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seu inimigo te beijou

Equações de Desejo e Caos

O silêncio que se seguiu ao meu desafio foi preenchido apenas pelo som das nossas respirações pesadas, um compasso desordenado que ecoava nas paredes estreitas do quarto. Maike não era apenas um nerd com notas impecáveis; ele era um estrategista. E, naquele momento, ele estava mapeando cada reação do meu corpo com uma precisão que me deixava vulnerável e, ao mesmo tempo, em brasa.

— Você sempre teve esse hábito de me desafiar, não é? — murmurou ele contra a minha pele, enquanto seus lábios traçavam o contorno da minha orelha. — Desde a primeira aula de Algoritmos, quando você levantou a mão só para apontar um erro mínimo no meu código.

— O erro existia, Maike — respondi, tentando manter a voz firme, embora o toque dele estivesse transformando meus ossos em algo líquido. — Você só não suportava que alguém pudesse ver além da sua fachada de perfeição.

Ele soltou uma risada baixa, um som vibrante que senti contra o meu peito. Ele soltou meus pulsos, mas não para me dar liberdade, e sim para deslizar as mãos grandes pelas minhas costelas, subindo lentamente até que suas palmas emoldurassem meu rosto.

— Eu nunca fui perfeito — disse ele, os olhos pretos fixos nos meus, despidos da barreira das lentes dos óculos. — Mas você... você é a única variável que eu nunca consegui prever. E isso me irrita profundamente.

— Que pena — provoquei, sentindo uma onda de audácia. — O grande Maike, o gênio da computação, finalmente encontrou um problema que não consegue resolver com lógica?

— Eu já resolvi o problema — rebateu ele, aproximando o rosto do meu até que nossas pontas de nariz se tocassem. — Eu só estava esperando que você parasse de lutar contra o óbvio.

Ele me beijou novamente, mas desta vez não havia a agressividade faminta de antes. Era um beijo profundo, exploratório, carregado de uma intimidade que me assustava mais do que qualquer briga aos gritos no corredor. Minhas mãos, agora livres, subiram para a nuca dele, os dedos se perdendo nos fios pretos e macios do seu cabelo. Ele soltou um gemido baixo, um som de pura rendição que fez meu coração martelar contra as costelas.

Maike se moveu, posicionando-se melhor entre minhas pernas, o peso do seu corpo de 1,89m sendo uma lembrança constante de que ele não era apenas o garoto dos livros, mas uma força da natureza. A camisa dele, já aberta, roçava na minha pele, criando uma eletricidade estática que parecia incendiar o ar.

— A gente vai se arrepender disso amanhã — sussurrei, embora não fizesse o menor esforço para afastá-lo.

— Provavelmente — concordou ele, a voz rouca, enquanto descia os beijos para a curva do meu pescoço, encontrando aquele ponto sensível que me fez arquear as costas e soltar um suspiro trêmulo. — Amanhã podemos voltar a nos odiar. Podemos brigar por causa da louça suja, do volume da música ou da sua mania de deixar livros espalhados pelo chão. Mas hoje... hoje eu não quero lógica.

Ele se afastou um pouco, apenas o suficiente para me olhar nos olhos. A luz do abajur criava sombras dramáticas em seu rosto, destacando a linha forte do maxilar e a intensidade do seu olhar.

— Diga que você me quer — pediu ele, a voz soando como um comando e uma súplica ao mesmo tempo. — Diga que esse ódio todo é apenas a casca de algo que você está morrendo de vontade de sentir.

Eu o encarei, sentindo o peso da verdade esmagando meu orgulho. Por meses, eu tinha usado a raiva como um escudo. Era mais fácil odiá-lo do que admitir que o som da sua voz me distraía durante as aulas, ou que a forma como ele ajeitava os óculos me deixava sem fôlego.

— Eu te odeio, Maike — eu disse, a voz mal passando de um sussurro. — Mas eu quero você tanto que chega a doer.

O sorriso que surgiu em seus lábios não era cínico. Era vitorioso, mas também carregado de uma ternura inesperada. Ele voltou a me beijar, um selinho demorado que se transformou em algo mais urgente. Suas mãos desceram para a barra da minha blusa, pedindo permissão silenciosa. Eu assenti, e em um movimento fluido, ele a removeu, jogando-a em algum lugar do chão.

Quando sua pele quente finalmente encontrou a minha, senti como se todas as peças de um quebra-cabeça complexo finalmente tivessem se encaixado. Maike era metódico em tudo o que fazia, e na cama não era diferente. Cada toque dele era pensado para extrair uma reação, cada beijo era uma pergunta que meu corpo respondia prontamente.

— Você é tão irritante — ele murmurou, as mãos percorrendo minhas curvas com uma possessividade que me fazia estremecer. — Tão teimosa. Tão... minha.

— Eu não sou sua, Maike — retruquei, embora estivesse puxando-o para mais perto, querendo eliminar qualquer resquício de espaço entre nós.

— É sim — insistiu ele, os olhos brilhando com uma chama sombria. — Da mesma forma que eu sou seu. É uma destruição mútua assegurada.

Ele desceu o corpo, beijando a trilha de pele do meu abdômen, fazendo meus dedos se enterrarem nos lençóis da cama. A tensão que tínhamos acumulado durante todo o semestre estava explodindo ali, naquela cama de solteiro apertada, transformando o ódio em algo muito mais perigoso e viciante.

— Maike... — chamei, minha voz falhando quando ele encontrou um ponto particularmente sensível.

— Shh — ele murmurou, voltando a subir para encontrar meus lábios. — Deixa que eu cuido disso. Apenas sinta.

O tempo pareceu perder o sentido. O mundo lá fora, com os prazos de entrega de trabalhos, as competições acadêmicas e as discussões triviais, desapareceu completamente. Havia apenas o calor da pele, o cheiro de sândalo e a descoberta de que o meu inimigo era, na verdade, o meu encaixe perfeito.

Horas depois, a respiração de Maike se acalmou, tornando-se rítmica contra o meu ombro. Estávamos emaranhados nos lençóis, o suor esfriando em nossos corpos. O quarto estava mergulhado em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio em algum lugar.

Ele não tinha voltado para a cama dele. Continuava ali, ocupando o meu espaço, com um braço jogado por cima da minha cintura, como se estivesse reivindicando território.

— Você está acordada? — perguntou ele, a voz abafada pelo meu cabelo.

— Sim — respondi, encarando o teto. — Pensando em como vai ser estranho tomar café com você amanhã.

Ele soltou uma risada curta e me apertou mais contra ele.

— Vai ser exatamente como sempre — disse ele. — Eu vou reclamar que você não lavou a cafeteira, e você vai me mandar para aquele lugar. A única diferença é que, agora, nós dois sabemos o que acontece quando a porta se fecha.

Virei-me de lado para encará-lo. Sem os óculos e com o cabelo bagunçado, ele parecia menos o gênio intimidador e mais... humano.

— Você é um idiota, sabia? — eu disse, mas não havia veneno nas minhas palavras.

Maike inclinou-se e me deu um beijo rápido e suave na testa.

— E você é a minha idiota favorita. Agora dorme. Amanhã temos uma aula de Cálculo às oito, e eu não vou deixar você chegar atrasada só porque resolveu ter uma crise existencial.

— Eu te odeio — murmurei, fechando os olhos e me acomodando no peito dele.

— Eu também te amo, sua chata — respondeu ele, tão baixo que quase pensei ter imaginado.

Mas eu sabia que não tinha imaginado. E, enquanto o sono me vencia, percebi que aquela briga no corredor tinha sido a melhor coisa que já nos acontecera. O código entre nós tinha sido finalmente quebrado, e o resultado era muito mais interessante do que qualquer algoritmo que Maike pudesse criar.

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