuro respondeu, recuperando um pouco de seu tom brincalhão, embora seus olhos ainda estivessem sérios. — Por exemplo, eu ainda não entendi como você consegue ser tão bonita mesmo cheirando a alga.
Tatsuyo deu um tapa leve no ombro dele, fazendo a água espirrar.
— E você cheira a terra seca e a esse tecido estranho que você usa!
Eles riram juntos, um som que rompeu o silêncio pesado da noite. Kuro sentou-se na borda da piscina e Tatsuyo descansou a cabeça em seu colo, deixando a cauda flutuar calmamente. Ele começou a passar os dedos pelos cabelos dela, desfazendo alguns nós e sentindo a textura das pérolas.
— Sabe — disse Tatsuyo, olhando para as estrelas —, no fundo do mar, as estrelas não brilham assim. Elas são apenas pontos baços de luz que atravessam a água. Aqui... elas parecem diamantes espalhados por um manto escuro.
— Elas estão lá para nos guiar — explicou Kuro. — Os marinheiros as usavam para encontrar o caminho de casa quando estavam perdidos no mar.
Tatsuyo virou o rosto para olhar para ele.
— E quem guia você, Kuro?
Kuro olhou para ela, para a cauda branca que brilhava sob a água e para o colar que repousava sobre as conchas.
— Acho que, a partir de agora, eu vou seguir o tilintar das pérolas — disse ele, com uma sinceridade que o surpreendeu.
Eles ficaram ali por muito tempo, conversando em sussurros sobre as diferenças entre seus mundos. Tatsuyo contou sobre as cidades de coral que mudavam de cor de acordo com a música das correntes, e Kuro contou sobre as cidades de pedra e vidro que nunca dormiam.
Aos poucos, a cor do céu começou a mudar de um azul profundo para um tom de lavanda pálido. O amanhecer estava chegando.
— Você precisa descansar — disse Kuro, notando que os olhos de Tatsuyo estavam ficando pesados. — Amanhã será um dia longo. Nico e Emma querem te mostrar o que é "televisão".
Tatsuyo bocejou, revelando dentes pequenos e perfeitos.
— Mais uma magia humana?
— Quase isso. É uma janela para outros mundos, mas nenhum deles é tão interessante quanto o seu.
Tatsuyo deslizou de volta para o centro da piscina, preparando-se para mergulhar e dormir no fundo, onde se sentia mais segura.
— Kuro? — ela chamou antes de submergir.
— Sim?
— O beijo... nós podemos fazer isso de novo amanhã?
Kuro sentiu um sorriso involuntário dominar seu rosto.
— Quantas vezes você quiser, sereiazinha.
Tatsuyo deu uma pirueta na água, fazendo sua cauda branca chicotear a superfície em uma despedida alegre, antes de desaparecer nas profundezas azuis.
Kuro permaneceu na borda por mais alguns minutos, observando as bolhas subirem. Ele tocou os próprios lábios, ainda sentindo o gosto do sal e a lembrança do frio da pele dela. Ele sabia que o que estava acontecendo era perigoso, que o segredo de Tatsuyo era uma carga pesada e que o mundo lá fora não seria gentil se descobrisse a verdade.
Mas, enquanto caminhava de volta para dentro de casa, sentindo o calor do sol que começava a nascer em suas costas, ele percebeu que não tinha mais medo. Ele era o engenheiro de um tipo novo de ponte — uma que ligava a areia firme ao abismo desconhecido. E, pela primeira vez em sua vida de dezessete anos, Kuro sentia que tinha encontrado algo pelo qual valia a pena lutar, mesmo que isso significasse enfrentar todas as tempestades do oceano.
Quando ele entrou na sala, Nico estava começando a acordar no sofá ao lado.
— Ei, cara... — Nico bocejou, esfregando os olhos verdes. — Você já está acordado? Onde estava?
Kuro olhou para o amigo e deu um sorriso enigmático, ajeitando o cabelo branco repicado.
— Só fui verificar a engenharia da piscina, Nico. Aparentemente, a adesão das conchas é muito mais forte do que eu imaginava.
Nico revirou os olhos, sem entender a profundidade do que o amigo dizia.
— Você não tem jeito, Kuro. Vá dormir um pouco. Temos um longo dia pela frente.
Kuro acenou com a cabeça e deitou-se no sofá, fechando os olhos. Mas ele não dormiu imediatamente. Em sua mente, ele ainda ouvia o tilintar das pérolas e sentia o fôlego compartilhado de uma sereia que, contra todas as probabilidades, tinha decidido que o calor da terra era algo que valia a pena conhecer. E ele, o garoto engraçadinho e tarado do Píer de Prata, estava disposto a ser o sol particular dela, enquanto as ondas permitissem que ela ficasse.