Shes my woman
Estilhaços de Vidro e Mãos Dadas
A sala de estar da casa de Hyuna estava mergulhada em uma bagunça confortável de embalagens de salgadinhos e latas de refrigerante. Era sábado à tarde, e o "núcleo duro" do antigo grupo tentava manter as aparências de normalidade. Till estava largado em um puff, rabiscando agressivamente um tênis velho com uma caneta permanente, enquanto Hyuna, sentada no chão, tentava trançar o cabelo curto de Luka apenas para irritá-lo.
— Sério, Luka, se você ler mais uma página desse livro de astrofísica, eu vou enfiar esse pente no seu nariz — brincou Hyuna, rindo da cara de tédio do loiro.
— É uma leitura recreativa, Hyuna. Nem todos temos a capacidade intelectual de um protozoário como você — Luka respondeu, a voz carregada de uma formalidade afetada, embora um canto de sua boca estivesse levemente erguido.
— "Capacidade intelectual"? — Ivan interveio, sentado no sofá enquanto devorava um pacote de ursinhos de goma. — Você fala como se tivesse engolido um dicionário e estivesse tentando digeri-lo por partes. É vergonhoso, cara.
— Pelo menos eu não vou ter diabetes antes dos vinte, Ivan — rebateu Luka, ajustando os óculos.
— O açúcar alimenta o meu gênio — Ivan sorriu, mostrando a língua tingida de azul pelo doce. — O Till, por outro lado, se alimenta de puro ódio e tinta de caneta.
Till levantou o dedo médio sem tirar os olhos do tênis. — Vão se ferrar, os dois.
Enquanto a zoação corria solta na sala, a atmosfera na cozinha era consideravelmente mais densa. Sua estava encostada no balcão de granito, segurando um copo de água com as mãos trêmulas. A marca da queimadura no seu pescoço, agora coberta por um curativo discreto, latejava sob a gaze. Acorn estava parado à frente dela, com um sorriso que não chegava aos olhos castanhos, tentando encurralá-la contra o balcão.
— Qual é, Sua? A gente está namorando há meses — disse Acorn, a voz baixa, tentando parecer sedutor, mas soando apenas insistente. — Seus amigos estão lá na sala, ninguém vai entrar aqui agora.
— Acorn, eu já disse que não estou a fim — Sua respondeu, a voz melancólica e cansada. — Eu não estou me sentindo bem.
Acorn soltou um suspiro pesado, a paciência claramente se esgotando. Ele se aproximou mais, invadindo o espaço pessoal dela. — É sempre a mesma desculpa. Dor de cabeça, cansaço, "não estou pronta". O que é, afinal? Você ainda está presa naquela fase de garotinha com a ex?
Sua sentiu o sangue gelar. — Não ouse falar da Mizi.
— Ah, então é isso? — Acorn explodiu em um sussurro furioso, os olhos brilhando com uma frustração tóxica. — Com aquela capetinha rosa você devia fazer de tudo, né? Aposto que ela não ouvia "não estou pronta". Você deve ter feito altas coisas com ela, mas comigo, que sou seu namorado de verdade, você age como se fosse uma freira.
— Cala a boca! — Sua sibilou, as lágrimas de raiva começando a arder em seus olhos roxos. — Você não sabe de nada. Você não tem o direito de exigir nada de mim.
— Eu tenho todos os direitos! — ele rebateu, a voz subindo um tom antes de ele se controlar. — Eu sou o cara que está aqui limpando a sua imagem depois que aquela vadia te humilhou na frente de todo mundo. E você me retribui assim?
Sua não disse mais nada. Ela simplesmente o empurrou, pegou sua bolsa que estava sobre a mesa e caminhou em direção à sala.
— Eu vou embora — anunciou ela, a voz embargada, passando pelo grupo sem olhar para ninguém.
— Sua? O que rolou? — Hyuna perguntou, levantando-se imediatamente, mas Sua já estava na porta.
Acorn saiu da cozinha logo atrás, com uma expressão de falsa preocupação. — Ela só está estressada, gente. Eu vou atrás dela.
— Não precisa, Acorn — Till disse, os olhos verdes estreitados para o garoto. — Deixa ela respirar.
Mas Acorn ignorou e saiu, deixando um silêncio desconfortável na sala de Hyuna.
***
Enquanto isso, em uma parte diferente da cidade, o quarto de Lexy era um oásis de silêncio e luz suave. Mizi estava sentada na cama, cercada por livros de biologia e cartolinas, mas sua mente estava a quilômetros dali.
— Mizi, você está pintando a mitocôndria de preto — Lexy comentou calmamente, sentada ao lado dela.
— Oh. — Mizi olhou para o desenho e soltou a caneta. — Droga.
— Você está pensando nela de novo, não está? — Lexy perguntou, os olhos azuis observando a amiga com uma mistura de compreensão e algo mais profundo.
— Eu não consigo evitar, Lexy. Eu a queimei. Eu realmente a machuquei — Mizi sussurrou, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu odeio ela, eu juro que odeio. Mas ver o olhar dela quando eu fiz aquilo...
Lexy se aproximou, colocando uma mão no ombro de Mizi. O silêncio se prolongou por um momento, denso e carregado. Lexy, geralmente tão reservada e contida, sentiu um impulso que vinha guardando há meses. Ela se inclinou e, antes que Mizi pudesse processar, selou seus lábios nos dela.
O beijo foi suave, quase hesitante. Mizi, pega de surpresa, retribuiu por puro reflexo, as mãos segurando os ombros de Lexy. Por alguns segundos, o mundo parou. Havia carinho ali, havia uma amizade profunda, mas...
Quando se separaram, Mizi piscou várias vezes, e Lexy soltou uma risadinha nervosa.
— É... — Mizi começou, coçando a nuca. — Isso foi...
— Definitivamente estranho — Lexy completou, rindo de verdade agora. — Tipo, beijar um poste seria menos esquisito.
— Totalmente — Mizi concordou, soltando um suspiro de alívio. — A gente não combina nada desse jeito, né?
— Nem um pouco. Você é barulhenta demais para mim, e eu sou zen demais para você.
As duas riram, o clima de tensão se dissipando completamente. A amizade delas era sólida demais para um beijo sem química estragar tudo.
***
Na manhã de segunda-feira, o céu estava nublado, refletindo o humor de Mizi. Ela tinha perdido o ônibus e chegou à escola com vinte minutos de atraso. Os corredores estavam desertos, o silêncio apenas quebrado pelo som abafado dos professores dando aula atrás das portas fechadas.
Mizi caminhava apressada, ajeitando a mochila, quando ouviu um som estranho vindo do corredor dos armários de educação física, uma área que quase ninguém usava naquele horário. Eram sons de luta, uma respiração ofegante e um choro contido.
A curiosidade, misturada com um instinto de proteção que ela ainda não tinha conseguido matar, a fez desviar o caminho. Ela dobrou a esquina e parou bruscamente.
Acorn estava prendendo Sua contra a parede. Ele tinha as mãos nos ombros dela, prensando-a com o peso do corpo. Sua estava com o rosto virado, os olhos roxos arregalados e cheios de lágrimas, as mãos tentando inutilmente afastar as dele.
— Para com isso, Acorn! — Sua implorava, a voz falhando. — Alguém vai ver, me solta!
— Ninguém vai ver, Sua. Para de ser difícil. Só um pouco, vai... — Ele desceu uma das mãos para a cintura dela, tentando puxar a barra da saia do uniforme para cima. — Você me deve isso depois do show que deu na casa da Hyuna.
Mizi sentiu o sangue ferver de uma forma que nunca tinha sentido antes. O celular que ela segurava escorregou de sua mão, batendo no chão com um estalo seco.
Os dois olharam para a direção do som. O rosto de Acorn se transformou em uma máscara de irritação, mas ele não soltou Sua. Pelo contrário, ele apertou mais o aperto.
— Olha só quem chegou. A ex-namorada psicopata — Acorn cuspiu as palavras. — Vai embora, Mizi. Isso aqui é assunto de casal.
Mizi olhou para Sua. O ego da garota de cabelos pretos era imenso, e ela tentava manter a expressão endurecida, mas Mizi viu. Viu o tremor nos lábios dela, o pânico genuíno escondido no fundo das pupilas roxas. Era um pedido de ajuda silencioso, um grito que o orgulho de Sua não permitia vocalizar.
Mizi não disse uma palavra. Ela se abaixou calmamente, pegou o celular do chão e o guardou na bolsa. Por um segundo, pareceu que ela ia simplesmente dar as costas e ir embora, como se não se importasse. Ela colocou a mochila no chão, devagar.
E então, ela explodiu.
Mizi avançou como um raio. Antes que Acorn pudesse reagir, ela o agarrou pelo colarinho da camisa e o puxou com tanta força que ele cambaleou para trás, soltando Sua.
— Eu mandei ela soltar! — Acorn gritou, recuperando o equilíbrio e indo para cima de Sua novamente, tentando agarrá-la pelo braço para arrastá-la dali.
Mizi não deu tempo. Ela fechou o punho e desferiu um soco certeiro no maxilar de Acorn. O impacto foi seco. O garoto caiu sentado, segurando o rosto, os olhos arregalados de choque.
— Se você tocar nela de novo — Mizi disse, a voz num tom tão baixo e mortal que fez Sua estremecer —, eu juro que o soco vai ser a menor das suas preocupações. Eu acabo com a sua vida nessa escola em cinco minutos.
Mizi pegou sua mochila do chão com uma mão e, com a outra, agarrou firmemente a mão de Sua.
— Vem — comandou Mizi.
Sua não protestou. Ela apenas seguiu, as pernas bambas, enquanto Mizi a arrastava pelos corredores. Elas correram até o bloco principal, o som de seus sapatos ecoando freneticamente. Mizi não parou até chegar à porta da sala de aula deles.
Ela abriu a porta com um estrondo no meio da explicação do professor de literatura. As duas entraram ofegantes, com os cabelos bagunçados e, para o choque absoluto de todos, de mãos dadas.
O silêncio na sala foi ensurdecedor. O grupo da direita — Till, Ivan, Hyuna e Luka — paralisou. O grupo da esquerda — Marty, Lexy e Vianna — entreolhou-se com sobrancelhas erguidas.
Mizi soltou a mão de Sua imediatamente, como se tivesse tocado em brasa. Ela lançou um olhar de puro nojo para a garota de cabelos pretos, um olhar que dizia "eu te ajudei, mas não esqueça que eu ainda te odeio". Sem dizer uma palavra ao professor, Mizi caminhou até seu lugar ao lado de Lexy e desabou na cadeira.
Sua, ainda trêmula, caminhou para o seu lado da sala, sentando-se entre Hyuna e Till, com a cabeça baixa.
— O que diabos foi isso? — Vianna sussurrou para Mizi assim que o professor retomou a aula, ainda confuso.
Mizi inclinou-se para frente, a voz carregada de veneno. — O namoradinho perfeito da Sua é um lixo abusivo. Eu peguei ele tentando forçar a barra no corredor dos armários. Tive que dar um corretivo no idiota.
Do outro lado, o clima era de guerra.
— Sua, você está bem? Por que estava com ela? — Hyuna perguntou, notando o estado dos pulsos da amiga.
Sua respirou fundo, tentando conter o choro. — O Acorn... ele me encurralou. Ele tentou... ele tentou me forçar. A Mizi apareceu. Ela bateu nele e me tirou de lá.
Till socou a própria mesa, fazendo o estojo pular. — Aquele filho da puta. Eu vou matar ele.
Ivan, que geralmente estava brincando, tinha os olhos pretos fixos na porta, esperando Acorn aparecer. — Ele não perde por esperar.
Luka, no entanto, permanecia em silêncio, observando Mizi do outro lado da sala. Ele via a forma como ela respirava fundo, tentando recuperar a calma, e como Lexy passava a mão em suas costas.
— Por que ela fez isso? — Luka perguntou, a voz baixa e analítica.
— O quê? — Hyuna olhou para ele, confusa.
— A Mizi — continuou Luka. — Ela odeia a Sua. Ela deixou claro para todo mundo que não quer nada com a gente. Ela podia ter simplesmente passado direto, ou até gravado para rir depois. Seria muito mais a cara da "nova Mizi" que ela construiu.
— Talvez ela não seja tão diferente da Mizi que a gente conhecia — murmurou Ivan, embora a ideia parecesse um sacrilégio para o grupo que acreditava na traição dela.
— Ou talvez — disse Luka, ajustando os óculos — ela tenha uma noção de justiça que nós, em nossa pressa de julgá-la no primeiro ano, simplesmente ignoramos.
Sua ouviu as palavras de Luka e sentiu uma pontada no peito que não tinha nada a ver com a queimadura no pescoço. Ela olhou para Mizi, mas a garota de cabelos rosa estava de costas, rindo de algo que Marty dissera, como se nada tivesse acontecido. O abismo entre as duas fileiras de carteiras parecia, pela primeira vez, não apenas feito de mentiras, mas de uma verdade que ninguém ali estava pronto para encarar.