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Shuna

O Rugido do Dragão e a Geada do Castigo

O salão do Octagrama nunca esteve tão frio, e desta vez não era por causa do palácio de gelo de Guy Crimson. A pressão que emanava do assento de Rimuru Tempest era palpável, uma mistura de aura divina e uma irritação silenciosa que fazia as paredes de cristal rangerem. Ao seu lado, Veldora, o Dragão da Tempestade, estava de braços cruzados, bufando de uma forma que soltava faíscas elétricas pelo nariz. Seus olhos dourados estavam fixos em Guy como se ele fosse um alvo de treino particularmente irritante.

Rimuru estava com os braços cruzados sobre o peito, sua forma humana de cabelos azul-prateados parecendo mais jovem e delicada sob a luz do salão, mas seu olhar era afiado como uma lâmina de aço. Ele havia descoberto. Entre os relatórios gaguejantes de Benimaru e as "confissões" dramáticas de Diablo, que chorou de arrependimento por não ter "purgado o insolente", Rimuru montou o quebra-cabeça da última reunião.

— Então... — começou Rimuru, sua voz calma demais, o que era sempre um sinal de perigo iminente. — Eu me ausento por uma semana para cuidar das crianças e da papelada, e vocês decidem que o Octagrama é um clube de comédia onde o tema principal sou eu?

Guy Crimson, relaxado em seu trono com a arrogância de quem viveu milênios sem ser desafiado, soltou uma risada baixa. Ele ignorou o aviso implícito na voz de Rimuru, focado apenas no entretenimento que a situação proporcionava.

— Ora, Rimuru, não seja tão sensível. Seus subordinados são... intensos. Mas você não pode culpá-los por quererem proteger algo tão atraente.

Guy inclinou-se para a frente, apoiando o queixo na mão, seus olhos vermelhos brilhando com uma luxúria provocadora que ele nem se dava ao trabalho de esconder.

— Na verdade, agora que você está aqui pessoalmente, posso ver que Shuna foi modesta. Você tem um brilho que me faz querer esquecer toda essa política e simplesmente ver até onde vai essa sua "maciez" que todos comentam.

O ar no salão simplesmente parou.

Veldora descruzou os braços lentamente. O som de seus músculos se contraindo foi como o estalar de um chicote. A aura do Dragão Verdadeiro explodiu, uma torrente de energia dourada e negra que fez o castelo inteiro tremer violentamente.

— O QUE VOCÊ DISSE, SEU VERME RUIVO?! — rugiu Veldora, sua voz fazendo as taças de cristal explodirem em mil pedaços. — COMO OUSA FALAR DO MEU IRMÃOZINHO COMO SE ELE FOSSE UM PEDAÇO DE CARNE?! EU VOU ARRANCAR ESSA SUA LÍNGUA E ALIMENTAR OS LOBOS DE TEMPEST COM ELA!

Rimuru sentiu uma pontada de timidez misturada com a raiva. Suas bochechas ganharam um tom levemente rosado devido ao embaraço de ser flertado de forma tão descarada na frente de todos os Lordes Demônios, mas a irritação com a audácia de Guy prevaleceu.

— Veldora, acalme-se um pouco... — pediu Rimuru, embora seu tom não tivesse convicção. Em vez disso, ele olhou para Guy com um sorriso que não chegava aos olhos. — Guy, você realmente tem um desejo de morte, não tem?

— Desejo de morte? Não, eu tenho desejo de outras coisas — retrucou Guy, ignorando a pressão esmagadora de Veldora que começava a rachar o chão sob seus pés. — Imagine só, Rimuru... você e eu. Eu poderia lhe mostrar o que é o verdadeiro poder, e em troca, você poderia me mostrar o que esse seu corpo de slime é capaz de fazer quando está... devidamente estimulado.

Veldora deu um passo à frente, sua aura agora assumindo a forma de um dragão rugindo atrás de suas costas. O ódio em seu rosto era algo que nem mesmo Rimuru vira com frequência.

— VOCÊ ESTÁ VIOLANDO A DIGNIDADE DO MEU IRMÃO! — gritou Veldora, apontando um dedo trêmulo de fúria para Guy. — ELE É UM DRAGÃO VERDADEIRO EM ESPÍRITO! ELE É O MEU MELHOR AMIGO! EU VOU REDUZIR ESTE LUGAR A PÓ SE VOCÊ CONTINUAR A POLUIR O AR COM ESSAS FANTASIAS NOJENTAS!

Rimuru, percebendo que a situação estava escalando, decidiu mudar de tática. Ele notou que quanto mais Veldora se irritava, mais Guy parecia se divertir. O Lorde Demônio carmesim estava adorando o caos. Então, Rimuru soltou um suspiro e recostou-se em sua cadeira, adotando uma postura desleixada.

— Sabe, Veldora... — disse Rimuru, com uma voz melodiosa — ...talvez o Guy só esteja carente. Talvez ele nunca tenha recebido atenção de verdade. Por isso ele fica inventando essas bobagens sobre "fantasias" e "reuniões privadas".

Guy ergueu uma sobrancelha, surpreso pela mudança de tom.

— Bobagens? Rimuru, eu posso ser muito específico sobre o que eu faria com você. Eu andei pensando naquele seu vestido que você usou uma vez... combina com a cor dos seus olhos. Eu adoraria tirá-lo, peça por peça, enquanto você implora para eu...

— JÁ CHEGA! — Veldora avançou, agarrando o colarinho de Guy com uma mão que brilhava com energia destrutiva. — EU VOU MATAR VOCÊ! EU VOU APAGAR SUA EXISTÊNCIA DA HISTÓRIA!

Guy segurou os pulsos de Veldora, seus olhos brilhando em desafio. Por dois minutos, os dois seres mais poderosos do mundo ficaram em um impasse, suas auras colidindo de tal forma que o céu lá fora escureceu e tempestades começaram a assolar o continente.

— Você é muito protetor, dragão — zombou Guy, embora estivesse usando uma força considerável para não ser esmagado. — Mas você não pode impedir o inevitável. Rimuru é uma tentação que eu pretendo explorar. Eu sonho com o momento em que ele finalmente perceber que Tempest é pequena demais para ele, e que o meu trono é o único lugar onde ele deveria estar... de preferência, no meu colo.

Rimuru, que estava observando a cena com uma calma gélida, finalmente se levantou. Ele caminhou lentamente até onde os dois estavam travados em combate de força.

— Guy — disse Rimuru, sua voz cortando o ruído da energia mágica. — Você realmente não sabe quando parar, não é?

— Por que eu pararia? — Guy sorriu, mesmo com Veldora rosnando a centímetros de seu rosto. — A reação de vocês é o melhor entretenimento que tive em séculos. E eu falo sério, Rimuru. Sua personalidade, essa mistura de bondade e poder absoluto... é inebriante. Eu morreria para ter um pouco disso só para mim.

Rimuru olhou para Veldora, que estava prestes a explodir de fúria. O Dragão da Tempestade estava tremendo, seus dentes cerrados com tanta força que poderiam triturar diamantes.

— Veldora — chamou Rimuru suavemente.

— O QUE FOI, RIMURU?! EU ESTOU OCUPADO TENTANDO DECIDIR SE DESINTEGRO ELE OU SE O JOGO NO SOL!

— Você tem três minutos — disse Rimuru, cruzando os braços. — Três minutos livres para descontar toda a sua raiva. Eu não vou interferir, e não vou te dar sermão depois. Considere um presente meu por você ser um irmão tão protetor.

Os olhos de Veldora se arregalaram em pura alegria maníaca. Um sorriso selvagem se espalhou por seu rosto.

— Três minutos... sem sermão? — Veldora riu, um som que gelou o sangue de todos os outros Lordes Demônios que observavam a cena, incluindo Milim, que se encolheu em seu canto. — Guy... você ouviu o mestre. Prepare-se para conhecer o verdadeiro desespero!

Antes que Guy pudesse reagir, Veldora disparou um soco carregado com a energia de uma supernova diretamente no estômago do Lorde Demônio. O impacto lançou Guy através de várias paredes reforçadas magicamente, enviando-o para fora do castelo e para dentro da tundra gelada. Veldora desapareceu em um flash de luz, perseguindo-o com o rugido de mil trovões.

Explosões massivas começaram a iluminar o horizonte. O chão sob o Octagrama saltava a cada golpe que Veldora desferia.

Rimuru sentou-se novamente em seu lugar, pegando uma taça de suco que Shuna (que apareceu do nada para servi-lo) colocou em sua mão. Ele observou calmamente as luzes da batalha ao longe.

Exatamente três minutos depois, o silêncio retornou.

Veldora reapareceu no salão, limpando um pouco de poeira de seu ombro. Ele parecia revigorado, seu humor transformado de fúria cega para uma satisfação radiante. Logo atrás dele, Guy Crimson entrou caminhando com dificuldade. Suas roupas eram trapos, havia sangue escorrendo de um corte em sua testa e ele mancava visivelmente. Sua aura estava gasta, e ele parecia ter passado por um moedor de carne divino.

— Então... — disse Rimuru, enquanto Guy se arrastava de volta para seu trono, tossindo um pouco de poeira. — Você se divertiu, Guy?

Guy tentou sorrir, mas soltou um gemido de dor.

— Foi... revigorante. Veldora realmente não tem sutileza. Mas ainda acho que valeu a pena para ver você com essa cara de autoridade.

Rimuru suspirou, balançando a cabeça.

— Você não aprende. Bom, já que você gosta tanto de "brincar", aqui está o seu verdadeiro castigo.

Guy ergueu o olhar, curioso.

— Castigo? Achei que o dragão enfurecido já fosse o castigo.

— Aquilo foi o castigo do Veldora — corrigiu Rimuru, apontando para o amigo, que agora lia um mangá que tirou do nada. — O meu é diferente. A partir de hoje, Guy Crimson, você está oficialmente banido de Tempest por tempo indeterminado.

Guy piscou, o choque finalmente substituindo sua arrogância.

— O quê?

— Isso mesmo. — Rimuru começou a contar nos dedos. — Sem os novos carregamentos de doces e bolos que Shuna estava preparando. Sem o suprimento de álcool destilado de alta qualidade que você tanto gosta. E, o mais importante...

Rimuru deu um sorriso diabólico, o mesmo sorriso que Shuna usava quando estava prestes a destruir a alma de alguém.

— Você está proibido de entrar nas nossas águas termais. Eu tinha planejado uma inauguração especial de uma ala VIP para os Lordes Demônios, com comida gourmet e relaxamento total. Todos os outros estão convidados. Você, não.

O rosto de Guy empalideceu. A perda de privilégios em Tempest era algo que nenhum Lorde Demônio levava de ânimo leve, especialmente depois de provarem as delícias da nação dos monstros.

— Rimuru... você não pode estar falando sério — disse Guy, sua voz agora carregada de um desespero genuíno. — As águas termais? O álcool? Isso é tortura!

— É disciplina — corrigiu Rimuru, levantando-se para encerrar a reunião. — Se você quer agir como uma criança malcriada que não respeita os limites dos outros, será tratado como tal. Sem doces, sem banho quente e sem brinquedos.

Veldora soltou uma gargalhada ruidosa lá do fundo.

— KUAHAHAHA! Bem feito, seu pervertido ruivo! Agora você pode ficar aqui no gelo comendo neve, enquanto eu e o Rimuru relaxamos no ofurô!

— Rimuru, espere! — Guy tentou se levantar, mas seus músculos protestaram violentamente devido à surra de Veldora. — Podemos renegociar! Eu peço desculpas! Eu retiro tudo! Eu direi que você é a criatura mais assustadora e menos atraente do mundo se for preciso!

Rimuru parou na porta do portal, olhando por cima do ombro.

— Tarde demais, Guy. Talvez em alguns meses, se você se comportar e não flertar com ninguém, eu reconsidere. Até lá, divirta-se com a solidão carmesim.

Com um aceno de mão, Rimuru e Veldora atravessaram o portal.

O salão do Octagrama ficou em silêncio. Milim olhou para Guy, que estava desabado em seu trono com uma expressão de derrota absoluta.

— Puxa, Guy — disse Milim, pegando um biscoito que trouxera de Tempest. — Você realmente estragou tudo. Os bolos da Shuna são os melhores do mundo. E o Rimuru fica muito fofo quando está relaxado na água quente. É uma pena que você nunca vá ver isso.

Guy Crimson, o Lorde Demônio mais antigo e temido, enterrou o rosto nas mãos e soltou um gemido lamentável. Ele percebeu, tarde demais, que em Tempest, o poder não vinha apenas de habilidades de combate ou auras esmagadoras. O verdadeiro poder residia naqueles que controlavam o conforto, a comida e, acima de tudo, a paciência de um slime que tinha um dragão superprotetor e uma governanta de ferro como guardiões de sua honra.

Longe dali, em Tempest, Rimuru já estava tirando as botas.

— Veldora, obrigado por me defender — disse Rimuru, sorrindo para o amigo.

— Não foi nada, Rimuru! — Veldora estufou o peito. — Mas você realmente vai deixá-lo sem doces?

— Por um bom tempo — confirmou Rimuru. — Ninguém mexe com a nossa paz e sai impune. Agora, vamos logo para as termas. Eu preciso tirar o cheiro de "ego ferido" do Guy das minhas roupas.

E assim, a ordem foi restaurada em Tempest, enquanto no palácio de gelo, um Lorde Demônio aprendia que algumas tentações custavam caro demais — especialmente quando o preço envolvia ficar sem a lendária culinária de um slime.