Shanlan
O Crepúsculo da Honra
O silêncio na caverna era interrompido apenas pelo estalar da lenha consumida pelo fogo e pelo uivo constante da nevasca lá fora. Mulan observava as sombras dançarem nas paredes de pedra, sentindo o calor do corpo de Shan Yu às suas costas. Ele era uma presença avassaladora, uma montanha de músculos e cicatrizes que, paradoxalmente, oferecia o único refúgio que ela conhecia agora.
Sua mente, no entanto, era um campo de batalha mais sangrento do que as encostas do Tung-Shao. As palavras de Shan Yu sobre vingança ecoavam em seus ouvidos como um tambor de guerra. "Eles vão pagar", ele dissera. E uma parte dela, a parte que ainda sentia o frio da lâmina de Shang contra seu pescoço e o olhar de desprezo de seus companheiros, desejava ver a Cidade Imperial em chamas. Ela imaginava o Imperador, cercado por seus conselheiros misóginos, percebendo tarde demais que a mulher que eles descartaram era a mesma que abriria os portões para o lobo.
Mas então, a imagem de seu pai surgiu. Fa Zhou, com sua perna ferida e sua honra inabalável. O homem que rezava aos ancestrais por sua proteção. Se ela ajudasse Shan Yu a conquistar a China, o que aconteceria com a vila dos Fa? O que aconteceria com as crianças, com as mulheres que, como ela, apenas tentavam sobreviver em um mundo que não as valorizava?
Sentindo a agitação dela, Shan Yu moveu a mão pesada, traçando o contorno de seu ombro com uma lentidão possessiva.
— Você está pensando demais, pequena guerreira — a voz dele vibrou contra as costas de Mulan, profunda e áspera. — O conflito em seu coração é mais barulhento que a tempestade.
Mulan se virou no abraço dele, encontrando aqueles olhos amarelados que pareciam ler sua alma. Ela não se encolheu. Nunca mais se encolheria.
— Eu odeio o que eles me fizeram — disse ela, a voz firme, apesar da turbulência interna. — Eu odeio um sistema que me vê como nada além de uma decepção por ter nascido mulher. Mas... eu não sou um monstro, Shan Yu. Não posso entregar inocentes à sua horda. Não posso ver minha família ser esmagada sob os cascos de seus cavalos.
Shan Yu soltou um rosnado baixo, sentando-se e puxando-a para que ela ficasse de frente para ele. A luz do fogo realçava as linhas duras de seu rosto, a mandíbula forte e o olhar de um predador que não estava acostumado a ser questionado.
— Eles a deixaram para morrer — lembrou ele, a mão subindo para o pescoço dela, não para apertar, mas para sentir o pulso acelerado. — A honra deles é uma mentira. Por que você protege um império que a vomitou como se você fosse um veneno?
— Eu não protejo o Império — rebateu Mulan, os olhos brilhando com uma determinação que fez Shan Yu inclinar a cabeça, fascinado. — Eu protejo as pessoas. Há uma diferença. Se eu levar você até o palácio, eu me tornarei exatamente o que eles disseram que eu era: uma vergonha. Uma traidora sem honra.
Shan Yu soltou uma risada seca, um som que parecia rasgar o ar.
— Honra é uma palavra inventada por homens fracos para manter os fortes sob controle. Eu não ligo para a sua honra, Mulan. Eu ligo para a sua força. E a sua força pertence a mim agora.
Mulan sentiu o desafio no tom dele. Ela sabia que ele poderia forçá-la. Ele era imensamente mais forte, e ela ainda estava se recuperando. Mas havia algo entre eles que transcendia a força bruta. Havia um respeito sombrio, uma conexão forjada no sangue e no gelo.
— Se você me forçar a ser sua guia para a destruição do meu povo — começou ela, aproximando o rosto do dele, até que suas testas se tocassem —, você terá o meu corpo, mas terá uma faca na garganta enquanto dorme. Eu não serei sua escrava, Shan Yu. Eu serei sua igual ou não serei nada.
O líder dos Hunos estreitou os olhos. O silêncio se estendeu, tenso como uma corda de arco prestes a romper. Ele a estudou, vendo a beleza feroz e a inteligência estratégica que o haviam derrotado na montanha. Ele não queria uma guia quebrada; ele queria aquela chama.
— Então, o que você propõe? — perguntou ele, a voz baixando para um sussurro perigoso. — Você quer que eu dê meia-volta e esqueça a minha conquista? Que eu poupe o Imperador porque uma garota me pediu com olhos marejados?
— Eu não peço nada com lágrimas — sibilou Mulan. — Eu proponho um pacto. A China me deu as costas, e eu não voltarei para lá. Para eles, Fa Mulan morreu na neve. Eu não vou salvá-los, mas também não vou ajudá-lo a destruí-los.
Shan Yu ergueu uma sobrancelha, o interesse despertado.
— Você quer desaparecer.
— Eu quero o Norte — disse ela, um plano começando a se formar em sua mente. — As terras além da muralha. Onde a força é a única lei e onde ninguém se importa com quem foi meu pai ou qual é o meu gênero. Se você quer que eu fique ao seu lado, que eu seja sua... — ela hesitou por um segundo antes de continuar — ...sua companheira de guerra, então sua guerra contra a China termina aqui. Leve seu exército para as estepes. Conquiste o que o mundo ainda não mapeou.
Shan Yu soltou uma gargalhada genuína, um som estrondoso que ecoou pelas paredes da caverna. Ele a agarrou pela cintura, derrubando-a sobre as peles e ficando por cima dela, seu peso imenso prendendo-a contra o chão de pedra coberto de couro.
— Você é arrogante, pequena fênix. Pedir a um conquistador que mude sua rota de invasão por causa de um capricho.
— Não é um capricho — disse ela, passando as mãos pelos braços musculosos dele, sentindo a pele quente e áspera. — É o preço para me ter. Você disse que eu sou sua pelo direito de conquista. Mas eu digo que só serei sua por escolha. E minha escolha é o exílio. Longe deles. Longe da hipocrisia de Pequim.
Shan Yu mergulhou o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de fumaça e neve que emanava de sua pele. Ele era um homem de apetites vorazes, e a ideia de possuir Mulan por completo — não apenas sua carne, mas sua vontade — era mais tentadora do que qualquer trono de ouro na Cidade Proibida. O Império Chinês sempre estaria lá, mas uma mulher como aquela surgia uma vez a cada mil anos.
— O Norte é cruel — murmurou ele, seus lábios roçando a orelha dela. — É uma terra de lobos e gelo eterno. Você morreria em uma semana sem a proteção da sua civilização.
Mulan sorriu, um sorriso sombrio e sexy que Shan Yu nunca tinha visto. Ela puxou a cabeça dele para trás pelos cabelos, forçando-o a olhar para ela.
— Eu sobrevivi a você, não sobrevivi? Eu sobrevivi a uma avalanche que eu mesma provoquei. O gelo é meu elemento, Shan Yu. E quanto aos lobos... eu estou deitada com o rei deles agora.
O olhar de Shan Yu se incendiou. A audácia dela o excitava de uma forma que nenhuma batalha jamais conseguira. Ele a beijou com uma ferocidade possessiva, reivindicando sua boca como se estivesse marcando um território. Suas mãos grandes e calejadas exploraram cada curva do corpo dela, desfazendo-se dos restos da túnica com uma impaciência bruta.
— Você me convenceu, pequena raivosa — rosnou ele entre beijos. — A China não merece o seu sangue. Deixaremos que eles apodreçam em sua própria estagnação. Nós construiremos algo novo nas terras altas. Onde o medo e a força são as únicas moedas.
Aquela noite, o sexo entre eles foi uma celebração de aliança e poder. Shan Yu era áspero e exigente, levando Mulan ao limite de sua resistência física, mas havia um cuidado estranho em como ele sustentava o peso de seu corpo para não reabrir a ferida dela totalmente. Ele era carinhoso à sua maneira bruta, mordendo o ombro dela enquanto a possuía, deixando marcas que diziam ao mundo a quem ela pertencia.
Mulan respondeu com a mesma intensidade vingativa. Ela não era uma flor passiva; ela era uma tempestade. Ela cravava as unhas nas costas dele, devolvendo cada sussurro rouco com um comando ou um gemido de prazer que parecia um grito de guerra. No auge da paixão, ela não via mais o inimigo da China, mas o único homem que a olhara e vira não uma filha, não uma noiva, mas uma força da natureza.
Horas depois, enquanto a nevasca começava a ceder e os primeiros raios de um sol pálido filtravam-se pela entrada da caverna, Mulan descansava a cabeça no peito largo de Shan Yu. O som do coração dele era como um tambor constante, uma promessa de vida.
— O que faremos com o seu falcão? — perguntou ela baixinho, observando a ave de rapina pousada em um poleiro improvisado perto da entrada.
— Hayabusa verá o que nós vemos — respondeu Shan Yu, acariciando os cabelos negros de Mulan. — Ele verá o nascimento de um novo império. Um que não precisa de muralhas para se sentir seguro.
Mulan fechou os olhos, sentindo uma paz estranha. Ela sabia que, para o mundo, ela era um fantasma. Uma traidora. Para seu pai, ela seria uma dor eterna, e essa era a única parte que ainda lhe apertava o peito. Mas ela se convenceu de que era melhor que ele pensasse que ela morrera com honra do que soubesse que ela agora cavalgava ao lado do maior inimigo da nação.
— Você tem certeza disso? — perguntou Shan Yu, sua voz voltando ao tom estrategista e inteligente. — Assim que cruzarmos a fronteira final, não haverá volta. Se você mudar de ideia, se a saudade da sua casa a atingir... eu não sou um homem que perdoa deserções.
Mulan levantou o olhar para ele. Seus olhos estavam limpos, sem rastro de dúvida.
— Minha casa me abandonou em uma vala fria. Minha casa me desonrou antes mesmo de eu saber quem eu era. Eu não tenho casa, Shan Yu. Eu tenho apenas o futuro.
Shan Yu sorriu, um gesto que raramente chegava aos seus olhos, mas que agora os iluminava com um brilho quase terno. Ele se inclinou e beijou a testa dela, um gesto de respeito que valia mais do que qualquer palavra.
— Então prepare-se, pequena guerreira. Assim que a neve assentar, partiremos para o Norte. Meu exército está disperso, mas eles se reunirão ao meu chamado. E quando virem você ao meu lado... quando virem o que você é capaz de fazer... eles se ajoelharão diante da mulher que foi mais forte que a montanha.
Mulan sentiu um arrepio de antecipação. O destino que ela imaginara para si mesma — o de uma esposa silenciosa ou o de um soldado escondido — fora destruído. Em seu lugar, surgia algo muito mais perigoso e excitante.
Ela não salvaria a China. Ela não destruiria a China. Ela simplesmente deixaria a China para trás, um capítulo encerrado em um livro que agora seria escrito com sangue, peles e a liberdade selvagem das estepes.
— Eles vão pensar que eu morri — sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele.
— Deixe que pensem — disse Shan Yu, levantando-se e começando a vestir sua armadura, seus movimentos exalando uma força bruta e sexy. — Deixe que vivam em suas casas de papel e chá. Nós temos o mundo inteiro para conquistar. E eu quero você ao meu lado quando o fizermos.
Mulan levantou-se também, ignorando a pontada de dor em seu flanco. Ela pegou a espada curva de Shan Yu que estava encostada na parede e a pesou na mão. Era pesada, diferente da lâmina equilibrada de seu pai, mas ela aprenderia a usá-la. Ela aprenderia tudo o que precisasse para sobreviver naquele novo mundo.
— Eu não serei apenas uma companheira, Shan Yu — disse ela, apontando a ponta da espada para o peito dele, um desafio final. — Eu serei a sua general.
Shan Yu parou, um brilho de orgulho selvagem cruzando suas feições. Ele deu um passo à frente, encostando o peito na ponta da lâmina, sem medo.
— Eu não aceitaria nada menos do que isso.
Lá fora, a tempestade finalmente parou. O sol refletia na neve branca, criando um brilho ofuscante que parecia apagar o passado. Mulan caminhou até a entrada da caverna, olhando para as montanhas que um dia chamara de lar. Ela não sentia tristeza. Sentia apenas o gelo em suas veias se transformando em fogo.
A China perdera seu maior trunfo. E o Norte acabara de ganhar sua rainha mais feroz. Ao lado do lobo, a fênix de gelo estava pronta para voar para onde ninguém jamais ousara ir. E o mundo, em breve, saberia o nome daquela que se recusou a ser apenas uma lembrança na neve.