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seu inimigo te beijou

Algoritmos de uma Noite Insonora

A luz cinzenta da madrugada começou a se infiltrar pelas frestas da persiana, desenhando linhas pálidas sobre o tapete desordenado do dormitório. O peso do braço de Maike sobre a minha cintura era uma âncora constante, algo que, teoricamente, deveria me incomodar, mas que na prática parecia o único ponto de equilíbrio em um mundo que tinha acabado de virar de cabeça para baixo. Eu o observei por alguns instantes; sem a barreira defensiva dos óculos de grau, os cílios longos dele projetavam sombras suaves em suas bochechas. Ele parecia quase pacífico, se é que a palavra "paz" poderia ser aplicada a alguém que passava o dia inteiro tentando provar que eu estava errada.

Tentei me mexer devagar para alcançar o celular na mesa de cabeceira, mas o aperto dele aumentou instantaneamente.

— Aonde você pensa que vai? — A voz de Maike soou rouca, arrastada pelo sono, vibrando contra as minhas costas.

— São seis da manhã, Maike. Preciso de água. E você precisa voltar para a sua cama antes que a fiscal do corredor decida fazer a ronda matinal — respondi, embora não fizesse nenhum esforço real para me soltar.

Ele soltou um resmungo baixo e enterrou o rosto na curva do meu pescoço, aspirando o ar com uma lentidão deliberada.

— A fiscal não entra nos quartos sem bater. E a minha cama está muito longe daqui — ele disse, a voz ganhando clareza. — Cerca de dois metros de distância. Uma jornada impossível.

— Você é ridículo — eu disse, deixando um sorriso escapar.

— E você está sorrindo. Isso é um erro de sistema? — Ele se apoiou em um cotovelo, olhando para mim de cima. O cabelo preto estava uma bagunça completa, caindo sobre a testa, e os olhos escuros já brilhavam com aquela inteligência afiada que sempre me desafiava.

— É cansaço. O sono faz as pessoas terem reações involuntárias.

Maike estendeu a mão e tocou a ponta do meu nariz com o indicador, um gesto surpreendentemente casual para alguém que, até doze horas atrás, trocava insultos comigo sobre a eficiência de uma linguagem de programação.

— Lógica negada. Você está sorrindo porque, pela primeira vez em dois anos, parou de tentar me expulsar do seu campo de visão.

— Não se acostume — eu avisei, sentando-me na cama e puxando o lençol para cobrir o corpo. — Isso foi... uma anomalia. Um evento isolado causado por altos níveis de estresse pré-provas.

Maike sentou-se logo em seguida, a pele clara do seu torso largo brilhando sob a luz fraca. Ele tateou a mesa de cabeceira até encontrar os óculos e os colocou, ajustando a armação com o dedo médio. O "Nerd Sexy" estava de volta, completo com aquele olhar analítico que parecia ler meus pensamentos mais profundos.

— Uma anomalia com duração de quatro horas e meia e uma intensidade térmica considerável — ele comentou, com um meio sorriso cínico. — Se eu fosse publicar um artigo sobre essa sua teoria, ele seria rejeitado por falta de consistência nos dados.

— Eu odeio o fato de você transformar tudo em uma analogia acadêmica — eu disse, jogando um travesseiro nele.

Ele pegou o travesseiro no ar com uma mão só, rindo baixo.

— E eu odeio o fato de você ser tão previsível na sua negação.

Ficamos em silêncio por um momento, a realidade do que tínhamos feito finalmente se assentando entre nós. Não era apenas sexo; era o colapso de uma barreira que tínhamos construído com muito cuidado. Ser inimigo de Maike era seguro. Significava que eu sabia onde ele estava e o que esperar dele. Agora, o território era desconhecido.

— O que acontece agora? — perguntei, a vulnerabilidade escapando na minha voz antes que eu pudesse contê-la.

Maike deixou o travesseiro de lado e se aproximou, diminuindo a distância até que nossos joelhos se tocassem. Ele pegou minha mão, traçando os nós dos meus dedos com o polegar.

— Agora? — Ele repetiu, a voz suavizando. — Agora nós vamos para a aula. Você vai sentar na terceira fila, eu vou sentar na última. Você vai discordar de alguma teoria do professor e eu vou revirar os olhos, porque você provavelmente estará sendo idealista demais.

— E depois? — insisti.

— E depois, quando voltarmos para cá, eu vou trancar a porta — ele disse, puxando minha mão para os lábios dele e beijando a palma. — E vou te lembrar que, por baixo de toda essa nossa pose de intelectuais rivais, a gente funciona melhor do que qualquer algoritmo que eu já escrevi.

— Você é muito convencido — eu disse, sentindo meu coração acelerar novamente.

— Sou eficiente — corrigiu ele. — Há uma diferença.

Eu me levantei, finalmente conseguindo sair da cama, e comecei a procurar minhas roupas espalhadas pelo chão. Maike me observava com uma intensidade que fazia minha pele formigar.

— Pare de me analisar — eu disse, vestindo minha camiseta.

— Não estou te analisando. Estou admirando a vista. É uma variável que eu pretendo estudar com frequência a partir de agora.

— Maike, estamos falando sério. O que as pessoas vão dizer? Todo mundo na faculdade sabe que a gente não se suporta.

Ele se levantou também, caminhando em minha direção com aquela altura intimidadora de 1,89m. Ele parou bem na minha frente, forçando-me a inclinar a cabeça para trás para encará-lo.

— Deixe que eles falem. Deixe que eles achem que ainda estamos em guerra — ele sussurrou, as mãos descendo para os meus ombros. — Vai ser o nosso segredo. O "inimigo" que você mais deseja.

— Isso soa como o enredo de um livro ruim — eu brinquei, embora estivesse segurando a barra da camisa dele.

— Ou de um código muito bem criptografado — ele rebateu, inclinando-se para me dar um beijo rápido, mas possessivo. — Agora, vai tomar seu banho. Eu vou preparar o café. E, para o seu governo, eu vou usar a sua caneca favorita.

— Se você encostar na minha caneca de cerâmica, eu te mato! — gritei, enquanto caminhava para o banheiro.

— Viu? — a voz dele ecoou do quarto, cheia de diversão. — O ódio ainda está aí. Saudável e vibrante.

Fechei a porta do banheiro e encostei a testa na madeira fria, tentando controlar o sorriso idiota que insistia em aparecer. O chuveiro ligou, e enquanto a água quente começava a relaxar meus músculos, eu percebi que a nossa dinâmica tinha mudado para sempre. Maike era irritante, arrogante e nerd demais para o seu próprio bem, mas ele também era a única pessoa que conseguia me incendiar com apenas um olhar por cima daqueles óculos.

Quando saí do banho, o cheiro de café fresco já preenchia o quarto. Maike estava vestido, com os cabelos ainda um pouco úmidos, sentado em sua própria escrivaninha com o notebook aberto. Ele parecia perfeitamente normal, como se a noite anterior não tivesse acontecido. Mas, quando ele me viu, seus olhos brilharam de uma forma que ninguém mais via.

— O café está pronto. E não, eu não quebrei sua caneca — ele disse, sem tirar os olhos da tela. — Mas você deixou seu livro de Cálculo aberto na página errada. O teorema de Green não se aplica a esse tipo de integral.

Eu respirei fundo, sentindo a irritação familiar borbulhar.

— Ele se aplica se você considerar a região como simplesmente conexa, seu idiota!

Maike finalmente fechou o notebook e se levantou, caminhando até mim com um sorriso triunfante.

— Prove — ele desafiou, parando a centímetros de distância.

— Eu vou provar. No laboratório. Na frente de todo mundo.

— Mal posso esperar — ele murmurou, pegando a caneca de café da minha mão e tomando um gole antes de me devolver. — Mas agora, vamos. Temos dez minutos para atravessar o campus.

Caminhamos pelo corredor do dormitório mantendo uma distância segura, como se fôssemos apenas dois colegas de quarto que mal se falavam. Mas, por baixo da mesa da cafeteria, quando nos sentamos para um lanche rápido antes da aula, senti o pé de Maike roçar no meu.

— Você está me chutando? — perguntei, fingindo indignação para quem estivesse por perto.

— Apenas verificando se o sistema ainda está online — ele respondeu, com a expressão mais séria do mundo enquanto lia um artigo no tablet.

Eu chutei a canela dele por baixo da mesa. Ele nem piscou, mas vi o canto da sua boca subir ligeiramente.

A aula de Cálculo foi uma tortura. Eu sentia o olhar dele nas minhas costas o tempo todo. Quando o professor fez uma pergunta difícil, eu levantei a mão e respondi com precisão cirúrgica. Maike soltou um estalo de língua audível lá do fundo da sala.

— Discorda, senhor Maike? — perguntou o professor, ajustando os óculos.

Maike inclinou-se para frente, a voz grave ecoando pela sala silenciosa.

— A resposta está correta, professor. Mas o método dela é... desnecessariamente complicado. Existe um caminho mais elegante.

Eu me virei na cadeira, lançando-lhe um olhar que poderia derreter aço.

— Elegância não substitui a precisão, Maike. Talvez se você focasse menos na estética do código e mais na funcionalidade, não perderia tanto tempo.

A sala inteira soltou um "ohhh" coletivo. Era o que eles esperavam de nós. A rivalidade clássica. O ódio público.

— Funcionalidade é o meu segundo nome — ele rebateu, sustentando meu olhar com uma intensidade que fez meu estômago dar voltas. — Mas alguns preferem o caminho difícil.

O professor riu, acostumado com nossas brigas.

— Bem, continuem essa discussão no dormitório, por favor. Vamos seguir com a matéria.

Durante o restante da aula, eu não consegui me concentrar em um único gráfico. A imagem de Maike sem camisa, com os óculos jogados na mesa de cabeceira e a voz rouca confessando que me queria, sobrepunha-se a qualquer equação diferencial.

Quando o sinal tocou, saí apressada, querendo ar fresco. Maike me alcançou perto dos jardins da biblioteca. Ele caminhava com passos largos, a mochila pendurada em um ombro só.

— "Desnecessariamente complicado"? — perguntei, parando e virando-me para ele quando estávamos longe de ouvidos curiosos. — Você é um chato.

— E você caiu direitinho — ele disse, parando na minha frente. — Ninguém suspeita de nada. Eles acham que você quer me matar.

— E eu quero.

— Quer? — Ele deu um passo para dentro do meu espaço pessoal, a sombra dele me cobrindo. — Porque a forma como você me apertou hoje cedo sugeria o contrário.

— Maike, aqui não — eu sussurrei, olhando em volta.

— Ninguém está olhando — ele disse, a voz baixando para aquele tom perigoso. — Eles veem o que querem ver. Eles veem dois nerds brigando por matemática. Eles não veem a tensão que está quase me fazendo te arrastar de volta para aquele quarto agora mesmo.

Senti meu rosto esquentar. A audácia dele era inesgotável.

— Você tem um ego gigante, sabia?

— Tenho 1,89m de ego, para ser exato — ele brincou, mas seus olhos estavam sérios. — Escuta, eu tenho um monitoria agora. Mas te vejo às sete para o jantar?

— Só se você não reclamar do meu gosto para comida tailandesa.

— Eu vou reclamar. Mas vou comer mesmo assim, porque você fica adorável quando tenta defender o uso excessivo de pimenta.

Ele se inclinou, e por um segundo achei que ele fosse me beijar ali mesmo, no meio do campus. Mas ele apenas ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha escapado do elástico, um toque tão leve e íntimo que foi mais impactante do que um beijo.

— Até as sete — ele disse, afastando-se com aquele andar confiante.

Eu o observei ir embora, sentindo uma mistura estranha de exaustão e euforia. O dia seria longo, e a noite prometia ser ainda mais complexa do que qualquer problema de física quântica.

Ao voltar para o quarto no fim da tarde, encontrei um post-it colado na tela do meu notebook. A letra de Maike era inclinada e precisa, quase como uma fonte de computador.

"A integral da página 142 estava certa. Eu só queria ver você brava. A pimenta é por minha conta hoje. P.S.: Tranquei a porta, mas deixei a chave reserva com você. Não se atrase."

Eu amassei o papel, sorrindo contra a minha vontade. Aquele era o nosso código. Uma mistura de insultos, desafios intelectuais e um desejo que queimava mais do que qualquer lógica. Maike era o meu maior erro de cálculo, e eu não tinha a menor intenção de corrigir a equação.

O som da chave girando na fechadura às sete em ponto me fez pular do sofá. Maike entrou, trazendo o cheiro de comida tailandesa e aquela presença avassaladora que agora eu reconhecia como o meu novo lar.

— Cheguei — anunciou ele, fechando a porta e, como prometido, girando a tranca.

— Você está um minuto atrasado — eu disse, cruzando os braços.

Ele deixou as sacolas sobre a mesa e caminhou até mim, retirando os óculos e colocando-os cuidadosamente sobre a estante de livros.

— Então acho que vou ter que compensar o atraso — murmurou ele, puxando-me pela cintura para um beijo que provava, de uma vez por todas, que o ódio era apenas a superfície de algo muito mais profundo e perigosamente viciante.

Ali, entre livros de programação e restos de café, a nossa guerra particular continuava. Mas, desta vez, ambos estávamos ganhando.

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