Shes my woman
Cinzas e Cicatrizes
O terraço da escola era o único lugar onde o vento parecia ter força suficiente para levar embora o cheiro de desinfetante e o som estridente dos sinalizadores de aula. Sua estava sentada em um canto mais afastado, protegida pela sombra de uma grande caixa d'água metálica. Ela segurava um livro de capa dura, mas não lia realmente. Seus dedos apenas traçavam as letras do título enquanto seus pensamentos orbitavam o mesmo centro gravitacional de sempre: o ressentimento.
O som da porta de ferro rangendo e batendo contra o batente ecoou pelo concreto. Sua não se mexeu. Ela conhecia aquele barulho; provavelmente era algum aluno querendo cabular aula ou apenas um zelador distraído. Ela continuou imóvel, escondida em seu nicho de sombras, esperando que o intruso fosse embora logo.
Mas o som dos passos era leve, rítmico. A pessoa caminhou até a borda do terraço e se sentou ali, com as pernas balançando sobre o abismo do pátio escolar. Sua estreitou os olhos. Pela silhueta e pelo cabelo bicolor que brilhava intensamente sob o sol do meio-dia, não havia dúvidas.
Era Mizi.
Sua sentiu o estômago revirar. O ódio, que costumava ser uma chama constante e controlada, subiu pela sua garganta como bile. Ela observou, em silêncio, Mizi tirar um maço de cigarros do bolso da saia curta, acender um e soltar uma nuvem de fumaça cinzenta que o vento logo dispersou.
A visão daquela indiferença, daquela pose despojada de quem não devia nada ao mundo, foi o limite para Sua.
— Você continua com essa idiotice? — A voz de Sua cortou o ar, fria e cortante como uma lâmina de gelo.
Mizi deu um sobressalto visível, quase deixando o cigarro cair. Ela não olhou para trás imediatamente; apenas inclinou a cabeça, reconhecendo a voz que, em outra vida, fora sua melodia favorita. Um sorriso sarcástico e lento surgiu em seu rosto enquanto ela finalmente se virava para encarar a garota escondida nas sombras.
— Olha só... o fantasma da ópera resolveu aparecer — Mizi disse, dando outra tragada longa e soltando a fumaça na direção de Sua. — Achei que esse lado do terraço era só para pessoas que ainda têm alma, Sua. O que você está fazendo aqui?
Sua se levantou, fechando o livro com força. Ela caminhou até a luz, os olhos roxos faiscando de um desprezo profundo.
— Fumar é proibido no recinto escolar. Mas acho que seguir regras nunca foi o seu forte, não é? Especialmente as regras de decência básica.
Mizi soltou uma risada seca, jogando a cabeça para trás.
— Decência? Você falando de decência é hilário. A garota que acreditou em uma fanfic de quinta categoria escrita por uma estranha e jogou dois anos de relacionamento no lixo vem me falar de moralidade? Me poupa, Sua. Volta para o seu livro e para aquele seu namorado porta-retrato.
— Não ouse falar do Acorn — Sua sibilou, aproximando-se mais. — Ele, pelo menos, é leal. Ele não passa o tempo todo fingindo ser algo que não é, como você fez conosco. Você nos usou, Mizi. Você me usou.
Mizi se levantou da borda em um movimento ágil, ficando cara a cara com Sua. A diferença de altura era pequena, mas a aura de fúria que emanava de Mizi a fazia parecer gigante.
— Eu te usei? — Mizi perguntou, a voz subindo de tom, perdendo o sarcasmo e ganhando uma nota perigosa de violência. — Eu amei você, sua idiota melancólica! Eu teria feito qualquer coisa por você. Mas no primeiro sinal de problema, na primeira mentira contada por uma garota que você nem conhecia, você me descartou como se eu fosse um chiclete mascado.
— Porque as provas estavam lá! — gritou Sua, perdendo a compostura. — Todo mundo viu! Todo mundo ouviu!
— "Todo mundo" é um bando de imbecis, e você é a rainha deles! — Mizi avançou, empurrando Sua contra a parede de concreto com uma força que fez o ar escapar dos pulmões da garota de cabelos pretos.
Sua tentou revidar, empurrando os ombros de Mizi, mas a garota de cabelos rosa estava possuída por uma raiva acumulada de dois anos. Mizi prensou o corpo contra o dela, prendendo os pulsos de Sua contra a parede fria.
— Cala a porra da boca, Sua! — Mizi rosnou, o rosto a centímetros do dela. — Eu cansei de ouvir a sua voz mansa e esse seu tom de superioridade. Você não é a vítima aqui. Você foi a carrasca. Você e aquele bando de covardes que chamam de amigos. O Luka, o Ivan... todos vocês são patéticos.
Sua tentou gritar, chamar por alguém, mas Mizi rapidamente soltou um dos pulsos e tapou a boca dela com a palma da mão, pressionando com força.
— Não. Você vai me ouvir agora — disse Mizi, os olhos verdes e azuis brilhando com um ódio puro. — Você é uma covarde, Sua. Você preferiu acreditar que eu era um monstro porque era mais fácil do que admitir que você não tinha coragem de sustentar o que a gente tinha. Você é egoísta, fria e medíocre. E o pior de tudo? Você ainda acha que tem o direito de me olhar com nojo.
Sua tentava se debater, os olhos roxos transbordando lágrimas de raiva e humilhação. Mizi sentia o calor da pele de Sua, o cheiro do perfume que ela ainda reconhecia, e isso só a irritava mais.
Mizi olhou para o cigarro ainda aceso em sua outra mão. A brasa brilhava intensamente. Em um movimento rápido e cruel, ela afastou a gola da camisa de Sua e pressionou a ponta acesa contra a pele pálida da lateral do pescoço da garota.
Sua soltou um grito abafado contra a mão de Mizi, o corpo inteiro retesando em choque e dor. O cheiro de pele queimada subiu levemente, misturado ao tabaco.
Mizi afastou o cigarro, agora apagado, e soltou Sua bruscamente.
— Isso é para você nunca esquecer que, toda vez que você olhar no espelho e ver essa marca, a culpa foi sua — disse Mizi, a voz agora fria e desprovida de qualquer emoção. — Fica longe de mim.
Sem olhar para trás, Mizi caminhou até a porta do terraço, abriu-a com um chute e desapareceu escada abaixo.
Sua escorregou pela parede até sentar no chão, levando a mão ao pescoço. A pele ardia como fogo. Ela soluçou uma única vez, não de tristeza, mas de uma fúria tão devastadora que a fazia tremer.
Lá embaixo, nos corredores do segundo andar, Mizi caminhava a passos largos, tentando controlar a respiração. Suas mãos ainda tremiam. Ela dobrou o corredor e deu de cara com seu grupo. Marty, Lexy e Vianna estavam encostados nos armários, rindo de algo, mas pararam instantaneamente ao ver a expressão de Mizi.
— Mizi? O que aconteceu? — Vianna perguntou, aproximando-se rápido. — Você está pálida.
Mizi parou, apoiando as mãos nos joelhos por um momento. Ela olhou para os amigos, a máscara de sarcasmo caindo por um segundo.
— Eu encontrei a Sua no terraço — disse ela, a voz rouca.
— E aí? — Marty perguntou, preocupado, notando os nós dos dedos de Mizi avermelhados. — Ela te disse alguma coisa?
— Ela tentou dar uma de santa — Mizi deu um sorriso torto, quase maníaco. — Eu perdi a paciência. Eu... eu acho que deixei uma lembrança nela que o Acorn não vai gostar muito de ver.
Lexy olhou para a porta das escadas, em silêncio, processando a gravidade da situação.
— Você está bem? — Lexy perguntou baixinho.
— Estou ótima — mentiu Mizi, endireitando a postura e limpando uma gota de suor da testa. — Nunca me senti tão leve. Vamos sair daqui, o sinal vai bater.
Enquanto isso, Sua finalmente conseguiu se levantar. Ela ajeitou a gola da camisa para tentar esconder a marca, mas a queimadura era alta demais, perto da mandíbula. Ela desceu as escadas com passos pesados, o rosto uma máscara de frieza absoluta.
Quando chegou ao pátio central, o grupo dela estava reunido perto dos bancos de cimento. Till foi o primeiro a notar a aproximação dela.
— Sua? Onde você estava? A gente te procurou... — Ele parou de falar assim que ela chegou perto. — Que porra é essa no seu pescoço?
Ivan, que estava distraído, levantou os olhos e franziu a testa. Luka se aproximou, ajustando os óculos para ver melhor.
— Isso é uma queimadura de cigarro? — Luka perguntou, a voz carregada de uma formalidade preocupada. — Quem fez isso, Sua? Foi algum daqueles delinquentes do segundo ano?
Hyuna cruzou os braços, os olhos azuis faiscando.
— Foi ela, não foi? A Mizi. Eu vi ela descendo do terraço agora há pouco com cara de quem tinha matado alguém.
Sua não respondeu. Ela apenas olhava para o nada, o corpo rígido.
Acorn, que estava sentado um pouco mais afastado, levantou-se e caminhou até ela com passos largos. O rosto dele estava vermelho de uma raiva possessiva.
— Sua, que merda é essa? — ele perguntou, segurando o braço dela com força excessiva. — Você estava sozinha com ela? Por que você deixou ela chegar perto? Você sabe como as pessoas falam, Sua! Se virem você com essa marca, vão achar que...
Sua virou o rosto para ele. O olhar roxo estava tão gélido que até Acorn recuou um passo.
— Cala a boca, Acorn — ela disse, a voz num tom perigosamente baixo.
— O quê? Eu estou tentando te defender, eu sou seu namorado e...
— Eu disse para calar a porra da boca! — Sua gritou, a voz ecoando pelo pátio e fazendo alguns alunos ao redor pararem para olhar. — Não ouse abrir a boca para falar de mim ou do que eu deixo ou não acontecer. Sai da minha frente. Agora!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Acorn, o garoto descolado e popular, ficou parado com a boca entreaberta, a autoridade completamente desmantelada diante da fúria silenciosa de Sua. Ele tentou dizer algo, mas o olhar de Till e Ivan — que pareciam mais preocupados com o estado mental da amiga do que com o ego do namorado dela — o fez recuar e se afastar sem dizer uma palavra.
Sua voltou a olhar para os antigos amigos.
— Não perguntem — disse ela. — Só... não perguntem.
Ela passou por eles e caminhou em direção ao banheiro, deixando para trás um grupo confuso e uma tensão que ameaçava explodir a qualquer momento. O 3º ano estava apenas começando, mas as cicatrizes do passado tinham acabado de ganhar uma forma física e dolorosa.