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O Eco dos Nossos Passos no Corredor
O silêncio que se seguiu ao selinho na barra de calistenia não era desconfortável; era denso, carregado de uma eletricidade que parecia fazer o ar ao redor deles vibrar. Is sentia o coração martelar contra as costelas, uma pulsação frenética que ela tinha certeza que By conseguia sentir através das mãos dele, que ainda repousavam em sua cintura. O cheiro dele — uma mistura de desodorante cítrico e o calor natural da pele após o esforço físico — parecia ter se tornado seu novo oxigênio.
— Você não existe, By — sussurrou ela, finalmente recuperando o fôlego, embora o sorriso em seu rosto entregasse que ela não tinha odiado a audácia dele.
— Eu existo, e estou bem aqui — ele respondeu, a voz baixinha, quase um segredo compartilhado entre os dois. — E, para constar, você é bem mais leve do que parece, ou talvez seja só a adrenalina.
Is deu um tapinha de leve no ombro musculoso dele, soltando-se devagar, mas sentindo falta do contato imediato no segundo em que se afastaram.
— Convencido. Vamos logo, antes que o instrutor venha dar bronca na gente por estar "brincando" nos aparelhos.
Eles caminharam em direção ao bebedouro, o ombro dele roçando no dela ocasionalmente. Is tentava manter a postura de "garota descolada", mas por dentro, sua mente voltava para o que ele dissera antes. Dois anos. Ele a observava há dois anos. Ela tentava puxar na memória qualquer rastro de um garoto alto e cacheado nos corredores da escola, mas na época, sua vida era um borrão de estudos e o relacionamento morno que mantinha. Saber que ela era o "primeiro amor e primeira decepção" dele mudava tudo. Mudava a forma como ela via cada provocação, cada olhar penetrante que ele lançava.
— No que você está pensando? — By perguntou, interrompendo o fluxo de pensamentos dela enquanto enchiam as garrafinhas de água.
— Pensando em como eu fui cega — admitiu ela, olhando-o de soslaio. — Dois anos, By? Como eu nunca te notei?
By deu um gole longo na água, o pomo de adão se movendo de forma hipnotizante. Ele limpou a boca com as costas da mão e deu de ombros, um gesto simples que transparecia uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.
— Eu era mais na minha. E você... bem, você brilhava demais. Sempre cercada de gente, sempre rindo. Eu era só o cara que ficava no fundo da sala de musculação esperando você terminar o agachamento para poder usar a barra, só para sentir o cheiro do seu perfume que ficava no ar.
Is sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era assustador; era uma devoção silenciosa que a tocava profundamente.
— Bom, agora você não precisa mais esperar eu sair — disse ela, aproximando-se um passo, desafiando o espaço pessoal dele novamente. — Pode treinar do meu lado. Se aguentar o peso, claro.
— Ah, lá vem ela de novo — By riu, recuperando o brilho brincalhão nos olhos. — Você é muito marrenta para alguém do seu tamanho, sabia?
— O tamanho não importa, o que importa é a densidade muscular — ela rebateu, piscando para ele antes de se virar e caminhar em direção à área de alongamento.
By a seguiu, como se houvesse um fio invisível puxando-o. Enquanto se sentavam nos colchonetes para finalizar o treino, a conversa voltou a ser leve, cheia das implicâncias que se tornaram a marca registrada deles.
— Então, a trend do casal... — começou ele, enquanto puxava a perna para alongar o quadríceps. — Vai postar?
— Não sei — Is mordeu o lábio inferior, um hábito que By observou com uma atenção quase faminta. — Ficou muito bom, mas o final... o final foi meio inesperado.
— Inesperado, mas o melhor take, com certeza — ele piscou. — Se você não postar, eu vou querer uma cópia para mim. Recordação histórica.
— Você é ridículo — ela riu, jogando uma toalhinha nele.
— Sou o ridículo que você quase deixou cair no chão ontem porque ficou tonta com o meu olhar — provocou ele, aproximando o rosto do dela enquanto ela tentava alcançar os pés no alongamento.
Is parou o movimento e o encarou. A luz da academia refletia nos cachos dele, e o olhar penetrante estava lá de novo, aquele que parecia atravessar todas as suas defesas.
— Eu não fiquei tonta. Foi a pressão que caiu — mentiu ela, descaradamente.
— Sei. A pressão caiu exatamente quando eu te segurei pela cintura e olhei para a sua boca? — By soltou uma risada abafada. — Você é uma péssima mentirosa, Is.
— E você é muito convencido — ela retrucou, mas não desviou o olhar.
A tensão voltou a subir, aquela gravidade que os puxava um para o outro sem que precisassem dizer nada. Is sentiu a mão de By tocar levemente o seu tornozelo, um gesto de carinho disfarçado de auxílio no alongamento.
— Sabe o que é engraçado? — ele disse, a voz ficando séria por um momento. — Eu passei tanto tempo imaginando como seria falar com você, que agora que está acontecendo, parece que a gente se conhece desde sempre.
— Eu sinto o mesmo — confessou ela, a voz suave. — É estranho, né? Ontem a gente mal se falava além de um "oi" e hoje você está me roubando selinhos em cima de uma barra de ferro.
— Eu não roubei. Foi um investimento — ele brincou, mas havia uma verdade brilhando em seus olhos castanhos. — Um investimento no futuro.
Eles terminaram o alongamento em um silêncio confortável, compartilhando sorrisos cúmplices que diziam mais do que qualquer frase feita. Ao se levantarem, By pegou a mochila dela antes que ela pudesse protestar.
— Eu levo — avisou ele.
— Eu tenho braços, sabia? Inclusive, sou mais forte que você, lembra? — provocou ela, caminhando ao lado dele em direção à saída.
— É, você é uma gigante, já entendi — ele ironizou, passando o braço pelos ombros dela enquanto desciam as escadas.
A diferença de altura era notável, mas o encaixe era perfeito. Is sentia-se protegida, uma sensação que não experimentava há muito tempo. Ao chegarem na calçada, o ar fresco da noite os recebeu. O movimento da rua era constante, mas para eles, era como se o mundo tivesse diminuído para aquele pedaço de calçada em frente à academia.
— Vai fazer o que agora? — By perguntou, relutante em se despedir.
— Comer, com certeza. Treinar com você gasta o dobro de energia, entre o peso e a paciência que eu tenho que ter — ela sorriu, ajeitando os cabelos mel que brilhavam sob os postes de luz.
— Engraçadinha. Quer que eu te acompanhe até em casa? O primo foi embora mais cedo e eu estou de carro.
Is pensou por um segundo. Ela adorava sua independência, mas a ideia de prolongar aquele momento era tentadora demais.
— Só se você prometer não colocar nenhuma música de "primeiro amor" no rádio para me deixar sem graça — ela aceitou, rindo.
— Promessa é dívida — ele disse, guiando-a até o carro estacionado por perto.
O caminho foi preenchido por uma playlist de hip hop que ambos gostavam, cantando partes das músicas e discutindo sobre quais seriam os próximos exercícios que fariam juntos. By dirigia com uma mão no volante e a outra descansando sobre o console central, perigosamente perto da mão de Is.
Quando ele estacionou em frente ao prédio dela, o clima mudou novamente. A brincadeira deu lugar a uma expectativa palpável. Is soltou o cinto de segurança, mas não abriu a porta imediatamente.
— Obrigada pela carona, By. E pelo... "investimento" de hoje — disse ela, olhando para ele com diversão.
By desligou o motor, o silêncio do carro sendo preenchido apenas pelo som da respiração deles. Ele se inclinou um pouco na direção dela, o olhar fixo em seus lábios carnudos.
— O investimento vai render juros, Is. Pode apostar — ele murmurou.
Desta vez, não foi um selinho rápido. Ele aproximou a mão do rosto dela, os dedos acariciando a bochecha macia antes de se enterrarem nos cachos mel da nuca de Is. Ele a puxou para um beijo de verdade, calmo e profundo, que selava todas as promessas silenciosas que haviam feito durante o treino. Is correspondeu imediatamente, as mãos encontrando o peito firme dele, sentindo o calor que emanava debaixo da camiseta de treino.
Quando se separaram, ambos estavam um pouco sem fôlego.
— É... — Is começou, tentando reorganizar os pensamentos. — Acho que a trend vai precisar de uma parte dois.
By soltou aquela risada gostosa que ela tanto gostava, encostando a testa na dela.
— Parte dois, três, quatro... eu tenho uma lista de ideias, pequena.
— Não duvido nada — ela sorriu, abrindo a porta do carro. — Até amanhã, By. No mesmo horário?
— No mesmo horário. E não se atrase, porque amanhã é dia de agachamento e eu vou querer ver se essa sua força toda é real mesmo.
— Você vai se surpreender — ela piscou, saindo do carro e acenando enquanto caminhava para a entrada do prédio.
By ficou ali parado, observando-a entrar, com um sorriso que não cabia no rosto. Ele olhou para as próprias mãos, ainda sentindo a textura da pele dela, e depois para o volante. Dois anos de espera tinham valido a pena cada segundo. Ele ligou o carro, o motor roncando baixo, e saiu dali sabendo que, a partir de agora, a academia não seria mais apenas um lugar de treino, mas o cenário onde a história que ele começou a escrever sozinho, dois anos atrás, finalmente ganharia seus melhores capítulos em dupla.
Enquanto isso, lá em cima, Is já estava com o celular na mão, revisando o vídeo da barra. Ela sorriu ao ver o momento do selinho e, sem pensar duas vezes, começou a editar. O título da trend? "Onde o passado encontra o presente". Ela sabia que aquilo ia causar um alvoroço, mas não se importava. Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava apenas seguindo uma rotina; ela estava vivendo algo que parecia tão sólido quanto as anilhas de ferro que eles levantavam, mas tão leve quanto o beijo que haviam acabado de trocar.
Amanhã seria um novo dia, um novo treino, e ela mal podia esperar para ver o que By inventaria para "revezar" com ela. Porque, no fundo, ela já sabia: não era mais sobre quem era mais forte, mas sobre como eles ficavam muito melhores quando uniam suas forças.