Shuna
O Eclipse da Paciência e a Fúria Carmesim
A reunião do Octagrama estava tecnicamente encerrada, mas o ar no salão ainda vibrava com a tensão residual das discussões políticas. Shuna já estava organizando seus documentos com uma precisão cirúrgica, satisfeita por ter mantido as rédeas da situação. No entanto, Guy Crimson, entediado com a súbita eficiência e ordem que a Oni impusera, decidiu que o dia ainda não tinha tido diversão suficiente. Ele se recostou em seu trono, observando a imagem holográfica de Rimuru que Shuna usara para ilustrar um dos pontos comerciais.
— Sabe, Shuna... — começou Guy, com um sorriso preguiçoso e carregado de uma malícia que fez Benimaru travar no lugar. — Olhando bem para o seu mestre, eu começo a entender por que você é tão protetora. Ele tem uma aparência... encantadora. Aquela forma humana dele tem curvas e uma delicadeza que são quase um desperdício em um Lorde Demônio. Eu me pergunto se ele é tão macio e receptivo quanto parece. Talvez eu devesse convidá-lo para uma "reunião privada" em meu palácio de gelo. Tenho certeza de que eu poderia ensinar a ele coisas que nenhum livro de administração em Tempest jamais mencionaria.
O silêncio que se seguiu não foi apenas a ausência de som; foi uma anomalia física. Era como se o próprio tempo tivesse parado para processar a audácia das palavras de Guy.
Milim Nava, que estava prestes a pular da cadeira para abraçar Shuna, congelou. Ramiris, que flutuava alegremente, caiu de cara na mesa redonda. Ambas olharam para Guy com olhos arregalados, como se estivessem vendo um homem caminhar voluntariamente para dentro de um moedor de carne.
— Guy... seu idiota... — sussurrou Milim, o suor frio escorrendo por sua testa. — Você não deveria ter dito isso.
Shuna não se moveu. Seus dedos continuavam segurando a borda de um pergaminho, mas o papel começou a se desintegrar sob a pressão de seus dedos. A aura doce e maternal que ela exalava evaporou, substituída por um vazio absoluto. Não era ódio, não era raiva comum; era algo primordial e gélido.
Benimaru sentiu o chão tremer. Ele olhou para Diablo e viu que o Demônio Primordial Negro não estava mais sorrindo. Seus olhos eram fendas de escuridão pura, e a realidade ao redor dele estava começando a rachar.
— Lorde Guy — a voz de Shuna saiu baixa, mas cada sílaba vibrou nos ossos de todos os presentes. — O senhor acabou de expressar intenções... lascivas... em relação ao Mestre Rimuru?
Guy, sentindo a adrenalina que tanto buscava, soltou uma risada curta.
— E se eu tiver? Ele é uma joia, Shuna. E joias foram feitas para serem apreciadas por quem tem poder para reivindicá-las. Eu adoraria ver que tipo de som ele faz quando...
— Diablo. — Shuna interrompeu, sua voz cortando o ar como uma guilhotina.
O demônio negro inclinou a cabeça ligeiramente, sua aura explodindo em chamas negras que devoraram a luz do salão.
— Sim, Shuna-sama? — perguntou Diablo, sua voz carregada de uma sede de sangue tão vasta que Leon Cromwell, do outro lado da mesa, instintivamente colocou a mão no punho de sua espada.
— O Mestre Rimuru me deu autoridade total hoje — disse Shuna, virando-se lentamente para encarar Guy. Seus olhos rosados agora brilhavam com uma luz perigosa. — E eu decidi que a honra dele foi insultada de forma imperdoável. Você está livre, Diablo. Defenda a dignidade do nosso mestre. Considere isso uma ordem direta da regente de Tempest.
Diablo não precisou de um segundo convite. Com um som que lembrava o rasgar de um tecido celestial, ele desapareceu e reapareceu diante de Guy. Suas garras, envoltas em niilismo puro, desceram em um arco mortal. Guy, cujos reflexos eram divinos, bloqueou o golpe com o braço revestido de mana, mas o impacto criou uma onda de choque que estilhaçou todos os vitrais do salão.
— Kufufufu! — a risada de Diablo ecoou, distorcida e maníaca. — Você cometeu o erro final, lixo carmesim. Tocar no nome do Mestre Rimuru com sua língua suja é um pecado que nem a morte pode limpar!
Guy saltou de seu trono, chutando a mesa para o lado enquanto desembainhava sua espada.
— Isso é o que eu queria! — gritou Guy, embora seu sorriso tenha vacilado por um momento quando ele viu a expressão de Shuna ao fundo. — Mas admita, Noir, seu mestre é uma tentação! Eu adoraria tê-lo sentado no meu colo enquanto discutimos o destino do mundo!
— MORRA! — rugiu Diablo, lançando uma esfera de colapso gravitacional que forçou os outros Lordes Demônios a criarem barreiras de proteção às pressas.
Enquanto a batalha entre o Primordial e o Lorde Demônio mais antigo transformava o salão em um cenário de caos, Shuna permanecia parada, impecável, observando cada movimento.
— Erro número um — disse ela em voz alta, sua voz sobrepondo-se ao som das explosões. — Desrespeito direto a um soberano aliado. Erro número dois: assédio verbal a um ser de rank superior de divindade. Erro número três: você está sujando o tapete que o Mestre Rimuru elogiou na última reunião.
Benimaru, que estava tentando manter a calma, viu Guy desviar de um golpe de Diablo e piscar em direção a Shuna, ainda em tom de provocação.
— E você, Comandante Carmesim? — provocou Guy, enquanto bloqueava as garras de Diablo. — Não vai defender o "charme" do seu mestre? Ou você também concorda que ele ficaria bem com uma coleira de ouro?
O estalo foi audível. Benimaru, o general calmo e estratégico, sentiu o último fio de sua sanidade se romper. Sua Katana saltou da bainha, envolta em chamas negras e carmesins que rivalizavam com o sol.
— Lorde Guy... — rosnou Benimaru, seus olhos brilhando em um vermelho escarlate. — Eu tentei ser diplomático. Eu tentei conter o Diablo. Mas o senhor... o senhor é um idiota sem conserto.
— Benimaru — chamou Shuna, sem desviar o olhar da luta. — Ajude o Diablo. Não o matem, pois precisamos dele para assinar os tratados, mas garantam que ele não consiga se sentar ou falar sem sentir dor pelos próximos cem anos.
— Com prazer, irmã — respondeu Benimaru, lançando-se na briga com um golpe que cortou o espaço-tempo.
O salão do Octagrama tornou-se um borrão de chamas, sombras e aço. Milim tentou intervir, voando para o meio.
— Parem com isso! Guy, peça desculpas! Shuna, eles vão destruir o castelo! — gritou Milim, tentando agarrar o braço de Diablo.
— Saia da frente, Milim-sama! — exclamou Diablo, desviando de um chute de Guy. — Este ser precisa ser purificado!
— Milim — disse Shuna, sua voz emanando uma autoridade que fez a pequena Lorde Demônio hesitar no ar. — Deixe que eles resolvam isso. O Mestre Rimuru ficaria muito triste se soubesse que seus subordinados foram covardes diante de tamanha falta de respeito. Você não quer que o Rimuru fique triste com você por impedir a justiça, quer?
Milim parou instantaneamente, os olhos arregalados.
— Não! Eu não quero que o Rimuru fique triste! — Ela recuou imediatamente, sentando-se no chão ao lado de Ramiris. — Vai lá, quebrem a cara dele! Mas não digam que eu ajudei!
Guy, agora enfrentando Diablo e Benimaru simultaneamente, começou a sentir o peso da situação. Ele era imensamente poderoso, mas Diablo estava lutando com uma fúria religiosa que ignorava a própria segurança, e Benimaru estava coordenando ataques de precisão militar que exploravam cada brecha.
— Ei, ei! — exclamou Guy, defendendo-se de uma rajada de fogo negro. — Isso está ficando sério demais! Shuna, diga a eles para pararem! Eu estava apenas brincando! O Rimuru vai ficar furioso se souber que vocês começaram uma guerra por causa de um elogio!
— Um elogio? — Shuna deu um passo à frente, e a pressão mágica no salão dobrou de intensidade. — O senhor chamou o tratamento de um soberano de "coleira de ouro". O senhor sugeriu atos impuros contra o pilar da nossa nação. E agora, o senhor tenta usar o nome dele para se proteger das consequências? Erro número quatro: covardia diplomática.
Shuna levantou a mão, e fios de magia divina começaram a se tecer ao redor de seus dedos.
— Diablo, Benimaru — ordenou ela. — Imobilizem-no.
— Sim! — responderam os dois.
Diablo usou sua "Tentação do Fim" para distorcer a percepção de Guy, enquanto Benimaru desencadeou o "Hell Flare" em uma escala reduzida, mas extremamente concentrada, cercando Guy em um pilar de chamas inevitáveis.
Guy, percebendo que Shuna estava prestes a lançar algum tipo de feitiço de restrição que provavelmente envolveria uma humilhação duradoura, tentou uma última cartada.
— Esperem! Se vocês me baterem mais, eu vou contar para o Rimuru que a Shuna foi a mentora intelectual de uma agressão contra um aliado! Ele vai colocar vocês de castigo!
Benimaru estremeceu por um segundo. O medo do castigo de Rimuru era real. Mas Shuna apenas sorriu, um sorriso que fez até Luminous Valentine, que assistia a tudo com tédio, endireitar a postura com interesse.
— Ah, Lorde Guy... — disse Shuna, aproximando-se do círculo de fogo. — O senhor realmente não entende como Tempest funciona. Eu sou a pessoa que cuida da agenda do Mestre Rimuru. Eu sou a pessoa que prepara as refeições dele. Eu sou a pessoa que filtra os relatórios que chegam à mesa dele.
Ela inclinou a cabeça, a imagem da inocência, se não fossem os olhos gélidos.
— Quando voltarmos, eu direi ao Mestre Rimuru que o senhor se sentiu mal durante a reunião e que nós, em nossa infinita generosidade, o ajudamos a "descansar". E se o senhor tentar dizer o contrário... bem, quem o senhor acha que ele vai acreditar? No seu "irmão" demônio e em sua dedicada secretária, ou no Lorde Demônio que tem fama de ser um provocador incorrigível?
Guy Crimson, o ser que enfrentou Dragões Verdadeiros, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele olhou para Diablo, que estava pronto para arrancar sua alma, e para Benimaru, que estava pronto para incinerar sua existência, e finalmente para Shuna, que era, sem dúvida, a criatura mais perigosa naquela sala.
— Eu me rendo! — gritou Guy, jogando sua espada no chão e levantando as mãos. — Eu retiro o que disse! Rimuru é... Rimuru é um líder respeitável e intocável! Por favor, Shuna, não conte nada a ele!
Shuna fechou os olhos e suspirou, a aura de terror desaparecendo tão rapidamente quanto surgiu.
— Diablo, Benimaru, podem parar. — Ela alisou as dobras de seu quimono. — Creio que a lição foi aprendida.
Diablo rosnou, claramente insatisfeito por não ter terminado o serviço, mas obedeceu instantaneamente, voltando ao lado de Shuna com uma reverência. Benimaru embainhou sua espada, limpando o suor da testa e respirando aliviado por não ter destruído o continente.
— Lorde Guy — disse Shuna, voltando ao seu tom doce e maternal. — Espero que da próxima vez o senhor mantenha a compostura. Seria uma pena se eu tivesse que proibir o Mestre Rimuru de visitá-lo permanentemente por sua má influência.
Guy, ofegante e com as roupas levemente chamuscadas, sentou-se no chão do salão destruído.
— Você é assustadora, mulher. Rimuru não sabe a sorte — ou o perigo — que corre com você por perto.
— O Mestre Rimuru sabe que eu sempre farei o melhor para ele — respondeu Shuna com um sorriso radiante. — Agora, se me dão licença, temos um longo caminho de volta. Diablo, limpe o que restou dessa bagunça antes de sairmos. Benimaru, ajude-o.
— Mas Shuna-sama... — começou Diablo.
— Sem mas. — O tom dela foi final.
Enquanto Diablo e Benimaru começavam a usar magia para consertar o salão sob o olhar vigilante de Shuna, os outros Lordes Demônios começaram a se retirar em silêncio absoluto. Leon Cromwell passou por Shuna e apenas acenou com a cabeça, um sinal de respeito mútuo entre aqueles que sabiam o que era manter a ordem através do medo velado.
Luminous Valentine aproximou-se de Shuna antes de sair.
— Você tem talento, garota. Se algum dia se cansar daquele Slime, meu palácio em Night Garden está sempre aberto para alguém com sua... disciplina.
— Agradeço o convite, Lorde Luminous — respondeu Shuna com uma reverência perfeita. — Mas o meu lugar é cuidando do Mestre Rimuru. Ele se perde sem mim, sabe? É como uma criança grande.
Quando o portal de teletransporte finalmente se abriu para levá-los de volta a Tempest, Shuna olhou para seus dois companheiros.
— E lembrem-se: o que aconteceu aqui hoje fica entre nós. Se o Mestre Rimuru perguntar, a reunião foi produtiva, o Lorde Guy foi "um pouco excêntrico" e nós nos comportamos como diplomatas exemplares. Entendido?
— Sim, Shuna-sama! — responderam os dois subordinados mais poderosos de Tempest, temendo a Oni rosada muito mais do que jamais temeriam qualquer Lorde Demônio.
Ao cruzarem o portal, Shuna já estava planejando o jantar de Rimuru. Ela sabia que ele estaria cansado e que precisaria de muito carinho. E, claro, ela se certificaria de que ele recebesse apenas as melhores notícias. Afinal, uma boa mãe — ou secretária — sabe exatamente o que seu mestre precisa ouvir para dormir em paz. O caos do Octagrama era apenas um detalhe irrelevante diante do sorriso de seu amado mestre.